DOMINGO, 7 DE NOVEMBRO DE 2010
Um dos desafios que Portugal vai enfrentar é de como se organizar para retirar tantas pessoas da situação de pobreza. Nos tempos que correm, e nos próximos tempos, iremos assistir, infelizmente, ao crescimento do número de pobres em Portugal. Urge organizarmo-nos de modo a mitigar este novo cenário bem como pensar em formas de manter portas abertas para voltar a não ser pobre.
Dou enfoque naqueles que desceram à escala da pobreza por pensar que são aqueles onde mais facilmente se conseguirá com sucesso endereçar ajuda para retirada da pobreza. Não sou especialista na matéria, longe disso, mas a minha frieza e intuição sugere-me que alguém com formação e que já tenha trabalhado e que tenha caído em situação de pobreza terá mais possibilidades dela sair se for devidamente apoiado. Digo isto porque amiúde leio artigos de especialistas que invocam incessantemente o conceito de “inempregável”, conceito que penso ser aplicável a quem não tenha valor económico. Ora este não será, genericamente, o caso de quem tenha caido em situação de pobreza.
Neste ponto o trabalho de pessoas com formação na área social é fundamental. E neste ponto o Estado tem obrigação de responder em conformidade. Espero que a miopia que tem sido excelente companhia dos últimos governos estacione por momentos e dê lugar à razão, pelo menos neste ponto. Sei, e desejo, que se dêem muitos cortes nas despesas. Mas também sei que há algumas que têm que aumentar, e esta é uma delas.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Para quando um bom Governo para Portugal
QUARTA-FEIRA, 3 DE NOVEMBRO DE 2010
Esta é a pergunta escondida que os Portugueses começam a desembrulhar. Consequência de demasiados maus governos (desde 1985) os Portugueses começam agora a conviver com os efeitos nefastos de tanta má governação. As premissas sobre as quais soberbamente nos sentámos estão a dar de si e vão mesmo rebentar.
Não, não é por falta de confiança. Pelo contrário, foi por excesso da mesma sem fundamentos palpáveis, qual reformado que opina desenfreadamente com os expontâneos de ocasião numa qualquer obra em curso na cidade.
Não, não foi por azar. Foi por azelhice e falta de preparação, qual estudante cábula que não tira boa nota e culpa o professor.
Não, não foi pela conjuntura. Estas existem para nos catapultarem se soubermos navegar na tormenta. Há quem lhe chame “capacidade estratégia”. Perguntem aos Alemães sobre o tema.
Foi antes pela arrogância de colocarmos a carroça à frente dos bois, de pretendermos ter à borla o nível de vida nórdico sem para isso ter que trabalhar em conformidade (leia-se, entre outras coisas, elevada produtividade).
Foi por termos tido políticos incompetentes e corruptos. E já agora por termos, como povo, escolhido constantemente mal.
Foi por termos escoado todas as nossas energias como povo para o consumo (grandes superfícies) e os serviços que os potenciam (bancos) ao invés de nos atirarmos de cabeça para tudo o que envolva exportação.
Foi por pensarmos que o dinheiro resolveria as nossas deficiências organizativas. Não, as organizações transformam-se com ideias e com afoiteza. O dinheiro só perturba e solidifica o mal que se quer combater.
Foi por pensarmos mais no ter do que no ser e termos embarcado em modas de ocasião.
Foi por parolice ao embarcar em ditames de uma modernidade que mais não é que uma manifestação torpe de espíritos mal construídos.
O resultado ainda não está bem à vista e só agora se começa a vislumbrar os contornos do mesmo. Uma minoria tem bem noção do que aí vem mas ainda não é ouvida. Alguns visualizam-no mas ainda tem dificuldade em graduar a intensidade do choque e como ele vai ocorrer. Muitos não o visualizam mas já perceberam que os coices vão ser cada vez mais fortes. Todos já perceberam que algo na base e na estrutura tem deficiências brutais.
A turbulência que aí vem vai gerar mudanças na nossa sociedade, já visíveis, mas ainda difíceis de engolir. A mudança, por norma, é operada no dia-a-dia pela miríade de decisões pessoais dos constituintes da sociedade. No entanto, e embora sejam movimentos fortíssimos, tratam-se em rigor de adaptações às circunstâncias. Quem pode operar alguma mudança é o Estado, não no sentido de entidade todo-poderosa, mas no sentido de facilitador das tendências irreversíveis. E é neste ponto que sentimos que precisamos de um bom governo. Um governo que seja um facilitador das mudanças irreversíveis.
Este Governo ainda vem longe. Mas virá. Os “alguns” e os “muitos” irão precisar ainda de muitos coices para acordar. E nesse momento um cataclismo eleitoral ocorrerá. Até já sabemos o partido que ganhará embora nada saibamos sobre a equipa a escalonar. E até já sabemos em que molde terá que ser construída e que características deverá possuir. Só espero que encontremos os elementos que a vão constituir. Eles já existem, mas ainda não se conhecem. Estejamos confiantes, está para breve.
Esta é a pergunta escondida que os Portugueses começam a desembrulhar. Consequência de demasiados maus governos (desde 1985) os Portugueses começam agora a conviver com os efeitos nefastos de tanta má governação. As premissas sobre as quais soberbamente nos sentámos estão a dar de si e vão mesmo rebentar.
Não, não é por falta de confiança. Pelo contrário, foi por excesso da mesma sem fundamentos palpáveis, qual reformado que opina desenfreadamente com os expontâneos de ocasião numa qualquer obra em curso na cidade.
Não, não foi por azar. Foi por azelhice e falta de preparação, qual estudante cábula que não tira boa nota e culpa o professor.
Não, não foi pela conjuntura. Estas existem para nos catapultarem se soubermos navegar na tormenta. Há quem lhe chame “capacidade estratégia”. Perguntem aos Alemães sobre o tema.
Foi antes pela arrogância de colocarmos a carroça à frente dos bois, de pretendermos ter à borla o nível de vida nórdico sem para isso ter que trabalhar em conformidade (leia-se, entre outras coisas, elevada produtividade).
Foi por termos tido políticos incompetentes e corruptos. E já agora por termos, como povo, escolhido constantemente mal.
Foi por termos escoado todas as nossas energias como povo para o consumo (grandes superfícies) e os serviços que os potenciam (bancos) ao invés de nos atirarmos de cabeça para tudo o que envolva exportação.
Foi por pensarmos que o dinheiro resolveria as nossas deficiências organizativas. Não, as organizações transformam-se com ideias e com afoiteza. O dinheiro só perturba e solidifica o mal que se quer combater.
Foi por pensarmos mais no ter do que no ser e termos embarcado em modas de ocasião.
Foi por parolice ao embarcar em ditames de uma modernidade que mais não é que uma manifestação torpe de espíritos mal construídos.
O resultado ainda não está bem à vista e só agora se começa a vislumbrar os contornos do mesmo. Uma minoria tem bem noção do que aí vem mas ainda não é ouvida. Alguns visualizam-no mas ainda tem dificuldade em graduar a intensidade do choque e como ele vai ocorrer. Muitos não o visualizam mas já perceberam que os coices vão ser cada vez mais fortes. Todos já perceberam que algo na base e na estrutura tem deficiências brutais.
A turbulência que aí vem vai gerar mudanças na nossa sociedade, já visíveis, mas ainda difíceis de engolir. A mudança, por norma, é operada no dia-a-dia pela miríade de decisões pessoais dos constituintes da sociedade. No entanto, e embora sejam movimentos fortíssimos, tratam-se em rigor de adaptações às circunstâncias. Quem pode operar alguma mudança é o Estado, não no sentido de entidade todo-poderosa, mas no sentido de facilitador das tendências irreversíveis. E é neste ponto que sentimos que precisamos de um bom governo. Um governo que seja um facilitador das mudanças irreversíveis.
Este Governo ainda vem longe. Mas virá. Os “alguns” e os “muitos” irão precisar ainda de muitos coices para acordar. E nesse momento um cataclismo eleitoral ocorrerá. Até já sabemos o partido que ganhará embora nada saibamos sobre a equipa a escalonar. E até já sabemos em que molde terá que ser construída e que características deverá possuir. Só espero que encontremos os elementos que a vão constituir. Eles já existem, mas ainda não se conhecem. Estejamos confiantes, está para breve.
A família vem aí outra vez
SÁBADO, 30 DE OUTUBRO DE 2010
Como já foi interiorizado por todos nós, iremos viver nos próximos 10 a 15 anos um contínuo e longo declínio de nível de vida económico e financeiro. Económico porque a tendência geral é de declínio dos salários reais e porque mais impostos virão a caminho (o corte na massa salarial da função pública está longe de ser suficiente). Financeiro porque daqui a uns 2 ou 3 anos os juros começarão a subir de novo, pelo que, quem tem empréstimos à habitação vai assistir a uma subida da prestação da casa.
A febre de materialismo e dívida que nos assaltou a partir de 1995 fez-nos perder um pouco a noção de como a sobrevivência económica é um bem fundamental da vida conjunta. A imagem de sucesso nesta vida que nos quiseram vender passava por um individualismo desmesurado e com uma envolvência de afluência típica de solteirões e solteironas bem abonados. Este estrelato do marketing criou modelos de sucesso baseados no individualismo.
Em conversa com um amigo que trabalha em marketing, ele veiculava-me que as empresas vendem “sonhos” e as pessoas compram “esperança”. Quem compra esperança tem em mente a possibilidade de escalar na cadeia de consumo e com isso satisfazer certos desejos de bem estar material e bem estar social (neste último ponto cabe praticamente o que quisermos).
Em ambiente de “overdose” de dívida a atitude é de constante pontapé para a frente. Credor e devedor são grandes amigos e parceiros de uma corrida para o abismo.
Ora se analisarmos a história de vida do Homem não será difícil perceber que a sobrevivência económica é o estado em que se encontra a maioria da população em qualquer momento histórico. E que a vida em conjunto é a forma mais sensata de ultrapassar as dificuldades económicas naturais. Falo em vida conjunta e não em família porque a vida conjunta ultrapassa o conceito de família.
O retorno a uma certa sensatez quanto às possibilidades vai fazer com que valorizemos bem aquilo que sempre foi, é, e irá ser, o principal objectivo de qualquer ser humano nesta passagem terrena: a sua sobrevivência económica enquanto ser com coração palpitante. E consequentemente a vida conjunta fará de novo sentido como um meio natural de ultrapassar essa restrição que nos quiseram vender como fracassada.
Neste sentido penso que o conceito de família irá de novo ressurgir. Que não se duvide que a família é a principal e a mais sólida célula de qualquer sociedade. Quer concordemos ou não com isso, e por mais profundidade que queiramos emprestar à razão. É que na família, para além da união espiritual, a principal, temos também uma união económica, secundária, mas de uma importância imensa e que o pragmatismo da realidade vai fazer com que volte a fazer parte de toda a equação de como devemos encarar a sociedade e a família.
Assim, e pela vertente económica, o conceito de família voltará de novo a ser apreciado e valorizado. Digo “também” porque temos ainda a vertente espiritual como outra variável da equação, e que tem sido muito esquecida. Mas para esta variável há quem saiba discorrer melhor.
Nota: este texto aplica-se a cerca de 70% da nossa população. Os outros 30% nunca tiveram fôlego sequer para levitar, mesmo no auge da bebedeira consumista.
Como já foi interiorizado por todos nós, iremos viver nos próximos 10 a 15 anos um contínuo e longo declínio de nível de vida económico e financeiro. Económico porque a tendência geral é de declínio dos salários reais e porque mais impostos virão a caminho (o corte na massa salarial da função pública está longe de ser suficiente). Financeiro porque daqui a uns 2 ou 3 anos os juros começarão a subir de novo, pelo que, quem tem empréstimos à habitação vai assistir a uma subida da prestação da casa.
A febre de materialismo e dívida que nos assaltou a partir de 1995 fez-nos perder um pouco a noção de como a sobrevivência económica é um bem fundamental da vida conjunta. A imagem de sucesso nesta vida que nos quiseram vender passava por um individualismo desmesurado e com uma envolvência de afluência típica de solteirões e solteironas bem abonados. Este estrelato do marketing criou modelos de sucesso baseados no individualismo.
Em conversa com um amigo que trabalha em marketing, ele veiculava-me que as empresas vendem “sonhos” e as pessoas compram “esperança”. Quem compra esperança tem em mente a possibilidade de escalar na cadeia de consumo e com isso satisfazer certos desejos de bem estar material e bem estar social (neste último ponto cabe praticamente o que quisermos).
