quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Olhos abertos

TERÇA-FEIRA, 10 DE MAIO DE 2011

A Irlanda vai baixar o IVA para alguns produtos / serviços de lazer de 13,5% para 9%. Há que estar alerta para estes movimentos internacionais de modo a manter o nosso Turismo competitivo, embora creia que nós não competimos muito com a Irlanda. Relembro que vender turismo lá fora equivale a exportar, a tal coisa que precisamos desesperadamente.

Ver mais em

http://www.irishtimes.com/newspaper/breaking/2011/0510/breaking11.html?via=mr

onde algures se diz "Specifically, the plan will see VAT on restaurants, hotels, cinemas, theatres, sporting fixtures and other attractions reduced from 13.5 per cent to 9 per cent."

Meias medidas!

DOMINGO, 8 DE MAIO DE 2011

O programa do PSD foca dois aspectos que já neste espaço foram defendidos. Um consiste em reduzir os custos para as empresas pela via da redução fiscal. O outro na atracção de Portugal para fixar estrangeiros seniores no nosso país.

O PSD propõe a redução da Taxa Social Única até 4 pontos percentuais na futura legislatura. O princípio é bom, mas o instrumento é mau. Deve ser o IRS, e não a TSU, o instrumento a ser utilizado. O instrumento TSU só deve ser usado como amplificador do efeito da forte descida do IRS. E só deverá ser usado no momento em que a economia der sinais de crescimento pela via da desvalorização fiscal via IRS de modo a não comprometer a sustentabilidade da segurança social. Sem contar que 4 pontos percentuais é pouco, nomeadamente se espaçados no tempo, ou seja, não contribui com um efeito de choque ao nível dos custos, que mais não é do que aquilo de que precisamos. Isto é uma meia medida.

Propõe ainda promover Portugal como destino do Turismo Sénior. A ideia é boa, embora não seja nova. Mas mais uma vez é uma meia medida. Não é só o Turismo Sénior que precisamos. Precisamos que os não seniores também por cá se instalem. Num post anterior falei nos trabalhadores do conhecimento. Sem entrar em muitos detalhes sobre o conceito académico destes, direi que são mais ou menos aqueles trabalhadores apátridas que andam de computador portátil debaixo do braço e que vendem os seus serviços especializados por esse mundo fora em regime de contractos (muitos deles são free-lancers). É uma espécie em franca expansão e que viaja muito de avião. Trabalham muito e sob um stress considerável, são mais ou menos cosmopolitas, necessitam de um aeroporto por perto, ganham razoavelmente bem, gastam muito em restaurantes e esplanadas, gostam sempre de receber amigos no sítio onde estão, não criam problemas por onde passam, e são muito sensíveis a sistemas fiscais simples de onde possam emitir as suas facturas. As regiões de Lisboa, Porto e Faro têm óptimas condições para os captar. Só falta o IRS à taxa fixa de 5%. Por isso ficarmo-nos pelos seniores é pouco, ou seja, é uma meia medida.

Portugal precisa muito de medidas que não se fiquem a metade. Precisamo-las completas, evidentes, cheias de impacto, transparentes, e acima de tudo transformativas.

Produtividade governativa

SÁBADO, 7 DE MAIO DE 2011

Fala-se por vezes de produtividade e que é preciso aumentar a mesma. Muitas vezes pela voz de membros do Governo, nomeadamente os mais destacados. Ora se há coisa que resulta deste memorando da troika, e da sequência prática que se lhe vai seguir, é que num mês “compactou-se” num documento uma série de tarefas a levar a cabo que podiam perfeitamente já ter sido implementadas há muito tempo. Sobre a maior parte delas estavam quase todos os quadrantes políticos de acordo. Que não se duvide da sua utilidade.

Ora se num mês uns estrangeiros vieram pôr ordem na nossa casa, então será legítimo questionarmo-nos sobre a questão da produtividade nacional ao nível governativo e político. Sabemos que do lado de cima se questiona muito sobre a baixa produtividade dos Portugueses do lado de baixo. Mas estou em querer que está na hora dos Portugueses do lado de baixo questionarem muito seriamente a produtividade do Portugueses do lado de cima.

Em tempos avancei como uma das soluções para Portugal a contratação de estrangeiros para os cargos mais altos da Função Pública como forma de dotar a mesma de maior qualidade executiva e de injectar um tipo de cultura de exigência, disciplina, e distanciamento relativamente aos interesses instalados que permitisse um desempenho muito melhor dos serviços públicos. A história aos poucos irá dar força a esta ideia, insólita, sem dúvida, mas que deve merecer reflexão atenta. Se em paralelo acabarmos em definitivo com o cargo de confiança político, que mais não é do que o sonho feito realidade de qualquer boy, então teríamos um excelente motivo para crer que a produtividade do lado de baixo iria definitivamente subir… mas à conta de uma subida de produtividade do lado de cima. E cereja em cima do bolo, veríamos a despesa pública descer e uma moralização da vida pública.

Admito que os Portugueses do lado de cima achariam pouca graça a esta ideia, mas estou em crer que os do lado de baixo lhe poderiam achar alguma graça.

No que toca a esta questão eu pertenço ao clube dos do lado de baixo. Em nada me identifico com os políticos (a maioria deles, pois acredito existirem excepções). Quanto a discursos do tipo “isso é contra a independência de Portugal”, “estamos todos no mesmo barco” e “temos de dar as mãos”, etc, cuidado, isso mais não é do que um truque para perpetuar o status quo. Nessa não caio. Temos que partir a espinha aos malandros e destruir a lógica partidária do poder pelo poder e da lógica da supremacia do interesse individual e de grupo sobre o interesse geral.

Há um tsunami a caminho…

SEGUNDA-FEIRA, 2 DE MAIO DE 2011

… mas ainda há quem diga que não vale a pena sair da praia porque é lá que se está bem. Há uns que sabem o que aí vem e bem dizem às pessoas para de lá saírem, mas estas não querem, pois dizem que o tempo está bom e que querem ainda mais sol, que existe o direito adquirido de lá estar, porque se entende merece-lo, porque se trabalhou (ou não) durante todo o ano e agora se quer realizar a pretensão de ir a banhos com deleite. Outros, embora ouçam, não percebem bem e estão paralisados. Custa-lhes abandonar um local tão aprazível face a uma realidade supostamente terrível mas que não vêm. Há no entanto alguns que fogem. E como em tudo, uns para bons locais, e outros para locais que não são os melhores, o que só valida o ocaso como parte integrante dos processos de mudança. Outros há que fogem para tão longe que quando dão por si estão fora de Portugal. Curiosamente o responsável pela praia ainda insiste que nada de especial é preciso fazer, limitando-se a dizer que realmente é preciso ter cuidado com as ondas e que para nos protegermos do sol basta colocar um bocado de creme protector que tudo fica bem. De resto que se distribuam umas bolas de berlim para apaziguar os espíritos mais nervosos.

É assim Portugal nos dias de hoje. Está quase tudo meio doido, inebriado, e sem ou com pouca capacidade de processar a boa informação existente. E os que não estão não sabem bem para onde ir e como ir. Mas há um caminho, só que é um que as pessoas dizem não gostar porque aparentemente tem uma vegetação silvestre e não está devidamente alcatroado, pelo que a voz mais iluminada rapidamente é votada à indiferença. Como se quando se decidisse trilhar novos caminhos o início tivesse de ser tão doce quanto se espera ser o destino.

É pena não interiorizarmos que na história de um país por vezes há que trilhar novos caminhos. Aliás, como na vida de cada um. A realidade impor-se-á, e, como sempre, falará mais alto que o argumento.

Há quem chame “desvalorização fiscal”

DOMINGO, 1 DE MAIO DE 2011

Diz o Sr. Eduardo Catroga segundo o jornal Público "Podemos ter mais impostos sobre o consumo, mas menos sobre o rendimento. Racionalizar benefícios, alterar a aplicação das taxas do IVA", "Vamos propor o que se chama de desvalorização fiscal", afirmou Catroga, sublinhando que esta "é a única via para retomar a competitividade externa e criar emprego" sem reduzir salário nem pensões.

