quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Como lidar com as agências de Rating

SEXTA-FEIRA, 15 DE ABRIL DE 2011

Grécia, Irlanda, e Portugal (por esta ordem) estiveram na mira das agências de Rating. Muito provavelmente a Espanha será o próximo alvo. E quiçá de seguida a Itália e a Bélgica também merecerão os “mimos” destas instituições.

Sumariamente, e em termos soberanos, as agências de Rating internacionais tratam de emitir juízos sobre a qualidade da dívida de um determinado país. Após o rescaldo da crise financeira internacional alguns países vêm-se a braços com gravíssimos problemas orçamentais. De acordo com a história parece que esta situação é considerada um “clássico”. Ou os remédios para o abismo implicam políticas expansionistas tais que geram uma imensidão de dívida. Ou o ponto de partida ao nível de dívida é de tal modo débil aquando da ocorrência da crise financeira que faz com que a dívida existente se acentue ainda mais, por via da contracção da natural de receita, desaconselhando-se portanto a adopção de políticas expansionistas. Em ambos os casos a dívida aumenta bastante. Enquanto no primeiro podem haver legítimas esperanças de crescimento que por si pode bem resolver o problema inicial, no segundo fica prometida uma agonia económica muito prolongada (coisa para 25 anos).

Para nossa infelicidade Portugal encontra-se no segundo caso. Nestas circunstâncias ultrapassar o problema exige muita imaginação e audácia nas políticas. Para que tais qualidades possam emergir é necessário que o Primeiro-Ministro seja pessoa que se recrie na arte da audição de quem é sabedor, saiba distinguir o conhecedor do charlatão, seja alguém que genuinamente coloque o interesse do país à frente de tudo, seja honesto e frontal nas opções, ainda que as mesmas possam não ser do agrado geral, e que saiba conjugar humildade e perseverança.

Possuindo estas características, e reflectindo as políticas seguidas a sapiência dela emanadas, pode um país vir a ter uma esperança que despolete a confiança necessária. O que mais importa nestes momentos sensíveis é a obtenção do melhor efeito possível dos sinais que se vão emitindo para a sociedade. A qualidade das decisões deve carregar um conjunto de sinais que espalhem bem determinados rumos que no exterior sejam facilmente percebidos como realmente transformativos. É isso que os nossos parceiros querem ouvir e que as agências de Rating precisam de interiorizar para nos darem crédito nas suas análises.

O nosso governo nunca percebeu bem a crise internacional que começou em fins de 2007, nunca percebeu o tipo de impacto que a mesma iria ter em Portugal, que mais não foi do que antecipar a explosão a nossa crise estrutural, nunca percebeu que a seguir a uma crise financeira vem, por norma, uma crise orçamental (que é tanto mais grave quanto pior for o ponto de partida ao nível de dívida acumulada existente), nunca percebeu que tipo de erros consecutivamente cometemos desde 1986, e nunca percebeu o quão importante era explicar aos Portugueses o que se efectivamente se estava a passar no mundo. E para piorar, o governo, à semelhança dos outros, mas em muitíssimo pior grau, não tem a menor ideia do que é necessário fazer.

É tudo isto que as agências de Rating percebem relativamente a Portugal. Os constantes cortes no rating mais não são do que a confirmação de que o acumular da deterioração dos indicadores é o resultado da falta de visão e incompetência dos governantes. É isso que as agências denunciam com os seus julgamentos. Poderemos queixar-nos em vão até à exaustão que as agências de rating se portaram mal até ao eclodir da crise internacional, que estão ao serviço “deste” ou “daquele”, que são subservientes do “capitalismo sem escrúpulos”, que têm mais voz do que o aconselhável, etc. Tudo isso é indiferente pois em nada resolve o assunto na prática. Pelo contrário, até pode piorá-lo pois emite sinais de que estamos mais preocupados em disparar para o exterior do que em resolver o problema, o que por si só denota que não sabemos como o fazer. E esse, andamos a prová-lo bem, é o nosso maior problema.

A melhor maneira de lidar com as agências de Rating é resolvermos resolver os nossos problemas.

Está na altura da sociedade se libertar

DOMINGO, 10 DE ABRIL DE 2011

O quadro acima, “Taking the Census” de Francis William Edmond, representa, aos meus olhos, a primeira entrada de uma instituição não governamental (mas que assiste as governações) dentro do domínio privado, a casa. Como que o nascimento da primeira de muitas instituições que com o decorrer do tempo cresceram a tal ponto que ao invés de nos assistirem acabam por nos afogar se com elas o homem transcender os objectivos para os quais criou essas mesmas instituições.

A complexidade desenvolvida por todo o tecido social se obrigou ao crescimento de toda uma panóplia de instituições públicas que servisse a comunidade, também tratou, de mão dada com a natureza humana, de dotar essas instituições de vida própria com o objectivo prioritário de sobrevivência e subserviência dos interesses dos seus constituintes. Em Portugal chegámos ao ponto em que a sociedade tem que se libertar do jugo a que determinadas forças subjugam o interesse geral em prol de interesses de grupo e/ou individuais.

A sabedoria ensina-nos que deveremos operar esta transformação de forma racional e sem impulsos que concorram para a destruição de todo esse tecido institucional. Trata-se somente de o reduzir até aquela dimensão que viabilize a correcta assistência para o qual esse tecido institucional foi criado e não para assistir os membros que o compõem. É uma tarefa que urge fazer pelo simples facto que a lógica de auto-alimentação estoirou. Já não está em causa se essa tarefa deve ou não ser feita. Trata-se somente de debater sobre o grau em que tal processo deve ocorrer.

Apesar de tudo há boas notícias

SÁBADO, 9 DE ABRIL DE 2011

Acaso não se tenha reparado apesar de tudo anda vão havendo boas notícias. Acho fantástico Portugal não ter sido assolado por uma crise bancária desde que se iniciou a crise internacional em fins de 2007 à semelhança do que se passou com a Irlanda. Em boa hora os nossos bancos diversificaram. Os mercados externos já representam cerca de 50% do negócio e praticamente todo o lucro gerado pela banca. Só espero que esta senda de diversificação continue e que se já feita com cabeça tronco e membros.

Gostaria bastante que o pessoal político e afins percebessem que seria positivo não gerar uma crise bancária. Em cima da nossa crise financeira e económica essa seria a última coisa de que precisaríamos. Por isso há que refrear as “ganas” de saltar em cima dos bancos fiscalmente coisa que mais não serve do que servir propósitos ditados pelo instinto e inveja de quem trabalha bem. Até porque a banca portuguesa não está a salvo de ter problemas com os seus balanços. É bom não esquecer que o preço do imobiliário tem baixado, embora devagarinho. E doravante vai baixar ainda mais pelo que não está excluída alguma turbulência que, embora em pequeno grau, pode ser muito prolongada.

O aviso salutar que é preciso seguir consiste em dotar o nosso sector exportador com boa capacidade de competição. Com isso resolvemos não só o nosso problema económico como resolvemos parte do nosso problema financeiro. E reduzimos ainda o risco de ter uma crise bancária pois os bancos encontram uma maneira de fazer dinheiro de modo a cobrir outros negócios onde andam a perder (em termos nacionais, obviamente).

E para dar aquele empurrão que o nosso sector exportador bem precisa, nada como gerar condições para baixar os seus custos de exploração. É bom ter bem presente esta realidade de forma a não tornar as boas notícias que ainda vamos tendo, e a que pouco ligamos, em más notícias.

O inevitável aconteceu hoje

QUARTA-FEIRA, 6 DE ABRIL DE 2011

Aconteceu hoje aquilo que já se sabia há uns anos que teria de acontecer. Como já aqui foi dito, por termos esticado a corda até ao fim ficámos com muito menos margem de manobra de negociar com as entidades internacionais os termos de ajuda que agora se vai iniciar. Quando se está "arrasquinha" perde-se qualquer poder negocial relevante. E chamo relevante aquilo que possa configurar uma estratégia para Portugal em combinação com equilíbrio financeiro. É mais do que provável que na receita que se segue o equilíbrio financeiro se irá sobrepor a uma estratégia para Portugal. Mas enfim, com a rapaziada em que os Portugueses andaram todos estes anos a confiar o seu voto pouco mais se podia esperar.

Vai ser interessante perceber o que virá a seguir em termos políticos já que em termos financeiros sabemos mais ou menos o que aí vem. Aumento acentuado de impostos e redução substancial de vencimentos na função pública será a receita. Só não sabemos o grau em que tal vai ocorrer.