Em ambiente de “overdose” de dívida a atitude é de constante pontapé para a frente. Credor e devedor são grandes amigos e parceiros de uma corrida para o abismo.
Ora se analisarmos a história de vida do Homem não será difícil perceber que a sobrevivência económica é o estado em que se encontra a maioria da população em qualquer momento histórico. E que a vida em conjunto é a forma mais sensata de ultrapassar as dificuldades económicas naturais. Falo em vida conjunta e não em família porque a vida conjunta ultrapassa o conceito de família.
O retorno a uma certa sensatez quanto às possibilidades vai fazer com que valorizemos bem aquilo que sempre foi, é, e irá ser, o principal objectivo de qualquer ser humano nesta passagem terrena: a sua sobrevivência económica enquanto ser com coração palpitante. E consequentemente a vida conjunta fará de novo sentido como um meio natural de ultrapassar essa restrição que nos quiseram vender como fracassada.
Neste sentido penso que o conceito de família irá de novo ressurgir. Que não se duvide que a família é a principal e a mais sólida célula de qualquer sociedade. Quer concordemos ou não com isso, e por mais profundidade que queiramos emprestar à razão. É que na família, para além da união espiritual, a principal, temos também uma união económica, secundária, mas de uma importância imensa e que o pragmatismo da realidade vai fazer com que volte a fazer parte de toda a equação de como devemos encarar a sociedade e a família.
Assim, e pela vertente económica, o conceito de família voltará de novo a ser apreciado e valorizado. Digo “também” porque temos ainda a vertente espiritual como outra variável da equação, e que tem sido muito esquecida. Mas para esta variável há quem saiba discorrer melhor.
Nota: este texto aplica-se a cerca de 70% da nossa população. Os outros 30% nunca tiveram fôlego sequer para levitar, mesmo no auge da bebedeira consumista.
O socialismo em Portugal acabou
QUINTA-FEIRA, 21 DE OUTUBRO DE 2010
Portugal neste momento anda a dar os últimos tiros de socialismo. O socialismo em Portugal começou, e bem, no pós 25 de Abril. A grande maioria da população vivia numa pobreza material difícil de imaginar pelos padrões de hoje. Grandes saltos nos serviços de saúde e protecção social foram dados a partir desse momento. Só não o vê quem se recusa a ver.
Ainda nos primórdios, e após as crianças terem andado pelo poder entre 74 e 76, um governo socialista, o primeiro governo de Mário Soares, tratou de pôr a casa na ordem com a ajuda do FMI. O mesmo Mário Soares na companhia do FMI aplicou receita semelhante nos anos de 84 a 85 depois do desastroso governo da AD de Pinto Balsemão. Até 1985 o socialismo cumpriu, e bem, o seu dever. Lutou pela democracia, teve cuidado com as contas públicas, e aumentou os serviços de saúde e protecção social.
O descalabro veio a partir de 1986. O PSD, que entendo ser um partido socialista vestido de cor-de-laranja, tratou de inchar o sector público para além daquilo que a economia o permitia. O pequeno abalo da crise de 92/93 mais não foi do que uma pequena interrupção da tendência socializante que tomava conta de Portugal. A dívida pública em 1995 estava no entanto ainda a níveis aceitáveis, mas os ingredientes para a sua explosão nos anos subsequentes foram bem semeados pela mão do Pai do Monstro: Cavaco Silva.
Com a saída do socialista Cavaco e a entrada do socialista Guterres, o monstrozinho construído por Cavaco Silva teve o melhor tutor que alguma vez poderia imaginar. De forma clara outro socialismo tinha chegado e vencido em Portugal, o socialismo corporativo que não vê mais do que o seu próprio umbigo. Longe iam os dias do socialismo responsável de Mário Soares no que respeita a contas públicas*. O que agora campeava era o ditado pelas corporações atulhadas de interesses corporativos e nada dados ao interesse nacional. Foram 15 anos de produção de um modelo que começou a dar sinais de implosão a partir de 2000.
A partir de 2000 até ao momento vive-se o culminar da inviabilidade do modelo socialista irresponsável. Paradoxalmente, ao invés de o Socialismo acabar com velhos decrépitos sentados no poder, o Socialismo resolveu acabar com crianças no poder, como que a revisitar os tempos idos do PREC. Mas desta vez com um aspecto mais polido e vestidos de capitalismo, coisa que em rigor até se trata de algo que nunca entenderam bem o que é. No que respeita a vestimenta, em lugar do vulgar Kispo que compunha uma barba revolucionária, resolveram adoptar fatos de marca que, segundo eles, acompanhavam bem os tempos de afluência aparente resultantes da globalização. Discurso escorreito e desfaçatez de fazer corar o maior aldrabão de bairro destoava do pacote visual, mas segundo a cartilha do momento isso era coisa aceitável. Assim foi o culminar de uma era, que aceitando tudo e todos até se dignou de atropelar os mais básicos valores da vida e valores da vida em sociedade, tais como a legalização do aborto até às 12 semanas (salvo erro, não sei ao certo) e o patético casamento de pessoas do mesmo sexo. A todo este pacote visual a tresandar de vacuidade chamaram-lhe “modernidade”. Sim, onde já vai o socialismo…
Agora que a realidade se anda a tornar mais visível e a água e o azeite tomam os seus lugares, o ambiente turvo e meio esquisito em que vivíamos apresenta-se-nos agora tenebroso. A tomada de consciência de que o caminho trilhado foi o errado durante demasiado tempo faz-nos sofrer só de pensar que serão necessárias talvez mais do que uma geração para fazer de Portugal outra vez um País normal e responsável, e não um País dividido entre os que trabalham em coisas que o mercado quer e os que vivem à conta do outros, quer não trabalhando, quer fazendo coisas que o mercado não quer, ou quer ainda fazendo coisas que não são de todo necessárias. Tudo isto no meio de uma justiça que não funciona, de uma segurança que foi substituída pela falta dela, e de valores sociais algo trucidados. Assim, há como que um sentimento de que a sociedade está desconjuntada.
Não duvidemos que o socialismo acabou em Portugal. Já não há mais uma democracia para implementar ou socialistas com o calibre de Mário Soares para enfrentar um desastre de contas públicas. O que há para tratar é de construir um modelo onde os responsáveis marquem o ritmo, onde quem trabalha e é trabalhador é premiado, onde o empata e o que vive à conta dos outros é colocado no seu devido lugar, onde a justiça funciona, onde falta dela volta a ser segurança, onde o empreendedor se liberte e seja estimado, onde o inovador, o afoito, e o intuitivo sejam empurrados para a frente, onde a imaginação não seja travada pela burocracia, e onde as corporações levem um valente pontapé no rabo. Para tudo isto não precisamos de socialismo para nada. Deste travestido de sei lá o quê, ou do antigo, ainda que fosse liderado por um Mário Soares.
* Não incluo aqui o infeliz episódio da descolonização para não desviar o foco do post.
Portugal neste momento anda a dar os últimos tiros de socialismo. O socialismo em Portugal começou, e bem, no pós 25 de Abril. A grande maioria da população vivia numa pobreza material difícil de imaginar pelos padrões de hoje. Grandes saltos nos serviços de saúde e protecção social foram dados a partir desse momento. Só não o vê quem se recusa a ver.
Ainda nos primórdios, e após as crianças terem andado pelo poder entre 74 e 76, um governo socialista, o primeiro governo de Mário Soares, tratou de pôr a casa na ordem com a ajuda do FMI. O mesmo Mário Soares na companhia do FMI aplicou receita semelhante nos anos de 84 a 85 depois do desastroso governo da AD de Pinto Balsemão. Até 1985 o socialismo cumpriu, e bem, o seu dever. Lutou pela democracia, teve cuidado com as contas públicas, e aumentou os serviços de saúde e protecção social.
O descalabro veio a partir de 1986. O PSD, que entendo ser um partido socialista vestido de cor-de-laranja, tratou de inchar o sector público para além daquilo que a economia o permitia. O pequeno abalo da crise de 92/93 mais não foi do que uma pequena interrupção da tendência socializante que tomava conta de Portugal. A dívida pública em 1995 estava no entanto ainda a níveis aceitáveis, mas os ingredientes para a sua explosão nos anos subsequentes foram bem semeados pela mão do Pai do Monstro: Cavaco Silva.
Com a saída do socialista Cavaco e a entrada do socialista Guterres, o monstrozinho construído por Cavaco Silva teve o melhor tutor que alguma vez poderia imaginar. De forma clara outro socialismo tinha chegado e vencido em Portugal, o socialismo corporativo que não vê mais do que o seu próprio umbigo. Longe iam os dias do socialismo responsável de Mário Soares no que respeita a contas públicas*. O que agora campeava era o ditado pelas corporações atulhadas de interesses corporativos e nada dados ao interesse nacional. Foram 15 anos de produção de um modelo que começou a dar sinais de implosão a partir de 2000.
A partir de 2000 até ao momento vive-se o culminar da inviabilidade do modelo socialista irresponsável. Paradoxalmente, ao invés de o Socialismo acabar com velhos decrépitos sentados no poder, o Socialismo resolveu acabar com crianças no poder, como que a revisitar os tempos idos do PREC. Mas desta vez com um aspecto mais polido e vestidos de capitalismo, coisa que em rigor até se trata de algo que nunca entenderam bem o que é. No que respeita a vestimenta, em lugar do vulgar Kispo que compunha uma barba revolucionária, resolveram adoptar fatos de marca que, segundo eles, acompanhavam bem os tempos de afluência aparente resultantes da globalização. Discurso escorreito e desfaçatez de fazer corar o maior aldrabão de bairro destoava do pacote visual, mas segundo a cartilha do momento isso era coisa aceitável. Assim foi o culminar de uma era, que aceitando tudo e todos até se dignou de atropelar os mais básicos valores da vida e valores da vida em sociedade, tais como a legalização do aborto até às 12 semanas (salvo erro, não sei ao certo) e o patético casamento de pessoas do mesmo sexo. A todo este pacote visual a tresandar de vacuidade chamaram-lhe “modernidade”. Sim, onde já vai o socialismo…
Agora que a realidade se anda a tornar mais visível e a água e o azeite tomam os seus lugares, o ambiente turvo e meio esquisito em que vivíamos apresenta-se-nos agora tenebroso. A tomada de consciência de que o caminho trilhado foi o errado durante demasiado tempo faz-nos sofrer só de pensar que serão necessárias talvez mais do que uma geração para fazer de Portugal outra vez um País normal e responsável, e não um País dividido entre os que trabalham em coisas que o mercado quer e os que vivem à conta do outros, quer não trabalhando, quer fazendo coisas que o mercado não quer, ou quer ainda fazendo coisas que não são de todo necessárias. Tudo isto no meio de uma justiça que não funciona, de uma segurança que foi substituída pela falta dela, e de valores sociais algo trucidados. Assim, há como que um sentimento de que a sociedade está desconjuntada.
Não duvidemos que o socialismo acabou em Portugal. Já não há mais uma democracia para implementar ou socialistas com o calibre de Mário Soares para enfrentar um desastre de contas públicas. O que há para tratar é de construir um modelo onde os responsáveis marquem o ritmo, onde quem trabalha e é trabalhador é premiado, onde o empata e o que vive à conta dos outros é colocado no seu devido lugar, onde a justiça funciona, onde falta dela volta a ser segurança, onde o empreendedor se liberte e seja estimado, onde o inovador, o afoito, e o intuitivo sejam empurrados para a frente, onde a imaginação não seja travada pela burocracia, e onde as corporações levem um valente pontapé no rabo. Para tudo isto não precisamos de socialismo para nada. Deste travestido de sei lá o quê, ou do antigo, ainda que fosse liderado por um Mário Soares.
* Não incluo aqui o infeliz episódio da descolonização para não desviar o foco do post.
Efeitos nefastos da economia e dos (des)governos
QUARTA-FEIRA, 20 DE OUTUBRO DE 2010
O meu ilustre amigo e companheiro bloguista Miguel Alvim sugere como sendo injusto que o vinho seja sujeito a uma taxa de IVA reduzida e que os achocolatados sejam sujeitos à taxa de IVA máxima. Do ponto de vista moral, e com base num julgamento imediato, associo-me ao sentimento de revolta. É confuso que seja mais taxado algo que com frequência se pode dar a uma criança para efeitos de alimentação do que algo que os adultos podem consumir para efeitos de prazer, ainda que a espaços.
