quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Furar o acordo com a troika!!!

DOMINGO, 31 DE JULHO DE 2011

Dizem os nossos principais banqueiros que há que rever o acordo firmado com a troika no que respeita à política a seguir para os bancos.

Ora parece-me muito inoportuno pretender furar o dito acordo, nomeadamente por pessoas que têm muita responsabilidade em Portugal. Não fica nada bem depois de garantir a vinda de 78 mil milhões (ainda que por empréstimo) tentar mudar os termos que serviram de base para esse envio. Nomeadamente quando os descontentes de momento estiveram entre os contentes na altura em que o acordo se firmou. Desconfio que serão pessoas que seguramente se gabarão de “saber fazer as coisas”, essa especialidade nacional.

Isto de ter de aumentar o capital dos bancos para compor rácios de solvabilidade não é coisa que os banqueiros tenham muita vontade de pedir aos accionistas nesta fase da vida económica e financeira de Portugal. Percebe-se… da mesma forma que se perceberá que um funcionário público não irá gostar de ver o “seu” instituto extinto. Mas não há nada a fazer. Há que cumprir com o acordo. Ponto final.

Os banqueiros até podem ter os seus argumentos. Mas há dois argumentos poderosíssimos que têm sempre que se sobrepor. O primeiro é que não se podem começar a abrir precedentes ao pretender mudar o acordo com a troika. O segundo é que a banca tem que dar o exemplo de capitalização adequada, ainda que isso implique que seja para “credor ver”. Como já aqui disse (e desde há muito), Portugal perdeu provisoriamente grande parte da sua independência devido às suas dívidas gigantescas, seja a pública, a privada, ou a empresarial. E a banca não foi de forma nenhuma uma parte alheia de todo este processo. Por isso colhe agora também aquilo que semeou.

Mais uma vez…

DOMINGO, 31 DE JULHO DE 2011

…fui atendido à mesa de alguns restaurantes da Costa Alentejana por Ucranianos, e desta vez até por uma alemã (residente por cá há alguns anos). Todos sorridentes. Não percebo ainda se alguns dos Portugueses indispostos para essas tarefas ainda o estão? Se já não é bom lembrarem-se que mostrarem os dentes com sinceridade é fundamental, pois andar com ares de “toda a gente lhes deve e ninguém lhes paga” não tem futuro mesmo que a 500 euros por mês.

O presente e o futuro próximo vão precipitar muitas decisões que em muito irão moldar a economia para as próximas décadas. Já vou notando que cada vez mais as pessoas andam a cair em si, o que é um óptimo tónico para as introspecções individuais em curso.

Desejo a todos os Portugueses que tomem as decisões que têm que tomar e que não se preocupem muito com estigmas e preconceitos do passado. É que a economia do futuro vai ter de ser bem diferente do que foi a economia de 1986 até agora. Quem não perceber isto vai-se dar muito mal até ao fim da vida.

Nomeações políticas!!!!

DOMINGO, 31 DE JULHO DE 2011

A Caixa Geral de Depósitos viu serem nomeados os senhores Nuno Fernandes Tomás e António Nogueira Leite para a sua administração. Sem desprimor pelas personagens, não posso deixar de me sentir indignado pelo modelo das nomeações políticas. Estes cargos devem seguir inequivocamente o modelo de competências, que provavelmente os próprios até podem possuir, e independência política, que os mesmos por natureza não possuem de forma alguma.

É disto que Portugal não precisa. Será isto complicado de compreender?

Experiências sobre despedimentos e segurança no trabalho (3)

DOMINGO, 31 DE JULHO DE 2011

Corria o ano de 2006 quando experimentei o sabor de ser chamado para ser despedido num projecto na Holanda. Bem me lembro de ter ficado revoltado, não tanto pela decisão em si, mas por saber que de entre os quatro consultores a disputar os três lugares existentes eu era o mais bem preparado tecnicamente. Dois dos outros três consultores vinham de uma implementação já efectuada o que parece ter pesado na decisão. Por outro lado, o terceiro, por uma razão misteriosa, tinha um poder informal muito grande no cliente. Esse poder era inversamente proporcional à sua competência, que era, digamos, demasiado pequena.

Em paralelo, um dos outros dois consultores estava em negociações para sair do projecto (insatisfação com o mesmo), o que me daria possibilidades de lá continuar no caso de a sua saída ser anunciada antes da decisão de me convidarem a sair. Aconteceu que o consultor que queria sair pretendia, paralelamente, que eu ficasse de modo a compensar a incompetência do incompetente. Mas eu ia-lhe dizendo que nesse caso somente ficaria se fosse aumentado pois considerava uma desfeita o critério utilizado, pelo que, e embora lhe respeitasse o interesse para com o projecto, não podia responder por mim aos seus receios.

Cronologicamente ocorreram os seguintes factos:

1. Um dia fui chamado a uma sala onde me foi dito que já não contavam comigo até ao final do projecto. Aí tive a oportunidade de dizer que de todos era o mais bem preparado para entregar o projecto.

2. Uma semana depois o tal consultor apresentou a sua demissão pedindo-me que eu ficasse no caso de a chefia de projecto pretender reverter a sua decisão de me dispensarem. Disse-lhe que ficaria no projecto se as minhas novas condições fossem aceites.

3. Imediatamente a seguir o chefe de projecto veio ter comigo a dizer que afinal me queria e que eu não me podia ir embora. Nesse momento apresentei as minhas novas condições, o que para meu contentamento foi aceite. Disse ainda que o facto que me fazia ficar no projecto residia no facto de querer acabar o que começara, e disse também que se apresentava novas condições tal prendia-se com o facto de sentir necessidade de refazer a minha abalada auto estima.