Politicamente o Sr. Sócrates vai tirar dividendos do golpe baixo que fez a Portugal. A história do chumbo do PEC IV vai-lhe permitir dizer que as medidas que aí vêm são muito mais duras do que aquelas que ele proponha. Com isso culpabiliza o PSD e todos os outros partidos. Faz-se de vítima e joga o "ele contra todos". Instrumentalizar um país para fazer este tipo de "politiquice" para proveito próprio é típico de pessoas do mais baixo calibre que se possa imaginar. Por várias vezes li Maquiavel e literatura da área. Sem dúvida que a mesma pode ser, e deve ser, aplicada em termos militares. Agora aplicar esses conceitos no seu limite para a política contra o próprio país é algo que está para além da compreensão do cidadão normal, e mesmo daquele mais familiarizado com a política. Com frieza direi que muito provavelmente estaremos perante um caso do foro psiquiátrico, assunto sobre o qual não tenho qualquer conhecimento.

O paradoxo para o Sr. Sócrates, e fruto do sucesso que provavelmente terá nas próximas eleições, é que talvez teremos um governo de Bloco Central. Isso porque o PSD com o CDS não formarem governo devido a não conseguirem ter maioria absoluta. E digo paradoxo porque isso talvez seja o que melhor possa acontecer a Portugal, ou seja, teremos o socialismo a celebrar o seu quadragésimo aniversário daqui a 4 anos em Portugal com os seus dois melhores intérpetes no poder a "arranjar" aquilo que de errado fizeram nos últimos 30 anos. E que não se duvide que daqui a 4 anos os Portugueses terão um descirnimento muito melhor do que têm hoje sobre o que é o Socialismo, esse sistema que mais não faz do que viver acima das possibilidades.

Resta ao CDS a serenidade de se preparar para governar Portugal após ganhar as eleições seguintes. Mas para isso tem que correr com a actual direcção e dotar-se de gente capaz e sem agendas pessoais. E não nos esqueçamos de uma coisa. Tem que ser gente bem paga. Senão não aparece quem deve. Sei que existe tempo para isso, só não sei se existe cabeça.

Quase nos 10%, e como se nada fosse!!!!!!

SEGUNDA-FEIRA, 4 DE ABRIL DE 2011

A taxa de juro a 5 anos já anda pelos 9,5%. Daqui aos 10% é um instante. Se os Portugueses tivessem noções básicas de economia estariam todos na rua a clamarem para que o FMI viesse o mais rapidamente possível pôr ordem na casa, mas sob o mando dos Portugueses. Como o FMI virá a mando internacional pelo facto de termos perdido o momento próprio (César das Neves defendera que o FMI deveria ter sido convidado a vir há 2 anos), a coisa não promete.

É lamentável que a população não entenda o que se passa nem tenha querido nunca ouvir quem percebe do assunto. O mesmo não é difícil de perceber e até há um filão de excelentes economistas Portugueses que entendem do assunto de fio a pavio. E até publicaram livros*. Como os Portugueses se estão a revelar burgueses pobres e muito moles, vamos, infelizmente, viver com a medicina que aí vem da pior maneira possível. Que não se pense que o FMI vem com pensamentos do género “o que fazer para estimular o sector exportador” (oxalá me engane). Eles vêm cortar, e cortar à séria. Ou seja, não irá existir nenhuma estratégia subjacente às medidas que irão ser tomadas a não ser o efeito prático das mesmas num curto espaço de tempo.

O mundo é feito de três grupos de pessoas. Os que fazem as coisas acontecer, os que vêm as coisas acontecer, e os que perguntam o que é que aconteceu. Temos pouquíssimos na política que fazem as coisas acontecer. Na Democracia só Mário Soares, e mesmo assim só como Primeiro Ministro. Sá Carneiro não terá tido, infelizmente, tempo. Alguns que vêm as coisas acontecer, e curiosamente vamos ter pouquíssimos também a perguntar o que é que aconteceu pelo simples motivo de que os Portugueses são avessos a perguntar a opinião de quem sabe. Vai ser um pouco como ter passado pela segunda metade do século XIX e não tomar consciência de que havia uma revolução industrial em curso. Com a agravante de que hoje a informação jorra diariamente, embora a capacidade de processamento da mesma seja deplorável. Por isso os Portugueses vão ficar petrificados quando muitas coisas começarem a acontecer. E o mais curioso é que mesmo depois de tudo se passar nem vão perguntar o que se passou nem estarão muito interessados no assunto. Verdadeiramente singular.

O que mete mais pena nisto tudo é que os nossos filhos vão sofrer demasiado pela estupidez em curso. Aliás, tal não é para estranhar, a estupidez e o egoísmo dão-se lindamente. E nunca fazem perguntas.

* De entre outros temos “Portugal, que Futuro” de Medina Carreira, “Perceber a Crise” de Vítor Bento, e “Uma Tragédia Portuguesa” de António Nogueira Leite

Os partidos prisioneiros do pensamento único

QUINTA-FEIRA, 31 DE MARÇO DE 2011

Para além da nossa crise económico financeira e crise de valores, existe uma outra crise bem grave. É uma crise que mora nos partidos e que tem o nome de “pensamento único”. Para infelicidade de Portugal os três partidos com representação parlamentar que perfilham uma sociedade aberta (CDS, PSD, e PS) encontram-se fortemente arregimentados sob pensamento único. Cada um deles possui mecanismos centrifugadores de pensamento (o PSD talvez seja ainda aquele menos fustigado) que impede um necessário debate de ideias.

Especularei que este fenómeno decorre do facto de os partidos se terem tornado numa agência de empregos para por quem por lá anda. A exiguidade do nosso mercado de trabalho empurra para os partidos muitos interesses que têm dificuldade em vencer numa certa medida no mercado por mérito próprio. Associado a este facto, e como consequência de a política não remunerar adequadamente por meios legais os seus praticantes, os melhores encontraram fora da política refúgios bem mais interessantes. Temos um cenário montado onde a mediocridade e a perfídia reinam por oposição a mecanismos que promovam o debate de ideias e a meritocracia que delas escorre.

Situações destas são comuns fora dos partidos, nomeadamente em organizações não sujeitas a concorrência. Nas outras o mecanismo de feedback tendencialmente corrige comportamentos desviantes. O mal do pensamento único ocorrer nos partidos é que, existindo os mesmos num cenário de oligopólio, a capacidade de regeneração acaba por ficar entregue ao arbítrio do acaso. Como obstáculo, temos que essa capacidade é ainda temporalmente traída pela intermitência na ocupação dos “empregos” impondo uma filosofia de “hoje és tu, amanhã sou eu”. Assim, o filtro que deveria ocorrer nos partidos e que fluiria com naturalidade para a governação (atenção, refiro-me mais a ideias e menos a pessoas) está quase totalmente condicionado à mediocridade reinante, que mais não se preocupa do que acautelar o mecanismo que lhe permite expelir todos aqueles que pensam no bem geral. Esta lógica, toda ela vestida de interesse próprio e de grupo, com facilidade elimina todas as veleidades de pensamento plural, tendencialmente mais ingénuas nas abordagens.

A subjugação ao interesse comum é amiga da pluralidade como forma de descobrir caminhos, enquanto a subjugação aos interesses particulares e de grupo é inimiga da pluralidade como forma de protecção desses mesmos interesses. É do interesse de Portugal que os partidos plurais consigam lutar de forma a destituir esta filosofia do primado do interesse individual e do grupo sobre o interesse geral. Para isso há que contar com a persistência de quem sinta que age com nobreza de espírito e de quem tem Portugal no coração.

Golf e o IVA a 6%

SEGUNDA-FEIRA, 28 DE MARÇO DE 2011

Parece que muita alma lusitana ficou muito perturbada com o IVA para o Golf a 6%. Pois direi que eu ficaria muito perturbado com a passagem do IVA para o Golf a 23%. O raciocínio é simples. O Golf significa para Portugal “exportações” algo de que precisamos como pão para a boca. Como tal há que tratar o assunto com muito jeitinho, aconchegando-o à nossa realidade de país economicamente pobre e que se julga mais do que aquilo que é (mais uma vez, em termos económicos).

O turismo é uma das nossas poucas tábuas de salvação, e dadas muitas circunstâncias de que agora me abstenho de enumerar tenderá a sê-lo ainda mais. O Golf é um excelente complemento do turismo de praia pois é praticado durante todo o ano e especialmente fora do período de Verão (pelo menos em termos de turistas estrangeiros). Por isso em muito pode complementar e potenciar muito investimento já feito.