Mas o inconveniente e “injusto” mundo da economia por vezes trata de desvirtuar certos princípios aceites por todos aconselhando um tratamento contrário aos princípios gerais, e quiçá, desafiando até a própria moral. Nomeadamente quando governantes incompetentes têm oportunidade de entrar em cena. Nestes casos os fenómenos desta natureza tendem então a proliferar como cogumelos. Ou seja, os governantes em vez de mitigarem os efeitos nefastos da economia, tratam antes de os acentuar.
Passo a explicar. Resumidamente, e como já é do conhecimento de todos, precisamos desesperadamente, reitero com ênfase, DESESPERADAMENTE, de exportar mais e de reduzir DESESPERADAMENTE o nosso défice público (pessoalmente já aqui defendi que doravante temos de ter excedentes).
Um dos sectores que exporta, e que tem potencial de exportar ainda mais, é o sector vitivinícola. As empresas que produzem vinho têm recentemente também apostado no turismo, o que também significa “exportações”. Cumulativamente estão quase todas localizadas no interior, pelo que significa natural fixação de populações nesses espaços cada vez mais desertos. E por fim temos ainda o facto de muitas dessas empresas estarem associadas a património arquitectónico e cultural de evidente interesse nacional. Temos então quatro factores poderosíssimos em jogo: Exportação de vinho, turismo (também significa exportação), fixação natural de populações no interior, e protecção de património.
Sei, e aqui já o defendi, que o IVA não afecta as exportações, pelo que faria sentido, e à primeira vista, aumentar o IVA do vinho para a taxa máxima. Mas acontece que neste sector existem muitas empresas (talvez a maioria) onde a exportação significa não mais que uns meros 25% do total das suas vendas, pelo que um rombo no mercado interno, por via do aumento do IVA e consequente redução de consumo, pode por certo prejudicar fatalmente a sua sobrevivência, especialmente quando o sector sofre actualmente de sobre produção e se verifica uma queda generalizada de preços. Ou seja, a ideia é proteger ao máximo um sector que para exportar mais precisa de um significativo mercado interno. Isto é tanto mais válido quando ponderado com o facto de sermos 10 milhões, o que não potencia com facilidade economias de escala.
Por outro lado temos os ditos achocolatados. Ora a produção de achocolatados encontra-se num sector que se caracteriza por ser constituído por meia dúzia de empresas, quase todas elas bem geridas, modernas, respirando saúde financeira, e para as quais os achocolatados representam uma pequena parte do seu negócio. Ou seja, têm mecanismos e “almofadas” mais do que suficientes para acomodar aumentos de IVA em alguns dos seus produtos sem prejudicar a sua sobrevivência e capacidade de gerar lucros.
Pela curta perspectiva descrita encontro uma explicação para o aumento do IVA dos achocolatados e manutenção do IVA para o vinho. Explicação que até merece a minha simpatia quando me visto exclusivamente de economia. No entanto, e porque tenho gosto em diferenciar “explicação” de “justificação” direi que o exposto só justifica ainda mais o que tenho defendido: o aumento da taxa máxima de IVA para valores ainda superiores aos actuais (tipo 26 ou 27%, ou mais). Assim evito situações em que o IVA dos achocolatados é superior ao do vinho “com justa causa económica”. Não digo que com a taxa máxima de IVA a 27% a economia não mais desafie a moral, mas pelo menos mitigo ao máximo essa possibilidade. E já agora, até talvez desse para baixar a taxa reduzida do IVA… e, imagine-se, até colocar lá os ditos achocolatados.
O meu ilustre amigo e companheiro bloguista Miguel Alvim sugere como sendo injusto que o vinho seja sujeito a uma taxa de IVA reduzida e que os achocolatados sejam sujeitos à taxa de IVA máxima. Do ponto de vista moral, e com base num julgamento imediato, associo-me ao sentimento de revolta. É confuso que seja mais taxado algo que com frequência se pode dar a uma criança para efeitos de alimentação do que algo que os adultos podem consumir para efeitos de prazer, ainda que a espaços.
Mas o inconveniente e “injusto” mundo da economia por vezes trata de desvirtuar certos princípios aceites por todos aconselhando um tratamento contrário aos princípios gerais, e quiçá, desafiando até a própria moral. Nomeadamente quando governantes incompetentes têm oportunidade de entrar em cena. Nestes casos os fenómenos desta natureza tendem então a proliferar como cogumelos. Ou seja, os governantes em vez de mitigarem os efeitos nefastos da economia, tratam antes de os acentuar.
Passo a explicar. Resumidamente, e como já é do conhecimento de todos, precisamos desesperadamente, reitero com ênfase, DESESPERADAMENTE, de exportar mais e de reduzir DESESPERADAMENTE o nosso défice público (pessoalmente já aqui defendi que doravante temos de ter excedentes).
Um dos sectores que exporta, e que tem potencial de exportar ainda mais, é o sector vitivinícola. As empresas que produzem vinho têm recentemente também apostado no turismo, o que também significa “exportações”. Cumulativamente estão quase todas localizadas no interior, pelo que significa natural fixação de populações nesses espaços cada vez mais desertos. E por fim temos ainda o facto de muitas dessas empresas estarem associadas a património arquitectónico e cultural de evidente interesse nacional. Temos então quatro factores poderosíssimos em jogo: Exportação de vinho, turismo (também significa exportação), fixação natural de populações no interior, e protecção de património.
Sei, e aqui já o defendi, que o IVA não afecta as exportações, pelo que faria sentido, e à primeira vista, aumentar o IVA do vinho para a taxa máxima. Mas acontece que neste sector existem muitas empresas (talvez a maioria) onde a exportação significa não mais que uns meros 25% do total das suas vendas, pelo que um rombo no mercado interno, por via do aumento do IVA e consequente redução de consumo, pode por certo prejudicar fatalmente a sua sobrevivência, especialmente quando o sector sofre actualmente de sobre produção e se verifica uma queda generalizada de preços. Ou seja, a ideia é proteger ao máximo um sector que para exportar mais precisa de um significativo mercado interno. Isto é tanto mais válido quando ponderado com o facto de sermos 10 milhões, o que não potencia com facilidade economias de escala.
Por outro lado temos os ditos achocolatados. Ora a produção de achocolatados encontra-se num sector que se caracteriza por ser constituído por meia dúzia de empresas, quase todas elas bem geridas, modernas, respirando saúde financeira, e para as quais os achocolatados representam uma pequena parte do seu negócio. Ou seja, têm mecanismos e “almofadas” mais do que suficientes para acomodar aumentos de IVA em alguns dos seus produtos sem prejudicar a sua sobrevivência e capacidade de gerar lucros.
Pela curta perspectiva descrita encontro uma explicação para o aumento do IVA dos achocolatados e manutenção do IVA para o vinho. Explicação que até merece a minha simpatia quando me visto exclusivamente de economia. No entanto, e porque tenho gosto em diferenciar “explicação” de “justificação” direi que o exposto só justifica ainda mais o que tenho defendido: o aumento da taxa máxima de IVA para valores ainda superiores aos actuais (tipo 26 ou 27%, ou mais). Assim evito situações em que o IVA dos achocolatados é superior ao do vinho “com justa causa económica”. Não digo que com a taxa máxima de IVA a 27% a economia não mais desafie a moral, mas pelo menos mitigo ao máximo essa possibilidade. E já agora, até talvez desse para baixar a taxa reduzida do IVA… e, imagine-se, até colocar lá os ditos achocolatados.
Nada como a realidade para dobrar a ignorância
QUARTA-FEIRA, 20 DE OUTUBRO DE 2010
Aqui há uns oito anos atrás ia defendendo que os preços da habitação um dia acabariam por começar a descer gradualmente. Sempre que defendia essa tese quase todas as vozes se erguiam em uníssono contra tamanha heresia. Diziam que terrenos e casas são bens “sempre a valorizar”, que a terra “não foge”, etc. E sempre com ares de entendidos. Timidamente, e sem ser um conhecedor profundo dos valores e séries históricas do imobiliário, ainda contra argumentava com o caso da Suécia (penso que ocorrido nos anos 60) e do Japão (desde 1990). De pouco servia. A arrogância seguia imparável.
Hoje a rádio Irlandesa noticiava que os preços das casas na Irlanda estão ao nível dos preços de 2002. E que nos primeiros nove meses do ano os preços desceram, em média, 12,5% relativamente ao ano anterior. Noticiavam também que o preço médio das casas é actualmente de 200.000 euros quando no pico máximo foi de 310.000 euros.
Comentando a notícia com alguns Irlandeses estes diziam-me que os preços ainda vão descer mais. Não sei se o vão ou não, mas pelo menos a realidade tem demonstrado ser mais forte do que frases soltas com bases pouco sólidas. Enfim, mais uma situação em que verifico que em Portugal a ignorância tende a falar demasiado alto, especialmente quando encontra interlocutores com alguma dose de modéstia nas opiniões que formulam.
Não há nada como a realidade para dobrar a ignorância e colocá-la no seu devido lugar.
Aqui há uns oito anos atrás ia defendendo que os preços da habitação um dia acabariam por começar a descer gradualmente. Sempre que defendia essa tese quase todas as vozes se erguiam em uníssono contra tamanha heresia. Diziam que terrenos e casas são bens “sempre a valorizar”, que a terra “não foge”, etc. E sempre com ares de entendidos. Timidamente, e sem ser um conhecedor profundo dos valores e séries históricas do imobiliário, ainda contra argumentava com o caso da Suécia (penso que ocorrido nos anos 60) e do Japão (desde 1990). De pouco servia. A arrogância seguia imparável.
Hoje a rádio Irlandesa noticiava que os preços das casas na Irlanda estão ao nível dos preços de 2002. E que nos primeiros nove meses do ano os preços desceram, em média, 12,5% relativamente ao ano anterior. Noticiavam também que o preço médio das casas é actualmente de 200.000 euros quando no pico máximo foi de 310.000 euros.
Comentando a notícia com alguns Irlandeses estes diziam-me que os preços ainda vão descer mais. Não sei se o vão ou não, mas pelo menos a realidade tem demonstrado ser mais forte do que frases soltas com bases pouco sólidas. Enfim, mais uma situação em que verifico que em Portugal a ignorância tende a falar demasiado alto, especialmente quando encontra interlocutores com alguma dose de modéstia nas opiniões que formulam.
Não há nada como a realidade para dobrar a ignorância e colocá-la no seu devido lugar.
Quando os resultados dos bancos correm mal…
SEGUNDA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO DE 2010
Quando os resultados dos bancos correm mal as coisas podem ficar muito feias. Muito mais do que podemos imaginar, mesmo para quem está habituado a lidar com números de uma certa grandeza. Tomemos como exemplo o principal banco da Irlanda. Iam os nossos companheiros europeus Irlandeses com um défice de 8%, o equivalente ao nosso défice actual, quando os contribuintes tiveram a triste notícia que afinal o défice saltou para 32% em resultado de um contributo muito especial de uns investimentos que “correram mal” efectuados pela banca.
25% do que se produz anualmente num país correspondente a investimentos que “correram mal” e que devem ser cobertos pelos contribuintes é um sarilho dos diabos. Equivale “somente” a ¼ do que o que um país produziu num ano. Por isso rezo e regozijo-me quando vejo os bancos de Portugal com lucros. Se são taxados a 25%, 20% ou 10% é coisa que me incomoda pouco. A história recente até convidará a reflectir que baixas taxas sobre os lucros potenciarão maiores lucros no futuro o que resulta em mais colecta (prefiro taxar 15% sobre 1000 do que 30% sobre 300). O que me incomoda mais é pensar que ¼ do que Portugal produziu num ano tem que ser pago nos próximos anos com os impostos dos Portugueses porque alguns investimentos “correram mal”.
O ataque aos bancos é geralmente feito por demagogos e invejosos. Espécies desta natureza não faltam em Portugal, pelo que não é de estranhar que esse discurso tenha sucesso. Especialmente se tiverem a ajuda preciosa de banqueiros que se embriagam (BPP) ou que aldrabam (BPN), e bancários egocentristas e megalómanos (BCP). Mas isto são casos pontuais, que aliás existirão noutros sectores também. Imperfeições. No fundo no fundo são homens e mulheres.