Uns meses depois, no final do projecto, indaguei junto do chefe de projecto o motivo da minha escolha como sendo o consultor a ser dispensado. O chefe de projecto disse-me que, embora já soubesse que eu estava muito mais bem preparado que o tal incompetente, o mesmo tinha uma grande influência junto do cliente, e que isso fora fundamental para a sua decisão, ainda que confessasse que se fosse hoje teria tomado outra decisão (aconteceu que esse consultor trouxe bastantes problemas). E que ele próprio me recomendaria para futuros projectos (curiosamente isso voltou a acontecer para um projecto na Suiça).

Das lições que aprendi retive as seguintes: Nem sempre a competência é tida em consideração. Pelo menos na área das tecnologias de informação onde os clientes, por deficiente conhecimento, não detêm muitas ferramentas de aferir quais os mais capazes (ainda que nem sempre a competência técnica seja tudo). Por outro lado aprendi que a franqueza nos julgamentos sobre nós, os outros, e um dado cenário é recompensadora a prazo. E aprendi ainda que perante um volte face negocial é compensador manter o mesmo discurso, manter o comprometimento com o inicialmente acordado (no caso, levar o projecto até ao fim), e ainda manter muita frieza e calculismo.

Experiências sobre despedimentos e segurança no trabalho (2)

QUINTA-FEIRA, 30 DE JUNHO DE 2011

No ano de 2005 resolvi ingressar numa das grandes consultoras internacionais pois surgira uma boa oportunidade para um determinado projecto. O departamento onde eu me inseria era no entanto pequeno, quer comparando a mesma unidade de negócio com outras empresas, quer comparando com as outras unidades de negócio da dita consultora. O meu grupo de amigos ao tomar conhecimento ia enaltecendo o feito afirmando que a tal consultora era uma empresa “sólida” onde potencialmente eu poderia fazer “carreira” e ter alguma “segurança” no futuro. Cedo compreendi que era mais o nome e a fama que fundamentavam aqueles juízos, ou seja, a arquitectura mental em vigor conseguia vislumbrar futuro naquilo que culturalmente herdámos como verdadeiro. Ainda expliquei que não estava nada seguro nos votos que iam confiando à minha decisão. No mínimo o que esses votos sustentavam em nada coincidiam com o que me fizera tomar a opção.

Sete meses mais tarde resolvi sair da dita consultora e abraçar a carreira de free-lancer no estrangeiro. Socialmente ainda ouvi uns zuns-zuns de que talvez não fosse boa opção sair de uma empresa tão “sólida”. Soube que um ano mais tarde a dita consultora desfez-se da unidade de negócio onde eu estivera por falta de vocação. A dita “solidez” esfumou-se num ápice e a suposta "segurança" afinal não o era.

A grande lição que aprendi é que a segurança não se adquire por convicções ditadas pela história e que pode não morar numa empresa / departamento para sempre. A segurança adquire-se por estarmos conscientes de qual a melhor opção num determinado momento perante determinadas circunstâncias e da capacidade e coragem de tomada de decisões. E aprendi também que o que herdámos como verdadeiro, e que fora cimentado durante décadas, pode não funcionar nos dias de hoje. Isso tem implicações ao nível da capacidade de discernimento e de como pode ser útil possuirmos o estofo de ir contra aquilo que é considerado uma verdade universal.

Experiências sobre despedimentos e segurança no trabalho (1)

QUARTA-FEIRA, 29 DE JUNHO DE 2011

Corria o ido ano de 2002 quando vivi pela primeira vez, na empresa onde trabalhava na altura, um ambiente de redução de número de colaboradores. Na primeira vaga de despedimentos, 12 pessoas para um total de 200, o critério foi razoavelmente fácil de seguir. Foram despedidos aqueles que efectivamente tinham menos jeito para a “modalidade” e/ou tinham provado no passado serem de difícil trato nas relações de trabalho. Lembro-me de, entre o grupo onde me inseria, não existir receio por parte de qualquer um dos membros. E assim ocorreu um processo de despedimento pacífico. O facto mais positivo é que foi passada a mensagem do porquê das escolhas e de que as mesmas foram aceites como válidas pelos escolhidos.

Ainda em 2002 (ou já em 2003, não me recordo), ocorreu a segunda vaga de despedimentos. Aqui a coisa fiou mais fino. Foi, ao que me recordo, veiculada uma redução de 30 pessoas para um universo de 190. Pela dimensão, lembro-me de ter ficado inquietado, sendo aliás o sentimento generalizado. Todos colocávamos a hipótese de sermos escolhidos. E, com fundamento, percebíamos que desta vez as cunhas iriam funcionar. No meu grupo ninguém tinha cunhas, mas comentávamos sobre quem as teria e de como seria interessante observar os critérios de escolha. Recordo-me de sair do trabalho preocupado se seria eu um dos escolhidos, embora secretamente soubesse que as minhas possibilidades eram boas por possuir conhecimentos numa determinada área que mais ninguém possuía. Facto que se confirmou. Essa foi uma bela lição para mim, o quão importante é estarmos protegidos por uma boa escolha de competências.

Nesta segunda vaga de despedimentos, retive duas experiências. Uma de que as cunhas funcionam na prática e de que existe mais apetência por despedir soldados que os ocupantes da gestão intermédia (dada a natureza desta actividade os soldados estão ao mesmo nível, ou ainda acima, da gestão intermédia; mais ou menos como os futebolistas podem estar acima dos directores desportivos). Enfim, nada de novo.

A segunda experiência foi ter observado a reacção de uma pessoa a quem momentos antes tomou a notícia de que fora despedido. Ao entrar na zona do café o “pobre” só dizia: eles enganaram-se, eles enganaram-se. Em atitude fraternal, e quiçá até cristã, esforcei-me por atenuar a suposta dor do despedido. O despedido então olhou para mim como quem sabe algo que eu não sabia e diz: tu não estás a perceber, eles enganaram-se. Arrumei a fraternidade e o cristianismo por momentos e perguntei racionalmente sobre os fundamentos do suposto queixoso. Ele disse-me com um ar frio e divertido: vão-me pagar uma “pipa” de indemnização; estou cá a trabalhar há 15 anos pois comecei como estafeta ainda muito novo (vim posteriormente a saber que entretanto tirara o curso e evoluíra como consultor); e mais, até tenho tido convites apesar da crise. Vim a saber que a administração de facto enganara-se e que quisera voltar atrás com o despedimento. Ele não quis, ficou com a belíssima indemnização, e 15 dias depois estava noutra empresa a ganhar mais. E soube também que ele era um excelente profissional e um óptimo colega de trabalho. A lição que aprendi é que é bom ter uma rede que viabilize sair de um lado e entrar de imediato noutro, e que não há nada como ser bom no que se faz pois isso aumenta as nossas possibilidades de nos manter a “nadar” em momentos mais turbulentos (confirmei pessoalmente esta lição em 2009).