Parece que começa a ser óbvio aos olhos dos Portugueses que na situação em que Portugal se encontra há que penalizar consumo e estimular produção. Claro que essa produção deve ser direccionada para as exportações. E só se exporta mais com mais e melhores projectos pela mão de empresários, com mais produtividade (capacidade de produção por unidade de tempo), com estruturas de custo mais flexíveis, e com vencimentos compatíveis com o nível de produtividade.

Parte deste pacote é alcançável com a descida do IRS. Mas atenção, pequenas descidas, embora meritórias e positivas nos efeitos, têm um impacto limitado. Precisamos algo de grande impacto, algo que possa ser visualizado pela sociedade como transformativo de modo a acomodar não só um novo paradigma baseado no princípio de viver ao nível das possibilidades e pagar a dívida existente, como também absorver os desempregados actuais e aqueles que o sector público irá ter de drenar.

Resta somente perceber que este mecanismo terá de funcionar com vigor. E para isso não serve muito umas meias medidas. Os sinais têm que ser bem claros. Por isso importa agora debater o grau em que estes princípios devem ser levados para a frente.

Fotografia dos últimos 25 anos e solução económico-financeira

SEGUNDA-FEIRA, 25 DE ABRIL DE 2011

Este artigo tem como objectivo identificar o porquê da situação em que Portugal se encontra e apresentar a solução para ultrapassar o problema. Muito do que a seguir se descreve faz parte de “posts” anteriores sendo o objectivo do presente dar corpo a uma possível e mais completa solução para o nosso problema do défice.

1. Da doença de que Portugal padece. Chama-se “viver no mundo da ilusão”. Nos últimos 25 anos resolveu manifestar-se na forma de dívida, seja ela pública ou privada, acreditar em projectos mirabolantes e desfasados da realidade (TGV e NAL), fé absoluta na ideia peregrina de que o sucesso de um país passa por talhar uma parte crescente do orçamento por parte dos grupos de pressão, e crença inabalável de que os recursos são ilimitados e passíveis de serem consumidos segundo os ditames do nosso julgamento e da nossa vontade. Enquanto não entendermos que este mundo da ilusão já acabou e quanto mais rapidamente nos atirarmos para o outro, ou seja, aquele chamado “realidade”, sentiremos eternamente os sintomas funestos da doença, a saber, juros altos pela emissão e renovação de dívida, fraca competitividade, desconfiança dos mercados, desânimo geral, e falta de confiança no futuro.

2. Como evoluiu a economia. Nos últimos 25 anos os nossos maiores grupos económicos trataram de desenvolver as suas actividades numa orientação claramente voltada para o consumo interno em detrimento do mercado externo. A economia desenvolveu-se em torno do sector da construção, distribuição, venda de automóveis, organização do consumo (a banca), e comunicações. Tudo quanto respeite exportações foi claramente preterido. Não é de estranhar. Sujeito a uma pressão concorrencial superior, enfrentando aumentos de salários superiores aos aumentos de produtividade, sem possibilidade de repercutir no preço a correspondente perda concorrencial, com crescentes dificuldades de acesso ao crédito (este maioritariamente destinado ao consumo interno), os nossos maiores grupos económicos tomaram opções racionais, ainda que com efeitos nocivos ao nível macro económico. Por outro lado os Portugueses ganharam uma enorme atracção por todas as actividades económicas que suportassem o consumo. Não será caso para ficarmos admirados. A agricultura, as pescas, ou o shop-floor de uma fábrica, são locais menos apelativos a quem se encontra embriagado por um novo-riquismo recém-adquirido quando comparados por um agora moderno balcão bancário, um stand automóvel, ou ainda um dos infindáveis organismos públicos. Ou seja, as operações intrínsecas que concorrem para consumir demonstraram ser vencedoras para efeitos de decisão de escolha de trabalho quando em competição com aquelas que concorrem para produzir. Muito estigma poderá também estar associado às decisões individuais tomadas. Seja como for, aquilo que poderão ter sido opções correctas ao nível individual demonstrou contribuir para o desequilíbrio macro económico.

3. Objectivo para a nossa economia. Deverá se montar uma economia voltada para a exportação e substituição de importações. Embora isso não se faça de um momento para o outro, teremos que aceitar que é isso que vai ter de acontecer nos próximos 40 anos. Se a economia voltada para as exportações / substituições de importações será baseada maioritariamente em salários baixos ou de alto valor acrescentado, é algo que ainda não sabemos. Depende em muito da capacidade empreendedora dos nossos empresários. Mas também depende bastante do nosso nível real de aquisição de conhecimento e de como o transformar em produto / serviço de elevado valor económico nos mercados mundiais. A combinação destes dois factores sairá potenciada se assistida por organizações eficientes rodeadas por variáveis de contexto favoráveis. Neste ponto realço a Justiça, factor fulcral na ajuda ao florescimento de organizações de excelência. Estando assente que a nossa economia deverá ser primeiramente voltada para o exterior, há que actuar psicologicamente sobre os medos que nos têm assolado, e que têm que ver com o nosso receio do insucesso quando em competição aberta. Este medo é infundado. A Globalização tem que ser considerada o nosso palco preferencial de actuação, não só pelos frutos que daí poderão advir, mas acima de tudo porque é o palco onde o Português se pode dar naturalmente bem. Operar globalmente não é nada de novo para o nosso povo. Aliás, fomos, muito provavelmente, o primeiro povo a conduzir operações à escala global, ao que não será alheia a nossa boa capacidade de relacionamento com o “Outro”.

4. Medidas fiscais a tomar de modo a penalizar o consumo e simultaneamente estimular a produção e a criação de novas empresas viradas para a exportação e substituição de importações.

De modo a beneficiar a produção há que:

a) Reduzir o IRS devendo Portugal adoptar uma taxa fixa ao nível de 5% para todos os rendimentos. Pode-se considerar um segundo escalão para rendimentos superiores a 250.000 anuais onde a taxa seja de 50%. Abaixo do rendimento anual de 7.000 euros anuais a taxa deverá ser nula.

b) Alinhar os preços dos combustíveis ao nível do praticado por Espanha, ou mesmo um pouco inferior.

c) Redução de custos de contexto à actividade económica. Neste ponto há que trabalhar com as diferentes associações dos diferentes sectores e aplicar o que por certo já foi mais do que estudado.

d) Iniciar um processo de redução gradual do IRC até 15%. Digamos que 1 ponto percentual por ano de redução.

De modo a penalizar o consumo há que:

a) Subir o IVA do escalão máximo para um nível à volta dos 35%. O IVA do escalão mínimo deverá descer de 6% para 5% e o do escalão intermédio deverá descer de 13% para 12% de modo a mitigar o impacto nos escalões de quem aufere menores rendimentos.

b) Subida acentuada do imposto automóvel.

c) Subida muito acentuada do imposto de circulação automóvel. Exemplo: um carro de média gama que pague 20 euros por ano deverá passar a pagar 700 euros por ano.

d) Subida muito acentuada do imposto sobre o tabaco e bebidas espirituosas. O vinho não deverá ser sujeito a este aumento.

e) Criação de um imposto especial sobre o financiamento automóvel.

5. Objectivo para as nossas finanças. Deverá ser somente um: não mais ter défices e apresentar excedentes de 3% do PIB, ainda que a economia apresente boas taxas de crescimento.

6. Medidas fiscais e políticas adicionais que concorram para impedir a existência de défices.

a) Para acelerar o equilíbrio financeiro ao nível das contas nacionais deveremos eliminar a maioria dos benefícios fiscais. As excepções deverão ser os respeitantes à educação (a extinguir aquando da implementação de um regime tipo cheque educação) e aluguer de casa. A aquisição de habitação não deverá estar sujeita a qualquer benefício. No que respeita à saúde impor-se-á um tecto na dedução corrente.

b) Eliminação do subsídio de Natal.

c) Inicio de um vigoroso programa de despedimento de funcionários públicos, ou seja, os menos eficientes e aqueles que não trabalhem em algo que tenha valor para a sociedade. No entanto prevê-se o aumento de vencimento para os melhores funcionários bem como implementação de prémios sobre a produtividade. O objectivo é reduzir a massa salarial em 15%. O sector exportador deverá absorver a drenagem a efectuar no sector público.

d) Contratar quadros de elite para a função pública bem pagos e totalmente independentes do poder político de modo a que a gestão dos dinheiros públicos não fique entregue aos arbítrios dos devaneios partidários e outros grupos de interesse.