Há um ponto que é necessário esclarecer. Entre nó o Golf é considerado um desporto para ricos, ou pelo menos para os mais abonados. Isso é verdade, mas em nada subtrai a necessidade anteriormente subscrita. Os nacionais, os tais ricos que tanto atormentam tanta esquerda “bem pensante”, representam somente uns 80% ou 85% das “voltas” de Golf. A grande fatia vem de fora. E desengane-se quem pensa que todos esses estrangeiros são todos uns ricalhaços ociosos que a esquerda se deliciaria a taxar. Longe disso. Ao contrário do que se passa nacionalmente, além fronteiras o Golf é coisa muito democratizada. Entre eles, e já com vasta experiência por Portugal, encontra-se Patrick, simpático taxista Irlandês de Cork a quem diferenciais de IVA pode influenciar na escolha do destino. E como ele, há muitos mais.

Poder-me-ão dizer que pelas Alemanhas e Suécias o IVA do Golf está nos píncaros. Pois é, mas esses já exportam outras coisas e entretêm-se com excedentes, por isso podem-se dar ao luxo de taxar o Golf à taxa máxima se assim o entenderem e se isso sossegar os indispostos do costume. Mas perante o nosso quadro económico-financeiro não temos essa liberdade algo pífia. Por isso há que domar instintos injustificados e submetê-los à voz da razão, coisa rara na Lusitânia. E já agora aproveite-se para evitar manifestações de inveja ao invocar sempre o nome do Sr. Balsemão.

O Regime Socialista está para balanço e o que isso significa para o CDS

QUINTA-FEIRA, 17 DE MARÇO DE 2011

Dentro de 3 anos o Regime Socialista vai fazer 40 anos de existência. Parece claro que neste momento se iniciou o processo de avaliação do Socialismo por parte da sociedade Portuguesa. A mesma ainda não é feita com todo o discernimento porque os Portugueses andam desiludidos, sentimento que, resultante de um estado prévio de ilusão, não dá boa assistência à análise nem convidará muito ao seu exercício. Somente quando passar este estado de choque em que entrámos recentemente os Portugueses começaram a proceder a uma análise fria e desapaixonada, e consequentemente ficarão mais abertos a outras alternativas.

O Regime Socialista baseia-se nas seguintes premissas:

1. Crença de que se pode viver eternamente acima das possibilidades consumindo mais do que se produz.

2. O orçamento do Estado é o motor e a esperança dos cidadãos em geral.

3. A promiscuidade entre os partidos e o Estado é um veículo natural de muitos empresários, gestores, e outro pessoal de segunda linha, se tornarem vencedores na sociedade Portuguesa.

Os Portugueses facilmente já percebem que o primeiro ponto se esgotou em resultado das medidas de austeridade já em vigor, mas principalmente daquelas que eles já percepcionam que aí vêm (e são muitas).

Quanto ao segundo ponto ainda não existe consciência clara de que é nos mercados exteriores que se encontra a emancipação da nossa sociedade, e de que o Estado ainda pode servir de salvação às nossas ambições económicas e financeiras. Como se uma névoa ainda assolasse os Portugueses ao estilo de uma réstia de esperança sobre uma fórmula que sabemos que já não funciona mas que seria bom que pudesse funcionar.

O último ponto é bem compreendido pelos Portugueses mas parece ser de difícil desmontagem por parte dos partidos. Os partidos estão hoje montados em teias de interesses muito grandes e transformaram-se numa agência de empregos.

Isto é o Regime Socialista, e é isto que está para balanço.

O CDS, como partido melhor posicionado para fazer frente ao primeiro e segundo ponto enumerados, dado ter na sua matriz ideológica a libertação do indivíduo e a visão de um Estado minimalista (embora forte e com personalidade), é o partido que melhor se pode perfilar para naturalmente ser governo na fase pós-socialista que iremos viver. Para isso ter-se-á que demarcar explicitamente e muito claramente do terceiro ponto, ou seja, da visão “empregadora” que hoje caracteriza os partidos.

Ora esta postura desinteressada pelo poder na visão de “agência de empregos públicos” deverá acautelar o CDS na sua política de alianças. Não existem evidências de que o PSD seja capaz, ou mesmo que tenha firme vontade, de se libertar da lógica de subserviência aos interesses da sua estrutura, minando com isso qualquer hipotética boa vontade da sua liderança. Para efeitos de aliança partidária, há muito mais do que as naturais diferenças sobre a visão sobre a sociedade Portuguesa e de como a mesma deve governada. Há todo um conjunto de sentido ético* e de independência relativamente aos grupos de interesse que importam ser avaliados.

O CDS não deverá colocar-se em “bicos dos pés” sequioso de fazer parte de um novo Governo. Colocam-se todas as reservas de que o deverá fazer. O Regime Socialista, de que o PSD é também um natural subscritor, deverá ser avaliado em bom rigor no seu momento próprio, ou seja, quando a fase de desilusão dos Portugueses for ultrapassada. O CDS, ao demarcar-se do PSD nesta altura, surgirá no futuro aos Portugueses, nesse momento com mais capacidade de discernimento, como o natural partido para governar Portugal.

* Ainda sobre alianças há que explicitar que a mais recente experiência não teve da parte do PSD a elevada postura demonstrada pelo CDS. Parece óbvio que o CDS demonstrou ser bem mais coligável que o PSD. Refiro-me à inacreditável demissão do Primeiro-Ministro de então (abstenho-me de ajuizar sobre o inacreditável perfil do substituto).

Porque é que os juros cobrados a Portugal para a contracção / renovação de dívida sobem?

QUINTA-FEIRA, 17 DE MARÇO DE 2011

O vulgar cidadão percepciona que a alta finança é algo de muito complexo. E tem razão. É realmente algo complexo e que requer pessoas com muito boa formação. Mas curiosamente a questão do contínuo aumento dos juros cobrados a Portugal é muito simples de explicar. Não é preciso ser-se muito letrado em finança. Os juros continuam a aumentar porque:

1. Vivemos em défice e acima das possibilidades há 25 anos.

2. Não queremos mudar de vida, acreditando que podemos viver em défice eternamente.

3. Decorrente dos dois pontos anteriores o possuirmos uma economia “torta”, ou seja, toda ela voltada para o consumo e para organização do mesmo.

4. Muitas das nossas exportações terem como principais competidores os países que estão precisamente a começar a dar muitas cartas neste jogo global que é a globalização.

5. Um dos principais compradores de Portugal, a Espanha, estar de “férias prolongadas” em termos de capacidade aquisitiva.

Existirão ainda outros motivos que irão piorar a fotografia, e que neste momento ainda não são totalmente percepcionados pelos credores internacionais (da mesma forma que os acima indicados só recentemente foram por eles percepcionados). Listarei os seguintes:

1. Suicídio demográfico em curso. Para um nível estável de produtividade, que é o que se verifica há muito tempo, isso significa que a dívida por habitante subirá naturalmente, ainda que doravante tenhamos défices nulos.

2. Se, como se espera, ocorrer de novo um grande surto de emigração, acentuando ainda mais o problema do primeiro ponto.

3. A real percepção por parte dos credores que temos “sangue” socialista por toda a sociedade. Ou seja, o Português ver o Estado, por via do seu orçamento, quase como a única entidade que lhe pode trazer todos os proventos. Desengane-se quem pensa que o PSD está de fora desta lógica. Até desconfio que parte do CDS assim pensa.

Há que começar a lutar para que estes três novos pontos não comecem a entrar na equação dos nossos credores. Para isso há que actuar fortemente sobre os primeiros cinco, já que os mesmos mais não são do que os geradores destes últimos.

Nota: o que o actual governo socialista diz a respeito dos motivos dos continuados altos juros devem ser considerados disparates típicos de pessoas não preparadas para a modalidade da Governação.

O tipo de confiança que Portugal precisa

TERÇA-FEIRA, 15 DE MARÇO DE 2011

É voz corrente que a confiança é um factor fundamental para o desenvolvimento de uma economia. Sem dúvida que o é. A questão não passa pelo debate onde todos estão de acordo. Passa antes pelo que cada um entende e extrai do conceito. Parece óbvio que o entendimento do mesmo difere bastante quando confrontamos diferentes perfis de pessoas mediante um mesmo cenário.

Portugal precisa de muita confiança. Carece dela em elevadíssimo grau. Não tanto no que a auto-estima diz respeito (tratarei do conceito adiante). Carece de confiança porque esta só aparece quando são apontados caminhos que as pessoas reconhecem como sendo possíveis de levar a algum lado perante as circunstâncias em vigor, ainda que para isso os mesmos apresentem dificuldades em ser alcançados.

