domingo, 8 de abril de 2012

Não os assustemos

Aqui há umas semanas foi publicada uma notícia de que os Alemães andam a evitar passar férias na Grécia com receio de sofrerem com a animosidade dos Gregos. Como se sabe e se vê os Gregos andam com muito sangue na guelra. Independentemente das suas razões para as revoltas de rua, e olhando objectivamente para o fenómeno e suas consequências, não é bom para quem vive em grande parte do turismo ter comportamentos que assustem os turístas, nomeadamente num cenário de extremo sobre endividamento.
Espero que os Portugueses não sigam o exemplo Grego e que tornem a fatal caminhada de ajustamento o mais suave possível. A prazo isso poderá inclusivamente dar brinde por merecer a simpatia do povo Alemão ao nível da sua atitude. Será expectável que muitos decidam passar férias em Portugal se isso servir para ajudar quem se anda a portar bem no difícil momento do ajustamento. Há simplesmente que não os assustar e ter um sorriso na cara.
E para ajudar que eles cá venham, despachemo-nos com a fórmula do Portela+1 de modo a precipitar o aumento de turístas rapidamente, sejam eles de que nacionalidade forem. Precisamos da Ryanair e outras companhias low cost em Lisboa o quanto antes.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Novos emigrantes


Portugal tem sido assolado nos últimos por uma nova vaga de emigração, tendo o fenómeno acelerado nos últimos dois anos. Muitos deles pertencem ao que se convencionou chamar “cérebros”, pessoas com elevada educação formal e que não encontram na nossa economia saída profissional, seja por inexistência de vagas nas organizações, seja pela miséria de ordenados. Este facto tem assustado diversas sensibilidades da nossa sociedade, como se o país ficasse melhor se todas esses cérebros ficassem cá no burgo. Evidentemente, e nas actuais circunstâncias, a saída de todos esses cérebros é muito positiva para Portugal. O facto resolve imensos problemas. Os deles e os nossos. Os deles porque nada pior que se estar inactivo e sem nenhuma ou reduzida remuneração. E os nossos porque menores serão os encargos de quem os sustenta, sejam os pais ou a sociedade. E se contarmos com o longo prazo, exercício mental de que não gostamos, ainda nos mitiga o problema do suicídio demográfico em curso, pois o pessoal cerebral é muito sensível ao zeros da conta bancária para efeitos de procriação. E sabendo-se que muitos destes emigrantes voltam, é sempre bom saber que trazem com eles mais gente para nos pagar as reformas no futuro.

Mas dedicando-me ao curto prazo de modo a manter-me o mais lusitano possível, estes novos emigrantes têm o condão de enviar remessas para Portugal. Remessas é coisa do passado, muito dos anos 50, 60 e 70 quando isso ajudava ao nosso equilíbrio macroeconómico, e que entretanto caiu fora de moda. Mas agora vai ganhando aos poucos o seu espaço na macroeconomia. E como sabemos, precisamos de muitas pequenas coisinhas a jogarem a favor para retomar equilíbrios macroeconómicos básicos que descurámos.

Dir-se-á “ha, mas que pena essa gente toda não andar a produzir em Portugal”. Não posso estar mais de acordo. Mas só acho pena que não se tenha pensado no assunto quando resolvemos nacionalizar a economia em 1975 e com isso desmontado o esboço do que seriam grandes grupos económicos devidamente capitalizados, condição indispensável para possuir massa crítica na economia que retenha cérebros em número apreciável. Ou ainda que nos tenhamos entretido desde o início dos anos 90 a montar a nossa economia voltada para o consumo interno e importações (ainda por cima à conta do endividamento externo). Como agora descobrimos este tipo de economia não produz tantos trabalhos assim para o pessoal cerebral. Ou se produz, os mesmos esgotam-se rapidamente quando a economia tem que se equilibrar macroeconomicamente.