Muito pragmaticamente, e independentemente da opinião que possamos ter de banqueiros e bancários, há uma coisa que eu sei: não quero a banca com prejuízos. Venha a supervisão que vier ou que seja necessária, queixem-se os banqueiros e bancários com isso se o entenderem. Com isso podemos bem. Podemos mal é com rombos de 25% do que se produz num ano a ser pago nos anos futuros porque “correu mal”.
Quando os resultados dos bancos correm mal as coisas podem ficar muito feias. Muito mais do que podemos imaginar, mesmo para quem está habituado a lidar com números de uma certa grandeza. Tomemos como exemplo o principal banco da Irlanda. Iam os nossos companheiros europeus Irlandeses com um défice de 8%, o equivalente ao nosso défice actual, quando os contribuintes tiveram a triste notícia que afinal o défice saltou para 32% em resultado de um contributo muito especial de uns investimentos que “correram mal” efectuados pela banca.
25% do que se produz anualmente num país correspondente a investimentos que “correram mal” e que devem ser cobertos pelos contribuintes é um sarilho dos diabos. Equivale “somente” a ¼ do que o que um país produziu num ano. Por isso rezo e regozijo-me quando vejo os bancos de Portugal com lucros. Se são taxados a 25%, 20% ou 10% é coisa que me incomoda pouco. A história recente até convidará a reflectir que baixas taxas sobre os lucros potenciarão maiores lucros no futuro o que resulta em mais colecta (prefiro taxar 15% sobre 1000 do que 30% sobre 300). O que me incomoda mais é pensar que ¼ do que Portugal produziu num ano tem que ser pago nos próximos anos com os impostos dos Portugueses porque alguns investimentos “correram mal”.
O ataque aos bancos é geralmente feito por demagogos e invejosos. Espécies desta natureza não faltam em Portugal, pelo que não é de estranhar que esse discurso tenha sucesso. Especialmente se tiverem a ajuda preciosa de banqueiros que se embriagam (BPP) ou que aldrabam (BPN), e bancários egocentristas e megalómanos (BCP). Mas isto são casos pontuais, que aliás existirão noutros sectores também. Imperfeições. No fundo no fundo são homens e mulheres.
Muito pragmaticamente, e independentemente da opinião que possamos ter de banqueiros e bancários, há uma coisa que eu sei: não quero a banca com prejuízos. Venha a supervisão que vier ou que seja necessária, queixem-se os banqueiros e bancários com isso se o entenderem. Com isso podemos bem. Podemos mal é com rombos de 25% do que se produz num ano a ser pago nos anos futuros porque “correu mal”.
Apreciar o momento histórico que vivemos
DOMINGO, 10 DE OUTUBRO DE 2010
O momento histórico que atravessamos é extraordinário. Vivemos numa época de extrema liberdade individual, com um acesso muito facilitado à informação e educação, com facilidade de partilha e gozo do que o mundo tem para nos oferecer, seja em termos materiais ou culturais. Vivemos numa fase em que centenas de milhões de pessoas foram retiradas do estado de extrema pobreza, nomeadamente na China e Índia (vão lá os esquerdistas botar discurso anti-globalização e vão ver o pontapé que levam), e a perspectiva é que muitas outras centenas de milhões possam ver as suas condições de vida serem melhoradas, nomeadamente na América do Sul e África.
A Globalização tem dado a oportunidade de muitos outros povos se sentarem à mesa do bem-estar, coisa que pensávamos estar só ao alcance dos EUA, Europa do Norte, e alguns outros países (como a Austrália ou a Nova Zelândia). Para isso muito contribuíram as empresas multinacionais, verdadeiros predadores de cérebros por esse mundo fora, independentemente da raça, cor, ou qualquer outro atributo passível de discriminação negativa.
O Conhecimento vê assim, finalmente, e pela mão das multinacionais, ver-lhe reconhecido o papel fundamental que tem como recurso económico, para além da Terra, do Capital, e do Trabalho manual. A sua característica intrinsecamente democrática, porque baseada na meritocracia, potencia a mobilidade social, e consequentemente alimenta justamente a esperança de melhoria das condições de vida dos menos afortunados economicamente.
A mobilidade geográfica nunca foi tão fácil, permitindo que a classe média usufruísse daquilo que anteriormente estava somente ao alcance dos ricos. Inúmeros aeroportos, viagens baratas, e proliferação de hotéis acessíveis, permitem o gozo e a beleza de conhecer de perto outros povos e outras culturas. É uma maravilha ter a possibilidade de fazer escapadas de fim-de-semana por essas cidades europeias. Nem os Reis sonhariam em gozar estas facilidades há 100 anos atrás.
Claro que todas estas facilidades nos impõem novos desafios, nomeadamente na gestão do nosso tempo, tão arduamente disputado por tanta oferta disponível, e na gestão da nossa vida espiritual, que nos querem vender ser de impossível conciliação com o bem-estar material. Mas até nisso o desafio pode ser maravilhoso no caso de considerarmos que ter um desafio é algo positivo. Por mim não duvido de que necessitamos bastante de equilíbrio espiritual para melhor discernir sobre a abundância material. Aliás, os últimos 25 anos em Portugal são uma excelente prova em como o abandono da vida espiritual foi pernicioso face às novas abundâncias materiais proporcionadas pelos juros baixos e pela facilidade na contracção de dívida.
Mas talvez o maior desafio resida no discernimento em decidir sobre quem devemos ouvir. Há demasiado ruído nos media (televisão, jornal, blogosfera, etc.). A ignorância e o soundbyte falam muito alto deixando pouco espaço para o pensamento maduro e responsável. É extraordinariamente difícil nos dias de hoje passar a mensagem ponderada, fruto da reflexão e da seriedade, como que estas características sejam de combinação impossível com os meios em vigor e com os responsáveis dos mesmos. Talvez em épocas de crise muito profunda haja mais espaço para a razão pois os espíritos nas épocas de crise necessitam de ser conduzidos.
Para tornar este momento histórico mais aprazível tratemos de ouvir a razão dos que reflectem seriamente e tratemos de afastar os inconscientes e marotos dos microfones.
O momento histórico que atravessamos é extraordinário. Vivemos numa época de extrema liberdade individual, com um acesso muito facilitado à informação e educação, com facilidade de partilha e gozo do que o mundo tem para nos oferecer, seja em termos materiais ou culturais. Vivemos numa fase em que centenas de milhões de pessoas foram retiradas do estado de extrema pobreza, nomeadamente na China e Índia (vão lá os esquerdistas botar discurso anti-globalização e vão ver o pontapé que levam), e a perspectiva é que muitas outras centenas de milhões possam ver as suas condições de vida serem melhoradas, nomeadamente na América do Sul e África.
A Globalização tem dado a oportunidade de muitos outros povos se sentarem à mesa do bem-estar, coisa que pensávamos estar só ao alcance dos EUA, Europa do Norte, e alguns outros países (como a Austrália ou a Nova Zelândia). Para isso muito contribuíram as empresas multinacionais, verdadeiros predadores de cérebros por esse mundo fora, independentemente da raça, cor, ou qualquer outro atributo passível de discriminação negativa.
O Conhecimento vê assim, finalmente, e pela mão das multinacionais, ver-lhe reconhecido o papel fundamental que tem como recurso económico, para além da Terra, do Capital, e do Trabalho manual. A sua característica intrinsecamente democrática, porque baseada na meritocracia, potencia a mobilidade social, e consequentemente alimenta justamente a esperança de melhoria das condições de vida dos menos afortunados economicamente.
A mobilidade geográfica nunca foi tão fácil, permitindo que a classe média usufruísse daquilo que anteriormente estava somente ao alcance dos ricos. Inúmeros aeroportos, viagens baratas, e proliferação de hotéis acessíveis, permitem o gozo e a beleza de conhecer de perto outros povos e outras culturas. É uma maravilha ter a possibilidade de fazer escapadas de fim-de-semana por essas cidades europeias. Nem os Reis sonhariam em gozar estas facilidades há 100 anos atrás.
Claro que todas estas facilidades nos impõem novos desafios, nomeadamente na gestão do nosso tempo, tão arduamente disputado por tanta oferta disponível, e na gestão da nossa vida espiritual, que nos querem vender ser de impossível conciliação com o bem-estar material. Mas até nisso o desafio pode ser maravilhoso no caso de considerarmos que ter um desafio é algo positivo. Por mim não duvido de que necessitamos bastante de equilíbrio espiritual para melhor discernir sobre a abundância material. Aliás, os últimos 25 anos em Portugal são uma excelente prova em como o abandono da vida espiritual foi pernicioso face às novas abundâncias materiais proporcionadas pelos juros baixos e pela facilidade na contracção de dívida.
Mas talvez o maior desafio resida no discernimento em decidir sobre quem devemos ouvir. Há demasiado ruído nos media (televisão, jornal, blogosfera, etc.). A ignorância e o soundbyte falam muito alto deixando pouco espaço para o pensamento maduro e responsável. É extraordinariamente difícil nos dias de hoje passar a mensagem ponderada, fruto da reflexão e da seriedade, como que estas características sejam de combinação impossível com os meios em vigor e com os responsáveis dos mesmos. Talvez em épocas de crise muito profunda haja mais espaço para a razão pois os espíritos nas épocas de crise necessitam de ser conduzidos.
Para tornar este momento histórico mais aprazível tratemos de ouvir a razão dos que reflectem seriamente e tratemos de afastar os inconscientes e marotos dos microfones.
Os garotos não se entendem
SÁBADO, 9 DE OUTUBRO DE 2010
O PS e o PSD parecem que não se entendem na questão do orçamento. É natural, a factura do desnorteio dos últimos 25 anos chegou mais cedo do que o previsto devido a uma inconveniente crise financeira internacional. E agora a rapaziada fruto dos aparelhos partidários vê-se com a batata quente nas mãos, que é como quem diz, vê-se envolta num cenário para o qual não foram formatados como pessoas. É que em alturas de crise não há espaço para dislates, deslizes, incompetências, jogos partidários, mexericos, tráfico de influências, etc.
Há muita mudança em curso na sociedade de uma dimensão anda difícil de abarcar, mesmo para o mais atento e astuto dos cidadãos. São mudanças muito profundas, das quais destaco a decadência demográfica agora iniciada, o novo surto emigratório, a inversão de expectativas de vida e de percursos profissionais resultado da redução do volume de consumo e a extrema necessidade de produzir mais e de pagar a dívida externa, o acentuar da competição a nível mundial com a entrada no “campeonato” de novos povos tidos até agora como de segunda e como nossos servidores (muitos deles são os nossos credores), e por fim a manutenção da nossa produtividade a um nível incompatível com as nossas expectativas de cuidados de saúde e de reforma (que mais não são do que os níveis que actualmente possuímos). E tudo isto terá impacto para os próximos 40 anos.
Esta avalanche irreversivelmente adversa de elementos de grande dimensão não encontra boa resposta nos actuais actores políticos. Estes vivem numa realidade onde a manipulação é o factor chave para alcançar aquilo que eles pensam ser o sucesso e para regular a relação entre eles e o povo. Ora nesta fase da vida da nossa Nação o que é fundamental é explicar com naturalidade aos Portugueses todos os elementos que os afectam neste momento. Não temos que pedir que os Portugueses gostem ou desgostem da realidade, ou que ainda concordem ou discordem da mesma. Somente temos que os guiar de acordo com a nova realidade, que, como já nos apercebemos, não é nada fácil. E isto não é tarefa para garotos, é antes tarefa para homens.
Garotos com poder em situações de aperto são o pano de fundo de um enredo para um filme de terror.
O PS e o PSD parecem que não se entendem na questão do orçamento. É natural, a factura do desnorteio dos últimos 25 anos chegou mais cedo do que o previsto devido a uma inconveniente crise financeira internacional. E agora a rapaziada fruto dos aparelhos partidários vê-se com a batata quente nas mãos, que é como quem diz, vê-se envolta num cenário para o qual não foram formatados como pessoas. É que em alturas de crise não há espaço para dislates, deslizes, incompetências, jogos partidários, mexericos, tráfico de influências, etc.
Há muita mudança em curso na sociedade de uma dimensão anda difícil de abarcar, mesmo para o mais atento e astuto dos cidadãos. São mudanças muito profundas, das quais destaco a decadência demográfica agora iniciada, o novo surto emigratório, a inversão de expectativas de vida e de percursos profissionais resultado da redução do volume de consumo e a extrema necessidade de produzir mais e de pagar a dívida externa, o acentuar da competição a nível mundial com a entrada no “campeonato” de novos povos tidos até agora como de segunda e como nossos servidores (muitos deles são os nossos credores), e por fim a manutenção da nossa produtividade a um nível incompatível com as nossas expectativas de cuidados de saúde e de reforma (que mais não são do que os níveis que actualmente possuímos). E tudo isto terá impacto para os próximos 40 anos.
