quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O que vão os desempregados decidir daqui a 2 anos?

Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
Segundo o relatório do INE

“A taxa de desemprego estimada para o 3º trimestre de 2009 foi de 9,8%. Este valor é superior ao observado no período homólogo de 2008 em 2,1 pontos percentuais (p.p.) e ao observado no trimestre anterior em 0,7 p.p.. A população desempregada foi estimada em 547,7 mil indivíduos, verificando-se um acréscimo de 26,3%, face ao trimestre homólogo, e de 7,9% em relação ao trimestre anterior.”

Infelizmente as previsões indicam-nos que o número de desempregados pode subir para valores entre 650 a 700 mil pessoas. O conhecimento que temos da economia diz-nos que com esta a crescer após uma recessão o desemprego ainda aumenta durante o início da retoma.

No entanto, e para Portugal, talvez ocorra um fenómeno de excepção, o que a ocorrer é muito preocupante. Se a economia não recuperar tanto quanto se espera a reboque da retoma mundial (o cenário mais provável), o número de desempregados tenderá a manter-se em níveis anormalmente elevados. E desta vez nem muita margem existe para nos socorrermos de medidas expansionistas, nomeadamente aumento do investimento público, devido a limites de endividamento e ao custo da dívida corrente.

Os Portugueses vão sentir que estão de facto entregues a si mesmo, o que, sendo dramático para muitos (vai sê-lo, de facto), pode despoletar e forçar uma mudança de mentalidade quanto à atitude face à procura de trabalho. Isto é válido para os casos de pessoas que se têm recusado a aceitar determinados trabalhos. Vai ocorrer um braço de ferro mental entre aceitar ou não um novo trabalho em detrimento do subsídio de desemprego. Até agora a balança foi sendo favorável à opção pelo subsídio de desemprego. Mas como os cenários futuros vão ser substancialmente mais cinzentos veremos se não pesará mais a vontade de agarrar um trabalho, ainda que este seja inferior às expectativas.

Mas poderemos ainda observar uma opção de fuga à mudança de mentalidade através uma nova vaga de emigração, ou seja, se é para aceitar o que me envergonha, ao menos que seja lá fora onde ninguém me vê e onde ao menos me pagam muito mais.
Veremos o que os desempregados vão decidir daqui a 2 anos.

Portugal, fotografia (3)

Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
Portugal, uma característica que ganhaste nos últimos 30 anos é que te consideras superior relativamente aos trabalhos disponíveis. Pura e simplesmente já não aceitas determinados trabalhos. Compraste a ideia de que num ápice, sem formação formal de registo, sem engenho digno de nota, sem estratégia, e sem perseverança era possível ter o nível de vida do Alemão ou do Holandês. As contas estão a sair de tal forma furadas, têm implicações tais, que até te custa abordar o assunto.

Portugal, o fenómeno teve o seu pontapé de saída lá por 1995 ou 1997. Em plena incontinência consumidora, com muito “combustível” bem baratinho (juros baixos como nunca se vira), com a economia a crescer via consumo e não via exportações, achaste-te um verdadeiro Lorde. Para animar o sentimento de riqueza aparente, ias acolhendo umas Florikas e Lydias do Leste europeu e umas Vânias e Marcelos do Brasil. Tudo para os serviços indiferenciados que serviam os teus propósitos consumistas (restauração, construção, serviços domésticos, etc.). Todos preenchiam trabalhos que ias considerando já não estarem ao nível do estatuto que deste por eternamente adquirido.

O espanto nessa vaga de imigrantes de Leste é que muitos desses imigrantes eram médicos, engenheiros, etc. Isto fazia-te uma confusão tremenda, pois para ti o 12º já devia dar direitos a um el doradozito. Ligeiramente perplexo e com um formigueirozinho incómodo (alguma coisa devia estar mal, não é verdade?), mas feliz e contente, ias fazendo fé na nova fórmula: crédito abundante e barato e muito pessoal disposto a servir-te a um preço bem catita, e também com pouca apetência para refilar e cheio de atitude.

Segundo dados do SEF (serviços de estrangeiros e fronteiras) em 2008 a população estrangeira residente era de 440.277 pessoas. Em 1998 era de 178.137 pessoas. A população empregada passou de 4.526.400 (dados IEFP) em 1998 para 5.076.200 (dados INE). Dos 550.000 postos de trabalho que a economia criou neste período, cerca de 40% foi ocupada por imigrantes (demos um desconto de que do incremento de 260.000, 40.000 vieram para se reformarem e não para trabalhar; no entanto, e para contrabalançar, também temos a questão dos ilegais). Portugal criou muitos postos de trabalho em 10 anos, só que os imigrantes acharam-nos bem mais interessantes do que os Portugueses.

A maior parte dos imigrantes trabalha. Inclusivamente no interior e nas regiões mais escondidas do nosso País onde há sempre queixas de que não há trabalho. Portugal, onde tu te ias entretanto queixando de que não havia trabalhos, esta gente, bem viva, mexida e industriosa, lá ia encontrando trabalho. Agora no séc. XXI, aos poucos, com a Globalização a apertar-te os calos e a mostrar-te de que matéria se faz a realidade, descobriste, à pala da coesão social, o RSI (rendimento social de inserção), e com isso deste continuidade à fórmula que te alimenta a ilusão de que se pode viver acima do esforço de que se está disposto a despender e das habilitações que estás disposto a adquirir.

Neste momento, aturdido por teres sido ultrapassado pelos acontecimentos, és invadido por múltiplos sentimentos de desânimo, tais como o teres falhado as avaliações do jogo que podias jogar, teres que redimensionar profundamente as expectativas, e teres que agarrar no futuro próximo os trabalhos que fingias não veres (os que no fundo não querias aceitar) e que os outros te provaram que existiam. Neste momento experimentas uma mudança porque a realidade a isso te obriga e porque já não há escapatória. É uma mudança que se vem prolongando no tempo, mudança silenciosa, individual e dura. Esconde alguma raiva pelas expectativas defraudadas, e porque decorre de um erro que sabes não ser bonito ter-se cometido, o julgar ser-se mais do que realmente se é. Paralelamente, e aos poucos, vais procedendo a novas análises, onde vais incluindo mais modéstia, mais realismo, e mais temor pelas consequências de eventuais erros. Melhorarás assim as avaliações e entrarás em sintonia com a realidade. Assim te podes salvar e evitar mais surpresas desagradáveis no futuro.

Como curiosidade (olha que isto pode ser uma bela oportunidade), neste momento o País já nem vale tanto para muitos imigrantes, nomeadamente os de Leste (os brasileiros são os próximos a ir embora pois o Brasil vai carburar muito e bem). Muitas Florikas voltam à base com um pequeno pé de meia e com a noção do dever cumprido. Levam o que ganharam com o esforço que tu não quiseste despender, e levam os seus filhos (sim, isto foi gente que não se contentou com médias de 1,3 de taxa de fecundidade). Mas deixam-te três coisas: a prova de que há trabalho (embora agora seja muito mais complicado, isso é inequívoco), o exemplo de como se deve encarar a vida, e a prova de que com dificuldades económicas é ainda possível procriar em conformidade. Portugal, sê humilde e aproveita a mensagem.

Portugal, esta fotografia deixou-te muito mal. Isto ficará inscrito na tua história. Isto não conseguirás nunca justificar condignamente, por mais retórica que possuas. Sobra a explicação que mais não é do que “consideraste-te mais do que aquilo que eras”. Portugal, assume bem o erro, aprende bem com ele, acelera e vai em frente.

P.S. Este tipo de análise não pode deixar de ser injusta para muitos Portugueses sérios, industriosos, trabalhadores, cumpridores, modestos e honrados, e que nunca se julgaram mais do que aquilo que são. Eles existem, e sempre existiram, mas recentemente não marcaram o standard nacional. A toda essa gente de boa cepa, um grande bem haja.

Escutemos a natureza

Sábado, 14 de Novembro de 2009


Esta pretensão nauseabunda do casamento entre homossexuais revela a irrealidade em que hoje em dia os políticos se movimentam. O tema só por si não vale um caracol pelo critério dos potenciais casos em questão. No entanto vai animando muitas forças políticas cá do burgo, mais preocupadas com o acessório do que com os reais problemas do país.

A natureza, que nestas matérias deveria servir de referencial (nomeadamente para aqueles mais afastados de referenciais religiosos), também não vai sendo auscultada. E a natureza, na sua sapiência natural, vai dizendo que nisto de uniões a fórmula é mesmo homem e mulher, ou seja, sexos distintos. E com o intuito todo ele de procriação e consequente perpetuação da espécie. Isto é assim desde há muito, muito tempo.

Com o andar do milénios, a espécie, já menos acossada pelos perigos naturais a que constantemente se via ameaçada (devia ser bem terrível e assustador lá para os primórdios), tomou-lhe o gosto de assentar, criando aldeias e com isso adquiriu uma convivência bem mais regular do que até aí vinha experimentando. Nestes novos cenários de convivência comunal, a espécie lá foi solidificando os laços de união entre os seus, nomeadamente os laços que uniam os seus constituintes naquilo que os faziam vingar na sua perpetuação.

Muito contentes com isso, os diferentes povos espalhados por esta Terra fora lá iam todos contentes, e à sua maneira, celebrando estas uniões. E, independentemente, do local da Terra ou das disposições religiosas de cada povo, todos tinham em comum dois aspectos: a união ser feita entre homem e mulher, e a procriação estar associada à união (pelo menos no que toca à vontade).

Agora cá pelo Ocidente, local onde mora a afluência e onde se anda meio sem rumo afogado pela mesma, surgem umas ideias pitorescas sobre as uniões entre humanos. Mergulhados numa sociedade aberta como nunca se vira, alguns humanos vão assumindo relações entre o mesmo sexo, relações que, não sendo novas, o vão sendo na forma como são assumidas.

A sociedade, meio chocada com este novo fenómeno, contra-natura de facto por não viabilizar por si a perpetuação da espécie, esse móbil natural de qualquer espécie, vê-se impingida com um tema que não é o seu, e que denigre e perverte a base de uma instituição por si criada: o casamento.

Ora se o casamento, instituição criada pelo ser humano, teve milenarmente sempre as características de ser formalizado entre homem e mulher e de procurar a procriação entre ambos, porque há-se ser violada nos seus fundamentos? Esta é a questão que os homens gentis e de visão simples, que é como quem diz, os puros e despidos de preconceitos, colocam entre si.

As respostas e argumentos dos defensores deste absurdo revelam toda a fraqueza intelectual por detrás deste movimento. Quando o argumento é seguir a via da modernidade (o “chique a valer” no séc.XIX, no entender de Dâmaso Salcede), dos mesmos direitos para todos, etc., vê-se bem a quem andamos entregues.
Por favor, escutemos ao menos a natureza

Fazer contas, tomar opções e confiança

Sábado, 14 de Novembro de 2009


Esta crise que nos assola obriga-nos, em termos familiares, a comportamentos mais racionais do que aqueles a que nos tínhamos recentemente habituado. Refiro-me a “fazer contas” e “tomar opções”. Nestes últimos anos, uma grande parte da população tinha tomado estes conceitos como pertencentes a um Portugal retrógrado e inferior, e completamente dessincronizados com as atitudes mais vanguardistas e modernas.

Agora acossados pela incerteza, a abarrotar de dívidas, mais conscientes da real riqueza possuída, tementes pela falta de trabalho, os portugueses e outras populações ocidentais, sentindo que devem adoptar comportamentos consentâneos com a realidade, resolveram voltar a fazer muitas contas e consequentemente tomar opções. De braço dado com os tempos que vão correndo, mais repousados pela simbiose alcançada com o meio envolvente, as pessoas vão de novo poder planear que tipo de vida podem acorrer e com isso vão ganhar novos níveis de confiança. É a confiança que deriva do sentimento que os terrenos por onde se movem estarem de acordo com as possibilidades, e que estas são o fruto da análise individual face à nova realidade.