A missão

TERÇA-FEIRA, 28 DE JUNHO DE 2011

Não foi explicitada e existirá até o receio de abordá-la. Nem todos os membros do Governo sabem qual ela é, e tão pouco se percebe se o novo capitão do barco está 100% ciente dela.

A missão do XIX Governo de Portugal é tornar Portugal um país viável dentro da zona euro.

Muito mais do que um Memorando

QUINTA-FEIRA, 23 DE JUNHO DE 2011

O Memorando assinado com a troika é um instrumento técnico que visa corrigir gravíssimos desequilíbrios macroeconómicos. É fulcral para Portugal cumpri-lo à risca ou mesmo superá-lo em termos de metas.

Há num entanto um efeito colateral muito positivo se cumprirmos ou superarmos o acordo. É a imagem do país. Portugal irá estar no centro das atenções mundiais. Será falado e aparecerá em todas as notícias no estrangeiro. Nunca se falará tanto de Portugal neste mundo como a partir de agora. Importa por isso capitalizar esta propaganda grátis a que iremos estar sujeitos. Se vencermos esta longa etapa, e eu acredito genuinamente que a iremos vencer, veremos as nossas exportações crescerem decorrente de um misto de simpatia do dever cumprido e por passarmos uma imagem de competência e rigor.

Outro aspecto a ter em conta é que passaremos a ser considerados como o país modelo a seguir para quem se seguir na lista de ajuda externa. E isso colocar-nos-á em situação de conselheiros o que em muito poderá ser útil para o aumento da auto-estima.

Por fim este sucesso servirá para nos injectar uma dose de confiança (real, não a da banha da cobra que nos anos recentes nos quiseram vender) de que a gerações que se seguem necessitarão em maior dose.

Há portanto que tirar o maior proveito possível das circunstâncias e fazê-las jogar a nosso favor. Está nas nossas mãos.

O suicídio demográfico

DOMINGO, 19 DE JUNHO DE 2011

Segundo o Correio da Manhã

“De acordo com os primeiros dados, provisórios, do Censos 2011, a 25 de Abril estavam recenseados 10,202 milhões, um número abaixo da estimativa de 31 de Dezembro de 2010: 10,637 milhões.”

O tsunami demográfico está cada vez mais a aproximar-se e a fazer sentir os seus efeitos. Não é só a taxa de fertilidade que é miserável em Portugal (cerca de 1,3), longe de nos garantir a renovação da população (2,05). O saldo migratório já é negativo, sendo que se espera a saída de muitos mais Portugueses devido à crise e ao retorno esperado de muitos imigrantes aos seus países de origem. Ou seja, estamos em pleno suicídio demográfico.

Em rigor pouco se sabe o que fazer exactamente para inverter esta tendência suicidária. Os saldos migratórios decorrem de macro tendências ditadas pela envolvente económica e financeira. Os dados estão lançados nesta matéria para os próximos 20 anos e implicam um saldo migratório muito negativo. A taxa de fecundidade, a um nível miserável, não dá sinais de inversão tal a elevada apetência de não ter mais do que 1 ou 2 filhos, e não parece que a causa resida somente em “políticas” de família, ou a falta delas. Ao que se sabe na história do homem nunca houve necessidade de promover políticas de família para estimular o crescimento demográfico. Ele surgia por si.

É mergulhado nesta tendência que Portugal se vai ter que habituar a viver. Duas coisas já se sabem. Uma é que teremos de ter crescimentos de produtividade acentuados se queremos manter o mesmo nível de vida (sem contar com o pagamento da dívida acumulada). A outra é que nos teremos de preparar psicologicamente para o novo quadro de distribuição etária que será mais visível daqui a 15 anos. Não é o fim do mundo, mas é bom que nos preparemos.

Big Mac Index, produtividade e maiores retribuições

SEGUNDA-FEIRA, 13 DE JUNHO DE 2011

Existe neste mundo uma coisa chamada Big Mac Index e que trata de comparar o custo de vida em diferentes países quando tomado em linha de conta um produto estandardizado comercializado em todos eles. Segundo a Wikipédia “O Índice Big Mac, oficialmente Big Mac Index, é um índice calculado sobre o preço do Big Mac em mais de 100 países, tendo como objectivo medir o grau de sobre- ou subvalorização de uma divisa em relação ao dólar americano, comparando os preços do hamburger Big Mac nos Estados Unidos com o preço do Big Mac do país no qual se pretende comparar a moeda. O princípio é que os procedimentos operacionais da cadeia de fast food McDonald's são os mesmo em todos os países em operação, inclusive a margem de contribuição por produto”.

Não é minha intenção discorrer sobre este índice. Mas o mesmo sugeriu-me que há algumas subtilezas relativamente à produtividade que podem ser curiosas. E a que mais me interessa é que, de todos os restaurantes desta cadeia que conheço Alemanha, Holanda, Suiça, e, obviamente, Portugal, de todos o que tem o serviço mais eficiente é, sem sombra de dúvidas, os de Portugal. O serviço é eficientíssimo e muito bom. Não sei aferir do nível de qualificação do pessoal de frente de loja em todos estes países, mas parece-me existir alguma homogeneidade, aliás, como em tudo, ou quase tudo, no Mc Donalds (sem desprimor). No entanto, a remuneração em Portugal será muito inferior (seguramente) à obtida em todos esses países, o que me faz crer que nem sempre a economia é perfeita. Ou seja, temos trabalhadores muito mais eficientes a ganharem muito menos. E isto poderá espantar tanto mais quanto maior for o preconceito do emissor do juízo no que respeita à cor da pele (não é o meu caso).