Esta avalanche irreversivelmente adversa de elementos de grande dimensão não encontra boa resposta nos actuais actores políticos. Estes vivem numa realidade onde a manipulação é o factor chave para alcançar aquilo que eles pensam ser o sucesso e para regular a relação entre eles e o povo. Ora nesta fase da vida da nossa Nação o que é fundamental é explicar com naturalidade aos Portugueses todos os elementos que os afectam neste momento. Não temos que pedir que os Portugueses gostem ou desgostem da realidade, ou que ainda concordem ou discordem da mesma. Somente temos que os guiar de acordo com a nova realidade, que, como já nos apercebemos, não é nada fácil. E isto não é tarefa para garotos, é antes tarefa para homens.
Garotos com poder em situações de aperto são o pano de fundo de um enredo para um filme de terror.
Curto resumo do que faria um governo sensato nas actuais circunstâncias
QUARTA-FEIRA, 6 DE OUTUBRO DE 2010
As circunstâncias económico financeiras actuais condicionam em muito as possibilidades de governação. No entanto, a governação não é algo que dependa das circunstâncias. O acto de governar é o resultado de se estar em posição de comando, e essa posição é, e sempre será, única no tempo. Um governante que se preze não se queixa pois ele sabe que a sua função é governar perante as circunstâncias do momento e não sobre as circunstâncias que ele toma como sendo as ideais. Tão pouco deve ignorar as circunstâncias e seguir em frente com as medidas que ele toma como as que melhor se adaptam à sua filosofia.
Um exemplo do que acima descrevo está relacionado com a fiscalidade. Entendo que um baixo nível de fiscalidade é o que melhor serve uma sociedade pois é aquele onde a iniciativa privada mais se liberta e aquele onde os tributáveis menos sentem o despotismo dos que tributam e dos que vivem do tributo. No entanto, podem as circunstâncias toldar as possibilidades e aconselhar o caminho inverso, ainda que provisoriamente.
Neste sentido passo a enumerar o que um governo sensato deverá decretar nas actuais circunstâncias e o porquê de cada medida. Nota: o que abaixo enumero resume-se à realidade económica e financeira. A governação, como é óbvio, excede estas realidades, embora a não observância da boa gestão económica e financeira tolha as possibilidades nas outras áreas. Aliás, isso hoje começa a parecer muito evidente.
Realidade financeira: dívida externa em 2013 deverá ser de 100% do PIB ou mais. E a tendência é para continuar a crescer se nada for feito. Juros cobrados no refinanciamento da dívida a um nível já desmesuradamente elevado.
As realidades:
Realidade económica: perca de quota de mercado no mercado mundial de bens e serviços; consumo é superior à produção desde há largos anos.
Realidade produtiva: produtividade com crescimento muito baixo e num patamar facilmente alcançável por muitos países ainda atrás de nós.
Realidade social: população em decréscimo até 2050. Pode atingir 30%, ou mais. Mentalidade em vigor é "socializante".
Objectivo das medidas:
1. Acabar com os défices e passar a ter excedentes de 5% do PIB
2. Passar a mensagem à população que um País não pode consumir mais do que aquilo que produz
3. Passar o sinal de que produzir é compensador
4. Passar o sinal de que exportar é a solução para os próximos 40 anos
5. Passar o sinal de que o mercado é a medida de sucesso económico de um povo, de uma empresa e de uma pessoa, e de que a meritocracia é o mecanismo pelo qual se maximiza o sucesso global
6. Passar o sinal de que a frugalidade é virtuosa, principalmente quando 40% da população vive em situação de pobreza ou quase pobreza; cumulativamente gerar solidariedade via comportamento face ao consumo (IVA) e não face ao que se produz (IRS)
Medidas:
1. Subir o IVA do escalão mais elevado para 26% ou 27%. Descer o IVA do escalão mais baixo para 5%. IVA especial para o turismo de 15%
2. Descer as taxas de IRS em 3 ou 4 pontos percentuais
3. Subir o imposto automóvel em 20%. Terá que ser o mais alto da União Europeia
4. Subir o imposto sobre os produtos petrolíferos em 30%
5. Subir o imposto sobre o tabaco em 20%
6. Acabar com o mecanismo de promoções automáticas na Função Pública
7. Reduzir os salários da Função Pública em 10%
8. Congelar os rendimentos da Função Pública até 2020
9. Eliminar uma série de Institutos e "outras gorduras". A maioria dos cortes deverá ser radical.
10. Redução gradual do número de funcionários públicos.
11. Cancelar por completo os dislates de NAL e TGVs
12. Pensar a logística do País com os agentes económicos; dotar de eficiência as estruturas aeroportuárias existentes combinando-as com inteligência
13. Pensar no preçário do aeroporto de Lisboa e de como isso pode estar a prejudicar o tráfego aéreo, nomeadamente de turistas
14. Combater com mais eficácia o neo-esclavagismo existente em muitas empresas no que respeita às cargas horárias, nomeadamente em muitas profissões liberais.
15. Incrementar o benefício fiscal para famílias com 2 filhos
Notas:
1. O aumento do IVA não perturba em nada as exportações; reforça a solidariedade via consumo
2. O decréscimo do IVA do escalão mais baixo facilita os escalões de menores rendimentos
3. Descer o IRS premeia o trabalho
4. Promover o transporte público em detrimento do transporte privado. Nota: o valor dos passes sociais deverá abater no IRS
5. O Estado não deve ser visto como o "salvador" do Lusitano. O salvador do Lusitano é o mundo e os seus mercados. A Globalização é o nosso meio natural. A repartição não o é.
6. Fumar é um vício e isso deve ser penalizado no actual quadro financeiro do País
7. O turismo é a actividade crucial neste País para os próximos 40 anos.
8. A medida 14 visa combater a baixa taxa de natalidade
9. A medida 15 visa tornar mais atractivo a opção por um segundo filho. É aqui que se joga a maior parte da opção por mais filhos
Poder-se-á discordar destas medidas individualmente ou no grau de cada uma. Mas pelo menos teriam a virtude de passar sinais muito claros ao Portugueses, que, e para quem ainda não se apercebeu, se encontram muito confusos perante o que se está a passar.
Governar nem é assim tão difícil. É só preciso ter cabeça, ouvir, ser humilde, conhecer a massa de que são feitos os governados, e perceber o mundo e o que nos pode daí afectar positiva e negativamente. E acima de tudo ter frieza e distanciamento do calor dos acontecimentos.
As circunstâncias económico financeiras actuais condicionam em muito as possibilidades de governação. No entanto, a governação não é algo que dependa das circunstâncias. O acto de governar é o resultado de se estar em posição de comando, e essa posição é, e sempre será, única no tempo. Um governante que se preze não se queixa pois ele sabe que a sua função é governar perante as circunstâncias do momento e não sobre as circunstâncias que ele toma como sendo as ideais. Tão pouco deve ignorar as circunstâncias e seguir em frente com as medidas que ele toma como as que melhor se adaptam à sua filosofia.
Um exemplo do que acima descrevo está relacionado com a fiscalidade. Entendo que um baixo nível de fiscalidade é o que melhor serve uma sociedade pois é aquele onde a iniciativa privada mais se liberta e aquele onde os tributáveis menos sentem o despotismo dos que tributam e dos que vivem do tributo. No entanto, podem as circunstâncias toldar as possibilidades e aconselhar o caminho inverso, ainda que provisoriamente.
Neste sentido passo a enumerar o que um governo sensato deverá decretar nas actuais circunstâncias e o porquê de cada medida. Nota: o que abaixo enumero resume-se à realidade económica e financeira. A governação, como é óbvio, excede estas realidades, embora a não observância da boa gestão económica e financeira tolha as possibilidades nas outras áreas. Aliás, isso hoje começa a parecer muito evidente.
Realidade financeira: dívida externa em 2013 deverá ser de 100% do PIB ou mais. E a tendência é para continuar a crescer se nada for feito. Juros cobrados no refinanciamento da dívida a um nível já desmesuradamente elevado.
As realidades:
Realidade económica: perca de quota de mercado no mercado mundial de bens e serviços; consumo é superior à produção desde há largos anos.
Realidade produtiva: produtividade com crescimento muito baixo e num patamar facilmente alcançável por muitos países ainda atrás de nós.
Realidade social: população em decréscimo até 2050. Pode atingir 30%, ou mais. Mentalidade em vigor é "socializante".
Objectivo das medidas:
1. Acabar com os défices e passar a ter excedentes de 5% do PIB
2. Passar a mensagem à população que um País não pode consumir mais do que aquilo que produz
3. Passar o sinal de que produzir é compensador
4. Passar o sinal de que exportar é a solução para os próximos 40 anos
5. Passar o sinal de que o mercado é a medida de sucesso económico de um povo, de uma empresa e de uma pessoa, e de que a meritocracia é o mecanismo pelo qual se maximiza o sucesso global
6. Passar o sinal de que a frugalidade é virtuosa, principalmente quando 40% da população vive em situação de pobreza ou quase pobreza; cumulativamente gerar solidariedade via comportamento face ao consumo (IVA) e não face ao que se produz (IRS)
Medidas:
1. Subir o IVA do escalão mais elevado para 26% ou 27%. Descer o IVA do escalão mais baixo para 5%. IVA especial para o turismo de 15%
2. Descer as taxas de IRS em 3 ou 4 pontos percentuais
3. Subir o imposto automóvel em 20%. Terá que ser o mais alto da União Europeia
4. Subir o imposto sobre os produtos petrolíferos em 30%
5. Subir o imposto sobre o tabaco em 20%
6. Acabar com o mecanismo de promoções automáticas na Função Pública
7. Reduzir os salários da Função Pública em 10%
8. Congelar os rendimentos da Função Pública até 2020
9. Eliminar uma série de Institutos e "outras gorduras". A maioria dos cortes deverá ser radical.
10. Redução gradual do número de funcionários públicos.
11. Cancelar por completo os dislates de NAL e TGVs
12. Pensar a logística do País com os agentes económicos; dotar de eficiência as estruturas aeroportuárias existentes combinando-as com inteligência
13. Pensar no preçário do aeroporto de Lisboa e de como isso pode estar a prejudicar o tráfego aéreo, nomeadamente de turistas
14. Combater com mais eficácia o neo-esclavagismo existente em muitas empresas no que respeita às cargas horárias, nomeadamente em muitas profissões liberais.
15. Incrementar o benefício fiscal para famílias com 2 filhos
Notas:
1. O aumento do IVA não perturba em nada as exportações; reforça a solidariedade via consumo
2. O decréscimo do IVA do escalão mais baixo facilita os escalões de menores rendimentos
3. Descer o IRS premeia o trabalho
4. Promover o transporte público em detrimento do transporte privado. Nota: o valor dos passes sociais deverá abater no IRS
5. O Estado não deve ser visto como o "salvador" do Lusitano. O salvador do Lusitano é o mundo e os seus mercados. A Globalização é o nosso meio natural. A repartição não o é.
6. Fumar é um vício e isso deve ser penalizado no actual quadro financeiro do País
7. O turismo é a actividade crucial neste País para os próximos 40 anos.
8. A medida 14 visa combater a baixa taxa de natalidade
9. A medida 15 visa tornar mais atractivo a opção por um segundo filho. É aqui que se joga a maior parte da opção por mais filhos
Poder-se-á discordar destas medidas individualmente ou no grau de cada uma. Mas pelo menos teriam a virtude de passar sinais muito claros ao Portugueses, que, e para quem ainda não se apercebeu, se encontram muito confusos perante o que se está a passar.
Governar nem é assim tão difícil. É só preciso ter cabeça, ouvir, ser humilde, conhecer a massa de que são feitos os governados, e perceber o mundo e o que nos pode daí afectar positiva e negativamente. E acima de tudo ter frieza e distanciamento do calor dos acontecimentos.