Este processo, a que se pode chamar “ajustamento”, demora por vezes tempo, nomeadamente em complexos ambientes de desalavancagem financeira. Mas é fatal ocorrer. Esta nova confiança que se gera é genuína e decorre do trabalho individual de cada um (não se decreta). Por isso é sólida e duradoura quando surge. Demora anos a ser alcançada. Estamos ainda na fase de “ajustamento”, individualmente ainda não sentimos a “Confiança”, mas isso é normal pois o nível de simbiose alcançado entre os nossos comportamentos individuais e a realidade não é ainda total. O comportamento muda ao aproximar-se da realidade, mas esta é ainda volúvel, pelo que no decorrer desta dinâmica ainda vão surjindo hiatos. Mas o equilíbrio alcançar-se-á, a bem ou a mal. Estamos ainda nesta fase, a da busca da realidade e da procura de que nível de ajustamento individual há que ser feito. É a fase das contas e das opções. Depois, daqui a anos, talvez 2 ou 4, virá a confiança*.

Quando a confiança surgir não será de forma fulgurante, antes será tímida, embora duradoura. E para a história ficará a lição de que deveremos fazer sempre contas, muitas contas, e também tomar opções, pois isso é o normal na natureza económica em que nos movemos. Ou não fossem os recursos escassos por definição.
* Portugal, por ter outra crise, estrutural, muito sua, o processo será mais lento

Saibamos conviver neste novo cenário

Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009


Esta enorme crise começa a evidenciar o que muitos economistas e outros observadores já há muito vinham enunciando: a aproximação dos países emergentes relativamente aos países mais desenvolvidos. Agora que a economia se restabelece e começa lentamente (e vai ser muito lento) a sair da crise é já visível que são os países asiáticos e o Brasil os que mais rapidamente vão crescer no futuro próximo.
Esses países têm muito em comum: andam historicamente a produzir mais do que consomem. Os países mais desenvolvidos, bem habituados nos últimos 30 anos a consumir mais do que produzem, ainda aspiram alcançar o quadro antes da crise: viver à conta dos países emergentes graças aos mecanismos de alavancagem financeira que os países desenvolvidos inventaram. Ora isso não irá acontecer pois a economia tem esse mau hábito de se equilibrar e de o mundo não estar muito inclinado em ter mais experiências de alavancagens financeiras.

Assim, e a prazo, veremos inexoravelmente os países emergentes ganharem um protagonismo muito acima do que o vulgar cidadão pode esperar. Esse protagonismo advém dos contínuos excedentes comerciais*. E isso vai chocar o cidadão comum do Ocidente, para quem, o mundo até à crise estava muito bem montado: Nós, ocidentais, pedíamos dinheiro emprestado aos emergentes para lhes comprar o que eles produziam. A nós competia-nos dizer o que queríamos, com que design, e organizar e montar toda a engrenagem das transferências financeiras, tudo assuntos bem mais interessantes, palacianos, limpos e estéticos do que o shop-floor de uma linha de montagem.

Qualquer crise, com todo o rasto de insegurança, medo, desemprego, etc, que traz consigo, tem o mérito de corrigir muitos dos excessos que conduziram à própria crise. E o cenário pós-crise é sempre novo e diferente.

Com humildade saibamos conviver neste novo cenário.

* Não esquecer o sentimento veiculado pelo presidente Lula sobre os senhores do FMI que aterravam em Brasília e ditavam unilateralmente as regras nos anos 70. Nesta altura o Brasil só apresentava déficits. No primeiro G20 em que participou o presidente Lula vincou que se apresentava lá com cara de excedente, e que olharia para os ocidentais como devedores

Portugal, fotografia (2)

Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009


Portugal, tu não discriminas positivamente o mais produtivo do menos produtivo. Tens um especial horror em ver alguém fugir do pelotão. Vês logo alguém que se destaca como um alvo a abater, não como exemplo a seguir. Fazes literalmente o que se chama ”nivelamento por baixo”. Portugal, isto é ter constantemente o pé no travão.

Portugal, o mais produtivo tem que ter oportunidade de ser recompensado na proporção da sua produtividade. Só assim há verdadeiro estímulo na melhoria constante da nossa perfomance. O sinal a ser passado ao próximo é que pode lá chegar se tiver boa perfomance. E se existe preocupação sobre os estados de alma do menos produtivo ao ver o mais produtivo fugir-lhe no caso de discriminação positiva, então pensa também no estado de alma do mais produtivo ao ver-se eternamente colado ao menos produtivo.

Portugal, até ao nível fiscal és assim. Com facilidade castigas de imediato aquele que estudou e que, por norma, ganha mais. Quem ganhe a partir de 5.000 eur/mês é já considerado rico ao passar a ser taxado a 40%. Mas pior que isso, já taxas a 34% quem aufira mais do que 1.485eur/mês.

Portugal, as pessoas precisam de estímulo para se transcender, precisam de limites largos. Querem que lhes tirem os empecilhos da frente, querem que os aplaudam pelos sucessos e que lhes dediquem prémios. As pessoas devem ganhar mais dinheiro como resultado do seu rendimento no trabalho, e não por bondade, direito adquirido, simpatia ou favor.

Portugal, usa e abusa da discriminação positiva sobre o mais produtivo. Faz com que os piores queiram copiar os melhores, e não que estes se nivelem por aqueles. Geras mais riqueza e dás um pontapé nessa chaga nacional que se chama Inveja.

Portugal, fotografia (1)

Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Portugal, o teu drama é a tua falta de produtividade. Que coisa essa Portugal o teres pouca afeição para o mundo do trabalho. Tu até és trabalhador, só que combinas mal o esforço em modelos organizacionais. Parece que o conceito de organização te assusta, que o resultado combinado dos recursos te perde, que a máquina te desorienta, que a hierarquia te transtorna, que a missão da organização choca com os teus objectivos pessoais, que o associativismo não te serve. Cada um quer ter a sua quinta, a sua zona de conforto.

Portugal, tudo isso te faz perder em esforços inglórios e em guerras vãs. Uma autêntica balbúrdia paroquial, jogos que para ti são tudo mas que nada valem, pelo contrário, subtraem.

Portugal, de um modo pragmático e redutor, o mundo do trabalho é uma coisa que existe fora das nossas casas e significa que é onde vamos buscar o máximo possível que satisfaça as necessidades da nossa casa. Como tal temos que nos nortear por critérios objectivos de performance, lembrando-nos sempre que o próximo é uma fonte de oportunidade fantástica e não um inimigo terrível. Assim, as relações a manter deverão ser o que na Teoria dos Jogos se lembraram de chamar “relações de soma positiva”. As relações de “soma nula” e “soma negativa” só nos prejudicam pois fazem-nos levar menos recursos para a nossa casa.

Portugal, quando entenderes, interiorizares, e aplicares bem esta lógica ganhas mais dinheiro. Até lá queixar-te-ás, o que pode consolar mas não resolve.

P.S. Terrível pensar que há pessoas que têm valor económico negativo, ou seja, que a sua simples extracção da organização onde se inserem fará, só por si, que a mesma organização funcione melhor.

Português, acorda

Sábado, 7 de Novembro de 2009


Português, porque deixas o teu destino ao sabor dos acontecimentos? Porque não acreditas que podes influir no que a ti directamente diz respeito? Porque te preocupas em demasia com o que os outros pensam de ti? Porque não ages mais? Porque és demasiadamente defensivo? Quem é o “eles” de quem resmungas? Porque é que estás sempre a dizer “se eu soubesse…”? Porque és provinciano perante o estrangeiro? Porque acreditas pouco em ti? Com que direito te arrogas em indefinidamente consumir mais do que produzes? Porque não distingues o investimento do consumo? Porque não discriminas positivamente o mais produtivo do menos produtivo? Porque bajulas e odeias o rico e poderoso em simultâneo? Porque és benevolente com o irresponsável e desafiante com o responsável? Porque não chamas os insensatos à razão? E acima de tudo, porque é que nunca arranjas pessoas normais para te governarem?

Ó Português, o mundo não está para brincadeiras, já há pouco por onde andar pendurado. Esta história de chineses e indianos estarem sentados à mesa não é nada compatível com a tua maneira de ser. Demais parece que vêm aí brasileiros e outros, e quiçá até alguns povos africanos. É um fenómeno. Sim, chamam-lhe Globalização, e imagina tu que há até quem diga que foste tu que a começaste há 500 e tal anos.

Ó Português, repara que o sol, a gastronomia, o futebol, o automóvel e o telemóvel te andam a tolher os limites e a consolar a alma. Cuidado agora, olha que nem para estas coisas te vai dando o orçamento. Eu sei o que tu pensas. Tu pensas que já ouves isto há muito tempo e as coisas andam na mesma. Mas digo-te, desta vez é diferente. Vais senti-lo mais de perto aos poucos. Se nada fizeres entra-te a realidade pela casa dentro daqui a uns 15 anos. Falta muito? Talvez, mas à cautela vai tratando de fazer qualquer coisa, e já.

Por isso Português, ou mudas de estilo ou rebentas. Queres um conselho? Pelo sim pelo não toma o destino nas tuas mãos, que nos dias de hoje é como quem diz, vai ter com a Globalização antes que ela venha ter contigo.

Portugal, acorda (6)

Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009


Portugal, porque não acertas nos teus governantes? Tiveste um que não servia durante décadas, num regime que também não servia. Pessoa inteligente, mas que, obviamente, nunca seria contratado para governar um país do 1º mundo. Felizmente livraste-te da ditadura. Mas mal provaste a democracia começaste logo por empossar uns pitorescos e até perigosos. Atinaste na arrumação da casa até 1985, mas daí para a frente nunca mais arranjaste um grupo de pessoas que te desse um rumo.

Portugal, escolheste sempre pessoas que emitiram sinais contrários aos que precisavas. De 1985 até 1994 colocaste a confiança à frente de tudo, privatizaste o que antes nacionalizaste, recebeste muitos fundos da CEE, e com tudo isso consolidaste a vivência à sombra do estado. De 1995 a 2002, com mais privatizações e mais fundos, e também agora com juros baixos, dedicaste-te ao diletantismo e dialogaste sobre nada. Por isso te embebedaste e te empaturraste. Com o bandulho ainda farto, de 2002 a 2005 não enfrentaste a realidade dos excessos anteriormente cometidos. E para distracção ainda te meteste em brincadeiras políticas de mau gosto. A partir de 2005 assumiste o martírio e escolheste a via da desistência ao empossar pessoas sem a mínima qualificação para a governação. Agora no rescaldo que já vais fazendo percebes que a Globalização é afinal um jogo muito duro. Mas ainda assim em 2009 mantiveste a postura.

Portugal, isto é sério. Portugal, arranja pessoas de outro calibre, feitas de outra matéria, mais altruístas, mais visionárias, mais sinceras, mais simples, menos influenciáveis pelos lobbies, que tenham uma estratégia clara, que se baseiem em premissas reais, que te apresentem o jogo de frente de modo a saberes o que te compete fazer, que não te iludam com promessas vãs, e que amem Portugal.

Falei-te de sinais? Sim, vai por aqueles que te falem mais em deveres que em direitos, que acreditem no indivíduo e não em salvações colectivas, que amem a vida e o próximo e não a denigram na sua essência, que acreditem que só tomando o destino nas nossas mãos, e não no outro, nos ultrapassamos. Vai pelos que protegem as vítimas em vez dos criminosos. Vai pelos simples e não pelos complicados, pelos que acreditam na economia de mercado e não em engenharias sociais e económicas milagrosas, por quem valoriza o empreendedor em detrimento do calão, o mais produtivo em lugar do menos produtivo. Vai por quem empreende barato e não fica embasbacado por obras faraónicas, por quem não se impressiona com os poderosos e influentes, e que vê na adversidade uma oportunidade para a conquista e não para a lamúria.

Estes Portugueses existem e querem, no íntimo, governar-te. Portugal, faz-te esse favor, vota melhor.

Portugal, acorda (5)

Domingo, 1 de Novembro de 2009


Portugal, o que é essa história do NAL? Explica com um argumento tremendo porque queres um novo aeroporto para Lisboa. A Portela vai esgotar a capacidade? Pois eu digo-te que não, mesmo sem ser um especialista, coisa que, aliás, tu também já deste prova de não ser.

1. A Portela entra em dificuldades de tráfego em Agosto? Sim, parece que sim. Mas para isso há bom remédio. Caso necessário desvie-se algum tráfego nos picos de movimento para outros locais, como por exemplo, Montijo e talvez Tires.