A emigração é, por norma, um sintoma de disfunções da economia pelo facto de a mesma ter andado por maus caminhos. É totalmente inconsequente revoltarmo-nos contra os sintomas. O mais que temos que fazer é perceber que temos que colocar a economia a andar por bons caminhos e então nessa altura os cérebros não fugirão tanto.

domingo, 1 de abril de 2012

Arnhem 2

Quando vivi na Holanda perto da zona de Nijmegen e Roermond tive a oportunidade de visitar muitas outras cidades circundantes. Mas por uma qualquer razão misteriosa acabei por nunca visitar Arnhem, ainda que vários Holandeses a sugerissem pelo seu significado histórico. E de cada vez que mudava de comboio em Arnhem vindo de Amsterdão comentava sempre que ainda não conhecia esta cidade, tendo então a sensação que a mesma estivesse sempre longe demais quando geograficamente estava a umas escassas dezenas de quilómetros.

Durante a 2ª Guerra Mundial Arnhem teve um protagonismo muito importante aquando da ofensiva Aliada de 1944. Ditava a estratégia militar da altura que após o desembarque da Normandia a ponte de Arnhem era um objectivo muito importante para o avanço das tropas sobre a Alemanha Nazi. Parte da acção ao assalto a Arnhem passava pelo lançamento de para-quedistas. Infelizmente, a realidade veio provar que o local onde os para-quedistas caíram foi longe demais da ponte, facto imortalizado pelo filme de 1977 com o nome “Uma ponte longe de mais”. Especula-se que este facto poderá ter atrasado o final da guerra por um par de meses.

Talvez por uma coincidência, ou talvez não, Arnhem talvez pareça estar sempre longe de mais, não só fisicamente, mas também na ideia. Passo a explicar. Para meu espanto, e de todo o grupo com que me encontrava, deparámo-nos com um invulgar sinal de trânsito num parqueamento automóvel defronte de um hotel que dizia “Woman only”. De imediato procurávamos conjuntamente explicações que terão conduzido a tão curiosa sinalética. Vozes mais sensíveis avançavam que deveriam ser espaços para grávidas, mas a ausência de uma figura feminina de barriga saliente em nada corroborava a ideia. Outros, mais maliciosos, mediam o espaço reservado às senhoras na secreta esperança que o mesmo fosse mais largo que o reservado a todos os outros automobilistas, mensurações que acabaram por não suportar o pérfido raciocínio. Outros ainda opinavam que a Holanda na sua fúria de estar um passo à frente respeitante aos melhores standards civilizacionais encontrava neste meio uma forma superior de manifestar a sua atitude de alta deferência face ao género.

Por exclusão de partes, e por falta de imaginação que o adiantar da hora explicava, acabou o grupo por se refugiar nesta última possibilidade, havendo também concordância geral que Arnhem fosse longe demais. Tal e qual como em 1944 e quando por lá vivi.

Arnhem 1




Durante a presente semana tive a oportunidade de revisitar a Holanda. Arnhem, que se me apresentou sempre longe de mais quando por lá vivi, surpreendeu-me por ser uma terra algo acidentada para os padrões dos Países Baixos. Automaticamente questionei-me se ainda assim os holandeses teriam a coragem de se fazer à estrada de bicicleta fazendo valer a sua cultura ciclista aos inconvenientes declives da zona. E à vista posso afirmar que a cultura ganhou à geografia. De miúdos a graúdos todos iam dando ao pedal, e embora algo carrancudos na subida, compensavam na descida com belos sorrisos. Arnhem provou-me assim que, ainda que um ou outro monte se atravesse pela frente, é sempre possível dobrar a nossa natural lassidão e indolência às virtudes do transporte de bicicleta.