Ora é esse o problema de Portugal. A governação não consegue apontar um caminho porque não entende bem o mundo de hoje, não entende bem a realidade em que Portugal se encontra, está muito provavelmente mal aconselhada, e não tem perfil e arrojo para elaborar e executar os necessários planos de ataque. Quem governa está bastante manietado por grupos de interesse, facto que, associado à miopia de análise e inépcia na acção, só potencia o desespero e exasperação dos agentes económicos. Se a isto adicionarmos a estrutura ética da maioria do pessoal governativo não restarão dúvidas que reunimos todo o leque de condições conducentes à falta de confiança em Portugal.

O pontapé de saída para fornecer confiança à economia é enfrentar o problema de frente. E para isso há que:

1. Identificá-lo. Isso é fácil e já foi feito por muitos proeminentes economistas da nossa praça.

2. Veiculá-lo abertamente a todos os Portugueses sem o temor absurdo de quem não pode transmitir uma mensagem desagradável.

3. Apresentar soluções claras onde se identifiquem claramente opções que sustentem uma estratégia (como por exemplo, privilegiar abertamente a produção relativamente ao consumo, nomeadamente no que a actividades exportadoras diz respeito; ou ainda implementar um sistema onde o corpo da administração pública não esteja promiscuamente dependente dos desvarios partidários, e que não seja fornecido de pessoal originário desses mesmos partidos).

4. Libertar a governação dos grupos de interesses e assisti-la com grupos intelectualmente mais evoluídos e com provas de não perseguirem o interesse próprio ou de grupo.

Os agentes económicos não são tolos quando confrontados com determinados estímulos. Por norma o erro está no estímulo, não nas decisões individuais. A apresentação de um plano muito claro de prioridades, quer ao nível sectorial, quer ao nível dos mercados (interno versus externo), facilita a selecção de investimentos e o seu escalonamento temporal. Só isso é factor de germinação de confiança ao nível do empresariado. A indecisão, que não é mais do que o ambiente em que hoje se vive em Portugal, inibe e congela investimento, gerando desconfiança.

A população em geral, por norma mais desinformada que o empresariado, ganhará confiança numa fase posterior, ou seja, quando for evidente que as medidas tomadas provarem ser transformativas. No caso específico de Portugal, perante a realidade actual, isso só ocorrerá quando o sector exportador começar a contratar pessoas em elevado número, absorvendo tanto quanto possível os desempregados de hoje e os que aí ainda vêm (drenados em parte pelo sector público).

No momento em que nos apercebêssemos que nos estaríamos a transformar numa economia maioritariamente voltada para o exterior, então um outro tipo de confiança apareceria. Será aquela a que associamos com o conceito de auto-estima. Ou seja, aquela decorrente de sermos ganhadores por natureza nos recintos em que “combatemos” nos mercados internacionais. Sabemos que presentemente já há vitórias. Mas as mesmas são celebradas por uma reduzida percentagem do mundo de trabalho português. Quanto mais voltada para o exterior for a nossa economia (uma fatalidade ditada pelo nossos desequilíbrios macro económicos), maior será o nosso número de vitórias em ambiente internacional (assim o espero, e acredito), potenciando esta outra “confiança” muito esquecida entre nós.

Este último tipo de confiança conduzirá aquilo a que chamo “nova maioridade” do povo português. É aquela que nos fará reencontrar como povo voltado para o mundo, sabendo que aquilo que deste rectângulo brota é para no mundo singrar positivamente, resultado de ideias e trabalhos excelentes, e não de pequenos jogos de interesse e mesquinhez de paróquia mal estruturada onde a exiguidade do terreno onde decorre a acção nos condena a definhar na ideia e no zelo por contrapartida da intriga e mediocridade.

Este último patamar de confiança está ainda muito longe, mas é perfeitamente alcançável. Para que isso ocorra, temos que lutar em primeiro lugar pela confiança que no início invoquei, a ditada pela verdade e pela indicação do caminho claro a seguir. O correcto escalonamento dos degraus de confiança, e a humildade no seu reconhecimento, é por si outro factor germinador de confiança, aquela que decorre do nosso conhecimento enquanto corpo social capaz de evoluir.

Tudo aquilo que nos têm estado a vender nos últimos 25 anos poder-se-á também chamar de confiança. Mas de outro calibre e com um nome bem conhecido: a confiança “banha da cobra”.

Montar uma nova economia

QUARTA-FEIRA, 9 DE MARÇO DE 2011

Portugal tem hoje evidentes desequilíbrios macro económicos que urgem ser corrigidos. Eles resultaram de deficientes sinais emitidos aos agentes económicos que, por instinto ou razão induzida, seguiram um determinado caminho que embora possa ser considerado racional do ponto de vista da decisão individual, se veio a provar errado quando analisado colectivamente. Considere-se o período em análise aquele que seguiu à última intervenção do FMI (1983/1984), e que antecedeu a nossa entrada na CEE e a subsequente adesão à zona Euro, até ao momento presente. Desde essa altura que nos entusiasmámos na construção uma economia voltada para o consumo em detrimento de uma economia voltada para a produção.

A configuração da nossa economia, quando analisada pelos maiores grupos económicos, não deixa de reflectir esse modelo. Maioritariamente, os nossos maiores grupos económicos trataram de desenvolver as suas actividades numa orientação claramente voltada para o consumo interno em detrimento do mercado externo. Sendo algumas dessas actividades potenciadas pelo aumento da concessão de crédito aos privados por parte dos bancos (crédito à aquisição de automóvel, compra e recheio de habitação), com pouca ou nenhuma concorrência internacional, e tendo a “bênção” governamental de acumulação de dívida como fórmula de sucesso, os nossos agentes económicos tiveram poucas dúvidas onde alocar os seus recursos.

A economia desenvolveu-se então em torno do sector da construção, distribuição, venda de automóveis, organização do consumo (a banca), e utilities (electricidade, comunicações). Tudo quanto respeite a exportações foi claramente preterido. Não é de estranhar. Sujeito a uma pressão concorrencial superior, enfrentando aumentos de salários superiores aos aumentos de produtividade, sem possibilidade de repercutir no preço a correspondente perda concorrencial, com crescentes dificuldades de acesso ao crédito (este maioritariamente destinado ao consumo interno), os nossos maiores grupos económicos tomaram opções racionais, ainda que com efeitos nocivos ao nível macro económico.

Por outro lado os Portugueses ganharam uma enorme atracção por todas as actividades económicas que suportassem o consumo. Não será caso para ficarmos admirados. A agricultura, as pescas, ou o shop-floor de uma fábrica, são locais menos apelativos a quem se encontra embriagado por um novo riquismo recém-adquirido quando comparados por um agora moderno balcão bancário, um stand automóvel, ou ainda um dos infindáveis organismos públicos. Ou seja, as operações intrínsecas que concorrem para consumir demonstraram ser vencedoras para efeitos de decisão de escolha de trabalho quando em competição com aquelas que concorrem para produzir. Muito estigma poderá também estar associado às decisões individuais tomadas. Seja como for, aquilo que poderão ter sido opções correctas ao nível individual demonstrou contribuir para o desequilíbrio macro económico.

A crise financeira internacional veio acelerar a evidência da nossa crise estrutural e obriga-nos a mudar de vida mais cedo do que esperaríamos. Por isso Portugal vai ter de ter uma viragem muito grande da sua economia. De uma economia voltada para o consumo, iremos forçosamente ter de montar uma economia voltada para a produção que se reflicta em exportações ou substituição de importações. Digo forçosamente não por uma questão de simpatia por um ou outro modelo económico, mas antes ditado pelas mais elementares regras de equilíbrio macro-económico e pelo julgamento dos mercados financeiros internacionais, que têm, nos dias de hoje, o poder de constantemente nos lembrar que se queremos ser um País independente e com capacidade de contrair / renovar empréstimos no exterior temos que seguir as tais regras elementares de equilíbrio macro-económico.

Se a economia voltada para as exportações / substituições de importações será baseada maioritariamente em salários baixos ou de alto valor acrescentado, é algo que ainda não sabemos. Depende em muito da capacidade empreendedora dos nossos empresários. Mas também depende bastante do nosso nível real de aquisição de conhecimento e de como o transformar em produto / serviço de elevado valor económico nos mercados mundiais. A combinação destes dois factores sairá potenciada se assistida por organizações eficientes rodeadas por variáveis de contexto favoráveis. Neste ponto realço a Justiça, factor fulcral na ajuda ao florescimento de organizações de excelência.