2. Portugal, em 2008 o tráfego da Portela foi de 13,6 milhões e a queda em 2009 até ao momento é de cerca de 5% relativamente a 2008. Portugal, explica porque é que a capacidade da Portela é de cerca de 18 a 22 milhões de passageiros / ano. Explica também como se pode jogar com a solução Portela + 1 face à sazonalidade do tráfego.

3. Portugal, recordo de novo que a população residente vai diminuir e vai ter menos dinheiro disponível para viajar. Quando se constroem aeroportos é coisa para décadas. Os 7,5 milhões de residentes previstos em Portugal para 2050 são por isso um poderosíssimo argumento. Argumento tanto mais relevante porque, segundo dados da ANA, 52% dos passageiros da Portela são portugueses (dados de 2005). Curioso também, e ainda segundo a ANA, é o facto de 68% dos passageiros terem entre 20 e 39 anos, o que sugere que lá para 2025 se comece a perder naturalmente muitos passageiros.

4. Dado ser certo não ser necessário um novo aeroporto nos próximo 20 anos, porquê dar um tiro no pé no turismo de Lisboa? Será que o turismo fez algum mal ao País? Ou não será talvez a nossa bóia para os próximos 40 anos.

5. Portugal, o sonho da TAP em ter um grande aeroporto que lhe sirva de hub para a América do Sul é isso mesmo, um sonho. Quem se deve predispor a fazer esse investimento é a TAP (coisa que seria, aliás, absurda), não o contribuinte. Como já alguém disse, a TAP tem sido historicamente um brinquedo muito caro para País.

Portugal, este assunto deve ser analisado da seguinte forma. Por ser possível lidar com a questão dos picos de movimento na Portela, por estarmos longe do seu esgotamento, por haver uma crise que está para durar e que impede aumentos de tráfego no curto e médio prazo, e por termos no futuro cada vez menos habitantes e com menos rendimento disponível para viagens, digo-te Portugal que esta questão não é para ser discutida agora. Pode bem ser adiada. Aliás, deve sê-lo. Por dois motivos: a) Há outros temas bem mais importantes para serem tratados no momento, e b) Que o escasso crédito (vai-o ser doravante, é só andar atento e ler quem percebe do assunto) corra em direcção às empresas e ao preço mais baixo possível. Se o mesmo é direccionado para TGVs e NALs o pouco crédito que sobra sairá caro às empresas pois teremos um cenário de sete cães a um osso, literalmente.

Portugal, e se ainda tens dúvidas, vê bem quem defende o NAL e quem é contra. Quando a favor do NAL vês o sector da construção civil (quem constrói), da banca (quem financia a risco 0 pois o estado tratará de avalizar), e da consultoria (quem ganha com os estudos e coloca o selo da distinção), e contra o NAL vês a maioria da sociedade civil, então Portugal, tens a análise e tomada de decisão facilitada.

Mais uma vez Portugal. Sê simples e sintético. Isto não é tão complexo quanto andas a pensar.

Portugal, acorda (4)

Domingo, 1 de Novembro de 2009


Portugal, mas que delírio é esse do TGV? Apresentaste tu um argumento arrebatador que nos faça entender o porquê desta veleidade? Portugal, ouve bem, este tema é mais simples de analisar do que a mensagem que nos tens tentado passar. Pensa no seguinte:

1. Não temos actualmente população suficiente para viabilizar economicamente este investimento (mesmo descontando os fundos europeus). De acordo com estudos do INE, a população portuguesa será à volta de 7.500.0000 de habitantes em 2050 (actualmente somos 10.650.000) a manterem-se as actuais taxas de fecundidade. Os parcos orçamentos da população em 2040 e 2050 vão servir para sobreviver e para pagar, quando possível, a assistência de terceiros (lembro que seremos uma população muito mais envelhecida). Não sobrará nada para andar de TGV. A mensagem do TGV “é bom para a economia” é argumento para CEO de grande empresa de construção civil.

2. A rota Lisboa – Porto demora 2h45m. Com investimentos marginais aos já efectuados (e foram muitos) pode ir até 2h ou 1h45m. Os peritos dizem que de TGV a distância deve-se percorrer em 1h15m ou 1h30m. Ora, não é por 45m ou 30m que se justifica uma nova linha dedicada. Isto sem contar que acabaríamos com um TGV a parar em todas as estações, o que daria somente um ganho de 30m ou 15m.

3. A rota Lisboa – Madrid será um suicídio económico. Pura e simplesmente não há tráfego (outra vez, não esquecer que seremos menos), e o que há pode ser bem servido de avião a um preço mais acessível.

4. Europeu que se preze não vai à extremidade da Europa de TGV. Vai, obviamente, de avião. Os nórdicos assim pensam a avaliar por decisões recentes. A lógica de ligação à rede europeia é um mito.

5. Portugal, mas se queres à força um TGV (embora te aconselhe já a familiarizar com a sigla LVE – linha de velocidade elevada), então pensa na seguinte opção e avalia bem o seu fundamento. Liga o Porto a Vigo. Tens a teu cargo 90 km até à fronteira (potencialmente caros porque aquilo não é nada plano), e com isso ligas a zona mais populosa do país, o eixo Grande Porto / Guimarães / Braga, à Galiza. E se inteligentemente brindares o aeroporto Sá Carneiro com uma paragem, então é o pleno. Fazes uma estação no Porto, outra no aeroporto, outra em Guimarães ou Braga, e depois é lá com os espanhóis. O que ganhas estrategicamente? Ganhas que o Porto passa a ser o principal pólo de atracção do Noroeste da Península, e consequentemente ficas com um País mais equilibrado e menos dependente de Lisboa. Ganhas uns milhões de passageiros / ano para o aeroporto Sá Carneiro, e potencias o Porto de Leixões. Portugal, percebes o que é um argumento?

Portugal, acorda (3)

Sábado, 31 de Outubro de 2009

Portugal, sabes-me dizer onde é que anda a tua Justiça? Não? Pois eu também não. Ninguém sabe por onde ela anda, a quantas anda, quando virá, e em que direcção. Mas pelo menos já tem um status. Chama-se “desnorte”.
Portugal, toma bem consciência deste tema. A Justiça, emanada dos valores e da moral, é um bem exclusivo dos racionais. A qualidade da mesma eleva um povo. Igualiza os seus constituintes naquilo que a origem, a sorte, as circunstâncias, e o rumo tratou de diferenciar. Mas se ela não existe, um povo pode ver-se desqualificado na sua racionalidade.

Portugal, o sentimento actual, em sintonia com a realidade, é de que a Justiça não funciona. Talvez seja mesmo o maior problema de momento. Chegámos a um ponto em que se torna bastante visível que a sua fraca qualidade tem influências nefastas, e de grande impacto, na actividade económica. Portugal, se o móbil do altruísmo em possuir uma grande Justiça não te sensibiliza, então usa a frieza e todo o racionalismo económico, e percebe que este é o maior empecilho da nossa coxa e exígua actividade económica.

Portugal, acorda (2)

Portugal, e acerca de segurança? Como te sentes? Mal, claro, embora a tua percepção fique ainda aquém da realidade. É que ainda vais gozando mentalmente a segurança que herdaste. Só que a realidade é já outra. Os gatunos perderam totalmente o pudor de praticar patifarias. O campo onde actuam, povoado de inocentes e ingénuos (onde me incluo), é um docinho para os malfeitores. A segurança é um bem belíssimo. A falta de segurança reduz os níveis de felicidade. É transversal à sociedade, afecta todos por igual. A harmonia entre os cidadão é um bem inestimável. Temos que lutar por ela.


Portugal, cuidado. Olha que andam aí umas almas que dizem que a pobreza é a fonte de criminalidade. Não te deixes cair nessa. Isso é argumento ao serviço de outras agendas. Já vivemos com níveis de pobreza bem superiores e quase sem problemas de criminalidade. E a que existia devia-se mais a questões de disputas sobre terras e sobre problemas mal resolvidos entre vizinhos. Não se tratava de bandos armados e fortemente municiados (qual "IN").

Portugal, não embarques em cantigas que se limitam à compreensão sobre os motivos que levam os criminosos a praticar as suas ilegalidades. Se ocorrer um crime preocupa-te em trazer o criminosos à justiça e em reparar tanto quanto possível a vítima. Portugal, justificação e explicação são coisas distintas. Os dois conceitos são necessários. Que o segundo não anule o primeiro.

Portugal, investe bem em segurança. Sim, mais e melhores polícias. Sim, mais e melhores meios. Mas não te fiques por aqui. Isto combate-se também com inteligência e nunca com conversa mole.

Portugal, este assunto não é de direita. Este assunto é de todos. Vá lá, liberta-te de estigmas e problemas de consciência com o "coitadinho" do criminoso vítima da sociedade. Preocupa-te antes com a vítima e com o rasto de insegurança decorrente. Sê sensato, e vede que uma sociedade com elevados níveis de insegurança, impunidade, irresponsabilidade, e desconfiança não traz a necessária paz e confiança aos seus. E se estes argumentos não chegam, então experimenta este, mais materialista e muito ao jeito da cartilha da moda: elevado nível de insegurança é uma grande desvantagem competitiva.

Andamos a plantar muitas minas. Esta é mais uma. Portugal, acorda.

P.S. ontem ocorreu um duplo homicídio no fim da minha rua

Portugal, acorda (1)

Portugal, olha bem para as famílias de hoje. Vede como elas não se entusiasmam em ter muitos filhos. Ficam-se por um ou dois, não mais (taxa de fecundidade de 1,3). Portugal poderás perder até 3.000.000 de pessoas no ano de 2050 para os cenários mais pessimistas (pelas taxas de fecundidade de hoje, este já é o cenário mais provável). Como lidarás com isso psicologicamente? E economicamente? Portugal, lembra-te que se quiseres inverter esse cenário isso terá que ser feito agora?

Portugal, faz tudo o que te for possível para que a taxa de fecundidade suba. Apoia a família. E não é só com benefícios em sede de IRS (mas também). Olha bem o que a apoquenta e o que está na base neste pequeno 1,3. Trata bem das mulheres no pós parto. Arranja formas de as reintegrar bem no mercado de trabalho. É difícil. Sabemos isso. Porque há muito empregador malvado, há muito chefe obtuso. Vai copiando com alegria, tanto quanto se pode copiar, os países que voltaram a ter taxas crescentes de fecundidade. Já há histórico, e recente. Joga com isso. Atira-te mesmo com fulgor.

Olha Portugal, e já agora, pensaste tu bem na evolução da tua produtividade? Já pensaste no que fazer para manter daqui a uns anos o mesmo nível de produção por habitante? É que terás proporcionalmente muito menos pessoas a produzir? Ui, como isso pode doer. E quem vai tratar de todos esses idosos? Queres uma significativa parte da população activa a trabalhar no cuidado dos idosos? O quê, aqueles que tu andas a ensinar a gastar mais do que produzem? E a que preço? Sabes o que acontece aos preços quando há muito mais procura do que oferta? Qual a percentagem da reforma a afectar ao cuidado prestado por terceiros? O quê, não chega sequer! Ai, ai. Ai, que nem muitos filhos há para cuidarem de mim. E logo o que há vive tão longe.

Cuidado Portugal. Podes ainda deparar-te com outras surpresas. E bem bizarrras e exóticas aos olhos de 2009. Talvez os velhos de 2040 comecem a ir reformar-se para locais recônditos do Brasil ou de Moçambique, e até Uruguai (sim, o português é por lá obrigatório a partir do sexto ano). É lírico, não é? Mas eu aos 44 anos já penso nisso. Nessas terras a pequenina reforma vai dar e sobrar e não vai faltar quem me queira cuidar (é que nascem tantos). Portugal, depois não te queixes se perderes mais 1.000.000 de pessoas em cima dos 3.000.000.

Portugal, por favor, pensa bem. Eu sei que andas numa de “fracturas”. Por isso me lembrei de ti e de te vir com esta. Já viste, é uma “fractura” das grandes. Maior não encontras. Penso até que para a enfrentares com sucesso deverás parquear as outras. Vacilas na opção da “fractura” que queres escolher? Estás na dúvida? Portugal amigo, Portugal do coração, Portugal da razão. Vai por esta. Nem assim? Olha Portugal, escolhe mesmo esta porque é a que te vai ao bolso daqui a uns tempos. Boa Portugal, obrigado pela decisão. Eu sabia que, independentemente do argumento, optarias bem.