Poderei ser convidado a concluir o seguinte:

1. A este nível de pessoal com elevada rotação as diferenças de produtividade não são compensadas devidamente devido ao facto de a elevada rotação não viabilizar mobilidade de um país para o outro, transferindo assim os trabalhadores de maior produtividade para os países com melhor retribuição salarial

2. A mobilidade na CEE é ainda muito relativa e muito dependente da língua. Atender clientes na frente de loja tem que se lhe diga no que respeita à língua local.

3. Os Portugueses quando bem geridos atingem níveis de rendimento notáveis

Há ainda algo de mais profundo que gera alguma revolta. Pelo facto de a nossa economia ser “torta” e não premiar, como seria suposto, a meritocracia, existem demasiadas pessoas que são penalizadas economicamente por esse facto. E provavelmente a maioria dessas pessoas encontra-se a efectuar serviços de frente de loja como a Mc Donalds, ou ainda call centers (o serviço em Portugal é, genericamente, excelente).

Quando a nossa economia se lembrar que não vai a lado nenhum neste modelo de endividamento para o consumo e acumular de dívida pública, e que somente arrancará consistentemente quando se lembrar de exportar muito, muito, muitíssimo mais, então talvez um dia todas essas pessoas de frente de loja com elevada produtividade possam ter outras retribuições. E então nesse momento teremos uma relação bem mais saudável com a economia.

Algumas reflexões sobre os resultados eleitorais

TERÇA-FEIRA, 7 DE JUNHO DE 2011

1. A fórmula de José Sócrates não funcionou. E penso não mais funcionará à medida que os Portugueses forem percebendo o que se passou em Portugal nos últimos 25 anos e de como os últimos 6 anos o protagonista levou tudo a um extremo impensável.

2. A serenidade e a ponderação parecem ser a fórmula do futuro. Quer Sócrates, quer Louçã, têm relações complicadas com estes conceitos. O primeiro por défice de formação, o segundo por viver numa ilusão.

3. O voto útil funcionou. Se não funcionasse seria mais que provável que o CDS tivesse uns 14% ou 15%. O voto útil é mau para a democracia. Deveria ser líquido que o partido mais votado não seja necessariamente aquele que deve governar. As maiorias de coligação têm legitimidade para governar ainda que nenhum dos partidos que a forme obtenha o maior número de votos. Isso facilitaria a escolha de voto dos cidadãos. O acto de votar deve ser um acto de desinibição.

4. O culto do dever (CDS) ganhou ao culto do direito (BE). Portugal vai entrar numa via de produção e de parqueamento do consumo devido à imperativa reposição dos equilíbrios macroeconómicos mínimos entre produção e consumo. Sem falar na compensação que é necessário fazer sobre os dislates acumulados durante os últimos 25 anos. O CDS corporiza esses valores, e por isso tem o tempo a seu favor.

5. O centrão continua a aglutinar a maioria dos votos. 66,7% é muito socialismo. O CDS tem a obrigação de romper esta realidade no futuro, não só ir buscando votos ao PSD, como ao PS. Portugal precisa de mais uma alternativa.

6. Os Portugueses estão preparados para enfrentar o futuro e as exigências que aí vêm. Nenhum dos partidos que apresentavam facilidades, CDU, BE, e PCTP-MRPP, teve votações que expressassem uma acérrima resistência ao acordo assinado com a troika.

Os temas políticos do futuro

SEGUNDA-FEIRA, 6 DE JUNHO DE 2011

O tema político do presente irá passar pela implementação do acordo firmado com as instituições internacionais. Isso ocupará os próximos 4 anos, no mínimo. E basicamente resultou em não termos observado a questão de não se puder viver demasiadamente acima das possibilidades durante tanto tempo seguido, de que resultou uma completa ilusão do mundo e de como Portugal e os Portugueses nele se devem integrar.

Protegidos por um acordo firmado com o apoio dos partidos que representam 89,6% dos deputados eleitos, com o apoio do Presidente da República, e com o apoio das instituições internacionais das quais somos parte integrante, temos todas as condições instrumentais para cumprir com as nossas obrigações. Temos assim espaço para agora começar a cuidar das questões políticas do futuro de Portugal. E essas podem ser consideradas as seguintes:

1. A questão do suicídio demográfico em curso, resultado quer da baixa taxa de natalidade, quer através da continuada nova vaga de emigração. O efeito combinado destes dois elementos, nomeadamente o primeiro, condicionará Portugal nos próximos 50 anos. Este é o principal tema político do futuro.

2. Responsabilidade individual e colectiva de como viver em sociedade numa relação saudável entre deveres e direitos.

3. Competitividade de Portugal neste mundo global, não só ao nível da economia, mas também a todos os outros níveis de intervenção.

4. Converter os 70% da população com a mentalidade de repartição para uma mentalidade empreendedora e virada para o desafio.

5. Converter Portugal para uma sociedade totalmente meritocrata e voltada para a produção

6. Independência da função pública relativamente aos partidos políticos e contratação para a mesma de quadros estrangeiros para a gestão de topo.

7. Da independência do poder local relativamente aos partidos políticos.

8. Da organização dos partidos políticos e da forma como os mesmos devem promover lideranças e todo o debate a ele associado.