Estando assente que a nossa economia deverá ser primeiramente voltada para o exterior, há que actuar psicologicamente sobre os medos que nos têm assolado, e que têm que ver com o nosso receio do insucesso quando em competição aberta. Este medo é infundado. A Globalização tem que ser considerada o nosso palco preferencial de actuação, não só pelos frutos que daí poderão advir, mas acima de tudo porque é o palco onde o Português se pode dar naturalmente bem. Operar globalmente não é nada de novo para o nosso povo. Aliás, fomos, muito provavelmente, o primeiro povo a conduzir operações à escala global, ao que não será alheia a nossa boa capacidade de relacionamento com o “Outro”. A “libertação” do Português da dependência do Estado para tudo é fundamental de modo a que o Português ganhe uma outra maioridade. Para isso temos de ter uma sociedade menos dependente do Estado e um Estado muito mais pequeno.

Penso ser hoje geralmente aceite que não é mais possível continuar a viver em constante défice e acumular mais dívida pública e privada. Esse modus vivendi a que nos acomodámos e tomámos como eternamente adquirido vai ter de acabar. Doravante a palavra de ordem terá de ser “Excedente”, ainda que para isso tenhamos que proceder a muito sacrifícios de curto e médio prazo. Só assim conseguiremos transformar a nossa economia naquilo que ela terá que ser.

A correcta compreensão do exposto e a emissão de estímulos conducentes à aceleração das infindáveis decisões individuais de todos os agentes económicos são o principal desafio que os próximos governos terão pela frente. Não ver isto é avalizar o já contínuo definhamento da nossa economia, o que, e a prazo não muito distante, conduzirá a turbulências económicas e sociais difíceis de quantificar.

Quanto tempo demora esta fase de transferência e como a mesma se irá processar?

DOMINGO, 6 DE MARÇO DE 2011

Esta é a pergunta que se coloca sobre Portugal neste momento. Valerá a pena debruçarmo-nos sobre a pergunta e tentar perceber o que ela encerra. Primeiro temos a questão da “transferência”. Transferência de quê? Basicamente trata-se de uma transferência de uma sociedade voltada para o consumo para uma sociedade voltada para a produção, revertendo as proporções em favor da segunda de modo a compensar os excessos da primeira nestes últimos 25 anos.

Este processo será, em princípio, longo e penoso. Direi que durará uns 30 anos. Montar uma economia voltada para a exportação não é coisa fácil. Mesmo que contemos com a vontade dos Portugueses para o efeito, coisa que não está garantida, temos ainda que contar com a concorrência internacional, ou seja, com todos os outros povos com vontade, e capacidade, reforço, capacidade, de jogar o campeonato da produção.

A vontade dos Portugueses é algo que não está a ser devidamente equacionada. Aliás, este é um fenómeno sobre o qual me assaltam dúvidas de como se processará. Como lidar com a questão das expectativas e a sua adequação à realidade de cada um? Como irá reagir alguém que até agora tinha como expectativas ser servido e trabalhar em ambiente palaciano voltado para o consumo (seja assistente de marketing de produtos de consumo, vendedor de automóveis, funcionário/a público, etc), e que irá passar no futuro a ter de servir e ter de trabalhar em serviços que até agora constituíam o suporte do seu estilo de vida (seja trabalhar numa empresa de limpezas, a tratar de pessoas idosas, num shop-floor de uma fábrica, ou ainda na agricultura e pescas)? Esta questão fará as delícias dos sociólogos daqui a 40 anos, da mesma maneira que os actuais se derretem a analisar / comparar o Portugal de 1960 com o de 2010.

Enquanto para o parágrafo anterior podemos contar com o argumento da "Realidade", essa coisa poderosíssima que tratará de dobrar as pessoas, confesso que já me assusta mais a nossa capacidade competitiva. É que teremos mais concorrentes no mercado (agora de todos os continentes), com mais capacidades do que pensamos, e mais dispostos a receberem aquilo que por cá é considerado indigno e ímpio (uma questão de expectativas) se isso os colocar sentados à mesa do campeonato mundial.

Quanto à forma de como a transferência se irá processar isso é algo de difícil previsão. Idealmente será feita dentro da zona euro de modo a evitar catástrofes de curto prazo. Mas nada nos garantirá de que não sejamos empurrados para fora do Euro se a isso convier ao resto dos países da zona euro. Desta possibilidade depende o quanto o povo Português consegue apreender a situação em que se encontra e aceitar as prescrições que se impõem, e que, repito, passam por fiscalmente desincentivar tudo o que respeite o consumo e incentivar tudo o que respeite produção (o seu decorrente acréscimo passa pelo sucesso que os empreendimentos tenham no concorrencial ambiente internacional).

É pouco percebido pela população de que o facto de estarmos na zona euro e atulhados em dívida nos impossibilita de enveredar por soluções como as que adoptámos em 1977/78 e 1983/84 aquando dos acordos com o FMI. Proceder a desvalorizações da moeda e a perdas de poder de compra ao nível dos 10% é coisa que não é possível beneficiar estando na zona euro com o nível de endividamento que temos. Assim sendo a solução é única, penalizando fiscalmente o consumo e estimulando em paralelo a produção, não só por via fiscal, bem como onde o Estado pode concorrer para o decréscimo dos custos de produção / contexto. A dúvida reside somente no grau em que se decide servir a solução.

Curiosamente há um factor que parece assustar a maioria dos nossos opinion makers e que me parece não ser tão importante. Trata-se da necessidade de existir um acordo de regime ou de existir um governo de maioria absoluta de modo a garantir estabilidade (referem eles). Ora, ainda que havendo um governo minoritário, nenhuma oposição será suficientemente louca para tomar posições que coloquem Portugal fora do Euro. BE e PCP incluídos. Sei que a rota em que nos encontramos nos colocará, a prazo, fora da zona Euro. Mas esse espectro ainda não entrou na equação dos sindicatos e partidos de esquerda, coisa que irá acontecer daqui a uns 2 anos. Forças sensíveis a braços de ferro e pouco dadas ao valor do argumento, estes partidos não hesitarão em mudar de opinião se Portugal for confrontado com um ultimato Alemão. Berrarão contra o Prussiano, mas não vacilarão em comportar-se em conformidade. O mesmo se passará com as outras forças políticas. Caberá ao partido que formar governo (e eu espero que seja o CDS) colocar a questão muito abertamente aos Portugueses de modo a condicionar de vez a decisão de todos os outros partidos no que respeita à passagem dos orçamentos de Estado que adoptem as medidas adequadas.

Não nos devemos assustar. As fases de mudanças de regime são coisas normais. O regime ditatorial que tivemos acabou em 1974 porque tinha de acabar. Não era mais possível continuar com ele. Apodreceu e desabou. O mesmo se passou nos países de Leste há cerca de 22 anos. Ruíram que nem um castelinho de cartas. E o mesmo se vai passar em Portugal com o Socialismo que nos governa há 37 anos. Já apodreceu e está para acabar. Mas atenção, ainda não acabou e ainda vai dar mais “tiros”, embora no pé, obviamente. Resta-nos preparar a fase pós-socialista.

Só para quem tem bagagem

QUINTA-FEIRA, 3 DE MARÇO DE 2011

Claro que vêm aí mais impostos. Como já aqui foi dito, Portugal perdeu a independência porque acumulou uma dívida brutal e porque não consegue ter a coragem de tomar as medidas necessárias por vontade própria. E enquanto não tiver a coragem de estancar o défice e de começar a pagar a dívida através de excedentes (ao invés de défices), iremos assistir a estes tristes episódios que são as idas a Berlim e Bruxelas.

Que fique claro que o aumento de impostos é necessário nas actuais circunstâncias. O problema é que com estas imposições Europeias não conseguimos montar uma estratégia fiscal. Não que a culpa seja da Sra. Merkel. Tomara a senhora não ter que receber um Sócrates. O culpado é José Sócrates que não percebe nada de estratégia nem tão pouco tem arcaboiço. Ser que se limitou a apurar os sentidos para efeitos práticos de subida ao poder, é totalmente inapto para ler o que se passa e muito menos para montar uma estratégia fiscal, que para além dos seus efeitos práticos carregaria em si sinais que são importantes passar ao Portugueses.

Já aqui foi dito que temos um claríssimo excesso de consumo face ao que produzimos. Taxar o consumo por contrapartida de redução dos impostos sobre o rendimento é a solução. Precisamos desesperadamente de mais trabalho. No curto prazo isso só pode ser feito com agressividade fiscal ao nível dos impostos sobre o rendimento de modo a potenciar as exportações. Em paralelo há que reduzir por todos os meios possíveis os factores de produção, entre os quais destaco os produtos petrolíferos por via da redução dos impostos sobre os produtos petrolíferos. Por contrapartida que se aumente bastante (muito mesmo) o imposto automóvel e o imposto de circulação.