Um grande bem haja para ti Portugal

sábado, 26 de dezembro de 2009

www.oinimputavel.blogspot.com

Os meus artigos encontram-se em www.oinimputavel.blogspot.com

domingo, 25 de outubro de 2009

Do mexerico ao longo prazo

Mexericos de peixe graúdo vão marcando o ritmo na nossa economia. Com um mercado de dimensão reduzida e com as grandes empresas maioritariamente voltadas para o mercado interno ou focalizadas na importação, alguns dos nossos destacado actores vêem-se recentemente coagidos na direcção de movimentos de que resultam quase sempre mexericos de bairro.

A parolice (a que neste texto se evidencia assola as gentes do Sul) começou com a OPA da Sonae sobre a PT. Essa ímpia investida com origem no Norte do país colocou em sobressalto o status quo que mora no Sul. Este Sul, fornecido de poder político bem alinhado com a banca e investidores furtivos tratou de derrotar a OPA. Independentemente da justiça ou não do desfecho, ficou evidenciado que este Sul político e económico gosta mais de jogos de poder do que de projectos.

Os joguinhos de poder são, por norma, o resultado da exiguidade do ringue onde decorre a acção. Após a OPA sobre a PT os jogos continuam a decorrer. Agora com a participação mais activa de um dos intervenientes sulistas que comanda uma empresa de nome estrangeirado e que sugere movimento. Consta que a Ongoing tem participação na empresa mãe de um banco que tem grande participação na PT e junto do qual contraiu dívida relevante para marchar também com a PT. Cumulativamente, o fundo de pensões desta empresa lembrou-se de investir uma importante soma nessa empresa em movimento. A Ongoing diz que o seu investimento na PT é estratégico.

Independentemente dos méritos da estratégia da Ongoing, o muito entrelaçado modelo de financiamento dos seus negócios abre espaço a todo o tipo de especulações sobre movimentos de bastidores pouco transparentes. Transparente seria que fosse o dinheiro da liquidação da participação detida na ESFH a andar para a frente nas suas veleidades no sector da comunicação. Da forma como vem sendo feita, soa a que a Ongoing seja um veículo privilegiado do BES, ganhando este um reforço na sua posição na PT e ganhando juros do empréstimo à Ongoing. Esta ganha destaque e visibilidade ao jogar num tabuleiro grande sem lá colocar muito dinheiro.

O país precisa mais de projectos claros, onde o sucesso no jogo dependa mais dos produtos / serviços oferecidos e menos do sucesso dos movimentos de bastidores. Esse não vem sendo o entendimento em alguns dos nossos jogadores. A zona de conforto de muito lusitano (e desengane-se quem pensa que os dirigentes estão "para além disso" e noutro patamar) é a constante busca de influências para alcançar a melhor posição no tabuleiro onde se quer jogar. Mergulhados neste modelo dúbio, pouco transparente, confuso e dependente de muita interacção entre muitos actores, temos um caldo que não nos serve e que passa um modelo pouco adequado às gerações futuras.

O combate ao modelo dos jogos de poder tem que ser feito para que não se passem sinais aos Portugueses de que é no mexerico que está o ganho. No caso, a forma de o fazer passaria por influenciar os investidores em se direccionarem para projectos que envolvam exportações ou substituição de importações de bens e serviços. No tabuleiro mundial joga-se mais o jogo através do mérito daquilo que se tem para oferecer do que das vantagens que se podem granjear em jogar o jogo dos "meandros". Assim, e de uma forma natural, afastar-se-iam os investidores dos mexericos locais, colocando-se assim pessoas capazes a trabalhar de forma mais produtiva e com objectivos que vão de encontro ao interesse do país (que neste momento é, e para quem não se tenha apercebido, passar a exportar mais do que aquilo que importa de modo a não se viver acima das possibilidades e também a pagar o que deve).

Proponho que se passe de um modelo de mexerico e meio parolo para um jogo grande e de longo prazo, e onde a orientação exportadora marque o ritmo. A Holanda fá-lo com sucesso com 16 milhões de pessoas, cerca de 45% da nossa area territorial, e a sair do trabalho às 16h30m.

sábado, 24 de outubro de 2009

Perspectivas para o trabalhador do conhecimento em Portugal

Singularmente os Portugueses com maior formação formal vêm-se envoltos num cenário pouco atraente. Desde os meados dos anos 80 uma boa percentagem de Portugueses tem vindo a adquirir muita formação (leia-se cursos superiores / mestrados / doutoramentos). Existem expectativas legítimas que adquirir formação de nível superior (chamemos a estas pessoas “trabalhadores do conhecimento”) resulta em maior rendimento. Produtividade mais alta e execução de tarefas diferenciadas e de maior responsabilidade suportam estas expectativas. Mas a prática diz que em Portugal as expectativas estão a sair furadas.

Porque é que os trabalhadores do conhecimento ganham mal em Portugal?

1. Culturalmente a classe dirigente não percebe bem o que é um trabalhador do conhecimento. A sua base de relação ainda é muito de patrão / empregado, e o conceito de “partenariado”, que o dirigente conhece, está muito circunscrito ao que ele considera “os seus pares”. O resto é isso mesmo, ou seja, o “resto”. E lá cabe tudo, tenha lá a formação que tiver.

2. A produtividade dos trabalhadores do conhecimento é tendencialmente de difícil mensuração. E a aposta em organizções baseadas no conhecimento é ainda uma questão de atitude e onde os aspectos culturais pesam muito.

3. Os benefícios do trabalho do trabalhador do conhecimento são de médio longo prazo enquanto a retribuição é de curto prazo. E em Portugal ainda se avalia muito o retorno imediato.

4. A nossa cultura considera que o facto de se ganhar um pouco acima da média deve-se trabalhar mais horas. “Dar horas” de trabalho é dever do trabalhador do conhecimento. Trabalhador do conhecimento que trabalhe 8 horas por dia é mal visto, mesmo que tenha uma produtividade que seja o dobro da média corrente (dos seus pares). É então considerado um “calão”.

5. As falhas dos dirigentes e sua falta de produtividade têm que ser colmatadas de quem dele depende. Como já vão existindo uma panóplia de trabalhadores do conhecimento nas empresas, são estes que têm que se chegar à frente, pois são estes que estão em condições de substituir o trabalho do dirigente. As falhas deste são colmatadas pelo esforço daquele. A desresponsabilização do dirigente e o maior brio do trabalhador do conhecimento fazem o resto.

6. O trabalhador do conhecimento não tem espírito sindical. Nem tem que ter. Mas isso anda a prejudicá-lo.

7. Não há um número suficientemente grande de grandes organizações em Portugal para criar um mercado de dimensão mínima para disputar o número crescente de trabalhadores do conhecimento. O ritmo de produção de trabalhadores do conhecimento tem sido mais rápido do que o crescimento em quantidade e dimensão das empresas necessárias para os absorver. Visto à posteriori pode-se especular que as nacionalizações de 1975 deram um murro desfazado no tempo aos trabalhadores do conhecimento que começaram a aparecer após a década de 90. Os trabalhadores de conhecimento precisam de grandes empresas para potenciarem a sua mais-valia.

8. Derivado dos pontos anteriores temos que os rendimentos do trabalhador do conhecimento estão em Portugal muito esmagados. A experiência das últimas fugas de cérebros e algum empirismo dizem que, para um mesmo nível de produtividade, os rendimentos em Portugal são bastante inferiores aos obtidos nos países saxónicos (cerca de 1/3).

O cenário de um trabalhador do conhecimento não é famoso:

1. Para um nível de produtividade semelhante obtém um rendimento 1/3 inferior
2. Tem de trabalhar mais do que 8 horas
3. Não é reconhecido
4. Os empregadores passam a mensagem de que é uma sorte e um acto de caridade empregarem-no.
5. A generosidade intríseca e o brio do trabalhador do conhecimento é explorado (no mau sentido) pelo dirigente português, unindo-se assim o pior da nossa classe dirigente (o abuso cultural derivado da sua posição) e o melhor da classe emergente de trabalhadores do conhecimento (o brio e o desejo de mostrar trabalho de valor acrescentado).
6. Decorrente dos pontos anteriores o tempo dedicado à família é inferior. Segmento da população onde seria desejável que a taxa de natalidade fosse superior, e onde a qualidade de vida fosse genericamente superior como prémio pelo conhecimento adquirido, o resultado é contrário ao expectável. Por estar num patamar acima da média ao nível de custos fixos, e com pouco tempo para dedicar à família, o trabalhador do conhecimento tem pouca margem de manobra para apostar numa vida familiar minimamente estável. Assim, as expectativas de nível de vida são desporpocionadas face aos níveis intelectuais possuídos.

Que saídas possíveis para o trabalhador do conhecimento português no curto prazo?

1. Emigrar no caso de ser mais aventureiro
2. Ser mais rigoroso do que o expectável ao nível dos custos de modo a poder gozar de uma estabilidade financeira que não prejudique a sua perfomance.
3. Diferenciar-se ao máximo dos seus pares e tentar oferecer serviços únicos de modo a ganhar poder negocial.
4. Manter-se sempre no activo, mesmo que para isso tenha que seguir carreira internacional.
5. Aprender uma segunda língua.
6. Votar CDS e convencer o máximo número de pessoas em fazê-lo.

Quem são os melhores amigos do trabalhador do conhecimento português no momento?

1. A globalização pois esta requer os seus serviços sem olhar muito a preconceitos.
2. A língua inglesa, essa benção que reduz a um mesmo denominador a comunicação tão necessária à area do conhecimento.
3. As empresas multinacionais e as grandes empresas estrangeiras com dimensão.
4. Os aeroportos nacionais. Notar que a TAP não dá nenhuma ajuda pois limita destinos europeus ao promover destinos na lógica de “hubs”. E sem contar com os preços que pratica. O melhor que podia acontecer ao trabalhador do conhecimento seria a falência da TAP. Isso aumentaria o número de destinos secundários na Europa e reduziria os preços.
5. O desenrascanço. Por culturalmente ser desenrascado, alia essa herança a que não se consegue fugir à disciplina que colheu nos seus estudos. Junta assim os dois mundos, o que vai sendo muito valorizado nas matérias ligadas ao conhecimento pois é um pacote quase único que pode oferecer. Em conjunto, aliás, com os australianos (e segundo me disseram, também com os sul-africanos).

Não sendo no entanto catastróficas, as perspectivas do trabalhador do conhecimento em Portugal são frustrantes. O que deveria ser uma classe que marcasse o standard, que fosse referência, que servisse de verdadeiro farol aos outros segmentos da população, é uma classe desmotivada, não referente, meio perdida e revoltada. Tudo devido à desproporção entre as expectativas e a realidade.

Não premiar o estudioso é dar sinais errados aos habitantes de um País. Se isto é axiomático, em Portugal surge mais acentuado pois premeia o chico-espertismo, o safanço, o lambe-botas, o corrupto, o "grupinho", o mal dizente, o "cabrão", o curto-prazo. Tudo coisas com boa raiz cá no burgo e que temos de banir o mais rapidamente possível. Se não o fizermos, seguramente marcamos passo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Notas soltas legislativas 2009

Os portugueses estão a começar a acordar um bocadinho ao brindarem o CDS com uns 10,46% dos votos. Aquela história do CDS subir na contagem das últimas freguesias urbanas onde tem sempre resultados fracos contém um batalhão de mensagens reveladoras. Mas é ainda um acordar pequeno. A população, ainda com muito sangue socialista, ainda se atira muito ao PS e PSD. Mas há muita socialite que grassa por aí e que começa de facto a revoltar as pessoas. O slogan “Há cada vez mais pessoas a pensar como nós” é muito verdadeiro e vai trazer muitos dividendos no futuro. Isso vai ser cada vez mais visível porque a realidade que vamos viver vai evidenciar isso até à última.

O BE foi a (minha) desilusão. Embora tenha sido claramente um vencedor, esperava-se mais quando tinha tudo a seu favor. Crise internacional brutal, enorme descontentamento, e muito jovem excitado com o seu Bloco. Mas tudo isto com demagogia de primeiro quilate não foi suficiente. Seja como for continua, e continuará, em crescimento. Só que talvez a um ritmo mais lento do que pensava.