Vozes sensatas no PS que não se ouvem
SEGUNDA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO DE 2010
O socialista Henrique Neto, para além de empresário de sucesso, é daqueles Portugueses que sabe o que diz. A entrevista que deu no Público deve ser lida e relida. Destaco quando diz:
" Infelizmente, os nossos governantes não sabem da importância de ouvir os críticos, que é uma qualidade que está apenas ao alcance dos estadistas"
"...a dívida pública que os últimos governos deixaram acumular deveria constituir crime público. Porque nos tornou dependentes dos credores internacionais e coloca em causa o bem mais precioso de qualquer país, que é a independência nacional"
"Infelizmente, Portugal está na senda de escolher jovens primeiros-ministros que não sabem do que falam"
http://economia.publico.pt/Noticia/austeridade-nao-toca-na-gordura-do-estado-e-nos-interesses-da-oligarquia_1459311
http://economia.publico.pt/Noticia/divida-deveria-ser-considerada-crime-publico_1459312
O socialista Henrique Neto, para além de empresário de sucesso, é daqueles Portugueses que sabe o que diz. A entrevista que deu no Público deve ser lida e relida. Destaco quando diz:
" Infelizmente, os nossos governantes não sabem da importância de ouvir os críticos, que é uma qualidade que está apenas ao alcance dos estadistas"
"...a dívida pública que os últimos governos deixaram acumular deveria constituir crime público. Porque nos tornou dependentes dos credores internacionais e coloca em causa o bem mais precioso de qualquer país, que é a independência nacional"
"Infelizmente, Portugal está na senda de escolher jovens primeiros-ministros que não sabem do que falam"
http://economia.publico.pt/Noticia/austeridade-nao-toca-na-gordura-do-estado-e-nos-interesses-da-oligarquia_1459311
http://economia.publico.pt/Noticia/divida-deveria-ser-considerada-crime-publico_1459312
A alvorada das galinhas tontas
QUINTA-FEIRA, 30 DE SETEMBRO DE 2010
Aos 29 de Setembro de 2010 o Governo de Portugal acordou para a vida. O idílico sono em que se encontrava foi perturbado por essa coisa inconveniente chamada realidade. Incomodado com esta e sentindo-se ultrapassado por todos os acontecimentos dela decorrentes, o governo, de cabelos em pé e sem saber muito bem o que decidir, resolve disparar no sentido de reduzir o défice. É que ao acordar foi-lhe dito que a dívida acumulada e o défice corrente são mesmo de uma grandeza superior à que os despertados pensavam. Eles até sabiam disso, só não sabem bem é como lidar com a informação proactivamente.
Já acordados, mas ainda meio estremunhados, vai daí e resolvem mexer nos cordelinhos. E até os mexem no sentido correcto, mas quais galinhas tontas, perdem-se nas proporções (por defeito) e nos fundamentos de cada medida. Um bocadinho como aquelas pessoas no trabalho que se desculpam muito com decisões que foram forçadas a tomar. Mas neste caso, e por inerência da função, com um ar mais forçado e falsamente convicto, o que, aliás, é próprio dos espíritos mais distanciados da realidade.
No meio desta balbúrdia matinal, e misturando o frenesim da decisão com a neblina que envolve a realidade aos seus olhos, o Governo ainda tem o descaramento de dizer que ainda andamos a crescer umas gramas, que é como quem diz a um obeso que pode passar de 12 para 9 Bolas de Berlim se se disposer a fazer uma flexão por dia. Sem dúvida que propõe um cenário melhorado ao anterior, mas de forma alguma decepa a raiz do mal, com a agravante ainda de permitir a continuidade do mesmo.
Assim perdido, sabendo agora que o jogo afinal é de uma complexidade imprópria para a sua estrutura, o Governo doravante vai-se mostrar muito mais aguerrido pois é da natureza humana responder com impetuosidade quando se lida com uma realidade que mal se conhece, principalmente quando se é coxo na matéria em causa. Qualquer asserção sobre o "porquê só agora" e qualquer vontade de promover debate com base em argumentos terá sempre como resposta a necessidade de concentração na "realidade brutal" e nas "circunstâncias particularmente difíceis". Tudo o mais será considerado manobras de diversão de modo a dificultar a acção "corajosa" do Governo. E aliás, e muito pragmaticamente, argumentos é para quem tem cabeça.
Doravante teremos um Governo acordado. Não garantirá boa governação, tão pouco mediana. Garantirá somente que andará muito mais sobressaltado, o que, pelo menos, tem o condão de transmitir a grande parte da sociedade aquilo que ela não sente e que precisa de sentir: a existência de algo que anda por aí e que nos vai atingir um dia.
Aos 29 de Setembro de 2010 o Governo de Portugal acordou para a vida. O idílico sono em que se encontrava foi perturbado por essa coisa inconveniente chamada realidade. Incomodado com esta e sentindo-se ultrapassado por todos os acontecimentos dela decorrentes, o governo, de cabelos em pé e sem saber muito bem o que decidir, resolve disparar no sentido de reduzir o défice. É que ao acordar foi-lhe dito que a dívida acumulada e o défice corrente são mesmo de uma grandeza superior à que os despertados pensavam. Eles até sabiam disso, só não sabem bem é como lidar com a informação proactivamente.
Já acordados, mas ainda meio estremunhados, vai daí e resolvem mexer nos cordelinhos. E até os mexem no sentido correcto, mas quais galinhas tontas, perdem-se nas proporções (por defeito) e nos fundamentos de cada medida. Um bocadinho como aquelas pessoas no trabalho que se desculpam muito com decisões que foram forçadas a tomar. Mas neste caso, e por inerência da função, com um ar mais forçado e falsamente convicto, o que, aliás, é próprio dos espíritos mais distanciados da realidade.
No meio desta balbúrdia matinal, e misturando o frenesim da decisão com a neblina que envolve a realidade aos seus olhos, o Governo ainda tem o descaramento de dizer que ainda andamos a crescer umas gramas, que é como quem diz a um obeso que pode passar de 12 para 9 Bolas de Berlim se se disposer a fazer uma flexão por dia. Sem dúvida que propõe um cenário melhorado ao anterior, mas de forma alguma decepa a raiz do mal, com a agravante ainda de permitir a continuidade do mesmo.
Assim perdido, sabendo agora que o jogo afinal é de uma complexidade imprópria para a sua estrutura, o Governo doravante vai-se mostrar muito mais aguerrido pois é da natureza humana responder com impetuosidade quando se lida com uma realidade que mal se conhece, principalmente quando se é coxo na matéria em causa. Qualquer asserção sobre o "porquê só agora" e qualquer vontade de promover debate com base em argumentos terá sempre como resposta a necessidade de concentração na "realidade brutal" e nas "circunstâncias particularmente difíceis". Tudo o mais será considerado manobras de diversão de modo a dificultar a acção "corajosa" do Governo. E aliás, e muito pragmaticamente, argumentos é para quem tem cabeça.
Doravante teremos um Governo acordado. Não garantirá boa governação, tão pouco mediana. Garantirá somente que andará muito mais sobressaltado, o que, pelo menos, tem o condão de transmitir a grande parte da sociedade aquilo que ela não sente e que precisa de sentir: a existência de algo que anda por aí e que nos vai atingir um dia.
Os juros vão crescendo à séria... até chegar o FMI
QUARTA-FEIRA, 29 DE SETEMBRO DE 2010
Já vai em 6,64%. Os juros cobrados ao Gregos e que eram por estes considerados uma loucura estão a agora a chegar a Portugal. Obviamente não ficam por aqui. Continuarão paulatinamente a subir. Só descerão quando o que produzirmos for superior ao que consumimos, que é como quem diz, quando começarmos a pagar a dívida acumulada que possuímos.
À velocidade anual de 7 ou 8% de défice, e sem crescimento expressivo do produto (entre 0,5 a 1%) a bola de neve é assustadora. Claro que vai parar, é só os juros chegarem a 10% (lá chegaremos daqui a 2 ou 3 anos) e o défice acumulado chegar aos 120% do produto e veremos tudo a estrebuchar. Mas não vai ser preciso. A comunidade internacional vai pressionar muito e não chegaremos a esse ponto.
O resultado passará por uma intervenção do FMI no curto prazo de modo a estancar a grave ferida que temos. Até ao início do primeiro trimestre veremos os senhores do FMI pelos hotéis de Lisboa. Vai ser duro e as medidas vão ser tomadas a torto e a direito. IVA para os 26% e coisas do género. Não, não vai ser por onde devia, ou seja, redução da despesa. Essa será reduzida paulatinamente.
Quando o FMI começar a implementar essas medidas, que mais não é do que fazer o que o governo deveria estar a fazer, veremos os juros começarem a baixar. Os mercados ganharão confiança e consequentemente acalmarão, exigindo-nos menos juros pela contínua renovação da dívida corrente.
Mas atenção, será somente o primeiro passo. Isto porque "estancar" significa termos défice de 2% ou 3%. Como precisamos de excedentes e de uma nova forma de vida, que reitero, passa por produzirmos mais do que consumimos, uma segunda intervenção seguir-se-á lá para 2013 ou 2014. E esta passa por atacar os problemas estruturais do nosso País. Isto do "estrutural" é vago, mas concretizando um pouco, direi que o plano de construção de 2 ou 3 centrais nucleares estarão no pacote de medidas. É que importar muito mais energia do que a que é produzida é um dos pontos a serem corrigidos.
Mas por enquanto tratemos de aceitar a vinda do FMI porque com estes governantes não nos governamos. É uma vergonha não saber arrumar a casa.
Já vai em 6,64%. Os juros cobrados ao Gregos e que eram por estes considerados uma loucura estão a agora a chegar a Portugal. Obviamente não ficam por aqui. Continuarão paulatinamente a subir. Só descerão quando o que produzirmos for superior ao que consumimos, que é como quem diz, quando começarmos a pagar a dívida acumulada que possuímos.
À velocidade anual de 7 ou 8% de défice, e sem crescimento expressivo do produto (entre 0,5 a 1%) a bola de neve é assustadora. Claro que vai parar, é só os juros chegarem a 10% (lá chegaremos daqui a 2 ou 3 anos) e o défice acumulado chegar aos 120% do produto e veremos tudo a estrebuchar. Mas não vai ser preciso. A comunidade internacional vai pressionar muito e não chegaremos a esse ponto.
O resultado passará por uma intervenção do FMI no curto prazo de modo a estancar a grave ferida que temos. Até ao início do primeiro trimestre veremos os senhores do FMI pelos hotéis de Lisboa. Vai ser duro e as medidas vão ser tomadas a torto e a direito. IVA para os 26% e coisas do género. Não, não vai ser por onde devia, ou seja, redução da despesa. Essa será reduzida paulatinamente.
Quando o FMI começar a implementar essas medidas, que mais não é do que fazer o que o governo deveria estar a fazer, veremos os juros começarem a baixar. Os mercados ganharão confiança e consequentemente acalmarão, exigindo-nos menos juros pela contínua renovação da dívida corrente.
Mas atenção, será somente o primeiro passo. Isto porque "estancar" significa termos défice de 2% ou 3%. Como precisamos de excedentes e de uma nova forma de vida, que reitero, passa por produzirmos mais do que consumimos, uma segunda intervenção seguir-se-á lá para 2013 ou 2014. E esta passa por atacar os problemas estruturais do nosso País. Isto do "estrutural" é vago, mas concretizando um pouco, direi que o plano de construção de 2 ou 3 centrais nucleares estarão no pacote de medidas. É que importar muito mais energia do que a que é produzida é um dos pontos a serem corrigidos.
Mas por enquanto tratemos de aceitar a vinda do FMI porque com estes governantes não nos governamos. É uma vergonha não saber arrumar a casa.
Como evoluirão os preços do imobiliário em Portugal?
QUARTA-FEIRA, 22 DE SETEMBRO DE 2010
Sempre me impressionou a subida a que os preços do imobiliário foram sujeitos em Portugal desde a década de 90. Os juros baixos e a expansão do crédito à habitação fizeram "maravilhas" em matéria de evolução de preços. A "modernidade" que íamos conquistando à medida que nos íamos divorciando e separando (porque "tás a ver, a coisa não está a dar") dava imenso fulgor à expansão do T1 e T2, figurinos escassíssimos há 15 anos atrás. À medida que se ia casando cada vez mais tarde em combinação com a febre de adquirir casa e começar a viver sozinho fez com engrossou também a procura de casa. A demografia também jogava a favor ao engrossar as "tropas" compradoras. O final da década de 60 e toda a década de 70 encheu-se de habitantes que a partir da década de 90 estava em plena idade de comprar (outros tempos, outras taxas de fecundidade). A década de 90 viu ainda chegarem os imigrantes, gente que por sinal também tem por hábito querer casa para viver. Todo este conjunto de factores socio-económicos bem combinados fizeram explodir o preço do imobiliário.