9. Atrair de 250.000 a 500.000 estrangeiros com elevado rendimento para residirem em Portugal.

10. Redução drástica da dependência energética e alimentar.

Estes são os principais temas que devem estar na linha da frente do debate político. Tudo aquilo que os partidos políticos historicamente tentam esconder devido à presunção de que o povo não pode ser assustado com más notícias deve ser confiado à função pública. O recente memorando assinado com as instituições internacionais tem carácter instrumental e pode, e deve, ser executado tecnicamente. Ao Governo e à Assembleia competirá a monitorização do cumprimento do acordo firmado. Mas somente ao Governo deverá caber a concepção de estratégias para Portugal. Essa é a sua função, e os temas acima indicados são uma boa base de começo.

Saber reconhecer os problemas a tempo e saber comunicá-los

DOMINGO, 5 DE JUNHO DE 2011

A Europa não se tem demonstrado exemplar em comunicar os seus problemas com os seus cidadãos. Senão atentemos ao artigo que hoje vem publicado no jornal Público.

Estudo indica queEuropeus do Sul trabalham mais do que os Alemães


Os europeus do Sul trabalham muito mais e por vezes durante mais tempo do que os alemães, refere um estudo que contraria as recentes declarações da chanceler alemã sobre um eventual laxismo social em Portugal, Espanha ou Grécia.


Os alemães trabalham muito menos [por ano e durante a vida activa] que os europeus do Sul. E também não trabalham de forma tão intensiva”, assegura Patrick Artus, chefe da secção de economia do banco francês Natixis e o redactor deste estudo, que se baseia designadamente nos números da ODCE e Eurostat.


A duração anual média do trabalho de um alemão (1390 horas) é assim muito inferior à de um grego (2119 horas), de um italiano (1773 horas), de um português (1719 horas), de um espanhol (1654 horas) ou de um francês (1554 horas), referem as estatísticas publicadas em 2010 pela OCDE.


“O resultado da produtividade individual da Alemanha está na média dos países do Sul, a da produtividade horária está acima da média mas não é melhor que a da França ou Grécia”, precisa o Natixis.


A idade legal para a reforma na Alemanha (65 anos actualmente, 67 no futuro) é mais tardia, mas os portugueses e espanhóis trabalham na prática mais tempo, com uma idade efectiva de início da reforma de 62,6 anos e 62,3 anos, contra 62,2 anos para os alemães, refere ainda o estudo.


Os gregos não estão distantes desta média (61,5 anos) e a reforma das aposentações adoptada na primavera de 2010 na Grécia impôs o aumento da idade dos 60 para os 65 anos, com o objectivo de garantir uma idade média de 63,5 anos até 2015. Apenas franceses e italianos garantem hoje a reforma mais cedo que os alemães, precisa o estudo com data de 30 de Maio.


Em meados de Maio, a chanceler alemã, Angela Merkel, criticou publicamente as férias e os sistemas de reforma dos países do Sul da Europa, que considerou demasiado generosos. “É necessário que em países como a Grécia, Espanha, Portugal não seja garantida a reforma mais cedo que na Alemanha, e que todos façam os mesmos esforços, é importante”, disse na ocasião.


“Angela Merkel não refere quais os verdadeiros problemas dos países do Sul da zona euro”, conclui o chefe economista do Natixis.


A senhora Merkel não foi feliz na apreciação que terá feito. Criou mais confusão onde claramente precisamos de mais clarividência. Parece unânime que os países do Sul estão a precisar de uma lição de como viver ao nível das suas possibilidades e de como viver numa união monetária sem recurso à desvalorização da moeda como factor de competitividade. Os descalabros financeiros aí estão para provar que nos temos de vestir de modéstia e realidade. O que a senhora Merkel poderia ter feito, e integrando o discurso no contexto da crise orçamental em curso, seria dizer que os Alemães trabalham melhor e que vendem produtos de muito maior valor acrescentado. Ou seja, produzem muito mais para a mesma unidade de tempo, e aquilo que andam a produzir tem, em média, muito mais valor económico. E cumulativamente não são gente que coloque a carroça à fente dos bois, ou seja, não se endividam a torto e a direito, nem para comprar casa (por lá a percentagem de arrendamento ronda os 70%).

Poder-se-ia não apreciar discursos desta natureza, mas os países do sul têm que perceber que entraram num campeonato muito sério. A zona euro não foi feita para nos divertirmos a consumir mais do que produzimos e para nos dar taxas de juro baixas que potencia ainda mais esse hiato entre consumo e produção. E a propósito da zona Euro talvez valha bem a pena reflectirmos profundamente sobre o que um proeminente pensador europeu disse há uns 22 anos. Pena é que este tipo de reflexões não sejam produzidas nos nossos debates políticos...


Até certa medida os mercados financeiros de dívida soberana podem exercer uma influência disciplinante. Os investidores tendem a responder aos diferentes desenvolvimentos macroeconómicos de cada país e região, avaliando as respectivas politicas orçamentais e situações financeiras, penalizando os desvios às orientações acordadas em matéria de orçamento ou salários e, assim, exercendo pressão no sentido de melhores políticas. Contudo, a experiência sugere que os mercados nem sempre oferecem sinais fortes e determinantes e que o acesso a grandes mercados de capitais pode, por algum tempo, ser usado por alguns países para ajudar a financiar (disfarçar) os seus desequilíbrios económicos.

Ora, a experiência diz-nos ainda que, em vez de permitir uma adaptação gradual dos custos (juros cobrados), a opinião dos mercados sobre a credibilidade de devedores oficiais (países, governos e afins) tende a mudar de forma abrupta e pode, no limite, fechar totalmente o acesso dessas entidades aos mercados de financiamento. As restrições impostas pelos mercados podem, portanto, ser muito lentas ou totalmente repentinas e disruptivas. Por isso, os países têm de aceitar que a partilha de um mercado comum e de uma moeda comum impõem restrições às políticas individuais.

Isto é uma parte do relatório Delors, e cuja tradução acima recebi do meu ilustre amigo Nuno Marques (o sublinhado é meu).