A CDU vai entrar num novo processo de definhamento. Mas desta vez é o BE, e não o PS como até agora, quem vai receber os votos. O efeito de feedback positivo vai-se iniciar. É fatal, e a demografia, madrasta para este partido, vai dar uma ajuda pois daqui a 4 anos há muitos que só chegaram a envelhecer menos que esses 4 anos.

O PS foi uma surpresa (para mim). Ganhou e por muitos. Cilindrou mesmo face às circunstâncias. Mas a continuação de políticas socialistas e meio suicidas (deficits públicos e dívida total + continuação de “mesadas” a torto e a direito) vai ser muito evidente (e insuportável) daqui a 4 anos. E por isso vai perder mais votos nas próximas eleições. Enquanto o PSD definhou pela mão “dos que saltam para a Comissão”, “dos que andam por aí” e dos que “andaram a brincar aos bancos”, o PS vai definhar pela mão da incompetência. O BE e o CDS (mais este) agradecem.

O PSD está em coma profundo e de lá não vai sair. Temos um doente vítima de grandes abusos do passado recente. O partido queima. Não me parece que este partido venha a repetir cotações anteriores, pelo contrário. O projecto social-democrata (seja lá o que isso for) confunde-se com o projecto socialista (seja lá o que isso for). Por simplificação direi que são todos socialistas (daí a socialite de que padecemos). Este partido arrisca um esvaziamento. Tornou-se óbvio que a sede de poder inata deste partido resultou em Barrosos, SLs, Oliveiras e Costas, Dias Loureiros, Valentins e Isaltinos. Este partido, de difícil posicionamento quando comparado com figurinos partidários de outros países europeus, suportava a noção de que qualquer cidadão competente, e independentemente do seu meio sócio económico-social, poderia influenciar politicamente o seu país. O resultado não tem sido famoso.

O “centrão” esvazia-se aos poucos. Com a renovação da geração pós 25 de Abril começa-se a observar que os partidos vão perdendo estigmas a que sempre foram associados, o que de certa forma ajudou a que sempre houvesse clubismo partidário. Isto está em extinção. As novas gerações vão estar mais abertas a seguirem as ideias de cada partido (não necessariamente os programas, coisa que ninguém lê) ao mesmo tempo que vão sendo menos susceptíveis de pertencer “clubisticamente” a um partido. Cumulativamente, e talvez por inconsciência, a noção de governabilidade não é tão relevante para estas gerações. Esta noção sempre decorreu do facto de se pensar que as maiorias absolutas são necessárias para praticar boa governação, o que outrora forçou o voto útil que escaldou o CDS. Ora a Europa civilizada, a tal que ambicionamos, pensa de outra forma. Não por inconsciência, mas por pura racionalidade. Decorrente deste facto, e no limite, no futuro teremos a inconsciência a prestar um bom serviço à democracia ao pressionar os partidos a entenderem-se. Preferiria o móbil da racionalidade, mas cada um move-se com o combustível que tem.

O CDS vai ser o grande beneficiário. Aos novos eleitores é mais complicado associar o CDS ao antigo regime. Isso, para além de falso, pode até vir a ser contraproducente para o acusador. O CDS quer ser poder e tem um projecto para o país. Paulo Portas está hoje com muito mais discernimento, e acima de tudo, humildade. O partido surge descomplexado e com mensagens claras. Nota-se também boa qualidade no argumento, quase desarmante perante os adversários. Seja como for PP continua a não colar muito nos eleitores, mas que este partido deve muito a esta pessoa, não se duvide. Quanto mais não seja pelo dito discernimento, bem cada vez mais escasso nos nossos dirigentes. Conselho para PP: dissemine no CDS discernimento, que é como quem diz, trate de distribuir juízo e modéstia a muita mentalidade de rapazote iluminado que por lá deve reinar.

Nota final: no futuro, e para efeitos de previsão de resultados eleitorais, aconselha-se a consulta de outro blogue que não este

sábado, 26 de setembro de 2009

Português, acorda

Português, porque deixas o teu destino ao sabor dos acontecimentos? Porque não acreditas que podes influir no que a ti directamente diz respeito? Porque te preocupas em demasia com o que os outros pensam de ti? Porque não ages mais? Porque és demasiadamente defensivo? Quem é o “eles” de quem resmungas? Porque é que estás sempre a dizer “se eu soubesse…”? Porque és provinciano perante o estrangeiro? Porque acreditas pouco em ti? Com que direito te arrogas em indefinidamente consumir mais do que produzes? Porque não distingues o investimento do consumo? Porque não discriminas positivamente o mais produtivo do menos produtivo? Porque bajulas e odeias o rico e poderoso em simultâneo? Porque és benevolente com o irresponsável e desafiante com o responsável? Porque não chamas os insensatos à razão? E acima de tudo, porque é que nunca arranjas pessoas normais para te governarem?

Ó Português, o mundo não está para brincadeiras, já há pouco por onde andar pendurado. Esta história de chineses e indianos estarem sentados à mesa não é nada compatível com a tua maneira de ser. Demais parece que vêm aí brasileiros e outros, e quiçá até alguns povos africanos. É um fenómeno. Sim, chamam-lhe Globalização, e imagina tu que há até quem diga que foste tu que a começaste há 500 e tal anos.

Ó Português, repara que o sol, a gastronomia, o futebol, o automóvel e o telemóvel te andam a tolher os limites e a consolar a alma. Cuidado agora, olha que nem para estas coisas te vai dando o orçamento. Eu sei o que tu pensas. Tu pensas que já ouves isto há muito tempo e as coisas andam na mesma. Mas digo-te, desta vez é diferente. Vais senti-lo mais de perto aos poucos. Se nada fizeres entra-te a realidade pela casa dentro daqui a uns 15 anos. Falta muito? Talvez, mas à cautela vai tratando de fazer qualquer coisa, e já.

Por isso Português, ou mudas de estilo ou rebentas. Queres um conselho? Pelo sim pelo não toma o destino nas tuas mãos, que nos dias de hoje é como quem diz, vai ter com a Globalização antes que ela venha ter contigo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Sondagens

As sondagens dizem:
PS 38%, PSD 30%, BE 11%, CDU 9%, CDS 8%, Outros+B+N 5%
Dizem também que 37% estão indecisos.
Assumindo a seguinte distribuição dos votos dos indecisos:
PS 10% (estou convencido que os indecisos votam tudo menos em Sócrates), PSD 30%, BE 25%, CDU 5%, CDS 20%, Outros+B+N 10%
E ainda no pressuposto que 30% dos indecisos se abstêm teremos o seguinte resultado final:
PS 29,8%, PSD 30,0%, BE 14,4%, CDU 7,8%, CDS 11,5%, Outros+B+N 6,5%

Não é portanto líquido que o PS ganhe as eleições.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Haja quem seja sensível à velocidade com que se adquire dívida

"O défice global da balança externa era de 6,1% do PIB em 2004. Subiu para 8,3% em 2005 e, mantendo-se sempre acima dos 8%, foi de 10,8% o ano passado, prevendo-se 8,3% este ano. Ou seja, a alegada contenção pública não afectou o País. Enquanto o Estado fazia ziguezague no seu endividamento, a dívida total nacional ao exterior subia sempre, de 65% do PIB em 2005 para 100% este ano."

João César das Neves (excerto)


in jornal Diário de Notícias 21/09/09

domingo, 20 de setembro de 2009

Ao que as circunstâncias obrigam

Caminhamos alegremente com uma crescente dívida, que é brutal. É extraordinário a inconsciência com que pessoas que estão à frente de diferentes organizações importantes deste país (partidos, sindicatos, etc.) não tomam em linha de conta o acumular de déficits e a consequente dívida pública como suporte para as suas opções. Há várias hipóteses para justificar este fenómeno: ou essas pessoas estão desinformadas, ou não conhecem o conceito de dívida e déficit, ou são estúpidas, ou são malucas, ou são inconscientes, ou de tudo um pouco.

Quando nos meus 18-20 anos julgava que para se estar à frente de organizações ter-se-ia que possuir uns mínimos, o que, tanto quanto as minhas percepções alcançavam na altura seriam o equivalente aos mínimos olímpicos para se participar nos Jogos. Agora que cresci, e mudadas as percepções, vejo que estamos rodeados de loucos em lugares de muita responsabilidade, invadidos de pessoas desestruturadas no pensamento, e acima de tudo pessoas perfeitamente dominadas pela nossa cultura portuguesa naquilo em que a mesma tem de pior.

Segundo esta turma de varados mentais ter muitos déficits consecutivos é normal, promoções e aumentos de vencimentos automáticos segundo a idade é standard de referência, não ter um modelo credível de avaliação é "porreiro", medir o sucesso escolar simplesmente pela percentagem dos que passam é fixe, ter um sistema geral onde as pessoas não são demasiadamente diferenciadas no rendimento pelo nível de produtividade é o desejado. Estamos ao nível da loucura e da demência.

Pouco a pouco as gerações mais novas começam a aperceber-se da armadilha que as gerações mais velhas (os jovens com 30 anso em 1974) lhes montaram. Por outro lado essas gerações mais velhas vão agora percebendo que os prejudicados são os seus filhos e netos. Ainda berrando quando podem vão no entanto sentido uns calafrios ao pressentirem que os cálculos saíram furados. Mas ainda assim persistem no erro!

Os próximos 30 a 40 anos vão ser engraçados em Portugal. Simplesmente não temos nenhum sítio onde buscar dinheiro. As reservas brutais e o ouro acumulado até 1974 já se gastaram, os fundos da CEE são cada vez mais pequerruchos, e a dívida externa atingiu o máximo possível. Resta-nos nós. Este "nós" significa que os Portugueses vão ter que tomar o destino nas suas mãos, quer queiram, quer não. Este imperativo, independente da vontade individual de cada um, e independente da cultura do grupo em que a pessoa se insere, faz com que a atitude tenha que ser totalmente proactiva.

Ter todos os Portugueses proactivos é aquilo que mais precisamos. E é aquilo que as circunstâncias nos vão obrigar a ver... e a ser.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O quinteto

Ei-los, estes são o quinteto maravilha da nossa terra, as almas que nos deviam inspirar.

José Sócrates

Já desde os primórdios esta personagem prometia com os seus extraordinários projectos artísticos. Tudo projectos com assinatura. Acontecia porém que só uma parte do país tinha a felicidade de conhecer a genialidade arquitectónica deste cidadão. Mas este jovem, a quem umas deambulantes passagens universitárias terminaram numa universidade de exigências ímpares, e entretanto extinta, queria ir mais longe, e por não virar costas à adversidade tratou até de fazer cadeiras ao Domingo como prova de abnegação e fervor em seguir os caminhos próprios dos que hoje são considerados os caminhos dos "Grandes". Este moço de espírito ambivalente, respira todo ele de um pluralismo democrático a que nos já tínhamos desabituado. Conhecedor profundo dos meandros partidários, de extrema fidelidade às regras que determinaram a sua ascensão, pensa no seu pequeno inconsciente que um país de sucesso se deve projectar segundo as mesmas regras que lhe sorriram.

Moço irredutível, é no entanto astuto ao ponto de reverter teimosias se estas demonstrarem ser nocivas a obstáculos de curto prazo, como por exemplo umas eleições. Neste ponto, e aconselhado por essa coisa a que se chama "spin doctor", que é como quem diz, uns sabichões que nos dizem como nos devemos comportar perante as circunstâncias, faz gato sapato da sua personalidade errante. Assim, em periodo pré eleitoral vai-se parqueando, deixando-se mostrar benovelente com uns, cordato com outros, pluralista com todos, e tudo na esperança de, colhidos os boletins em seu favor, sentir a legitimidade de puder explodir toda a sua provisoriamente contida génese por mais 4 gloriosos anos.

Esta pessoa personifica a ideia geral de que dificilmente se engana um povo mais do que uma vez. Pessoa de perfil mesquinho e provinciano, têm-se demasiado em consideração, motivo pelo qual durante estes 4 anos não tivesse o decoro em resguardar os seus defeitos, confundido muitas características suas como sendo virtuosas quando mais não eram do que o vómito do seu espírito torpe. Os ares de enfado quando em desvantagem, a agressividade expontânea perante a argumentação e a dificuldade óbvia em lidar com opinião contrária, são as evidências mais visíveis de alguém que nunca se devia ter sentado onde se sentou.