Só isto passaria sinais claros aos Portugueses de que se premeia o trabalho ao invés do consumo, bem como a poupança (sim, IRS mais baixo e IVA mais alto convida mais à poupança). Poupança crescente torna-nos menos dependentes de financiamento exterior que agora nos é taxado principescamente por quem, de pleno direito, acha que somos um devedor de risco.

Decorrente dos dois parágrafos anteriores os juros cobrados a Portugal e aos nossos bancos desceria, pelo que os juros cobrados às empresas desceria também, aliviando-as.

Isto não é complicado, mas exige um tipo de fibra para o qual um Sócrates (e diga-se, todos os outros) não foram formatados. É cair no domínio das verdadeiras opções, e essas são para quem tem bagagem.

Muita paciência

DOMINGO, 27 DE FEVEREIRO DE 2011

Quando se diz que consumimos mais do que produzimos isso quer dizer que vivemos em constante défice. Durante um longo período de tempo isso significa dívida acumulada significativamente superior ao que se produz. Isso conduz a um cenário insustentável a prazo.

É mais do que evidente que os últimos 25 anos foram um festival de défice (os primeiros 10 não foram tão explícitos, mas prepararam a função pública para aquilo que ela é hoje). Agora temos que alinhar o consumo por aquilo que produzimos. Mas há mais. Há que pagar a dívida. Que tenhamos isso bem presente.

A política pode servir este propósito equilibrista e até tem meios para o fazer. Como já foi dito neste espaço, há que, fiscalmente, penalizar o consumo e estimular a produção. Uma das formas de penalizar o consumo é subir a taxa do IVA, nomeadamente do IVA mais alto, do imposto automóvel, e do imposto sobre o tabaco. E uma das formas de beneficiar a produção é a redução do imposto sobre o rendimento. Neste ponto há um duplo efeito. Não só se premeia o trabalho como também se permite flexibilidade extra na redução dos custos de trabalho quando comparados com o nível de produtividade dos mesmos. E a verdade é que os custos de trabalho subiram mais nos últimos anos quando comparados com a performance desse mesmo trabalho. Que não restem dúvidas, os custos do trabalho têm que diminuir.

O futuro está em produzir mais e melhor e em vender bem o que produzimos. É discurso corrente, e correcto, falar-se em alto valor acrescentado, inovação de qualidade, possuir circuitos de distribuição eficientes, e em que não podemos mais apostar numa política de vender produtos de baixo valor acrescentado. Está tudo de acordo sobre o facto. Mas tudo isso tem de custar barato. Começa-se pelo princípio e não pelo fim. Roma e Pavia não se fizeram num dia. Ainda temos um longo caminho a percorrer. A nossa mão de obra é ainda de baixa formação quando comparada com os mais elevados standards e consequentemente temos que acautelar os nossos níveis de exigência. Por isso há que ter cuidado e jogar defensivamente. Até porque nos dias de hoje há mais “gente” no mundo a jogar no campeonato onde estamos. Por isso tudo quando sirva o propósito e concorra para baixar os custos de produção deve ser arma a ser utilizada por Portugal.

Até ver o consumo tem que esperar. O consumo só deverá ser reanimado após as exportações terem um bom comportamento durante uns dez a quinze anos consecutivos e depois de ser ter amortizado parte significativa da nossa dívida acumulada (até para trazer os juros da dívida dos incomportáveis e loucamente actuais 7% para 3%; ter em atenção que os mesmos vão ainda subir mais). Parece muito tempo, mas a realidade económica não se muda de um dia para o outro. Estimular consumo é muito fácil, mas estimular produção já demora mais tempo. Conquistar mercados no exterior e substituir importações é bem mais complicado do que vender carros ao vizinho. Montar uma economia voltada para a exportação demora muito tempo. Fatalmente teremos que ter paciência. Muita paciência.

Era uma vez os Nunes...

DOMINGO, 27 DE FEVEREIRO DE 2011

Era uma vez um casal que vivia em Portugal em 2014. Ele, António Nunes, empregado bancário, auferindo um rendimento bruto de 1200 euros por mês. Ela, Sónia, empregada numa petrolífera, ganhava 1500 euros por mês. Tinham dois filhos, o pequeno Ruben e a endiabrada Luísa. Sónia e António eram considerados um bom casal. Bons pais com bons princípios, parcimoniosos nos gastos, e até de visão de longo prazo.

O seu rendimento médio mensal líquido rondava os 2350 euros mês (pressuposto de 15% de IRS, 11% de segurança social, 14 meses de vencimento). Este casal vive num T3 que lhes custou cerca de 160.000 euros e para os quais até deram uma entrada de 60.000 euros. Pediram ao banco os restantes 100.000 euros. Andam num carro de baixa gama que já está pago e que lhes custa mensalmente (seguros, gasolina, manutenção, etc) 200 euros por mês.

Para uma prestação de casa de 450 euros mês, os Nunes conseguem poupar todos os meses 350 euros. Tem gastos de uns bravos nestes tempos que correm onde a embriaguez ainda faz doutrina. Grosso modo as suas despesas distribuem-se, em média, da seguinte forma:

Prestação da casa e condomínio 500 euros
Alimentação 450 euros
Electricidade 50 euros
Gás 50 euros
Telefone / Internet / Cabo 100 euros
Carro 200 euros
Saúde e farmácia 200 euros (inclui seguro de saúde de 100 euros)
Passes sociais 50 euros
Outros 150 euros

Os Nunes em 2012 foram convocados a votar. Um dos partidos tina uma receita para o país algo insólita, mas que até lhes fazia sentido. Só que, entre outras coisas, falavam de um aumento do IVA máximo para 30%, coisa que a Sónia achava muito injusto. No entanto, e à semelhança de muitas outras pessoas, este casal não fazia as contas sobre o impacto desse aumento. Na verdade, esse aumento, significava um decréscimo na sua poupança de cerca de 55 euros no pressuposto de que manteria todos os gastos como até agora. Os Nunes tinham dificuldade em compreender o quanto a descida do IRS entretanto proposta os iria beneficiar. Mas tinham a certeza que nunca chegaria aos ditos 55 euros. Aliás, esse partido bem o dizia. A verdade era mesmo uma das suas armas eleitorais.

Os outros partidos continuavam na sua senda de mentira e ilusão. Mas os Nunes, bem como o resto da população, não percebiam bem o que estava a acontecer a Portugal, e por isso resolveram abster-se no dia das eleições.

Um dos outros partidos ganhou as eleições e o desnorte de Portugal continuou. Em 2014 a União Europeia resolveu expulsar Portugal da Zona Euro devido ao montante total da dívida de Portugal e à total impossibilidade de esta ser controlada com Portugal na Zona Euro. A vida dos Nunes sofreu bastante. O rendimento dos Nunes até se manteve, mas agora denominados em Escudos. Passou a ser de 470 contos. O drama foi a prestação da casa. De 100 contos passou para 200 contos (em euros correspondeu a um aumento de 500 euros). Sónia não percebeu porquê, e o pobre António lá lhe explicou que isso se deveu à desvalorização do Escudo face ao Euro em 30% e ao aumento significativo da taxa de juro. Para além disso, a inflação bateu à porta resultante dessa desvalorização, implicando um acréscimo de cerca de 15% em todas as rubricas das suas despesas.

A Sónia nem queria acreditar. Considerava-se uma boa gestora da casa e agora toda uma turbulência financeira entrava-lhe pela casa dentro. Achava também que a sua atitude de consumo parcimoniosa não fora compensada pelos ventos da história. Só o aumento da prestação da casa mais do que “comeu” a sua orgulhosa poupança. Sem contar com os restantes aumentos. De uma penada acabara-se a poupança. E mais, cortou-se em despesas como os Nunes nunca tinham pensado. O novo carro que os Nunes pensavam em comprar passou a ser algo completamente fora de questão. Os preços dos mesmos subiu cerca de 30% em virtude da desvalorização do Escudo e as taxas de juro rondavam agora os 10%. Proibitivo.

Por essa altura os Nunes, bem como a maioria do Portugueses viam muitos programas de televisão onde escutavam destacadas personalidades da vida económica. E aí perceberam o erro que fizeram em se abster nas ditas eleições. E os ditos 55 euros de penalização respeitantes ao aumento do IVA pareceu-lhes então um Oásis. Pareceu-lhes então muito tonto não quererem escutar o partido que na ocasião apresentava um pacote de saída para Portugal. Perceberam que a falta de fibra que assolava os Portugueses em 2012 teve consequências bem funestas. Muito mais do que se poderia pensar.

Nunes deste Portugal, cuidai-vos no futuro e evitai que o céu vos caia em cima da cabeça. Deixai a razão funcionar e afastai a ignorância do caminho.