Agora começou a jogar tudo ao contrário. Começando pelo fim direi que muitos imigrantes estão a ir embora (e mais se seguirão), a evolução da taxa de divórcios e separações manter-se-á inalterda, ou mesmo baixará, pois começa a não haver dinheiro para os casais se separarem (veremos mais o "tás a ver, há que lutar pelo casamento"). O desemprego, o medo e os salários cada vez mais baixos farão com que as pessoas sejam muito mais cautelosas e fiquem descansadamente em casa dos pais durante mais tempo. O aumento da emigração reduz ainda mais a quantidade de pessoas à procura de casa. Sim, havia disto na década de 50 e 60 do século passado, mas as elevadas taxas de fecundidade eram outras na altura...E por fim temos o mais poderoso factor que derrubará os preços: o eterno efeito demografico, esse factor fácil de prever mas quase nunca considerado nas análises. À velocidade de 1,3 desde cerca de 2000 o número de novos compradores vai-se reduzir bastante lá para 2025. E lembremo-nos que 2025 está tão longe quanto perto está 1995 quando o recém empossado pseudo PM via rosas e cantava alegremente na Assembleia da República as bonanças a que Portugal estava votado.
Todos estes factores juntos tratarão de trazer os preços do imobiliário para patamares impensáveis nos dias de hoje. Não me surpreenderá que daqui a 15 anos os preços das casas sejam metade dos preços de 2010 (a preços constantes). A tendência de baixa em vigor é fortíssima e segue paulatinamente o seu caminho. Não se vislumbram grandes mudanças nos factores que puxam os preços para baixo pois todos eles são o resultado de tendências de fundo e que não se invertem de um momento para o outro.
Não faz parte da minha visão das coisas achar bem ou mal a evolução das tendências passadas e futuras. Limito-me a observar e tentar perceber os fenómenos pelo que não formulo especiais desejos... menos um: que a banca portuguesa lide muito bem com este fenómeno.
Nota final: para ajudar à festa da descida dos preços veremos os juros irem para outros níveis. Taxas deste gabarito não durarão mais do que 3 a 4 anos.
Sempre me impressionou a subida a que os preços do imobiliário foram sujeitos em Portugal desde a década de 90. Os juros baixos e a expansão do crédito à habitação fizeram "maravilhas" em matéria de evolução de preços. A "modernidade" que íamos conquistando à medida que nos íamos divorciando e separando (porque "tás a ver, a coisa não está a dar") dava imenso fulgor à expansão do T1 e T2, figurinos escassíssimos há 15 anos atrás. À medida que se ia casando cada vez mais tarde em combinação com a febre de adquirir casa e começar a viver sozinho fez com engrossou também a procura de casa. A demografia também jogava a favor ao engrossar as "tropas" compradoras. O final da década de 60 e toda a década de 70 encheu-se de habitantes que a partir da década de 90 estava em plena idade de comprar (outros tempos, outras taxas de fecundidade). A década de 90 viu ainda chegarem os imigrantes, gente que por sinal também tem por hábito querer casa para viver. Todo este conjunto de factores socio-económicos bem combinados fizeram explodir o preço do imobiliário.
Agora começou a jogar tudo ao contrário. Começando pelo fim direi que muitos imigrantes estão a ir embora (e mais se seguirão), a evolução da taxa de divórcios e separações manter-se-á inalterda, ou mesmo baixará, pois começa a não haver dinheiro para os casais se separarem (veremos mais o "tás a ver, há que lutar pelo casamento"). O desemprego, o medo e os salários cada vez mais baixos farão com que as pessoas sejam muito mais cautelosas e fiquem descansadamente em casa dos pais durante mais tempo. O aumento da emigração reduz ainda mais a quantidade de pessoas à procura de casa. Sim, havia disto na década de 50 e 60 do século passado, mas as elevadas taxas de fecundidade eram outras na altura...E por fim temos o mais poderoso factor que derrubará os preços: o eterno efeito demografico, esse factor fácil de prever mas quase nunca considerado nas análises. À velocidade de 1,3 desde cerca de 2000 o número de novos compradores vai-se reduzir bastante lá para 2025. E lembremo-nos que 2025 está tão longe quanto perto está 1995 quando o recém empossado pseudo PM via rosas e cantava alegremente na Assembleia da República as bonanças a que Portugal estava votado.
Todos estes factores juntos tratarão de trazer os preços do imobiliário para patamares impensáveis nos dias de hoje. Não me surpreenderá que daqui a 15 anos os preços das casas sejam metade dos preços de 2010 (a preços constantes). A tendência de baixa em vigor é fortíssima e segue paulatinamente o seu caminho. Não se vislumbram grandes mudanças nos factores que puxam os preços para baixo pois todos eles são o resultado de tendências de fundo e que não se invertem de um momento para o outro.
Não faz parte da minha visão das coisas achar bem ou mal a evolução das tendências passadas e futuras. Limito-me a observar e tentar perceber os fenómenos pelo que não formulo especiais desejos... menos um: que a banca portuguesa lide muito bem com este fenómeno.
Nota final: para ajudar à festa da descida dos preços veremos os juros irem para outros níveis. Taxas deste gabarito não durarão mais do que 3 a 4 anos.
Nem assim há coragem!
SÁBADO, 18 DE SETEMBRO DE 2010
Implementar as imprescindíveis medidas de austeridade parece estar a ser difícil quando o não deveria ser. A principal razão pela qual o não deveria ser reside no facto de elas terem de ser tomadas. Isto seria o que faria um governante. Ora já todos sabemos que quem nos governa não preenche os requisitos mínimos de um governante. Nestas circunstâncias ter apoios de muitos quadrantes é fundamental de modo a compensar o vazio de requisitos. E esses apoios existem, e até nem são poucos.
Temos o total apoio externo, o que é bastante mais importante e muito mais influente do que pensamos. Temos o apoio do Banco de Portugal, entidade que em tempos de crise tem palavra. Temos o apoio da banca, coisa que em anos de turbulência financeira é de ter em conta. Temos o apoio da larga maioria dos economistas e líderes de opinião mais reputados, o que tem um enorme peso. Temos o apoio de Mário Soares, que é, embora não o pareça, muito importante (lembrar que Mário Soares foi PM durante ambas as intervenções do FMI em Portugal nos idos anos de 77/78 e 83/85, e que sabe muito bem o que é ser impopular). Temos o apoio, ou pelo menos suave oposição, dos partidos da oposição com responsabilidades de governação. E temos o apoio do Presidente da República, que é, obviamente, muito importante. E presumo eu, temos um Ministro das Finanças à altura e responsável, sério, corajoso, e sem agenda pessoal na carteira.
Temos tudo isto. Mas falta-nos o essencial. Falta-nos um Primeiro Ministro à altura.
Implementar as imprescindíveis medidas de austeridade parece estar a ser difícil quando o não deveria ser. A principal razão pela qual o não deveria ser reside no facto de elas terem de ser tomadas. Isto seria o que faria um governante. Ora já todos sabemos que quem nos governa não preenche os requisitos mínimos de um governante. Nestas circunstâncias ter apoios de muitos quadrantes é fundamental de modo a compensar o vazio de requisitos. E esses apoios existem, e até nem são poucos.
Temos o total apoio externo, o que é bastante mais importante e muito mais influente do que pensamos. Temos o apoio do Banco de Portugal, entidade que em tempos de crise tem palavra. Temos o apoio da banca, coisa que em anos de turbulência financeira é de ter em conta. Temos o apoio da larga maioria dos economistas e líderes de opinião mais reputados, o que tem um enorme peso. Temos o apoio de Mário Soares, que é, embora não o pareça, muito importante (lembrar que Mário Soares foi PM durante ambas as intervenções do FMI em Portugal nos idos anos de 77/78 e 83/85, e que sabe muito bem o que é ser impopular). Temos o apoio, ou pelo menos suave oposição, dos partidos da oposição com responsabilidades de governação. E temos o apoio do Presidente da República, que é, obviamente, muito importante. E presumo eu, temos um Ministro das Finanças à altura e responsável, sério, corajoso, e sem agenda pessoal na carteira.
Temos tudo isto. Mas falta-nos o essencial. Falta-nos um Primeiro Ministro à altura.
Pagar dívidas
SEGUNDA-FEIRA, 13 DE SETEMBRO DE 2010
Na sequência do alerta por parte do professor Daniel Bessa de que não se ouve ninguém em lugares de destaque a a firmar de que temos que pagar o que devemos, vale a pena apontar que esta embriaguez pela acumulação incontinente de dívida mais não é do que o resultado da inconsciência reinante na nossa sociedade.
Ter como objectivo um constante défice de 3% sem crescimento do produto durante um largo periodo (e sem perspectivas credíveis de crescimento do mesmo), e sendo que a grande maioria da despesa não respeita sequer a investimento público, tudo isto só pode ser tomado como natural por mentes que não estão minimamente habilitadas para o exercicio do comando de um país.
Há como que um ambiente de loucura instalado em que se dá por aceite como natural os mais ignóbeis cenários. Portugal vive por estes anos um desses momentos. Em termos de anestesia e de falta de análise fria e despida de preconceitos, é como que o equivalente ao que se viveu nos último 25 anos antes do rebentar da crise do crédito imobiliário. Alguns já sabiam e apontavam para o que estava a acontecer, mas o mundo estava muito mais ocupado em se deliciar com a falsa bonança em que estava a embarcar.
Convém lembrar que as pessoas são muito avessas às mensagens pouco simpáticas. E convenhamos que passar a mensagem de que há que parar de contrair mais dívidas e passar a pagar o que se deve é das mensagens que menos apetecem ser ouvidas.
Muito do que está para vir irá surpreender muitos, não tanto pelos fenómenos em si, mas pela estupefacção de que as causas dos mesmos não foram contrariadas. O que vem aí não vai ser doce e o povo revoltar-se-á. Estará no seu direito se isso servir de escape à dor que irá experimentar. Somente. Porque de resto pagará pelas opções políticas que andou a tomar nos últimos 25 anos.
Há erros que se pagam caros. E destes, cometemo-los em demasia.
Na sequência do alerta por parte do professor Daniel Bessa de que não se ouve ninguém em lugares de destaque a a firmar de que temos que pagar o que devemos, vale a pena apontar que esta embriaguez pela acumulação incontinente de dívida mais não é do que o resultado da inconsciência reinante na nossa sociedade.
Ter como objectivo um constante défice de 3% sem crescimento do produto durante um largo periodo (e sem perspectivas credíveis de crescimento do mesmo), e sendo que a grande maioria da despesa não respeita sequer a investimento público, tudo isto só pode ser tomado como natural por mentes que não estão minimamente habilitadas para o exercicio do comando de um país.
Há como que um ambiente de loucura instalado em que se dá por aceite como natural os mais ignóbeis cenários. Portugal vive por estes anos um desses momentos. Em termos de anestesia e de falta de análise fria e despida de preconceitos, é como que o equivalente ao que se viveu nos último 25 anos antes do rebentar da crise do crédito imobiliário. Alguns já sabiam e apontavam para o que estava a acontecer, mas o mundo estava muito mais ocupado em se deliciar com a falsa bonança em que estava a embarcar.
Convém lembrar que as pessoas são muito avessas às mensagens pouco simpáticas. E convenhamos que passar a mensagem de que há que parar de contrair mais dívidas e passar a pagar o que se deve é das mensagens que menos apetecem ser ouvidas.
Muito do que está para vir irá surpreender muitos, não tanto pelos fenómenos em si, mas pela estupefacção de que as causas dos mesmos não foram contrariadas. O que vem aí não vai ser doce e o povo revoltar-se-á. Estará no seu direito se isso servir de escape à dor que irá experimentar. Somente. Porque de resto pagará pelas opções políticas que andou a tomar nos últimos 25 anos.
Há erros que se pagam caros. E destes, cometemo-los em demasia.
Estamos conscientes neste espaço
QUINTA-FEIRA, 9 DE SETEMBRO DE 2010
Segundo o Jornal de Negócios
O director geral da COTEC Portugal, Daniel Bessa, criticou hoje o facto de "ninguém em Portugal" mostrar-se preocupado em pagar a dívida do Estado, sublinhando que "não é pensável uma coisa que é eternamente deficitária".