Cego pelo espelho e irritado pela realidade, vai esta alma embora. Para aonde? Não se sabe. Duvida-se que vá produzir mais arte arquitectónica. O mais certo, e porque as regras se vão mantendo, é talvez dedicar-se ao salto à Vara, modalidade indígena muito popular. Honrosa e generosa para os participantes, desdenhosa e cara para a assistência.

Manuela Ferreira Leite

Claramente a pessoa certa no local errado e no momento errado. De boa formação pessoal, seguramente com muita qualidade profissional e de espírito dedicado, é pessoa para não andar por aí cheia de agendas pessoais. Esta cidadã de sucesso está cheia de qualidades adversas daqueles que vivem das "novas regras" partidárias. Humilde e sem se julgar mais do que é, dá aos outros a impressão de que eles julgam precisar. Com muita experiência acumulada, ia estando no partido como o último recurso para um lugar onde mais ninguém "normal" queria ir (menos SL que anda sempre por aí de bicos nos pés). É que à luz das figuras de maior gabarito este partido queima.

Vendo-se lá por ter sido empurrada, vê-se a braços com o partido à frente, e terror dos terrores, com o país. Esta futura PM está no entanto a prazo. Este partido rodeado de "maltosa" não poupa ninguém. Andantes por aí por natureza, essa "malta" esfomeada e convencida não vacila às suas ambições. E assim a nossa Manuela vai-se confrontar a prazo com aquilo que, quer queira quer não, a vai atormentando. E isso é visível na sua falta de entusiasmo.

Esta mulher pertence a uma geração que talvez tenha sido a melhor do século XX, ou pelo menos aquela que sentia que o crescimento pessoal andava de mãos dadas com o forte crescimento do país dos anos de 1960 a 1973 e que prometia continuar. Esta geração, de boa capacidade técnica quando ia a estudos, herdou solidamente outros princípios em voga na altura, como a modéstia, o sentido de dever, e ainda o interesse por áreas extra profissionais. Cumulativamente, e por nesses tempos ainda se considerar que a família era uma instituição sagrada, pode-se dizer que essa geração, mesclando muitas virtudes, poderia ter dado muito a Portugal não fosse esse fenómeno obsceno das nacionalizações. A bem vinda democracia misturada com um forte sector privado e com esta geração em plena pujança e liberta dos constrangimentos da ditadura poderia ter dado outro caminho a Portugal.

Francisco Louçã

Eis a vedeta. Este é o homem que sabe que chegou o seu momento. Inteligente e de raciocínio muito rápido, anda antecipadamente entusiasmado. E tem motivos para isso, a começar por um Sócrates desacreditado, uma MFL sem fibra e um Jerónimo que mais cedo do que tarde lhe vai começar a ceder quota de mercado. Quase desmedidamente ansioso e excitado por este cenário generoso, acompanhado de muito jovem histérico que está mortinho por botar uma cruzinha no seu Bloco, já começa a sonhar com as próximas legislativas, aquelas que, quer sejam daqui a 2 ou 4 anos, vai jogar com o desemprego a 11% e com um país que não descolou economicamente.

Mas de que massa é feita esta personagem? Este ser é invulgar e encerra alguns paradoxos. Evoluido intelectualmente, deverá ter sido precoce no que ao domínio do pensar diz respeito, o que no pós 25 de Abril em muito se devia distinguir da imensa massa estúpida. E devia senti-lo. Ainda excessivamente novo na altura, deverá ter estado de alguma forma perdido no meio da barafunda do PREC, talvez até sem saber bem para onde se voltar. Onde o necessário discernimento ainda lhe faltava, sobrava-lhe o tino para não se desviar, nem por um milímetro, dos estudos e das experiências que sabia serem necessárias para o seu futuro. Assim desde cedo sentiria que iria percorrer um caminho, o seu caminho. Não que soubesse bem qual ele seria, o que, em rigor, pouco importava para pessoas que se julgam que uma missão lhes há-de ser destinada na sua passagem terrena.

E quis o destino que esta alma perturbada encarnasse um combate "moderno", cheio de temas conflituosos e ditos fracturantes, e a quem talvez o confronto duro decorrente dos temas excite mais que o desenlace dos mesmos. Tendo descoberto o seu nicho repara que o mesmo se alimenta das fornadas de jovens que a revolução produziu. Tudo gente que cresceu no meio de uns iniciais "amanhãs que cantam", depois de um verdadeiro Socialismo para todos, depois da CEE e dos seus fundos, depois dos juros baixos e da expansão do crédito, e por fim das promessas fáceis, e que tem agora uma conta grande por pagar. Tendo assistido a isto tudo, compreendendo isto tudo, observou como ninguém a matéria de que se ia fazendo os novos portugueses pós 25 de Abril. E fez juntar assim o "seu caminho" ao caminho destes novos portugueses sedentos do "el dourado" que afinal não chegou.

O Portugal democrático andou gerar "gerações moles"*. Gente a quem se deve tudo e a quem nada se pode exigir, gente para quem uma obrigação é conceito do antigamente e que morreu na revolução, gente que tem uma dificuldade tremenda em lidar com a afluência aparente, gente a quem o dever passou a ser conotado como conceito adoptado pelos estúpidos e o facilitismo como o conceito dos melhores. Esta massa materialmente descontente não se revê no antigo Comunismo arcaico, a quem uma longíqua revolução nada lhes diz... e lhes traz. Esta massa necessita de uma intervenção menos dura mas mais atrevida e arrogante. Chocante até, de modo a chegar onde não chega o argumento. A turbulência em que estas mentes se encontram, desancoradas intelectualmente e sem rumo, sentido-se materialmente mais pobres que o prometido e com uma dívida que vai rolando e os vai encontrar no futuro, encontram no líder do BE um consolo. E é numa relação de consolo que vão respirando. Não um consolo paternal, mas um consolo de albergue que abandonamos logo que chega a luz. Só que esta vem tardando.

Pelas irresponsabilidades passadas e pelas alternativas presentes, este é dos poucos portugueses a quem corre tudo a seu favor, ou quase tudo. Tudo se conjuga para que o número dos que precisam de consolo cresça. No entanto eis que pela direita vem uma coisa chamada CDS e que lhe vai dar um sinalzinho nestas eleições de que qualquer coisa vai surgir de onde menos se espera. Nervoso por isso, Louçã vai sentir como que uma pedrinha no sapato. Ficará perplexo quando este ainda pequeno mas sólido CDS pedir explicitamente aos adeptos clubisticos do PSD que estes lhes confiem o seu voto daqui a 2 ou 4 anos ao melhor jeito do um enorme "voto útil". Será cínico ao anúncio, mas quebrará todo o verniz aos sinais contrários, o que gerará um efeito contrário ao desejado pois verá debaixo dos seus olhos muito bloquistas mudarem de intenção de voto... para CDS. Isto ocorrerá se o CDS for muito forte. Se este não o for o BE continuará a subir. Mas como vivemos o presente demos agora os parabéns a Louçã por um 27 de Setembro que nunca esquecerá.

* eterno agradecimento ao meu ilustre amigo Saldanha

Jerónimo de Sousa

Esta personagem carrega consigo outro tempo e outra realidade. Respirando bondade e afecto pelos outros, lutador eterno, inofensivo e completamente falho na ideia, combina tudo para granjear a simpatia de todos os portugueses. Não concorrendo para a mudança por estar completamente fora da realidade, e concorrendo agressivamente para o actual estado de paralesia, está em sintonia com muitos. Os expressivos 10% do eleitorado que tem representam infinitamente mais do que a ideia que possui, mas estão fortemente sintonizados com a apreciada imobilidade de um vasto sector lusitano.

Demais resta somente dizer que corporizando um corpo inerte no nosso aparelho partidário, está para a política como para o mercado se encontram aquelas empresas grandes, antigas e obsoletas na sua estratégia e que actuam em mercados mais dinâmicos. São para os modernos, irrequietos, dinâmicos, e com estratégia bem definida, um bem inestimável pois vão jorrando quota de mercado com uma constância que muito agrada aos ganhadores. O BE, receptáculo dessa quota de mercado, lá vai canibalizando devagar e alegremente este morbido cadáver. É o Millenniumbcp da política, com uma única diferença: enquanto o PCP vai sempre dernando quota de mercado, o Millenniumbcp foi comprando quota de mercado para a ir perdendo.

Paulo Portas

Ora aqui temos um rapaz que anda num conflito muito complicado e inglório. A abarrotar de discernimento, com firmes ideias de combater as verdadeiras causas dos problemas do nosso Portugal, cheio de propostas óbvias com as quais Portugal concorda, e com energia e motivação para governar, não vê ser-lhe conferido o benefício da dúvida no momento do voto. Um pouco desesperado, tenta por todos os meios achar "A fórmula".

Residindo num partido orfão, com um passado de muita turbulência e eternamente ferido com Cavaco e o PSD que o esvaziou nos anos 80, tem evidentes dificuldades em lidar com outros, especialmente quando esses outros também não demonstram facilidades na relação. Pessoa de amuos, joga um jogo individual em sintonia com a sua agenda. E ai de quem ouse pisar os seus domínios. Julgando-se dono e senhor do partido em resultado do seu vivo discernimento sobre Portugal, sente que só ele o pode liderar. E neste ponto encerra consigo um conflito que lhe há-se bater à porta um dia: se por um lado é pessoa de confiar nos outros desde que se trate de áreas onde ele não esteja à frente, de modo nenhum confia em quem quer que seja para o substituir na área em que ele se encontra à frente. É como um felino na selva, tendencialmente respeita área alheia mas é feroz se invadem a sua. E assim lá vai marchando quase sozinho e acompanhado de zelosos "Portistas" que o vêm mais como um símbolo do que como um líder.

Os portugueses, que obtusamente ainda vão conotando no íntimo o CDS com a ditadura, vão mantendo uma aversão íntima com este partido. Partido de perfil ainda um pouco "betinho" na sua base, alimenta-se um pouco de uma visão "nós e os outros". Necessita, urgentemente, de ter comportamentos bem mais consentâneos com a expressão eleitoral que procura (e que é lógica, pois estes partidos na Europa são governo). Refém ainda de alguns conservadorismos, este partido necessita de se libertar de muitos caracteres que o mantêm pequeno. Exemplos destes caracteres são as relações de proximidade algo paternalistas desenvolvidas por Portas. Necessárias para o Portugal do século XX são impróprias para o Portugal do século XXI. Ou a associação com temas do foro da consciência individual, como o tema "aborto".

Um partido que abuse em adoptar um género (como o BE e o PCP o fazem) e que emita doutrina de consciência está-se a desviar da sua missão: gerar ideias e governar o seu país. Como qualquer país, Portugal está hoje minado (no sentido positivo) de pessoas diferentes. Conferir a possibilidade de expressão individual a cada um dos seus cidadãos é o bem mais precioso que se pode dar a um país pois isso fará emergir a diversidade e o melhor de cada um. Um país é o resultado da imensa miríade de elementos, géneros, ideias, projectos e ideais. No quinteto actual Portas é quem mais carrega discernimento nas ideias e projectos. Nos quintetos do futuro (ou sextetos, etc.) não sei se é quem melhor convive com os diferentes géneros e ideais. Se o é, não sei se quem o rodeia tem o mesmo pensamento.

Resumindo: partido de ideias certas mas povoado de demasiada homogeneidade está limitado no crescimento.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Debate MFL e Paulo Portas e o conceito de opção

Parece-me que neste debate ficou evidente a distância entre o PSD e o CDS. O PSD está como o país: paralisado, pelo que não duvido que os Portugueses se vão revendo ainda neste centrão em esvaziamento suave. O CDS vai introduzindo aos poucos a sua mensagem carregada de opções, conceito que a crise tratará de cristalizar.

MFL não tem opções a apresentar, ou talvez tenha uma: a sua pessoa. Paulo Portas tem as opções mas não tem a pessoa. Poderíamos pensar que o casamento até pode não ser mau de todo dadas as complementaridades. Um trabalha as ideias e o outro aparece para receber as medalhas. Como Paulo Portas bem se esforça para andar na cadeira do poder não fugirá a semelhante contrato, o que ficou bem claro na pergunta final do debate. A sua vontade de erradicar a "socialite" que nos afecta desde 1974 é grande. Cego por essa vontade, não anda a ver que isso só retarda trocar de lugar com o PSD na relação dos votos.