O conhecimento nos dias de hoje é abundante. É responsabilidade do povo saber empossar quem melhor possa viabilizar o conhecimento existente e quem melhor souber alertar o povo para as dificuldades futuras. Cavaco Silva, Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes, e Sócrates não souberam ler, e interiorizar, o que a pequena tradução acima poderia significar e de como as suas políticas validaram os temores então levantados no texto. Doravante iremos sofrer com isso. Hoje não se reconhece e interioriza que a questão demográfica irá ser o maior problema de Portugal a partir de 2025. A partir de 2025 eles irão sofrer com isso.

Outra Irlanda

DOMINGO, 29 DE MAIO DE 2011

A Irlanda oferece encantos inesperados. Existe uma zona na costa Oeste onde a língua oficial parece ser o Inglês com sotaque do West Virgínia ou do Texas. São resmas de Americanos que por aqui vêm tentar descobrir as suas raízes. Vêm, falam, tiram fotografias, jogam Golf, e ainda arranjam tempo para jantar. Acontece que um dia escolhi um restaurante onde se encontrava um grupo bem representativo dessa América, terra de todas as oportunidades. Os convivas, todos para cima de seis décadas de vida, resolveram brindar-me com um espectáculo digno de fazer chorar de inveja qualquer estudioso da sociedade Americana.

A caminho da sobremesa, resolveram estas almas começar a desabafar sobre os factos que mais os marcaram na vida. Seguiu-se então um rol de exemplos do que é a sociedade Americana. Nem faltou, para meu gáudio, a clássica história daquele jovem que após passar fome e de ter seguido o “curso” de uma instituição de solidariedade, acabou “bem na vida” decorrente dos negócios que montou. Escusado será dizer que a emoção que ia correndo por aqueles bancos iam provocando algumas lágrimas nos presentes. Lágrimas que confesso a muito custo iam sendo contidas na mesa onde me encontrava, entre um misto de contenção de emoções, bem como de resguardo de quem não deveria estar a escutar conversa alheia.

Desde então penso do quão importante para esta outra Irlanda é a visita contínua destes Americanos. Não só os visitantes cumprem com a sua vontade de conhecer as suas origens, como a Irlanda agradece economicamente. Mas há mais. Há um natural reforço dos laços entre os dois lados do Atlântico. Aliás, o agora presidente Obhama, também ele de ascendência Irlandesa, cá veio à terra dos seus ancestrais beber uma Guiness.

Não posso deixar de tentar fazer um paralelismo entre Portugal e o Brasíl. Gostaria um dia de ver grupos de Brasileiros pelo nosso Portugal em grande número a chorarem pelas mesas dos nossos belos restaurantes. Gostaria de os ver pelas nossas terras a jogarem Golf, a passearem, a verem os nossos castelos e aldeias, a conhecerem o nosso interior e os locais de onde a Nação cresceu. Seria bom para eles porque ficariam com uma noção mais aproximada de como tudo terá acontecido. E seria muito bom para a nossa economia. E já agora também seria bom para os tais laços Atlânticos e, secretamente que ninguém nos ouve, para a afirmação da nossa língua no mundo.

Da nossa parte há que começar a pensar em como vender esses pacotes turísticos, sabendo de antemão que, para além de termos de tratar do nosso antigo e fecundo complexo colonial relativamente ao Brasil, temos de perceber que este país tem outro tipo de habitantes para além daqueles que vêm preencher os trabalhos que os Portugueses ignorantemente andaram a renegar.

E talvez um dia um Irlandês possa escrever sobre um “Outro Portugal” quando visitar Estremoz

Surpresas gastronómicas

DOMINGO, 29 DE MAIO DE 2011

Toda a região Sul e Sudoeste da Irlanda têm-me surpreendido pela qualidade dos restaurantes. A carne, soberba, merece infinitas vénias. Os legumes, frescos e variados, são divinos. O cheese cake do restaurante Liberty Grill em Cork é de fazer parar o trânsito. Aqui só entram produtos do mais fresco que há, garantiu-me o responsável do restaurante após ter perguntado porque é que me enumerou os peixes do dia aquando do meu pedido de sopa de peixe. Talvez não terá sido em vão que a recente visita da Rainha de Inglaterra à Irlanda a monarca quisesse visitar o English Market em Cork.

Num restaurante em Kenmare resolvi pedir o melhor prato de carne da lista. Colocado à minha frente, cedo emergiu o meu preconceito. O naco de carne vinha envolto numa massa, e entre esta e a suposta soberba carne existia uma fina camada de cogumelos frescos. Francesices para Americano ver, pensei eu. Errado. Ainda hoje choro por aquele prato.

Toda esta região faz gala nos seus produtos naturais. Ainda ontem, também em Kenmare, fui convidado a escolher Lamb pois afiançaram-me que os bichos são de produção local e parece que desconhecem a ração. Outra vez divino. Tal como o creme de batata que também me foi sugerido. A salada, que pouco requisito, é aqui obrigatória. Bela confecção e excelentes ingredientes levaram-me ao júbilo. Pena que a carta de vinhos não permitisse um belo Douro. Assim tive que me refugiar pelo Chile, que digo, têm provado ter uma alma que desconhecia. Mas confesso, nem tudo correu perfeitamente. Leite creme é connosco. Café? Nem pensar.

Sei que somos bons na cozinha, mas também já ouvi entendidos dizerem que pensamos ser mais do que aquilo que somos. De cozinha nada percebo, mas de mesa ouso levantar o braço. E posso dizer que a este respeito a verdade não acaba nas nossas fronteiras.

Ainda assim nada como um belo cozido à portuguesa ou pezinhos de coentrada. Nem em Kenmare…

Produtividades

QUARTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2011

Seria muito bom que os Portugueses pudessem provar o verdadeiro sabor do que é ser premiado por se ter uma produtividade superior ou por se querer trabalhar mais tempo. O dia em que esse petisco fosse dado a provar veríamos os partidos de esquerda diminuírem a sua implementação e o PS e o PSD reduzirem-se a uns 50% conjuntamente. E Portugal descolaria economicamente ao tornar-se globalmente mais produtivo.