7. Negociar com as entidades financeiras internacionais (nomeadamente o FMI e o BCE) um juro fixo de 4,5% para os próximos 5 anos para a renovação dos empréstimos que se vençam e que necessitem de ser renovados. Durante estes 5 anos os mercados financeiros internacionais terão já feedback do sucesso das mediadas que acima enunciei e terão então o discernimento adequado que lhes permita financiar a economia Portuguesa a taxas que rondariam os 4,5%.

8. Como ganhará Portugal confiança? Inicialmente a confiança ganha-se pela apresentação de um plano claro de prioridades e de medidas que configurem e sustentem uma política como as decorrentes das acima indicadas. No entanto este tipo de confiança irá somente afectar o empresariado e outras elites. A população em geral só ganhará confiança quando as actividades exportadoras e as que substituem importações começarem a contratar pessoas em elevado número. Terá de ser um número suficientemente elevado de modo a emitir o sinal de que a mudança é de facto transformativa e de longo prazo. Uma terceira etapa de confiança poderá ser alcançada no momento em obtivermos um muito maior número de vitórias económicas em ambiente internacional, elevando com isso a auto-estima e potenciando uma nova maioridade do povo Português, pois ao retirá-lo da repartição e colocando-o no mundo, o seu lugar natural, estamos a fazer dele um vencedor. A Globalização é o local onde se ganha neste mundo e deverá ser considerada por Portugal o meio natural dos Portugueses.

Nota final: assim que as contas nacionais começarem a apresentar excedentes, então poderemos iniciar uma suave descida do IVA do escalão máximo. Direi que até uns 20%. Dever-se-á ter como objectivo a descida da taxa máxima de IVA desça 1 ponto percentual todos os anos (o que levaria cerca de 15 anos). Só após a taxa de IVA atingir 20% se deverá pensar reduzir o imposto automóvel. O imposto de circulação deverá ser mantido alto de modo a contrapor o baixo imposto sobre os produtos petrolíferos.

Muito importante: deverá ser mantida uma rígida ditadura de excedente público de 3% sobre o PIB ainda que haja crescimento económico.

Nota final 1: Como os Portugueses se estão a aperceber o campeonato mundial da economia afinal é a doer, não é a feijões. Aquando da entrada para a zona euro foi-nos dito que era objectivo do euro ser uma moeda forte. E assim tem sido e assim o vai ser. Desta forma deixou de haver espaço para perdedores, para queixumes, para reivindicações impossíveis de satisfazer face a determinados níveis de produtividade, para discursos azedos, para baixar os ombros, e para o aldrabão. Mais uma vez digo, o jogo é mesmo a doer. Há que ter este ponto muito bem presente.

Nota final 2: Os Portugueses têm que passar a votar muito melhor do que o têm feito. Isto da esquerda ter 20% dos votos e de a direita somente 10% dos mesmos não faz bem à nossa economia e a curto prazo vai ter reflexos muito negativos na nossa carteira. E já agora evitemos escolher aldrabões e incompetentes para o cargo de Primeiro-Ministro.

Do crédito há boas notícias… e do Estado, para quando?

SEXTA-FEIRA, 22 DE ABRIL DE 2011

O DN de hoje noticia que o crédito à habitação para o mês de Fevereiro desceu 27% relativamente a Fevereiro do ano passado. O mesmo se passou com o crédito às empresas onde a variação negativa foi de 24,6% para créditos superiores a 1 milhão de euros e desceu 1,2% para créditos inferiores a 1 milhão de euros.

Isto denuncia que os agentes económicos procedem aos ajustamentos impostos pela realidade do sobre endividamento em que nos metemos nos últimos 25 anos. Quanto mais depressa nos ajustarmos melhor estaremos preparados para enfrentar os desafios deste mundo cada vez mais competitivo. Estes sinais aos poucos marcarão o ritmo que pautará o nosso dia a dia e com isso consolidará comportamentos mais consentâneos com a realidade.

Cabe ao Estado lembrar-se que o maior ajustamento de todos talvez resida dentro da sua casa, não só ao nível do tipo e dimensão de estrutura sobre a qual está montado, como também ao nível do perfil dos intérpretes. Não só a estrutura é pesada e ineficiente como a sabujice e o interesse de grupo e particular vai reinando nas pessoas que o constituem. O dia em que o Estado se libertar da muita gordura que possui e se apetrechar com um excelente naipe de funcionários públicos bem pagos e dotados de poder independente dos partidos então ocorrerá uma revolução total onde ela é mais urgente.

Os Portugueses e a Economia

DOMINGO, 17 DE ABRIL DE 2011

Por vezes dou por mim a pensar porque será que os Portugueses têm uma relação dificílima com a economia. Sempre notei um constante mal-estar no meu círculo de relações sempre que as questões da economia são abordadas, mal-estar esse que vou percebendo que talvez se estenda a toda a sociedade portuguesa. Vale a pena enumerar alguns aspectos e perceber como eles são e como os Portugueses os vêm.

1. O primeiro é que todos percebem imenso de economia. Já sabemos que a voz da ignorância se arroga em falar mais alto do que a do especialista no nosso Portugal. Mas é extraordinário como no domínio da economia este defeito atinge proporções sem paralelo. E que não se julgue que são os sectores menos letrados que assim se comportam. Pelo contrário. Qualquer licenciado em botânica ou filologia está sempre pronto a rebater com propriedade o que um economista tem a "ousadia" de dizer. E nem me atrevo a dar o exemplo dos advogados…

Para nossa infelicidade os nossos economistas não são devidamente ouvidos, embora tenhamos um naipe excelente deles. Alguns até leccionam lá por fora em universidades de renome mundial. Mas outros leccionam por cá e em nada lhes são inferiores. Mais uma vez neste espaço o digo. O difícil momento que aí vem (e não se pense que ele é difícil agora pois quando compararmos o agora com o que aí vem acharemos o agora um mar de rosas) foi previsto há mais de 10 anos por alguns dos nossos economistas no caso de se seguirem as políticas que infelizmente acabámos por seguir. Tenho esperanças que aprendamos com a lição e que passemos a ouvir com mais atenção quem é conhecedor.

2. O segundo aspecto consiste em julgarmos que a Economia deve ser justa. Obviamente a Economia não pode ser justa. As pessoas é que o podem ser ou não. As coisas são como são e de pouca assistência serve desabafarmos com as pseudo “injustiças” da economia. Por exemplo, decorrente de um processo de despedimento (tomemos o exemplo actual dos bancos) as pessoas insurgem-se contra a situação como se fosse o fim do mundo. Eu não espero que as pessoas celebrem o facto de terem sido despedidas. Sem dúvida que são momentos difíceis. Mas felizmente a sociedade construiu mecanismos que mitigam a dor. Existe o subsídio de desemprego e existem inúmeros apoios institucionais que facilitam a tarefa de quem procura trabalho. O que acontece é que os Portugueses em particular resistem a qualquer tipo de mudança. Ora, a economia, como ciência social que é, muda. E quanto mais depressa decorrerem os processos de ajustamento mais reforçada sai a economia e mais beneficiam os Portugueses do futuro (essa mole humana que anda a ser demasiado esquecida tal o egoísmo e as vistas curtas dos Portugueses do presente). Como na morte e na vida, o problema não é tanto os trabalhos que se perdem de forma natural, antes reside naqueles que não são criados de forma natural.