A crise, que por estranho que pareça só agora estamos a interiorizar, vai obrigar os Portugueses a fazer opções, muitas opções. A pouca classe média e a classe média baixa vão voltar a fazer contas, muitas contas, e isso faz com se ginastique o cérebro no capítulo das "opções". Aonde anteriormente o crédito fácil amoleceu esta ginástica, a rarefação do crédito, os sustos financeiros em curso (desenganem-se os que acreditam que tudo já passou), a debilidade do tecido económico, e a concorrência mundial cada vez mais feroz, fazem com que nos familiarizemos de novo com o conceito de "opção".

E a escassez, que por norma é o habitat natural de qualquer ser vivo, é conceito casado com o conceito de "opção". Atormentados pelas enormes crises (a nossa, estrutural, e a que veio de fora que mais não fez do que acentuar a nossa), os Portugueses acossados pela incerteza e tementes no trabalho e nos seus rendimentos futuros, passam agora a seres que olham para as opções, pois só elas contêm a esperança. O desejo de nos libertarmos do que nos atormenta começa a ser muito grande e por isso começamos a tentar diferenciar as opções que nos são apresentadas. E assim aqueles que as colocam saiem premiados relativamente aos que o não fazem. Por isso MFL não descola quando tem todas as condições para isso, e por isso Paulo Portas e Louçã (mais este) saiem ganhadores.

Terramoto eleitoral daqui a 4... ou 2 anos.

Estas eleições vão-nos dar muitos sinais do verdadeiro terramoto eleitoral que se irá dar daqui a 4 anos… ou talvez 2. Para ilustrar o meu pensamento avanço com a minha previsão para as legislativas de Setembro de 2009:

PSD – 31%
PS – 23%
BE – 20%
CDS – 12%
CDU – 9%
Outros + brancos + nulos – 5%

Neste cenário consolida-se um sinal que vem sendo menosprezado há anos: a destruição do centrão pelo aparecimento de uma nova força política que o combate sem tréguas, o BE. O que quer isto dizer? Quer dizer que o centro passa a representar 55%, ou seja, um esvaziamento brutal daquilo que tem representado. Sei que esta fotografia de certa forma já existiu com o PRD, mas o PRD foi coisa efémera. O BE é para ficar… por agora (próximos 10 a 15 anos). Isto diz-me que o CDS pode fazer o mesmo ao PSD, ou seja, substitui-lo como a força política de referência na área liberal. Em rigor o PS e o PSD são muito parecidos. Eventualmente o PSD tem gente mais chique (que é como quem pateticamente diz “gente como nós”, ou em versão ainda mais íntima “casas como as nossas”), mas isso é coisa desprezível em termos eleitorais. A grande diferença entre um partido e outro ocorreu nos anos de 74 a 80 quando de um lado havia Mário Soares e do outro havia Sá Carneiro. Daí para a frente a matéria de que é feita as pessoas de um partido e outro passou a ser a mesma, ou seja, carreiristas políticos (salvo meia dúzia de pessoas dos governos de Cavaco, nomeadamente os 2 primeiros, que reconheço não o serem).

Começa agora a existir a percepção que os dois grandes partidos, PS e PSD, podem ser despedaçados. O BE está a faze-lo, e muito bem, com a sapiência de Louçã e com uma notável colaboração de Manuel Alegre. Sócrates, politicamente curto, não viu isto (e ao que sei nem VPV!!!!!, que sempre ostracizou os 1.000.000 de votos de Alegre nas presidenciais). Enquanto isto acontece na esquerda, na direita vamos ter o mesmo processo em curso a partir destas eleições. O facto de que as pessoas começam a percepcionar agora que existem diferenças de fundo entre CDS e PSD, juntamente com a inépcia política (no sentido depreciativo do termo) actual de MFL e os legados infelizes de Durão Barroso e do inigualável SL, fazem que um pequeno sinal vá ser dado nestas eleições, ou seja, o crescimento do CDS. Se isso não aconteceu até agora é porque Paulo Portas não passa no público. As pessoas não gostam dele, ponto final. Não é da ideia que ele veicula de que não gostam, é dele. E isso esconde o que irá acontecer, a subida do CDS quando este partido substituir o líder. O CDS não teve um líder ao nível daquele que teve o BE. Por isso o processo de mudança na direita está mais atrasado, mas existe tudo para que a mudança se inicie.

Há uma coisa que quem tem votado PSD não gosta. Quem tem votado PSD não gosta de ver que o partido produziu muitos Dias Loureiros, SLs, Barrosos, Oliveiras e Costas, Arlindos, Valentins, Isaltinos, Menezes, etc. No PS temos a mesma massa sanguínea (Sócrates, Coelhos, Murteiras, Fernandos Gomes, etc). Isto é tudo da mesma casta. E não há evidências de que MFL consiga funcionar sem a mesma casta (é tudo Touriga Nacional).

Após estas eleições vai-se percepcionar que o CDS pode crescer e o PSD perder para este último. Despoleta-se então o mecanismo de feedback positivo (aquele mecanismo que explica a vitória do VHS sobre o Beta, e que Bill Gates descreve bem no seu livro “Rumo ao Futuro”). Muitas pessoas encontram então uma justificação para desviar o voto do partido em que votou “clubisticamente” nos últimos anos. E na altura (daqui a 4 anos) o exemplo do que se passou à esquerda pode potenciar a velocidade com que esse desvio de votos é feito à direita.

Há um aspecto fundamental para que o fenómeno ocorra à direita num curto espaço de tempo (8 anos): que o CDS não vá para o governo agora com o PSD. É um erro enorme o CDS ir como partido minoritário para o governo se ambos tiverem maioria absoluta. O CDS deve ser oposição ao PSD pelo simples facto de que o PSD é como o PS. A distância do CDS para o PSD é muito maior do que do PSD para o PS. A felicidade do CDS é que o mais provável nestas eleições é os dois partidos juntos não terem a maioria absoluta (obrigado BE). Esse é o melhor resultado para o CDS de momento. MFL vai governar sozinha e irá dar continuidade ao socialismo que já dura desde 1974.

Estou francamente convencido que o cenário que acima descrevo se vai concretizar. Tenho no entanto outras dúvidas. O que fará Louçã quando chegar aos 20%? Cria um partido a partir do BE, mais ao centro e de modo a matar o PS de vez ao importar toda a ala esquerda do PS? Ou vai “comendo” o PS e o PCP aos bocadinhos e crescer somente “organicamente”? É que não se duvide de uma coisa: ele quer ser Primeiro Ministro de Portugal e no futuro mais longínquo mudar muita coisa na Europa a partir do exemplo Português.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Disrupções ou evoluções

O país está numa situação complicada. Nestes momentos surgem sempre vozes a reclamar rupturas. As rupturas sempre existiram na história mas não creio que neste momento precisemos de uma grande ruptura. Não há memória de existirem grandes rupturas nas democracias. As democracias por serem sistemas abertos funcionam em sistema de feedback, com o contínuo reprocessamento da nova informação recolhida. Por isso as mudanças neste momento em Portugal tendem a ser evolutivas e não disruptivas.

Nós tivemos uma irrupção que foi o 25 de Abril. Mas o 25 de Abril não chegou a tudo, pelo que julgo faltar estender o 25 de Abril aonde ele não chegou. Mas por vivermos em democracia essa extensão será feita por processos evolutivos. Neste ponto notemos que o processo pode ser mais ou menos rápido (embora demasidos atrasos possam gerar distúrbios). Os temas mais complicados que temos em Portugal são, e por ordem crescente de dificuldade de resolução:

1. A tendência para, de uma forma ou de outra, quem está no governo querer controlar os meios de informação em seu favor
2. A relação paternalista e despótica do estado com o cidadão
3. A ideia de que o estado resolve todos os problemas
4. A responsabilização das pessoas
5. A escassa e restrita noção de que para que serve o poder
6. A Justiça

Para solucionar o primeiro ponto é simples. É não tocar de nehuma forma nos órgãos de informação e especialmente nos seus conteúdos, tão pouco veicular que quem está em desacordo é penalizado. Ponto final. Portanto é só uma questão de atitude. Este ponto é de fácil resolução. Erradicar a influência dos governos nos meios de comunicação é muito importante pois a Liberdade ainda é um conceito não totalmente interiorizado no nosso sangue e comportamento.

O segundo ponto pode ser alcançado aplicando ao estado as mesmas regras que este aplica ao cidadão. E como isto depende em exclusivo do estado é também razoável pensar que este ponto se resolve com alguma facilidade. O caso dos juros de mora é o melhor exemplo. A colocação central de professores é outro exemplo e revela uma patologia única. Questiono-me se na Coreia do Norte haverá qualquer sistema do género.

No terceiro ponto apostaria no cheque educação como medida para desmistificar o estado como o garante de tudo quanto há ou possa haver. Obviamente há pontos onde o estado deve estar totalmente e os privados não podem responder de forma alguma (penso ser o caso, entre outros, da defesa e da justiça). Implementar o cheque educação deve ser tarefa de mediana complexidade.

O quarto ponto teria uma bela assistência do terceiro. Mas depende em muito do último. Não acredito que um povo seja por natureza irresponsável. Antes acredito que maus sistemas tornem as pessoas menos responsáveis.

O quinto ponto é complicado pois implica mudar radicalmente as expectativas de quem montou arrais nos partidos. E decretar a mudança das aspirações das pessoas não é das coisas mais exequíveis. Podemos trabalhar o tema de modo a tentar empurrar pessoas de idoneidade e formação pessoal mais recomendável para dentro dos partidos. Não sei se isso é possível de ser feito com rapidez tendo em conta que muitos dos que lá estão não disponíveis para oferecer a melhor colaboração.

O sexto ponto é o diabo. Não faço bem ideia do que é preciso para resolver este imbróglio. Soa-me que a desorganização deve ser tremenda, a falta der liderança e produtividade deve ser gritante, mas não sei bem como ultrapassar o problema. Ocorreu-me chamar outra gente, talvez uns altos e loiros, para a gestão da organização da justiça. Mas onde isto parece cor-de-rosa pode à posteriori revelar-se uma asneira... ou talvez não.

Penso que se resolvermos estes 6 pontos damos passos enormes na construção de um país muito melhor. Estes 6 pontos estão na génese de outros dois males não tão visíveis, e que são também muito perniciosos: a excessiva dificuldade de muitos dos mais capazes sairem vitoriosos, e a falta de discriminação positiva ao nível do rendimento para as pessoas de maior produtividade. A recente emigração de muitos licenciados é o espelho desta realidade.

Os 6 pontos acima listados associados ao descrito no parágrafo anterior são deterioradores da confiança de um povo. Um povo necessita de esperança, e a esperança necessita da confiança.

A confiança pública não se decreta e tão pouco se possui por pensarmos tê-la. Não está em nós, está antes fora de nós, está na sociedade. O que cada um possui é auto-estima e confiança privada, conceitos que se confunde com confiança pública. A confiança de que Portugal precisa é da confiança pública, a que resulta do suor da nossa sociedade, o que dela é emanado pela forma como esta é construída, dos relacionamentos estabelecidos entre os seus organismos, da matéria de que é feita os seus elementos mais proeminentes e dos que se encontram em posições de destaque. A confiança de que os políticos geralmente falam é a que resulta das relações de cada um com aquilo que lhe é mais próximo. Esta é a confiança privada, conceito do foro individual onde o estado não tem que se meter directamente, e que depende, para além da confiança pública, da auto-estima individual.

Os políticos da nova era, carregados de agendas pessoais e ansiosos por crescerem através das fórmulas que eles próprios criaram, vão jogando o jogo individual da sua casta. O sucesso deste jogo, na forma como ele está concebido, pressupõe a inversão de prioridades, com o indivíduo a sobrepor-se ao grupo e este à sociedade, gradação que Rousseau diz ser contrária àquela que deveria ser adoptada. Deste jogo resulta que para ter sucesso o poder deve ser utilizado em conformidade com a hierarquia das prioridades: 1. Eu, 2. Grupo, 3. Sociedade. Os vencedores deste jogo, satisfeitos com o bem que a si podem reservar pelo facto do poder que detêm, e com confiança (privada), sentem-se agora impelidos a exportar para o Grupo e para a Sociedade a única fórmula que reconhecem ser a de sucesso para alcançar a Confiança, ou seja, a sua, e que, pela natureza das coisas dá a pior das assistências à confiança pública.