Explicar do que padecemos

TERÇA-FEIRA, 22 DE FEVEREIRO DE 2011

Tenho notado amiúde que a maioria dos Portugueses com quem vou contactando, reagem com muito pouca maturidade ao facto de terem que baixar de nível de vida. Com frequência dizem que não é possível que as coisas fiquem pior do que o que já estão e que não é mais possível apertar o cinto. Como se a realidade fosse função dos julgamentos. A realidade é muito poderosa e está para além das nossas opiniões ou estados de alma sobre a justiça da forma como essa realidade nos é apresentada.

É crucial para a viragem de Portugal para um novo rumo que os Portugueses interiorizem a realidade. Esta não se confina aos seus efeitos. Eles são muito bem conhecidos, porque funestos e porque a todos toca de uma maneira geral. Os Portugueses estão muito bem familiarizados com os sintomas do mal, mas estão incapazes de ver a doença, muito menos de a perceber.

A doença de que padecemos chama-se “viver no mundo da ilusão” (por ironia podemos também chamar “viver no mundo dos desenhos animados”). Esta doença pode-se manifestar de inúmeras formas. Entre nós, e neste período histórico, últimos 25 anos, resolveu manifestar-se pela forma de dívida, seja ela pública ou privada, projectos mirabolantes e desfasados da realidade (TGV e NAL), pela ideia peregrina que o sucesso económico de um país passa por talhar uma maior parte do orçamento por parte dos grupos de pressão, pela defesa de agendas absurdas e mórbidas (aborto, casamento homossexual), e acima de tudo por uma vontade impressionante de recusar ouvir a palavra pela mão do argumento, preferindo, ao invés, o berro e a mentira.

Enquanto não entendermos que este o mundo da ilusão já acabou e que quanto mais rapidamente nos atirarmos para o outro, ou seja, aquele chamado “Realidade”, sentiremos eternamente os sintomas funestos da doença, e não estaremos em condições de resolver o problema. Como para a maioria das doenças, existem diversas terapias que resultam em diferentes prescrições. Sejam elas quais forem, estas demonstram ser particularmente duras quando comparadas com os comportamentos que conduziram à doença. Prescrever a um comilão incontinente por doces que os deixe de comer em resultado de turbulências graves de fígado, não é mudança comportamental fácil de seguir. A compensação do comilão é que o sucesso da prescrição resultará no fim das suas turbulências figadais. Certo é, no entanto, que até lá coabitarão duas penas, a interrupção da ingestão dos doces e as ditas turbulências de fígado, pelo que, e no início, o caminho pode provar ser mais difícil do que aquele que levou o comilão à consulta médica.

Portugal e os Portugueses não querem, pura e simplesmente, ir ao médico. Ao invés de quererem ouvir da doença de que padecem e de aceitar uma prescrição, seja ela qual for, preferem manter-se ligados ao vício e ao erro, ainda que para isso sofram pesadamente, e cada vez mais, com os sintomas do mal (juros altos pela emissão de dívida, fraca competitividade, desconfiança dos mercados, desânimo geral, e falta de confiança no futuro).

Como para algumas doenças, o mais difícil é aceitar a realidade e o facto de que o início da cura pode ser mais penoso do que até aí têm sido os sintomas da doença. Por isso, e antes de apresentar uma prescrição a Portugal, importa bastante dizer aos Portugueses que tipo de doença assola Portugal. Só depois vale a pena começar a indicar prescrições.

Resposta ao meu ilustre amigo e colega de blogue Miguel Alvim

QUINTA-FEIRA, 10 DE FEVEREIRO DE 2011

Caro Miguel, irei tentar rebater de forma esquemática os comentários que o meu post mereceu.

Eu direi que hoje as pessoas não são as mesmas do que antigamente, seja há 50 anos, seja há 200 anos, ou 500 anos. E que o mundo é mesmo muito diferente de qualquer uma dessas épocas. Não que sejam as pessoas melhores ou piores, ou o mundo melhor ou pior. Esse nem é tanto o assunto, embora pessoalmente ache que nunca se esteve tão bem no planeta Terra. Agora o Homem é muito diferente. Aliás, o empirismo basta para explicar. Hoje, e maioritariamente no mundo mais desenvolvido, só uma pequena percentagem vive do campo. Será à volta de uns 3%, quando há 50 anos em Portugal seriam uns 30% e há 500 anos uns 90 ou 95%. Daqui já decorre muita diferença. Hoje quase todos são letrados enquanto há 500 anos só uns 2% o eram, com tudo o que isso implica. A esperança de vida há 500 anos rondaria os 30 e poucos anos enquanto hoje ronda os 75 anos (média do homem e mulher). Há 500 anos o mundo teria à volta de 30 a 50 milhões de pessoas. Hoje estaremos na grandeza dos 8 biliões. Nos dias de hoje há muita gente gorda e a pensar a longo prazo, sinal de abastança quando comparamos com os esquálidos habitantes de há 500 anos que só pensavam par o dia seguinte. Antigamente a mulher era cidadã de segunda, hoje já não o é. Detenho-me por aqui porque todos tiram as suas conclusões.

No assunto das remunerações acontece que o mundo globalizou-se de tal forma que a dimensão daquilo que é gerido hoje é muito maior em número e complexidade do que o era há 50 anos atrás. Basta entrar num supermercado hoje e comparar com os supermercados de há 50 anos (que nem os havia por cá). A profissão de gestor (por questões de extrema simplificação colocarei gestor, empresário e líder no mesmo saco sabendo que são todos bem diferentes) tem sido bastante valorizada recentemente devido aos ganhos de eficiência que os mesmos trazem se forem altamente qualificados. Claro que recentemente alguns perderam a noção e auto-remuneraram-se obscenamente. Mas isso é um detalhe que anda a ser afinado aos poucos por esse mundo. Aliás, em Portugal só tivemos um caso desse género. Foi o BCP.

Por uma qualquer razão misteriosa pensa-se que um gestor que ganhe bem, digamos, uns 50000 euros por mês, é um bandido sem escrúpulos, que não ama o país, egoísta, safado, pulha, mau chefe de família, etc. A sangue-frio não olhamos para os benefícios que o mesmo pode trazer pela mão (ou melhor, pela cabeça) das suas competências intelectuais. Quando Paulo Macedo foi escolhido para a dgci foi logo apontado como algo de ímpio devido ao seu elevado vencimento. Penso que seria à volta de 50000 euros por mês. Parece que à posteriori todos ficaram muito contentes com ele, inclusivamente a esquerda!!!!!! Como cidadão não me senti defraudado e nem esperei dele qualquer tipo de missionarismo. Simplesmente esperei competência para cumprir com bons resultados. E cumpriu, prestou bom serviço servindo com isso muito bem a comunidade. Consta que pessoa muito dedicada, séria, credível, com bom espírito de equipa, e muito dedicado à missão. Ou seja, não precisou de missionarismo de qualquer espécie.

O que Portugal precisa é de um bando de competentes a governarem o país. Aliás, nos dias de hoje até estou convencido que missionarismo não funciona. Mas não quero entrar tanto por aqui. Podia-se discutir longamente até à exaustão. E essa não é a ideia.

Agora não caio em maniqueismos. Pelo facto de um grupo de pessoas competentes a ganhar 20000 euros por mês não ser “missionarista” não faz dessas pessoas corruptas, falhos na defesa do interesse nacional, preocupados em se governarem a eles próprios, traficarem interesses, dedicados a outros negócios paralelos, desligados da missão, etc. A virtude para a coisa pública não é exclusiva dos missionários.

Acontece que os competentes andam a ser bem remunerados neste mundo e por isso não estão voltados para a governação que paga mal quando comparado com aquilo que ganham. E fogem. Por isso ficam os batráquios (expressão importada do Professor César das Neves) a chafurdarem na lama. Não há muitos competentes com bons ordenados a resolverem ganhar 10 vezes menos para se meterem na lama.

Mas porque os assuntos por vezes merecem algum pragmatismo, direi até que já não há missionários. Ou pelo menos existem muito poucos. Não que me importe que vão para o governo se forem bons para aquilo que forem desempenhar. Se quiserem ganhar somente 5000 euros por mês, então que seja. Agora não aceito que são esses que carregam em exclusivo a Virtude. Se estiver errado, então temos um grande problema de escassez com a agravante de que esses poucos puderem ser barbaramente incompetentes. É bom mesmo que esteja certo.

Nota final: Sobre a maneira de alcançar a felicidade, bom, direi que não cabe muito por aqui. Mas direi que não preciso do Estado nem dos seus representantes para me ensinarem como o fazer.