Há dois tipos de Portugueses. Os rápidos, trabalhadores, desenrascados, esforçados e zelosos. E depois há os que não querem trabalhar, lentos, enrascados, mandriões e aldrabões. A divisão não é tão preto e branco, mas para efeitos de simplificação podemos partir desta permissa.

Criámos uma sociedade com demasiados pesos mortos onde uma já grande parte é levada ao colo pela outra. Para piorar o cenário, o grupo dos que carregam não opera num sistema onde existam suficientes mecanismos de diferenciação positiva. Assim, o melhor e o que está disposto a correr mais não vê o produto do seu trabalho ser recompensado.

Há ainda um outro aspecto. É que existem muitos do grupo virtuoso que fazem coisas que não são necessárias devido a pertencerem a organizações que pura e simplesmente não deveriam de existir. Ou então pertencem a uma organização que é necessária mas onde os processos levados a cabo para a prossecução da sua missão são demasiado ineficientes.

Todo este conjunto faz com que aquele Português que quer trabalhar mais e/ou é mais produtivo e que trabalha numa organização muito produtiva, se sinta bastante prejudicado quando olha para o rendimento do seu trabalho. Por isso quando ele emigra encontra-se nas sete quintas, pois nos países de acolhimento a discriminação positiva é muito mais acentuada.

Temos que urgentemente tratar do mecanismo da diferenciação positiva. Não só por uma questão económica individual e colectiva, mas também por uma questão de ética.

Grande erro

SÁBADO, 21 DE MAIO DE 2011

O Bloco de Esquerda cometeu um erro tremendo ao se ter recusado a dialogar com as instituições internacionais para a construção de um plano de ajuda a Portugal. A todos os níveis. Senão vejamos:

1. Como força política com representação parlamentar significativa tinha a obrigação de tomar parte das conversações. Ainda que discordasse da maioria ou da totalidade dos princípios que norteiam as práticas dessas instituições internacionais, teria a oportunidade de fazer valer em sede própria as suas ideias. Com esta atitude o BE ficou completamente fora de jogo. Em nada pôde influenciar o que nos próximos anos nos vai orientar.

2. Do ponto de vista meramente táctico também deveria ter tomado parte das conversações. Distanciar-se-ia do PCP ao tornar-se na principal força política de esquerda de Portugal. A participação nas conversações em nada vincularia o BE ao texto final. Poderia sempre dizer que estava em desacordo com tudo ou quase tudo, mas que tudo fizera para que outra fosse a solução, seja ela qual fosse. Se tivesse agido desta forma teria demonstrado ser um partido disposto a dialogar, e portanto, coligáveis para efeitos de formação de futuros governos. Agindo desta forma marginalizou-se e assinou o seu atestado de óbito. O eleitorado percepcionou isto e nunca o irá esquecer.

3. Do ponto de vista da imagem agiu como “pobre e mal agradecido”. Pobre por pertencer a um país que não se organizou de forma a estar em condições de pagar os salários e pensões aos seus constituintes e por se recusar a estender a mão a quem de direito cá entrou a estender-nos a mão. Ainda que se possa invocar que os juros são elevados, ainda assim 5% ou 5,5% são taxas bem melhores do que os 10% que já estávamos a pagar pelas últimas emissões de renovação / emissão de dívida.

Como ao nível individual, há decisões na vida das organizações que as marcam para sempre. E o BE cometeu a sua. Há cerca de 2 anos previa que o BE poderia chegar um dia aos 14% ou 20%. Errei na análise ao sobrestimar o potencial e atractibilidade do seu discurso. Um amigo disse-me, e com toda a razão, que não passariam dos 10% dado o povo não ser tão distraído quanto isso. As actuais sondagens parecem corroborar a tese do meu amigo. Oxalá.

Mudanças

SÁBADO, 21 DE MAIO DE 2011

Olhando para as sondagens parece que Portugal está a acordar. Finalmente os Portugueses começam a aperceber-se que algumas forças políticas não trazem nada de novo à nossa sociedade. O CDS, pelo seu discurso do passado e pelo seu discurso do presente (muito pela mão do Sr. Paulo Portas), começa a ser, finalmente, premiado. Já não era sem tempo detectar que começa a haver sensibilidade para a discriminação positiva para quem está disposto a trabalhar mais ou para quem trabalha melhor, que tem que ser levado a cabo um processo de separação do trigo do joio ao nível dos apoios sociais sob pena de colocação em causa do próprio mecanismo de apoio social, algo imprescindível numa sociedade solidária, que a criação de trabalho é feita acima de tudo pelas empresas, que os mecanismos de jobs for the boys e a promiscuidade entre interesses individuais e de grupo são prejudiciais para a economia no seu todo (já sem falar numa questão ética), e que temos que pensar muito seriamente numa terceira alternativa de partido para governar Portugal.

O que falta agora é começar a discutir estratégias para Portugal. Até agora o debate político não tem potenciado a elevação que deve o caracterizar dada a forma como os assuntos são tratados. Discutem-se as dores da sociedade e as aspirinas que a mesma deve ou não tomar. Mas estamos longe de discutir da verdadeira doença de que padecemos, ou seja, que vivemos há demasiado tempo consecutivo muito acima das possibilidades. E muito menos temos ainda vontade para discutir aquelas que vêm a caminho se nada de substancial for feito no curto prazo. O melhor exemplo é a questão demográfica, a grande questão do futuro, muito maior do que a questão da crise soberana que agora vivemos, e que urge ultrapassar.

Portugal não é de agora e nem acaba nos próximos 5 ou 10 anos. Portugal é para sempre e seria uma tragédia nacional não termos uma palavra positiva e proactiva para o seu futuro como nação, não só ao nível interno, como ao nível da intervenção externa. A questão da crise de dívida soberana irá ser ultrapassada. Mas esse é simplesmente um desafio de curto prazo (próximos 10 anos), ainda que de muito difícil resolução. Mas temos hoje também um outro desafio que é transformar a nossa sociedade. De uma sociedade ainda com uma mentalidade muito marcadamente de repartição e muito fechada, para uma sociedade de elevada iniciativa e muito aberta para o mundo. A Globalização é um meio que não deve ser considerado como algo estranho. Pelo contrário, deve ser considerado o nosso meio natural.