Tomemos o seguinte exemplo. Se nos magoarmos é natural que tenhamos dor física. Penso ser do consenso geral que não não vale a pena revoltarmo-nos contra Deus por sofremos de dor física. Deus fez-nos assim e aceitamo-lo com naturalidade. Para ultrapassar a dor o homem até criou mecanismos de a mitigar. Resta aproveita-los, coisa que aliás fazemos com frequência. O mesmo se passa com prazeres que tínhamos e que nos é aconselhado abdicar. Quantas pessoas não passaram a estar proibidas de comer aquelas coisas boas de que todos gostamos? Calculo que também não seja sensato revoltarmo-nos com Deus por os médicos nos proibirem de comer presunto e queijo da serra acompanhado com um bom vinho. Como na vida, a economia tem sobressaltos que são mais ou menos turbulentos, e que implicam algumas mudanças. Resta aceitá-las e “partir para outra”. Já agora pode ser útil ponderar que vêm a público mais os casos dramáticos resultantes dos ajustamentos do que os casos onde as pessoas agradecem a mudança a que a Economia as obrigou a fazer.

3. Um terceiro aspecto é que os Portugueses passaram a acreditar no poder omnipotente de alguém para mitigar as imperfeições da Economia. A Economia de mercado é uma bênção se for bem regulada e compreendida nas suas limitações. Se esperarmos mais do que ela pode dar e se a não regularmos convenientemente então temos problemas. Internacionalmente vivemos agora o rescaldo de uma situação com origem numa fraca regulação. Nacionalmente estamos a viver uma agonia que se vai acentuar por acreditarmos em personalidades que nos diziam que o “el dorado” estava ao virar da esquina se consumíssemos mais do produzíamos (Cavaco Silva, Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e Sócrates). Cada um à sua maneira, todos se deram mal com a sua relação com a economia ao subestimar sempre o poder das forças que dela fazem parte.

4. O último aspecto tem que ver com o facto de os Portugueses pensarem que estão no centro das atenções e que o mundo gira à sua volta e à velocidade que eles pensam que deveria ser a adequada. O mundo não funciona desta forma, e aquele estado de graça que nos quiseram vender do bom aluno que tinha aderido à CEE foi o maior calote económico feito à cabeça dos Portugueses. Já nessa altura havia um outro mundo que estava a andar muito depressa e cheio de vontade de sentar à mesa. Esse outro mundo é constituído por, de entre outros, Chineses, Indianos, Indonésios, e Brasileiros. Por junto apresentam-se com cerca de 4 biliões de seres humanos, todos eles com vontade de correrem e de serem competitivos. Ha, e mais, são quase todos nossos credores.

A incapacidade dos Portugueses perceberem a Globalização económica é confrangedora. Perfeitamente assustador observar a ignorância e o medo de cada vez que os Portugueses captam alguma informação que possa contrariar a ideia do mundo tal e qual ele deveria ser na nossa cabeça.

Tenho muita esperança que as provações por que iremos passar nos dêem o discernimento de ouvir quem sabe, de percebermos melhor a economia e o que dela se pode esperar, de interiorizarmos que as forças que as movem devem ser lidadas com inteligência, e que o mundo não acaba nas nossas fronteiras. E acima de tudo, como que numa combinação destes elementos, percebermos que está ao nosso alcance montar uma economia diferente daquela que hoje possuímos. Haja para isso inteligência, boa estratégia, e audácia.

Bons sinais

SEXTA-FEIRA, 15 DE ABRIL DE 2011

O PBI vai fechar 47 agências. O BES diz que pensa também em encerrar algumas. O Millennium encerrou em 2010 15 agências. O Santander diz que vai encerrar em Lisboa e Porto um total de 24 agências. Estes são bons sinais de que a economia portuguesa se está aos poucos a transformar. Como sabemos a explosão do crédito esteve bem associada à explosão de balcões bancários. Agora que o crédito ao consumo (casa, carro, e crédito pessoal) já começou a decrescer, e sabendo que o decréscimo se vai acentuar, é bom que o número de balcões se reduza em conformidade de modo a reduzir os custos da banca.

Mas o melhor sinal não é tanto percepcionar que a banca está preocupada com os seus resultados de exploração, coisa que só por si eu já louvo. O melhor sinal é que o sector que “organiza” o consumo está a passar o sinal à sociedade de que o consumo vai / está a diminuir. Este é um de muitos sinais que aos poucos os Portugueses irão receber no que respeita à transformação em curso na nossa economia. Tudo o que satisfaz consumo terá uma tendência para sofrer uma redução na sua dimensão. Compete agora aos Portugueses perceber que as actividades do futuro respeitam aquelas que substituem importações ou que exportam. Do governo espera-se que ajude no acelerar dos sinais que facilitem a vida no capítulo das opções daqueles que fatalmente irão ficar desempregados em todo este processo que se encontra já em curso.

Há que não temer a mudança pois ela é uma fatalidade. O que há a temer é a uma eventual incapacidade de a enfrentar.

Como lidar com as agências de Rating

SEXTA-FEIRA, 15 DE ABRIL DE 2011

Grécia, Irlanda, e Portugal (por esta ordem) estiveram na mira das agências de Rating. Muito provavelmente a Espanha será o próximo alvo. E quiçá de seguida a Itália e a Bélgica também merecerão os “mimos” destas instituições.

Sumariamente, e em termos soberanos, as agências de Rating internacionais tratam de emitir juízos sobre a qualidade da dívida de um determinado país. Após o rescaldo da crise financeira internacional alguns países vêm-se a braços com gravíssimos problemas orçamentais. De acordo com a história parece que esta situação é considerada um “clássico”. Ou os remédios para o abismo implicam políticas expansionistas tais que geram uma imensidão de dívida. Ou o ponto de partida ao nível de dívida é de tal modo débil aquando da ocorrência da crise financeira que faz com que a dívida existente se acentue ainda mais, por via da contracção da natural de receita, desaconselhando-se portanto a adopção de políticas expansionistas. Em ambos os casos a dívida aumenta bastante. Enquanto no primeiro podem haver legítimas esperanças de crescimento que por si pode bem resolver o problema inicial, no segundo fica prometida uma agonia económica muito prolongada (coisa para 25 anos).

Para nossa infelicidade Portugal encontra-se no segundo caso. Nestas circunstâncias ultrapassar o problema exige muita imaginação e audácia nas políticas. Para que tais qualidades possam emergir é necessário que o Primeiro-Ministro seja pessoa que se recrie na arte da audição de quem é sabedor, saiba distinguir o conhecedor do charlatão, seja alguém que genuinamente coloque o interesse do país à frente de tudo, seja honesto e frontal nas opções, ainda que as mesmas possam não ser do agrado geral, e que saiba conjugar humildade e perseverança.

Possuindo estas características, e reflectindo as políticas seguidas a sapiência dela emanadas, pode um país vir a ter uma esperança que despolete a confiança necessária. O que mais importa nestes momentos sensíveis é a obtenção do melhor efeito possível dos sinais que se vão emitindo para a sociedade. A qualidade das decisões deve carregar um conjunto de sinais que espalhem bem determinados rumos que no exterior sejam facilmente percebidos como realmente transformativos. É isso que os nossos parceiros querem ouvir e que as agências de Rating precisam de interiorizar para nos darem crédito nas suas análises.

O nosso governo nunca percebeu bem a crise internacional que começou em fins de 2007, nunca percebeu o tipo de impacto que a mesma iria ter em Portugal, que mais não foi do que antecipar a explosão a nossa crise estrutural, nunca percebeu que a seguir a uma crise financeira vem, por norma, uma crise orçamental (que é tanto mais grave quanto pior for o ponto de partida ao nível de dívida acumulada existente), nunca percebeu que tipo de erros consecutivamente cometemos desde 1986, e nunca percebeu o quão importante era explicar aos Portugueses o que se efectivamente se estava a passar no mundo. E para piorar, o governo, à semelhança dos outros, mas em muitíssimo pior grau, não tem a menor ideia do que é necessário fazer.