Portugal, solução (16)

SEGUNDA-FEIRA, 7 DE FEVEREIRO DE 2011

Portugal, na sequência da tua solução (15), e porque algumas matérias obrigam a alguma integração, dir-te-ei que tens que ter uma atitude diferente no que toca ao rendimento dos senhorios. Acima de tudo há que não os tratar por ricos (que o sejam, quer não o sejam) a quem é necessário taxar a torto e a direito e obrigá-los a financiar habitação aos outros cidadãos. Isso é uma visão retrógrada que não toma em linha de conta uma miríade de outros aspectos que configuram a realidade da habitação em Portugal.

O rendimento obtido pelas rendas deverá ser taxado a uma taxa liberatória. Direi qualquer coisa como 15%. Parece baixo, mas essa é mesmo a ideia. A habitação é um bem de primeira necessidade, embora fiscalmente seja tratada como um bem de luxo. Daí a enorme fuga ao fisco existente. Com uma taxa mais baixa, aquilo que hoje é contratualizado entre um senhorio e um inquilino, passa a ser invariavelmente sempre suportado por um contracto e um recibo. A 15% o senhorio não quererá tantos correr riscos e o inquilino sente-se mais confortável para exigir tudo “por cima da mesa”. Ainda que a colecta total se possa manter, anda tudo a funcionar “por cima da mesa”, o que, convenhamos, é mais civilizado.

Por outro lado, e isto é muito importante, cada apartamento / casa deverá ter um cadastro de obras / melhoramentos, ou seja, tudo o que foi feito ao nível de manutenção. Para isso, e para que o processo seja suave, 5% do valor da renda deverá ser afectado, obrigatoriamente, para um fundo. Esse fundo, gerido por uma empresa / pessoa independente tratará de gerir a manutenção dos edifícios. Este cadastro deverá ser alvo de inspecções de forma aleatória ou ainda de forma indiciária. A denúncia poderá servir também para ajudar a fiscalização.

Nesse cadastro deverão constar os recibos passados por quem prestou os serviços (nome da companhia / pessoa, número fiscal, contacto (se existente), e número de recibo / factura). A libertação dos montantes deverá ser unicamente aplicada na manutenção imobiliária e deverá ser unicamente feita contra apresentação de facturas. O cadastro do apartamento / prédio deverá estar informaticamente associado a uma conta que terá, obrigatoriamente, associada um ficheiro com todos os documentos scaneados. Inclusivamente poder-se-á chegar ao limite de obrigatoriedade de envio do número de contribuinte e número de recibo / factura aos serviços centrais da DGCI para efeitos de cruzamento de informação. Um pouco à semelhança como se faz com a inserção do número de contribuinte do senhorio aquando do preenchimento do IRS por parte do inquilino.

Portugal, mas há mais. Para que o sistema funcione todo por “cima da mesa” terás que reduzir o IVA dos materiais de construção e prestação de serviço (o preço da mão de obra). Proponho 5%. Parece pouco, mas continuo com a crença inabalável de que a habitação é um bem essencial. Tudo quanto é pedreiro e carpinteiro andará “por cima da mesa”. Uma boa campanha na televisão (pelo menos na pública) entusiasmará a população a exigir sempre recibos. Caramba, se o serviço for 100 euros o IVA é 5 Euros. Duvido que haja muito espaço para complacências por parte de quem paga.

Claro que estas despesas deverão abater para o cálculo da matéria colectável onde irão incidir os tais 15%.

Quanto a quem tem casa própria poderá ser exigida também a apresentação de cadastro, embora isso não seja obrigatório. Mas se não o tiver, seguramente sairá prejudicado no futuro com este sistema pois haverá muito termo de comparação. No entanto, e no caso de apartamento esse cadastro deverá ser obrigatório. Aliás, aplicar-se-á o mesmo princípio dos 5%. Só que aqui o cálculo não é efectuado sobre o valor da renda (que não existe), antes sobre o valor de avaliação (poderá ser um valor teórico de renda).

Portugal, não é difícil por tudo a funcionar “por cima da mesa”. Só tens que levar avante este sistema. Mais, nem é preciso muito tempo. E segredo-te, se os Portugueses interiorizarem que arrendar é o melhor sistema e abandonarem a psicose da posse, vais ver, isto é uma mina de receita. No fundo nem é preciso interiorizarem muito. À falta de alternativa pelo facto de os bancos praticarem uma política mais conservadora no crédito (o que é muito bem feito), e com a redução das rendas baixarem devido à solução (12), então isto é dinheiro em caixa. O futuro está no arrendamento.

Portugal, e um dia quando acordares tens de repente parte do teu parque de edifícios antigos recuperados. Nada mau. Talvez os turistas por essa altura comecem a tirar mais fotografias pelos edifícios que tu tanto mal tratas.

Nota: no caso de empresas que actuem neste ramo, ou que nele queiram actuar em virtude de uma normalização e legalização geral, então a taxa de IRC deverá ser também de 15%.

Pequena nota ao último "post"

DOMINGO, 6 DE FEVEREIRO DE 2011

Para além dos aldrabões, existem também os desgovernados. Em ambos os casos o inquilino não tem que pagar por isso. Aliás, e no que respeita aos desgovernados, uma atitude mais severa com a devida cobertura legal forneceria o devido estímulo para treinar a arte da boa governação do orçamento familiar.

Portugal, solução (15)

DOMINGO, 6 DE FEVEREIRO DE 2011

Portugal, ok, então eu não pago a renda ao senhorio e ele não me pode por fora a tempo e horas. Isso é fixe. Dá para fazer umas poupanças. Sim, até porque parece que é consensual que os Portugueses devem poupar mais…

Portugal, esta situação é de doidos e tem que ser resolvida no curto prazo. A ideia é: quem não paga renda tem que sair no espaço de 15 dias a 1 mês. É assim em todos os países civilizados. Porque razão terás tu que ser o incivilizado dos civilizados? Caramba, é assim tão complicado provar que a renda não foi paga e actuar em conformidade? Não me parece. Há que acabar com esta aldrabice que os inquilinos fazem aos senhorios. Ainda que os senhorios por vezes faltem ao contratado, nomeadamente obras, isso não dá o direito de não se pagar a renda por aldrabice. E o que não falta por aí são aldrabões que têm que ser postos na ordem. Aldrabão em país de primeira tem tratamento próprio.

Portugal, mas porque tu tens aquela ideia errada de que o senhorio é sempre o patife e o inquilino um pobre coitado, e por conseguinte não reconheces argumento que dificulte a vida ao aldrabão, então trago-te um argumento que talvez te convença a teres uma posição mais severa. Pensa assim: se os senhorios souberem que 1 mês depois os prevaricadores forem postos na rua, então nesse caso muitas mais casas serão postas a arrendar. Sim, casas que não são colocadas no mercado devido ao efeito de risco associado ao arrendamento. E se muitas casas forem colocadas a arrendar isso implica descida dos preços, o que, obviamente, só beneficia os “pobres” dos inquilinos. Mas há mais. Os senhorios estarão dispostos a colocar preços mais baixos devido à remoção do prémio de risco de incumprimento.

Estás a ver Portugal? Não é belo ter rendas mais baixas no mercado? Claro que é. Perdoa-me o facto de te recomendar pela mão de um argumento pobre. Mas o outro tu não o compreendes. Sim, aquele que tem associado o conceito de justiça e de correcção de quem anda a prevaricar. É uma pena. Fechar o cerco aos aldrabões em todos os domínios passa a mensagem correcta para a sociedade. O aldrabão tem que ser perdedor na sociedade. Não vencedor.

Esta medida em muito iria moralizar o mercado de habitação em Portugal. Não só dinamizaria o mercado de arrendamento, promovendo a flexibilidade geográfica dos teus constituintes, como pressionaria os preços para baixo, o que, são sempre boas notícias, principalmente no longo período de vacas magras que ai vem. Um autêntico dois em um.

Mas há mais, isso estimulará a restauração de edifícios antigos para arrendamento, nomeadamente em Lisboa e Porto. A questão da compra vai andar fora de questão no futuro. Por isso esses milhares de prédios antigos terão de ser arrendados. Os bancos aprenderão muito bem a lição com o sub-prime. Empréstimos para habitação? Só com uma entrada “generosa”. Por isso doravante o arrendamento será o modo natural de habitação. Sobre o facto indaga sobre o sistema Alemão. Pode fazer jeito. Digo-te que cerca de 70% deles vive em casa alugada. E consta que não lhes cai o Carmo e a Trindade pelo facto. Anda é tudo com renda paga a tempo e horas, senão… E são rendas baratas, mais baratas do que em Portugal…