Parece muito verosímil que o CDS tenha um excelente resultado nestas eleições. Isto não é o fim da linha. É somente o princípio de um caminho. E o mesmo tem que ser iniciado da melhor maneira. Partindo do pressuposto que o CDS fará parte do futuro governo, o melhor exemplo que o CDS poderá dar é, para além de fazer valer os seus valores, combater sem qualquer trégua a questão da sobreposição dos interesses individuais e de grupo sobre o interesse colectivo. Seria muito positivo para Portugal dotarmo-nos de uma função pública independente do poder dos partidos onde as nomeações não ocorressem ao sabor dos resultados eleitorais. Sem dúvida um grande desafio. Mas não é em vão que quem governa deve estar apetrechado de coragem. E se for ainda audaz poderá ainda considerar integrar quadros de nacionalidade estrangeira. Sem dúvida insólito. Mas que não se duvide que as soluções para Portugal no futuro serão maioritariamente bastante insólitas, ou não estivesse este mundo em rápida mudança.

Criemos o nosso futuro hoje. Com coragem, e audácia.

A história de reduzir a TSU em 4 pontos percentuais

DOMINGO, 15 DE MAIO DE 2011

A ideia de reduzir a TSU (taxa social única) em 4 pontos percentuais é muito pífia. Dois motivos sustentam esta afirmação: o montante não é transformativo, e potencia um emaranhado pouco transparente e pouco visível ao criar-se um mecanismo de transferência de outros impostos de modo a colmatar a natural insuficiência de descontos para a segurança social.

Tomemos o seguinte exemplo. Se uma empresa tiver custos com o pessoal de 30% sobre os seus custos, então uma redução da TSU de 4 pontos percentuais significa uma redução total de custos de 1,2%. É bom, mas não é transformativo *. Gastam-se demasiadas munições para tão pouco efeito. E sem contar com a falta de transparência a que aludi.

Seria bem melhor promover uma taxa fixa de IRS de 5% como neste espaço já referimos. Claro que o efeito nas indústrias de baixos salários seria ínfimo, pois nesses níveis de rendimentos já nem a 5% os vencimentos são tributados. Mas nem só de baixos salários vive Portugal. Aliás, é nos outros escalões de indústrias que nos queremos movimentar também. A diferenciação positiva deve ser feita de modo a estimular quem mais quer trabalhar e quem melhor trabalha. Esta é a forma mais adequada de estimular a produtividade e de marcar os melhores standards comportamentais premiando o trabalho. E contém benefícios que a redução da TSU não permite. Coloca dentro do sistema muito trabalhador liberal que funciona “quer com ou sem recibo?”. A 5% de IRS essa pessoa está sob uma pressão social maior para “entrar nos eixos”. Muitos deles prestam serviços de reparações de casas. Com um IVA também a 5% (reparações em casa deverão ser consideradas um bem essencial), andariam todos “dentro do sistema”, o que permitiria o alargamento da base tributária. Esta é também uma resposta política, muito mais do que técnica. Sem contar com a simplicidade…

Infelizmente gostamos de complicar.

* Na prática o montante será maior porque as empresas também transaccionam entre si. Mas não deverá ultrapassar os 1,6%

Não se aprende nada!

SÁBADO, 14 DE MAIO DE 2011

Para estupefacção geral o PS liderado pelo Sr. Sócrates ultrapassou o PSD do Sr. Passos Coelho. Que o Sr. Passos Coelho não entusiasme o eleitorado não é nada que nos possa surpreender. Não é uma questão de carisma que está em falta. Aliás, o carisma, essa característica sedutora que é um excelente ópio para mascarar os políticos sem visão, de pouco serve para governar um país. Portugal precisa de personalidades com convicções sérias vindas do mundo do trabalho e não originárias dos aparelhos partidários. Nos partidos não se produzem visões. Produzem-se favores a retribuir, como aliás se viu no incómodo do Sr. Passos Coelho quando confrontado no debate com o Sr. Portas sobre o ponto acordado com a “troika” relativamente à redução a efectuar nas estruturas do poder local.

Com o mesmo “carisma” partidário surge o Sr. Sócrates. Só que convenhamos que ao contrário do Sr. Passos Coelho o Sr. Sócrates é portador de uma ética pouco recomendável. Desconhecedor do significado de “dar a palavra”, usa e abusa da mentira em prol da utilidade que dela faz num determinado momento para a prossecução de um determinado objectivo. É um Ás na arte do descaramento, o que, aliás, é o principal atributo do aldrabão vitorioso. É explicável que os Portugueses se tenham enganado quando o elegeram pela primeira vez pois ainda se acreditava no modelo de viver acima das possibilidades. Mas já então o calibre deste cidadão já era bem visível. Há dois anos, a Sra. Ferreira Leite, pessoas séria e capaz, personificava aquilo que os Portugueses não queriam enfrentar: a realidade. E brindaram o Sr. Sócrates com mais uma vitória.

Mas agora que a realidade já está a pairar na cabeça das pessoas, embora ainda não no bolso, os Portugueses parece ainda quererem gratificar o Sr. Sócrates com uma nova vitória. Perguntar-se-á: em nome de quê? É que já explicitamente nos disseram que o modelo de viver acima das possibilidades acabou.

Será que não se aprende nada? Será que somos tão cegos que não vemos o que se está mesmo a passar à nossa frente. Lidell Hart, um conhecido estratega militar, dizia que “só os tolos aprendem com a experiência, eu prefiro aprender com a experiência dos outros”.

Portugueses, cuidado, não queiram experimentar o que será uma saída da zona euro. Aprendamos com a experiência Argentina de 2001. Por isso apelo a que não votem no PCP, BE, e neste PS.