Em Coimbra, num debate sobre o empreendedorismo e a internacionalização promovido pela CGD e Jornal de Negócios, Bessa afirmou que "os portugueses, aparentemente, não se preocupam muito com isso. Ainda nenhum de nós falou que o Estado português vai começar a pagar o que deve. Quando falamos em reduzir o défice é endividar menos. Para o Estado português começar a pagar o que deve é preciso que deixe de ter défice. Ainda não ouvi ninguém em Portugal preocupado em pagar um cêntimo da dívida do Estado", considerou.
Que fique claro que neste espaço estamos bem conscientes deste facto que o professor Daniel Bessa invoca. Isso já foi, inclusivamente, textualmente descrito de forma muito directa. Relembremos, no futuro próximo há que ter excedentes do PIB (produto interno bruto). Andamos com défices de 8% e querem-nos vender que 3% de défice é uma maravilha. 3% de défice sem crescimento é muito mau. 8% nas mesmas circunstâncias é entre o pavor e o pânico.
Portugueses, a realidade é que doravante só deveríamos ter excedentes ou défice nulo. Interiorizemos isto muito bem.
Segundo o Jornal de Negócios
O director geral da COTEC Portugal, Daniel Bessa, criticou hoje o facto de "ninguém em Portugal" mostrar-se preocupado em pagar a dívida do Estado, sublinhando que "não é pensável uma coisa que é eternamente deficitária".
Em Coimbra, num debate sobre o empreendedorismo e a internacionalização promovido pela CGD e Jornal de Negócios, Bessa afirmou que "os portugueses, aparentemente, não se preocupam muito com isso. Ainda nenhum de nós falou que o Estado português vai começar a pagar o que deve. Quando falamos em reduzir o défice é endividar menos. Para o Estado português começar a pagar o que deve é preciso que deixe de ter défice. Ainda não ouvi ninguém em Portugal preocupado em pagar um cêntimo da dívida do Estado", considerou.
Que fique claro que neste espaço estamos bem conscientes deste facto que o professor Daniel Bessa invoca. Isso já foi, inclusivamente, textualmente descrito de forma muito directa. Relembremos, no futuro próximo há que ter excedentes do PIB (produto interno bruto). Andamos com défices de 8% e querem-nos vender que 3% de défice é uma maravilha. 3% de défice sem crescimento é muito mau. 8% nas mesmas circunstâncias é entre o pavor e o pânico.
Portugueses, a realidade é que doravante só deveríamos ter excedentes ou défice nulo. Interiorizemos isto muito bem.
Viagem de avião de Lisboa/Porto versus Dublin/Cork
QUINTA-FEIRA, 9 DE SETEMBRO DE 2010
Imagine que tem que ir de Lisboa até ao Porto, ou vice versa, no mesmo dia, e que tem a "ousadia" de pensar que o avião pode ser uma óptima alternativa. Pretende sair pelas 8h30 e regressar pela 16h30.
Se o pretender fazer para a semana (dia 14.09 ou 15.09) e o trajecto for de Lisboa para o Porto (ou vice-versa) a "ousadia" sai-lhe a 175EUR. Se acaso estiver na Irlanda e quiser ir de Dublin a Cork (ou vice-versa) a decisão custa-lhe 70EUR para os mesmos dias.
Se conseguir antecipar ainda mais a viagem e for viajar nos dias 16.09 ou 17.09, então temos Lisboa / Porto entre 185EUR e 210EUR e Dublin / Cork a 14EUR. Sim, não é engano. São 14EUR para uma ida e volta.
Embora a distância de Dublin a Cork seja inferior (260 km), quando comparado com os cerca de 300 km de Lisboa ao Porto, essa diferença é desprezível em termos de custo / tempo para a operadora.
É impossivel morrer de amores pela TAP e é muito possível desejar uma Ryanair.
Já agora, se tiver a veleidade de ir do Porto a Faro (cerca de 600 km) nas mesmas datas, então conte com 133EUR para o início da semana e entre 74 e 100EUR para os dias 16 e 17. Adivinhe quem é a transportadora que faz Porto / Faro.
Imagine que tem que ir de Lisboa até ao Porto, ou vice versa, no mesmo dia, e que tem a "ousadia" de pensar que o avião pode ser uma óptima alternativa. Pretende sair pelas 8h30 e regressar pela 16h30.
Se o pretender fazer para a semana (dia 14.09 ou 15.09) e o trajecto for de Lisboa para o Porto (ou vice-versa) a "ousadia" sai-lhe a 175EUR. Se acaso estiver na Irlanda e quiser ir de Dublin a Cork (ou vice-versa) a decisão custa-lhe 70EUR para os mesmos dias.
Se conseguir antecipar ainda mais a viagem e for viajar nos dias 16.09 ou 17.09, então temos Lisboa / Porto entre 185EUR e 210EUR e Dublin / Cork a 14EUR. Sim, não é engano. São 14EUR para uma ida e volta.
Embora a distância de Dublin a Cork seja inferior (260 km), quando comparado com os cerca de 300 km de Lisboa ao Porto, essa diferença é desprezível em termos de custo / tempo para a operadora.
É impossivel morrer de amores pela TAP e é muito possível desejar uma Ryanair.
Já agora, se tiver a veleidade de ir do Porto a Faro (cerca de 600 km) nas mesmas datas, então conte com 133EUR para o início da semana e entre 74 e 100EUR para os dias 16 e 17. Adivinhe quem é a transportadora que faz Porto / Faro.
Apetências Célticas
QUINTA-FEIRA, 9 DE SETEMBRO DE 2010
Há uns tempos atrás escrevi sobre o facto de notar que se vêem poucas crianças e bebés nas ruas de Portugal. Nada de estranhar, é a nossa taxa de fertilidade de 1.3 a funcionar desde 2000 (embora no início deste século ainda fosse um pouco acima deste valor).
Encontro-me na Irlanda neste momento e é com alegria que colhi como uma das primeiras impressões o facto de existirem muitas crianças e bebés. Na empresa onde presto serviço aparecem sempre grávidas nas reuniões. As fotografias de família no local de trabalho são sempre muito preenchidas com crianças e é muito frequente falar-se dos filhos.
Não sei em rigor a taxa de fertilidade da Irlanda. Francamente não me preocupa muito pois deve ser suficientemente expressiva para garantir a manutenção da população da ilha e para garantir os equilíbrios mínimos que a sociedade ideal de hoje, como a imaginamos, impõe. Que convém lembrar que essa sociedade ideal deverá fornecer bons serviços de saúde e reforma a tempo e num montante razoável. Portugueses, com 1.3 vamos no mau caminho.
Francamente custa a interiorizar esta nossa recente apetência para a procriar pouco. Sei que a vida não é fácil nas empresas e que isso gera muitos constrangimentos que reduzem a apetência para ter mais filhos. Sei também que nos urbanizámos de um modo nada convidativo a formar prole. Aqui na Irlanda é tudo muito rural e isso cria um ambiente mais propício à expansão da família. Mas também sei que os Portugueses têm ainda muitas expectativas materialistas consideradas prioritárias.
Particularmente temos que rever as nossas expectativas. Publicamente temos que tratar da nossa urbe. Politicamente temos que trabalhar no sentido de combater eficazmente um certo neo-esclavagismo reinante nas empresas. Até lá um grande bem haja aos Irlandeses.
Há uns tempos atrás escrevi sobre o facto de notar que se vêem poucas crianças e bebés nas ruas de Portugal. Nada de estranhar, é a nossa taxa de fertilidade de 1.3 a funcionar desde 2000 (embora no início deste século ainda fosse um pouco acima deste valor).
Encontro-me na Irlanda neste momento e é com alegria que colhi como uma das primeiras impressões o facto de existirem muitas crianças e bebés. Na empresa onde presto serviço aparecem sempre grávidas nas reuniões. As fotografias de família no local de trabalho são sempre muito preenchidas com crianças e é muito frequente falar-se dos filhos.
Não sei em rigor a taxa de fertilidade da Irlanda. Francamente não me preocupa muito pois deve ser suficientemente expressiva para garantir a manutenção da população da ilha e para garantir os equilíbrios mínimos que a sociedade ideal de hoje, como a imaginamos, impõe. Que convém lembrar que essa sociedade ideal deverá fornecer bons serviços de saúde e reforma a tempo e num montante razoável. Portugueses, com 1.3 vamos no mau caminho.
Francamente custa a interiorizar esta nossa recente apetência para a procriar pouco. Sei que a vida não é fácil nas empresas e que isso gera muitos constrangimentos que reduzem a apetência para ter mais filhos. Sei também que nos urbanizámos de um modo nada convidativo a formar prole. Aqui na Irlanda é tudo muito rural e isso cria um ambiente mais propício à expansão da família. Mas também sei que os Portugueses têm ainda muitas expectativas materialistas consideradas prioritárias.
Particularmente temos que rever as nossas expectativas. Publicamente temos que tratar da nossa urbe. Politicamente temos que trabalhar no sentido de combater eficazmente um certo neo-esclavagismo reinante nas empresas. Até lá um grande bem haja aos Irlandeses.
Compreendamo-los
DOMINGO, 5 DE SETEMBRO DE 2010
Anda tudo por aí com duplos sentimentos com os Alemães. Por um lado existem queixas que eles não consomem como deviam, ou seja, se lhes desse para o consumo isso implicaria que as exportações de todos os países da EU com isso beneficiariam e o conjunto das economias europeias sofreria um estímulo positivo. Por outro lado folgamos em saber que daquele lado a economia apresenta sinais muito sólidos devido ao facto de exportarem bastante. Como aqui já foi dito os Alemães produzem produtos que todo o mundo quer consumir, ou directamente, ou como veículo de investimentos (maquinaria, etc.).
Ora o mundo estende-se muito para além da visão europeia. E pelo mesmo continuar em crescimento, os Alemães, esses exportadores incontinentes, mantêm viva a sua fórmula de vida, que mais não é do que produzir acima do que consomem. Esta fórmula, segundo os ditames da “modernidade”, é uma pura heresia. E na sequência do seu pensamento, ou melhor, nas suas manifestações de vacuidade, exigem que o “desgraçado” Alemão consuma mais do que produz, o que mais não é do que simultaneamente perverter a fórmula de vida de um terceiro e convidá-lo a ter uma atitude que embarcou o mundo ocidental numa brutal crise de endividamento.
Claro que os ditos Alemães se recusam a ser parvos, por mais que nós tentemos encostá-los à parede. Seria bom que se percebesse bem o que ocorreu na Alemanha na década de 20 do século passado e de como isso poderá ter influenciado o seu comportamento no pós-guerra. Se a “modernidade” é assim tão “profunda” e “sensível” com o próximo, então que se dedique com amor e ternura a perceber melhor o Alemão antes de o utilizar como bode expiatório das nossas deficiências e vícios.
Anda tudo por aí com duplos sentimentos com os Alemães. Por um lado existem queixas que eles não consomem como deviam, ou seja, se lhes desse para o consumo isso implicaria que as exportações de todos os países da EU com isso beneficiariam e o conjunto das economias europeias sofreria um estímulo positivo. Por outro lado folgamos em saber que daquele lado a economia apresenta sinais muito sólidos devido ao facto de exportarem bastante. Como aqui já foi dito os Alemães produzem produtos que todo o mundo quer consumir, ou directamente, ou como veículo de investimentos (maquinaria, etc.).
Ora o mundo estende-se muito para além da visão europeia. E pelo mesmo continuar em crescimento, os Alemães, esses exportadores incontinentes, mantêm viva a sua fórmula de vida, que mais não é do que produzir acima do que consomem. Esta fórmula, segundo os ditames da “modernidade”, é uma pura heresia. E na sequência do seu pensamento, ou melhor, nas suas manifestações de vacuidade, exigem que o “desgraçado” Alemão consuma mais do que produz, o que mais não é do que simultaneamente perverter a fórmula de vida de um terceiro e convidá-lo a ter uma atitude que embarcou o mundo ocidental numa brutal crise de endividamento.
Claro que os ditos Alemães se recusam a ser parvos, por mais que nós tentemos encostá-los à parede. Seria bom que se percebesse bem o que ocorreu na Alemanha na década de 20 do século passado e de como isso poderá ter influenciado o seu comportamento no pós-guerra. Se a “modernidade” é assim tão “profunda” e “sensível” com o próximo, então que se dedique com amor e ternura a perceber melhor o Alemão antes de o utilizar como bode expiatório das nossas deficiências e vícios.