É no tipo de intérprete da acção governativa que se encontra a impossibilidade de lutar contra os 6 males listados (e o que dele é derivado e que atrás mencionei). Compete-nos extrair esse tipo de intérprete que mina a confiança pública da nossa sociedade e que não permite a produção de ideia para o nosso povo. E povo falho no pensamento e sem rumo está condenado à lamúria e resmunguice.

Não sou favorável a grandes mudanças radicais. Sou dos que pensa que as mudanças na orgânica, funcionamento líderes de um país podem ocorrer de forma pensada, planeada e faseada. No pressuposto de que tenho razão, acho que isso pode marcar standards comportamentais para o resto da sociedade e assim servir de pedagogia para a governação de outras organizações da sociedade (desde empresas, famílias, etc.). Creio que este tópico não é académico. Já outros o fizeram pelo que temos a tarefa facilitada. Está somente nas nossas mãos.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Debate entre Sócrates e Louçã

Como previa Sócrates foi sovado às mãos de Louçã. Este debate evidenciou dois perfis completamente diferentes de pessoas. Louçã demonstrou boa preparação, raciocínio rápido, um pouco de felino no ataque, muita confiança, controlo sobre si próprio (nomeadamente na acção demagógica), discurso fácil e muito escorreito. Todas estas virtudes, típicas de um académico de calibre, fazem parte de um tipo de pessoa de estrutura forte, que faz corrida de fundo e que não se deixa cair por aí com facilidade. Diria que é do mesmo clube de Cavaco Silva.

Depois temos Sócrates, moço de evidentes restrições, nomeadamente quando está em desvantagem. De maus fígados e maus temperamentos, é pessoa a quem a adversidade faz muita mossa. De natureza enfadada quando contrariado, perde facilmente o controlo quando surpreendido. Acossado, adopta uma atitude completamente reactiva. E foi isso que vimos, alguém meio tolhido a quem alguns factos lançados no debate o baralharam. Louçã, que é bom estratega, atacou nos seus pontos fracos, explorando-os ao máximo. E como os tempos correm mal a Sócrates pela sua incompetência, por ser boy, pelo seu feitio, por ter valores perniciosos, por não entender muito bem o que é governar um país, o barco foi ao fundo. Pobre rapaz a quem se acabaram as veleidades políticas que uns imprudentes votantes lhe conferiram há quatro anos. O homem acabou hoje às mãos do seu carrasco.

Quanto às propostas de ambos diria que Louçã aos poucos vai demonstrando o seu jogo. De ideias consolidadas, sabe exactamente o que quer e sabe gerir os timings e as oportunidades. Sabe que nacionalizar a Galp é aceitável para muitos quando temos Sonangol e Amorim lá dentro e com o dinheiro investido recuperado em tempo recorde. E contou aqui com a ajuda de Sócrates a ler o seu programa onde pareceu a todos que a questão das nacionalizações à banca não estava lá da maneira que Sócrates queria veicular. A questão de acabar com todas as deduções, coisa que por exemplo na Holanda já foi feita, talvez não tenha tão má aceitação como o pouco inteligente Sócrates pensa. Sócrates, na sua mediania, empolou a questão à náusea quando a prudência mandaria mais recato, especialmente quando Louçã disse que os serviços públicos dariam resposta a tudo. Enfim, coisas de arrogante.

Agora que as propostas deste moço Louçã são suicídas, disso não se duvide. Mas também não se duvide que ele actua como se a sua hora esteja chegar. Ele sabia que isto ia demorar muito tempo. Soube esperar com a temperança e calculismo dos grandes... e dos perigosos. Uma palma, isto é de General.

Sócrates é o que se já se sabe. O homem claramente não sabe bem o que propor. Pessoa falha de ideias em tempo de grandes crises não é boa opção, principalmente se ignorantes e com curso tirado ao Domingo. Para estes só as vacas gordas servem para caminhar. Por isso só propõem generalidades e medidas de fuga para a frente. Sangue frio, método e intrepidez, não obrigado. A Cova da Beira que se cuide com novos projectos deste engenheiro domingueiro.

E assim vai o país, entre inteligentes com ideias loucas, passando por carreiristas curtos que se vêm PM, outros a quem a veiculação da ideia encontra como adversário o preconceito e não o argumento, outros ainda que têm como acólitos muitos socialistas mascarados de mercado, e por fim um que só cresce quando afónico. Má sina a dos Portugueses a quem resta esperar por um Benfica campeão.

Debate entre Jerónimo de Sousa e Paulo Portas

O debate entre JS e PP foi dos debates mais elucidantes de quão dramática é a situação do nosso país. Pensar que ambos os partidos de que são líderes têm à volta do mesmo número de votos nas eleições recentes é coisa para nos fazer desesperar. JS, que julgo ser pessoa de bom fundo e de carácter, é desesperadamente curto no confronto e na ideia. Confrangedor mesmo. Dou mesmo por mim a pedir ao adversário para começar a dizer disparates de modo a encurtar a distância. PP, que julgo pessoa de respeito, não explorou, e bem, a situação de debater com alguém de calibre inferior. A condescendência de quem está em vantagem relativamente ao “outro” é virtude dos tolerantes, nomeadamente quando se discutem ideias. Quando Louçã debateu com JS não resistiu em mostrar aquele ar sobranceiro e de pena a JS. Não o atacou, evidentemente por mero calculismo eleitoral, mas revelou o que pensa sobre o “outro”. Eu, simples “mirone”, estou livre destes julgamentos e com liberdade e frieza maligna sorria com cinismo da situação que me entrava pelo ecrã quando JS ia sendo cilindrado. Depois de muito me interrogar, percebo agora porque é que JS caiu no goto dos portugueses no debate há uns anos em que ficou afónico.

Ainda sobre JS, achei ternurenta a invocação do nome “Mellos”. Deliciado pelo facto, torno para o meu filho de 6 anos e pergunto-lhe: Lourenço, ouviu ele a dizer os “Mellos”? Lourenço, meio estremunhado, acorda e diz: “o quê Pai”? Desolado, mas ainda esperançado, tentei forçar que ele tinha ouvido dizendo-lhe para ele não esquecer o que queria que lhe ficasse gravado na memória como registo do “Antigamente”. Em retrospectiva, lembrava-me deliciado os tempos em que Cunhal invocava com um tom de temor, como quem assusta crianças com o papão ou o homem do saco, os ditos “Mellos”, “Champalimauds” e “Espírito Santos”. Magnífico. O meu obrigado a JS.

Este debate mostrou bem que é complicado pôr Portugal no caminho. Isto está a demonstrar ter gente a mais que se sente bem em não deixar outros seguirem em frente. Há demasiada gente a pôr o pé no travão e poucos a pôr o pé no acelerador. E considerando que quem tem ido ao volante nem a carta deve ter há que contar com cenários aterradores.

Hoje existe um fenómeno singular. As pessoas não têm ideia para onde estão a ir, e não querem ouvir as vozes menos exaltadas. Pior, respondem da pior maneira, ouvem quem não lhes indica o caminho e quem somente diz o que está mal. Não ouvem quem, com algum método, ponderação e detalhe, procura enumerar as causas dos males e tenta construir um sistema que nos possa dar esperança. Neste ponto a moleza* actual das almas é pouco receptiva à análise de sistemas. O vulgo, na sua visão torpe e no facilitismo intelectual a que foi recentemente habituado, sem estímulo digno de nota para ganhar o que outrora exigia esforço, dedicação e brio, agora no seu sofá, e enquanto fala ao telemóvel, entretém-se gratuitamente e com alegria a destruir um sistema inteiro com um pequeno sofisma ou uma máxima. Dotado de alguma formação restrita à sua área profissional, com diploma e com muita informação disponível, julga-se cheio de sapiência. Arrogante por esse facto, e com pouca apetência para utilizar a argumentação como arma para jogar o jogo da abstracção, faz ruir sem pudor o que outros procuram construir com método, razão e seriedade. Um pequeno sofisma ou uma máxima de ocasião serve para destruir todo um sistema. Muito contente por conseguir sempre apresentar uma qualquer dificuldade, quase nunca contra argumentando, confunde a enumeração de dificuldades com qualidade no argumento. Contente por saltar de tópico em tópico, sem se deter em nenhum pelo simples desejo de querer viver a excitação da última dificuldade levantada, a ralé satisfaz-se vendo o edifício dos grandes soçobrar ao mesmo tempo que se sacia com o poder de veto que conquistou, achando-se importante por puder travar sem o ónus de ter de acelerar. É assim que a mediocridade ganha terreno. O tema sobre o cheque educação ilustra bem este fenómeno. Este assunto está em construção... superficialmente e enquanto falo ao telemóvel, e será apresentado um dia.

*o seu a seu dono, mil obrigados ao meu amigo Arquitecto Saldanha por trazer este conceito às lides da opinião

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Comentário após debate entre Louçã e MFL

Impressionante como o discurso de Louçã cola nas almas. A coisa é do mais superficial que existe, mas de uma eficácia sem igual. Meus amigos, dou ao BE uns quase 20%, ou mais. Como já vos disse isto deve ir parar nos 30% daqui a uns anos. Quando a malta que vota PC for mais volúvel e perceber que o BE é a força de esquerda a ter em conta, então vão desviar o seu voto, e aí o BE fica com a criança nas mãos (30% dos votos e o PC com uns 5%), ou seja, o PC eclipsar-se pela mão do BE.

Do PS já toda a gente percebeu o que vai sair: uma derrota estrondosa. Deixai o Sócrates à mão do Louçã e vão ver a tareia que este lhe vai dar. Sócrates está cheio de telhados de vidro, e vai haver um desmoronamento. Acreditem que o PS pode vir para os 22 ou 25%. Agora penso que o PSD não vai dar o pulo. MFL cola pouco às superficialidades exigentes dos dias de hoje. Aquela franqueza com que fala é mal vista, o seu perfil de boa pessoa e de quem corre a vida com horror à demagogia não tem bom acolhimento nas pessoas. Vai ser duro para ela ser o próximo PM com tudo contra. Mas vai sê-lo. Vai ser um voto de segurança… para variar (já repararam que os Portugueses estão sempre a votar com segurança, embora não os que votam BE).

O CDS vai ter mais votos do que se espera. Para isso é preciso que Portas faça um discurso muito mais cuidadoso. Para o CDS é tudo mais difícil, há muito menos margem para enganos. Ao BE admitem-se todos os disparates, ao CDS não. O CDS tem um drama: sente que quer, e pode, ser governo sozinho mas os portugueses não lhe dão o visto. E o curioso, e de facto bem explorado pelos cartazes, é que as pessoas no geral estão de acordo com os princípios defendidos pelo CDS, só que não correspondem isso em votos. É um pouco de doidos. Ou seja, o CDS não personifica o ideário “defensivo”. E como os portugueses gostam do “estado” para tudo o que deve ser o “estado” a tomar conta e tudo o que não deve ser o “estado” a tomar conta, então não confiam em quem quer delimitar o “estado” a fazer o que ao “estado” compete. Por isso sempre digo: os portugueses, na sua génese, são socialistas, ou seja, gostam de ver o “estado” como papá (isto é válido também para muita gente que para aí diz que é de direita para ficar bem entre os seus). E contra isso não há argumento que valha. Mas notem que isto vai mudar. Tenho a ideia, ainda que louca para quase todos, que o CDS vai chegar ainda aos 25% a 30%. Não agora, obviamente. Sim, isto é tão tolo quanto aqueles que vaticinavam o mesmo para o BE aqui há 10 anos (penso que já me incluía entre esses malucos na altura). É que basicamente o PSD e o PS não respondem ao mundo de hoje, mas acima de tudo, o “estado” em todas já não responde. Vai ser muito óbvio daqui a 4 ou 8 anos que vão ter que haver distinções e definições claras onde é que o “estado” deve estar, e como. E já agora, predilecção tão esquecida: a que preço?

P.S. Já viram quem vai ser campeão este ano, ou ainda há dúvidas? Este ano vai haver muito show na Luz.