É tudo isto que as agências de Rating percebem relativamente a Portugal. Os constantes cortes no rating mais não são do que a confirmação de que o acumular da deterioração dos indicadores é o resultado da falta de visão e incompetência dos governantes. É isso que as agências denunciam com os seus julgamentos. Poderemos queixar-nos em vão até à exaustão que as agências de rating se portaram mal até ao eclodir da crise internacional, que estão ao serviço “deste” ou “daquele”, que são subservientes do “capitalismo sem escrúpulos”, que têm mais voz do que o aconselhável, etc. Tudo isso é indiferente pois em nada resolve o assunto na prática. Pelo contrário, até pode piorá-lo pois emite sinais de que estamos mais preocupados em disparar para o exterior do que em resolver o problema, o que por si só denota que não sabemos como o fazer. E esse, andamos a prová-lo bem, é o nosso maior problema.

A melhor maneira de lidar com as agências de Rating é resolvermos resolver os nossos problemas.

Está na altura da sociedade se libertar

DOMINGO, 10 DE ABRIL DE 2011

O quadro acima, “Taking the Census” de Francis William Edmond, representa, aos meus olhos, a primeira entrada de uma instituição não governamental (mas que assiste as governações) dentro do domínio privado, a casa. Como que o nascimento da primeira de muitas instituições que com o decorrer do tempo cresceram a tal ponto que ao invés de nos assistirem acabam por nos afogar se com elas o homem transcender os objectivos para os quais criou essas mesmas instituições.

A complexidade desenvolvida por todo o tecido social se obrigou ao crescimento de toda uma panóplia de instituições públicas que servisse a comunidade, também tratou, de mão dada com a natureza humana, de dotar essas instituições de vida própria com o objectivo prioritário de sobrevivência e subserviência dos interesses dos seus constituintes. Em Portugal chegámos ao ponto em que a sociedade tem que se libertar do jugo a que determinadas forças subjugam o interesse geral em prol de interesses de grupo e/ou individuais.

A sabedoria ensina-nos que deveremos operar esta transformação de forma racional e sem impulsos que concorram para a destruição de todo esse tecido institucional. Trata-se somente de o reduzir até aquela dimensão que viabilize a correcta assistência para o qual esse tecido institucional foi criado e não para assistir os membros que o compõem. É uma tarefa que urge fazer pelo simples facto que a lógica de auto-alimentação estoirou. Já não está em causa se essa tarefa deve ou não ser feita. Trata-se somente de debater sobre o grau em que tal processo deve ocorrer.

Apesar de tudo há boas notícias

SÁBADO, 9 DE ABRIL DE 2011

Acaso não se tenha reparado apesar de tudo anda vão havendo boas notícias. Acho fantástico Portugal não ter sido assolado por uma crise bancária desde que se iniciou a crise internacional em fins de 2007 à semelhança do que se passou com a Irlanda. Em boa hora os nossos bancos diversificaram. Os mercados externos já representam cerca de 50% do negócio e praticamente todo o lucro gerado pela banca. Só espero que esta senda de diversificação continue e que se já feita com cabeça tronco e membros.

Gostaria bastante que o pessoal político e afins percebessem que seria positivo não gerar uma crise bancária. Em cima da nossa crise financeira e económica essa seria a última coisa de que precisaríamos. Por isso há que refrear as “ganas” de saltar em cima dos bancos fiscalmente coisa que mais não serve do que servir propósitos ditados pelo instinto e inveja de quem trabalha bem. Até porque a banca portuguesa não está a salvo de ter problemas com os seus balanços. É bom não esquecer que o preço do imobiliário tem baixado, embora devagarinho. E doravante vai baixar ainda mais pelo que não está excluída alguma turbulência que, embora em pequeno grau, pode ser muito prolongada.

O aviso salutar que é preciso seguir consiste em dotar o nosso sector exportador com boa capacidade de competição. Com isso resolvemos não só o nosso problema económico como resolvemos parte do nosso problema financeiro. E reduzimos ainda o risco de ter uma crise bancária pois os bancos encontram uma maneira de fazer dinheiro de modo a cobrir outros negócios onde andam a perder (em termos nacionais, obviamente).

E para dar aquele empurrão que o nosso sector exportador bem precisa, nada como gerar condições para baixar os seus custos de exploração. É bom ter bem presente esta realidade de forma a não tornar as boas notícias que ainda vamos tendo, e a que pouco ligamos, em más notícias.

O inevitável aconteceu hoje

QUARTA-FEIRA, 6 DE ABRIL DE 2011

Aconteceu hoje aquilo que já se sabia há uns anos que teria de acontecer. Como já aqui foi dito, por termos esticado a corda até ao fim ficámos com muito menos margem de manobra de negociar com as entidades internacionais os termos de ajuda que agora se vai iniciar. Quando se está "arrasquinha" perde-se qualquer poder negocial relevante. E chamo relevante aquilo que possa configurar uma estratégia para Portugal em combinação com equilíbrio financeiro. É mais do que provável que na receita que se segue o equilíbrio financeiro se irá sobrepor a uma estratégia para Portugal. Mas enfim, com a rapaziada em que os Portugueses andaram todos estes anos a confiar o seu voto pouco mais se podia esperar.

Vai ser interessante perceber o que virá a seguir em termos políticos já que em termos financeiros sabemos mais ou menos o que aí vem. Aumento acentuado de impostos e redução substancial de vencimentos na função pública será a receita. Só não sabemos o grau em que tal vai ocorrer.

Politicamente o Sr. Sócrates vai tirar dividendos do golpe baixo que fez a Portugal. A história do chumbo do PEC IV vai-lhe permitir dizer que as medidas que aí vêm são muito mais duras do que aquelas que ele proponha. Com isso culpabiliza o PSD e todos os outros partidos. Faz-se de vítima e joga o "ele contra todos". Instrumentalizar um país para fazer este tipo de "politiquice" para proveito próprio é típico de pessoas do mais baixo calibre que se possa imaginar. Por várias vezes li Maquiavel e literatura da área. Sem dúvida que a mesma pode ser, e deve ser, aplicada em termos militares. Agora aplicar esses conceitos no seu limite para a política contra o próprio país é algo que está para além da compreensão do cidadão normal, e mesmo daquele mais familiarizado com a política. Com frieza direi que muito provavelmente estaremos perante um caso do foro psiquiátrico, assunto sobre o qual não tenho qualquer conhecimento.

O paradoxo para o Sr. Sócrates, e fruto do sucesso que provavelmente terá nas próximas eleições, é que talvez teremos um governo de Bloco Central. Isso porque o PSD com o CDS não formarem governo devido a não conseguirem ter maioria absoluta. E digo paradoxo porque isso talvez seja o que melhor possa acontecer a Portugal, ou seja, teremos o socialismo a celebrar o seu quadragésimo aniversário daqui a 4 anos em Portugal com os seus dois melhores intérpetes no poder a "arranjar" aquilo que de errado fizeram nos últimos 30 anos. E que não se duvide que daqui a 4 anos os Portugueses terão um descirnimento muito melhor do que têm hoje sobre o que é o Socialismo, esse sistema que mais não faz do que viver acima das possibilidades.

Resta ao CDS a serenidade de se preparar para governar Portugal após ganhar as eleições seguintes. Mas para isso tem que correr com a actual direcção e dotar-se de gente capaz e sem agendas pessoais. E não nos esqueçamos de uma coisa. Tem que ser gente bem paga. Senão não aparece quem deve. Sei que existe tempo para isso, só não sei se existe cabeça.

Quase nos 10%, e como se nada fosse!!!!!!

SEGUNDA-FEIRA, 4 DE ABRIL DE 2011

A taxa de juro a 5 anos já anda pelos 9,5%. Daqui aos 10% é um instante. Se os Portugueses tivessem noções básicas de economia estariam todos na rua a clamarem para que o FMI viesse o mais rapidamente possível pôr ordem na casa, mas sob o mando dos Portugueses. Como o FMI virá a mando internacional pelo facto de termos perdido o momento próprio (César das Neves defendera que o FMI deveria ter sido convidado a vir há 2 anos), a coisa não promete.

É lamentável que a população não entenda o que se passa nem tenha querido nunca ouvir quem percebe do assunto. O mesmo não é difícil de perceber e até há um filão de excelentes economistas Portugueses que entendem do assunto de fio a pavio. E até publicaram livros*. Como os Portugueses se estão a revelar burgueses pobres e muito moles, vamos, infelizmente, viver com a medicina que aí vem da pior maneira possível. Que não se pense que o FMI vem com pensamentos do género “o que fazer para estimular o sector exportador” (oxalá me engane). Eles vêm cortar, e cortar à séria. Ou seja, não irá existir nenhuma estratégia subjacente às medidas que irão ser tomadas a não ser o efeito prático das mesmas num curto espaço de tempo.

O mundo é feito de três grupos de pessoas. Os que fazem as coisas acontecer, os que vêm as coisas acontecer, e os que perguntam o que é que aconteceu. Temos pouquíssimos na política que fazem as coisas acontecer. Na Democracia só Mário Soares, e mesmo assim só como Primeiro Ministro. Sá Carneiro não terá tido, infelizmente, tempo. Alguns que vêm as coisas acontecer, e curiosamente vamos ter pouquíssimos também a perguntar o que é que aconteceu pelo simples motivo de que os Portugueses são avessos a perguntar a opinião de quem sabe. Vai ser um pouco como ter passado pela segunda metade do século XIX e não tomar consciência de que havia uma revolução industrial em curso. Com a agravante de que hoje a informação jorra diariamente, embora a capacidade de processamento da mesma seja deplorável. Por isso os Portugueses vão ficar petrificados quando muitas coisas começarem a acontecer. E o mais curioso é que mesmo depois de tudo se passar nem vão perguntar o que se passou nem estarão muito interessados no assunto. Verdadeiramente singular.

O que mete mais pena nisto tudo é que os nossos filhos vão sofrer demasiado pela estupidez em curso. Aliás, tal não é para estranhar, a estupidez e o egoísmo dão-se lindamente. E nunca fazem perguntas.

* De entre outros temos “Portugal, que Futuro” de Medina Carreira, “Perceber a Crise” de Vítor Bento, e “Uma Tragédia Portuguesa” de António Nogueira Leite

Os partidos prisioneiros do pensamento único

QUINTA-FEIRA, 31 DE MARÇO DE 2011

Para além da nossa crise económico financeira e crise de valores, existe uma outra crise bem grave. É uma crise que mora nos partidos e que tem o nome de “pensamento único”. Para infelicidade de Portugal os três partidos com representação parlamentar que perfilham uma sociedade aberta (CDS, PSD, e PS) encontram-se fortemente arregimentados sob pensamento único. Cada um deles possui mecanismos centrifugadores de pensamento (o PSD talvez seja ainda aquele menos fustigado) que impede um necessário debate de ideias.

Especularei que este fenómeno decorre do facto de os partidos se terem tornado numa agência de empregos para por quem por lá anda. A exiguidade do nosso mercado de trabalho empurra para os partidos muitos interesses que têm dificuldade em vencer numa certa medida no mercado por mérito próprio. Associado a este facto, e como consequência de a política não remunerar adequadamente por meios legais os seus praticantes, os melhores encontraram fora da política refúgios bem mais interessantes. Temos um cenário montado onde a mediocridade e a perfídia reinam por oposição a mecanismos que promovam o debate de ideias e a meritocracia que delas escorre.

Situações destas são comuns fora dos partidos, nomeadamente em organizações não sujeitas a concorrência. Nas outras o mecanismo de feedback tendencialmente corrige comportamentos desviantes. O mal do pensamento único ocorrer nos partidos é que, existindo os mesmos num cenário de oligopólio, a capacidade de regeneração acaba por ficar entregue ao arbítrio do acaso. Como obstáculo, temos que essa capacidade é ainda temporalmente traída pela intermitência na ocupação dos “empregos” impondo uma filosofia de “hoje és tu, amanhã sou eu”. Assim, o filtro que deveria ocorrer nos partidos e que fluiria com naturalidade para a governação (atenção, refiro-me mais a ideias e menos a pessoas) está quase totalmente condicionado à mediocridade reinante, que mais não se preocupa do que acautelar o mecanismo que lhe permite expelir todos aqueles que pensam no bem geral. Esta lógica, toda ela vestida de interesse próprio e de grupo, com facilidade elimina todas as veleidades de pensamento plural, tendencialmente mais ingénuas nas abordagens.

A subjugação ao interesse comum é amiga da pluralidade como forma de descobrir caminhos, enquanto a subjugação aos interesses particulares e de grupo é inimiga da pluralidade como forma de protecção desses mesmos interesses. É do interesse de Portugal que os partidos plurais consigam lutar de forma a destituir esta filosofia do primado do interesse individual e do grupo sobre o interesse geral. Para isso há que contar com a persistência de quem sinta que age com nobreza de espírito e de quem tem Portugal no coração.

Golf e o IVA a 6%

SEGUNDA-FEIRA, 28 DE MARÇO DE 2011

Parece que muita alma lusitana ficou muito perturbada com o IVA para o Golf a 6%. Pois direi que eu ficaria muito perturbado com a passagem do IVA para o Golf a 23%. O raciocínio é simples. O Golf significa para Portugal “exportações” algo de que precisamos como pão para a boca. Como tal há que tratar o assunto com muito jeitinho, aconchegando-o à nossa realidade de país economicamente pobre e que se julga mais do que aquilo que é (mais uma vez, em termos económicos).

O turismo é uma das nossas poucas tábuas de salvação, e dadas muitas circunstâncias de que agora me abstenho de enumerar tenderá a sê-lo ainda mais. O Golf é um excelente complemento do turismo de praia pois é praticado durante todo o ano e especialmente fora do período de Verão (pelo menos em termos de turistas estrangeiros). Por isso em muito pode complementar e potenciar muito investimento já feito.

Há um ponto que é necessário esclarecer. Entre nó o Golf é considerado um desporto para ricos, ou pelo menos para os mais abonados. Isso é verdade, mas em nada subtrai a necessidade anteriormente subscrita. Os nacionais, os tais ricos que tanto atormentam tanta esquerda “bem pensante”, representam somente uns 80% ou 85% das “voltas” de Golf. A grande fatia vem de fora. E desengane-se quem pensa que todos esses estrangeiros são todos uns ricalhaços ociosos que a esquerda se deliciaria a taxar. Longe disso. Ao contrário do que se passa nacionalmente, além fronteiras o Golf é coisa muito democratizada. Entre eles, e já com vasta experiência por Portugal, encontra-se Patrick, simpático taxista Irlandês de Cork a quem diferenciais de IVA pode influenciar na escolha do destino. E como ele, há muitos mais.

Poder-me-ão dizer que pelas Alemanhas e Suécias o IVA do Golf está nos píncaros. Pois é, mas esses já exportam outras coisas e entretêm-se com excedentes, por isso podem-se dar ao luxo de taxar o Golf à taxa máxima se assim o entenderem e se isso sossegar os indispostos do costume. Mas perante o nosso quadro económico-financeiro não temos essa liberdade algo pífia. Por isso há que domar instintos injustificados e submetê-los à voz da razão, coisa rara na Lusitânia. E já agora aproveite-se para evitar manifestações de inveja ao invocar sempre o nome do Sr. Balsemão.

O Regime Socialista está para balanço e o que isso significa para o CDS

QUINTA-FEIRA, 17 DE MARÇO DE 2011

Dentro de 3 anos o Regime Socialista vai fazer 40 anos de existência. Parece claro que neste momento se iniciou o processo de avaliação do Socialismo por parte da sociedade Portuguesa. A mesma ainda não é feita com todo o discernimento porque os Portugueses andam desiludidos, sentimento que, resultante de um estado prévio de ilusão, não dá boa assistência à análise nem convidará muito ao seu exercício. Somente quando passar este estado de choque em que entrámos recentemente os Portugueses começaram a proceder a uma análise fria e desapaixonada, e consequentemente ficarão mais abertos a outras alternativas.

O Regime Socialista baseia-se nas seguintes premissas:

1. Crença de que se pode viver eternamente acima das possibilidades consumindo mais do que se produz.

2. O orçamento do Estado é o motor e a esperança dos cidadãos em geral.

3. A promiscuidade entre os partidos e o Estado é um veículo natural de muitos empresários, gestores, e outro pessoal de segunda linha, se tornarem vencedores na sociedade Portuguesa.

Os Portugueses facilmente já percebem que o primeiro ponto se esgotou em resultado das medidas de austeridade já em vigor, mas principalmente daquelas que eles já percepcionam que aí vêm (e são muitas).

Quanto ao segundo ponto ainda não existe consciência clara de que é nos mercados exteriores que se encontra a emancipação da nossa sociedade, e de que o Estado ainda pode servir de salvação às nossas ambições económicas e financeiras. Como se uma névoa ainda assolasse os Portugueses ao estilo de uma réstia de esperança sobre uma fórmula que sabemos que já não funciona mas que seria bom que pudesse funcionar.

O último ponto é bem compreendido pelos Portugueses mas parece ser de difícil desmontagem por parte dos partidos. Os partidos estão hoje montados em teias de interesses muito grandes e transformaram-se numa agência de empregos.

Isto é o Regime Socialista, e é isto que está para balanço.

O CDS, como partido melhor posicionado para fazer frente ao primeiro e segundo ponto enumerados, dado ter na sua matriz ideológica a libertação do indivíduo e a visão de um Estado minimalista (embora forte e com personalidade), é o partido que melhor se pode perfilar para naturalmente ser governo na fase pós-socialista que iremos viver. Para isso ter-se-á que demarcar explicitamente e muito claramente do terceiro ponto, ou seja, da visão “empregadora” que hoje caracteriza os partidos.

Ora esta postura desinteressada pelo poder na visão de “agência de empregos públicos” deverá acautelar o CDS na sua política de alianças. Não existem evidências de que o PSD seja capaz, ou mesmo que tenha firme vontade, de se libertar da lógica de subserviência aos interesses da sua estrutura, minando com isso qualquer hipotética boa vontade da sua liderança. Para efeitos de aliança partidária, há muito mais do que as naturais diferenças sobre a visão sobre a sociedade Portuguesa e de como a mesma deve governada. Há todo um conjunto de sentido ético* e de independência relativamente aos grupos de interesse que importam ser avaliados.

O CDS não deverá colocar-se em “bicos dos pés” sequioso de fazer parte de um novo Governo. Colocam-se todas as reservas de que o deverá fazer. O Regime Socialista, de que o PSD é também um natural subscritor, deverá ser avaliado em bom rigor no seu momento próprio, ou seja, quando a fase de desilusão dos Portugueses for ultrapassada. O CDS, ao demarcar-se do PSD nesta altura, surgirá no futuro aos Portugueses, nesse momento com mais capacidade de discernimento, como o natural partido para governar Portugal.

* Ainda sobre alianças há que explicitar que a mais recente experiência não teve da parte do PSD a elevada postura demonstrada pelo CDS. Parece óbvio que o CDS demonstrou ser bem mais coligável que o PSD. Refiro-me à inacreditável demissão do Primeiro-Ministro de então (abstenho-me de ajuizar sobre o inacreditável perfil do substituto).

Porque é que os juros cobrados a Portugal para a contracção / renovação de dívida sobem?

QUINTA-FEIRA, 17 DE MARÇO DE 2011

O vulgar cidadão percepciona que a alta finança é algo de muito complexo. E tem razão. É realmente algo complexo e que requer pessoas com muito boa formação. Mas curiosamente a questão do contínuo aumento dos juros cobrados a Portugal é muito simples de explicar. Não é preciso ser-se muito letrado em finança. Os juros continuam a aumentar porque:

1. Vivemos em défice e acima das possibilidades há 25 anos.

2. Não queremos mudar de vida, acreditando que podemos viver em défice eternamente.

3. Decorrente dos dois pontos anteriores o possuirmos uma economia “torta”, ou seja, toda ela voltada para o consumo e para organização do mesmo.

4. Muitas das nossas exportações terem como principais competidores os países que estão precisamente a começar a dar muitas cartas neste jogo global que é a globalização.

5. Um dos principais compradores de Portugal, a Espanha, estar de “férias prolongadas” em termos de capacidade aquisitiva.

Existirão ainda outros motivos que irão piorar a fotografia, e que neste momento ainda não são totalmente percepcionados pelos credores internacionais (da mesma forma que os acima indicados só recentemente foram por eles percepcionados). Listarei os seguintes:

1. Suicídio demográfico em curso. Para um nível estável de produtividade, que é o que se verifica há muito tempo, isso significa que a dívida por habitante subirá naturalmente, ainda que doravante tenhamos défices nulos.

2. Se, como se espera, ocorrer de novo um grande surto de emigração, acentuando ainda mais o problema do primeiro ponto.

3. A real percepção por parte dos credores que temos “sangue” socialista por toda a sociedade. Ou seja, o Português ver o Estado, por via do seu orçamento, quase como a única entidade que lhe pode trazer todos os proventos. Desengane-se quem pensa que o PSD está de fora desta lógica. Até desconfio que parte do CDS assim pensa.

Há que começar a lutar para que estes três novos pontos não comecem a entrar na equação dos nossos credores. Para isso há que actuar fortemente sobre os primeiros cinco, já que os mesmos mais não são do que os geradores destes últimos.

Nota: o que o actual governo socialista diz a respeito dos motivos dos continuados altos juros devem ser considerados disparates típicos de pessoas não preparadas para a modalidade da Governação.

O tipo de confiança que Portugal precisa

TERÇA-FEIRA, 15 DE MARÇO DE 2011

É voz corrente que a confiança é um factor fundamental para o desenvolvimento de uma economia. Sem dúvida que o é. A questão não passa pelo debate onde todos estão de acordo. Passa antes pelo que cada um entende e extrai do conceito. Parece óbvio que o entendimento do mesmo difere bastante quando confrontamos diferentes perfis de pessoas mediante um mesmo cenário.

Portugal precisa de muita confiança. Carece dela em elevadíssimo grau. Não tanto no que a auto-estima diz respeito (tratarei do conceito adiante). Carece de confiança porque esta só aparece quando são apontados caminhos que as pessoas reconhecem como sendo possíveis de levar a algum lado perante as circunstâncias em vigor, ainda que para isso os mesmos apresentem dificuldades em ser alcançados.

Ora é esse o problema de Portugal. A governação não consegue apontar um caminho porque não entende bem o mundo de hoje, não entende bem a realidade em que Portugal se encontra, está muito provavelmente mal aconselhada, e não tem perfil e arrojo para elaborar e executar os necessários planos de ataque. Quem governa está bastante manietado por grupos de interesse, facto que, associado à miopia de análise e inépcia na acção, só potencia o desespero e exasperação dos agentes económicos. Se a isto adicionarmos a estrutura ética da maioria do pessoal governativo não restarão dúvidas que reunimos todo o leque de condições conducentes à falta de confiança em Portugal.

O pontapé de saída para fornecer confiança à economia é enfrentar o problema de frente. E para isso há que:

1. Identificá-lo. Isso é fácil e já foi feito por muitos proeminentes economistas da nossa praça.

2. Veiculá-lo abertamente a todos os Portugueses sem o temor absurdo de quem não pode transmitir uma mensagem desagradável.

3. Apresentar soluções claras onde se identifiquem claramente opções que sustentem uma estratégia (como por exemplo, privilegiar abertamente a produção relativamente ao consumo, nomeadamente no que a actividades exportadoras diz respeito; ou ainda implementar um sistema onde o corpo da administração pública não esteja promiscuamente dependente dos desvarios partidários, e que não seja fornecido de pessoal originário desses mesmos partidos).

4. Libertar a governação dos grupos de interesses e assisti-la com grupos intelectualmente mais evoluídos e com provas de não perseguirem o interesse próprio ou de grupo.

Os agentes económicos não são tolos quando confrontados com determinados estímulos. Por norma o erro está no estímulo, não nas decisões individuais. A apresentação de um plano muito claro de prioridades, quer ao nível sectorial, quer ao nível dos mercados (interno versus externo), facilita a selecção de investimentos e o seu escalonamento temporal. Só isso é factor de germinação de confiança ao nível do empresariado. A indecisão, que não é mais do que o ambiente em que hoje se vive em Portugal, inibe e congela investimento, gerando desconfiança.

A população em geral, por norma mais desinformada que o empresariado, ganhará confiança numa fase posterior, ou seja, quando for evidente que as medidas tomadas provarem ser transformativas. No caso específico de Portugal, perante a realidade actual, isso só ocorrerá quando o sector exportador começar a contratar pessoas em elevado número, absorvendo tanto quanto possível os desempregados de hoje e os que aí ainda vêm (drenados em parte pelo sector público).

No momento em que nos apercebêssemos que nos estaríamos a transformar numa economia maioritariamente voltada para o exterior, então um outro tipo de confiança apareceria. Será aquela a que associamos com o conceito de auto-estima. Ou seja, aquela decorrente de sermos ganhadores por natureza nos recintos em que “combatemos” nos mercados internacionais. Sabemos que presentemente já há vitórias. Mas as mesmas são celebradas por uma reduzida percentagem do mundo de trabalho português. Quanto mais voltada para o exterior for a nossa economia (uma fatalidade ditada pelo nossos desequilíbrios macro económicos), maior será o nosso número de vitórias em ambiente internacional (assim o espero, e acredito), potenciando esta outra “confiança” muito esquecida entre nós.

Este último tipo de confiança conduzirá aquilo a que chamo “nova maioridade” do povo português. É aquela que nos fará reencontrar como povo voltado para o mundo, sabendo que aquilo que deste rectângulo brota é para no mundo singrar positivamente, resultado de ideias e trabalhos excelentes, e não de pequenos jogos de interesse e mesquinhez de paróquia mal estruturada onde a exiguidade do terreno onde decorre a acção nos condena a definhar na ideia e no zelo por contrapartida da intriga e mediocridade.

Este último patamar de confiança está ainda muito longe, mas é perfeitamente alcançável. Para que isso ocorra, temos que lutar em primeiro lugar pela confiança que no início invoquei, a ditada pela verdade e pela indicação do caminho claro a seguir. O correcto escalonamento dos degraus de confiança, e a humildade no seu reconhecimento, é por si outro factor germinador de confiança, aquela que decorre do nosso conhecimento enquanto corpo social capaz de evoluir.

Tudo aquilo que nos têm estado a vender nos últimos 25 anos poder-se-á também chamar de confiança. Mas de outro calibre e com um nome bem conhecido: a confiança “banha da cobra”.

Montar uma nova economia

QUARTA-FEIRA, 9 DE MARÇO DE 2011

Portugal tem hoje evidentes desequilíbrios macro económicos que urgem ser corrigidos. Eles resultaram de deficientes sinais emitidos aos agentes económicos que, por instinto ou razão induzida, seguiram um determinado caminho que embora possa ser considerado racional do ponto de vista da decisão individual, se veio a provar errado quando analisado colectivamente. Considere-se o período em análise aquele que seguiu à última intervenção do FMI (1983/1984), e que antecedeu a nossa entrada na CEE e a subsequente adesão à zona Euro, até ao momento presente. Desde essa altura que nos entusiasmámos na construção uma economia voltada para o consumo em detrimento de uma economia voltada para a produção.

A configuração da nossa economia, quando analisada pelos maiores grupos económicos, não deixa de reflectir esse modelo. Maioritariamente, os nossos maiores grupos económicos trataram de desenvolver as suas actividades numa orientação claramente voltada para o consumo interno em detrimento do mercado externo. Sendo algumas dessas actividades potenciadas pelo aumento da concessão de crédito aos privados por parte dos bancos (crédito à aquisição de automóvel, compra e recheio de habitação), com pouca ou nenhuma concorrência internacional, e tendo a “bênção” governamental de acumulação de dívida como fórmula de sucesso, os nossos agentes económicos tiveram poucas dúvidas onde alocar os seus recursos.

A economia desenvolveu-se então em torno do sector da construção, distribuição, venda de automóveis, organização do consumo (a banca), e utilities (electricidade, comunicações). Tudo quanto respeite a exportações foi claramente preterido. Não é de estranhar. Sujeito a uma pressão concorrencial superior, enfrentando aumentos de salários superiores aos aumentos de produtividade, sem possibilidade de repercutir no preço a correspondente perda concorrencial, com crescentes dificuldades de acesso ao crédito (este maioritariamente destinado ao consumo interno), os nossos maiores grupos económicos tomaram opções racionais, ainda que com efeitos nocivos ao nível macro económico.

Por outro lado os Portugueses ganharam uma enorme atracção por todas as actividades económicas que suportassem o consumo. Não será caso para ficarmos admirados. A agricultura, as pescas, ou o shop-floor de uma fábrica, são locais menos apelativos a quem se encontra embriagado por um novo riquismo recém-adquirido quando comparados por um agora moderno balcão bancário, um stand automóvel, ou ainda um dos infindáveis organismos públicos. Ou seja, as operações intrínsecas que concorrem para consumir demonstraram ser vencedoras para efeitos de decisão de escolha de trabalho quando em competição com aquelas que concorrem para produzir. Muito estigma poderá também estar associado às decisões individuais tomadas. Seja como for, aquilo que poderão ter sido opções correctas ao nível individual demonstrou contribuir para o desequilíbrio macro económico.

A crise financeira internacional veio acelerar a evidência da nossa crise estrutural e obriga-nos a mudar de vida mais cedo do que esperaríamos. Por isso Portugal vai ter de ter uma viragem muito grande da sua economia. De uma economia voltada para o consumo, iremos forçosamente ter de montar uma economia voltada para a produção que se reflicta em exportações ou substituição de importações. Digo forçosamente não por uma questão de simpatia por um ou outro modelo económico, mas antes ditado pelas mais elementares regras de equilíbrio macro-económico e pelo julgamento dos mercados financeiros internacionais, que têm, nos dias de hoje, o poder de constantemente nos lembrar que se queremos ser um País independente e com capacidade de contrair / renovar empréstimos no exterior temos que seguir as tais regras elementares de equilíbrio macro-económico.

Se a economia voltada para as exportações / substituições de importações será baseada maioritariamente em salários baixos ou de alto valor acrescentado, é algo que ainda não sabemos. Depende em muito da capacidade empreendedora dos nossos empresários. Mas também depende bastante do nosso nível real de aquisição de conhecimento e de como o transformar em produto / serviço de elevado valor económico nos mercados mundiais. A combinação destes dois factores sairá potenciada se assistida por organizações eficientes rodeadas por variáveis de contexto favoráveis. Neste ponto realço a Justiça, factor fulcral na ajuda ao florescimento de organizações de excelência.

Estando assente que a nossa economia deverá ser primeiramente voltada para o exterior, há que actuar psicologicamente sobre os medos que nos têm assolado, e que têm que ver com o nosso receio do insucesso quando em competição aberta. Este medo é infundado. A Globalização tem que ser considerada o nosso palco preferencial de actuação, não só pelos frutos que daí poderão advir, mas acima de tudo porque é o palco onde o Português se pode dar naturalmente bem. Operar globalmente não é nada de novo para o nosso povo. Aliás, fomos, muito provavelmente, o primeiro povo a conduzir operações à escala global, ao que não será alheia a nossa boa capacidade de relacionamento com o “Outro”. A “libertação” do Português da dependência do Estado para tudo é fundamental de modo a que o Português ganhe uma outra maioridade. Para isso temos de ter uma sociedade menos dependente do Estado e um Estado muito mais pequeno.

Penso ser hoje geralmente aceite que não é mais possível continuar a viver em constante défice e acumular mais dívida pública e privada. Esse modus vivendi a que nos acomodámos e tomámos como eternamente adquirido vai ter de acabar. Doravante a palavra de ordem terá de ser “Excedente”, ainda que para isso tenhamos que proceder a muito sacrifícios de curto e médio prazo. Só assim conseguiremos transformar a nossa economia naquilo que ela terá que ser.

A correcta compreensão do exposto e a emissão de estímulos conducentes à aceleração das infindáveis decisões individuais de todos os agentes económicos são o principal desafio que os próximos governos terão pela frente. Não ver isto é avalizar o já contínuo definhamento da nossa economia, o que, e a prazo não muito distante, conduzirá a turbulências económicas e sociais difíceis de quantificar.