Mas Arnhem reserva-nos outras surpresas. Para além do exemplo destemido de como se enfrenta um monte com uma vulgar bicicleta, em Arnhem é possível ainda testemunhar que existem camelos e dromedários na Holanda. Confesso que o impacto é forte já que camelos e a cor verde dos prados com o Reno por detrás não é aquela combinação que trazemos gravada na memória. Após uns segundos de incredulidade perante tão improvável cenário restou-me concluir que aquele dia em Arnhem não foi em vão. Provou-se ser possível combinar o uso da bicicleta com terrenos um pouco mais acidentados, e que é ainda possível encontrar camelos na Europa. Arnhem afigura-se assim como um óptimo local de destino para uma comitiva de autarcas para se inspirarem na possíbilidade de repensar a locomoção do ser humano através da bicicleta numa urbe um pouco mais acidentada, e simultaneamente ver o animal que não quereremos ser se não cumprirmos adequadamente a nossa missão.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Vozes que se ouvem

Durante muito tempo questionei-me sobre o motivo de muitas vozes se ouvirem mais do que outras. Ao nível do empresariado, todos aqueles que representavam consumo, despesa, construção e banca eram muito ouvidos. Os outros, nomeadamente os empresários exportadores, nunca eram chamados aos microfones. Também os académicos e economistas não íam sendo muito consultados, e por isso um determinado tipo de “pensamento dominante” ia comandando o destino de Portugal. Quando lia J.K.Galbraith lembro-me bem de o autor falar com frequência sobre como o “pensamento dominante” se sobrepunha à razão, sugerindo mesmo que esse pensamento afinal não era bem pensamento, sendo mais um movimento de pessoas de diferentes sectores da sociedade que partilhavam interesses comuns e que tinham os seus mecanismos próprios de os fazer valer. Tinha para mim de que isso talvez mais não fosse do que um desabafo de académico incompreendido.

A vivência recente do que se passou em Portugal ofereceu-me uma melhor percepção do provável estado de espírito do Sr. Galbraith. Passei a entender melhor o que era o “pensamento dominante”. De facto mais um movimento que pensamento. Aqui há uns poucos anos (talvez uns 5 ou 6 anos), alguns empresários de sucesso foram entrevistados na televisão com o intuito de falarem sobre Portugal. Um dos eleitos era um grande importador de automóveis. Não tinha memória de ler entrevista sua em jornais ou revistas, pelo que provavelmente o seu vasto e valoroso pensamento teria agora uma extraordinária oportunidade de se revelar, sendo então oferecido aos Portugueses uma extraordinária oportunidade de saborear alguns elementos de como construir fortuna. Paralelamente, o mesmo empresário vinha qualificado de pertencer a uma família com vasta linhagem, dando assim à entrevista aquela sedução mista de descobrir como fazer dinheiro em paralelo com a partilha de saberes de quem experimenta convivências em existências superiores.

Tal não é o meu espanto, e seguramente o da maioria dos Portugueses, que mesmo espremendo ao máximo todas as palavras e ideias da personagem muito pouco se ia aproveitando. E a entrevista seguia morna. Às escassas ideias do entrevistado permitia-se uma reverente deferência pela quantidade aristocrática em exposição e pelos elevados resultados líquidos da conta de exploração dos seus empreendimentos. E a evidente falta de rasgo ia sendo compensada pela sua jovialidade e boa aparência. O mais que se conseguia da entrevista era um “eu acredito em Portugal e na capacidade dos Portugueses”. Nada mais. Não será errado afirmar que se esperava um pouco mais, embora de modo nenhum se viu a personagem reduzida nas suas qualidades empresariais, suportadas, aliás, pela inequívoca objectividade dos seus impressionantes resultados financeiros.

Contudo, o problema não residia no entrevistado e nas suas capacidades de conceber Portugal. O que seguramente lhe sobrava em capacidade de empreendedorismo e sagacidade ia-lhe faltando excessivamente para os objectivos da entrevista. A questão é que se quis ouvir muito de quem se calhar não tinha tanto para dizer. Aqui há pouco tempo o Sr. Krugman veio relembrar que o empresariado não é lá muito bom conselheiro económico. O mais que conseguem extrapolar da sua actividade para a economia é que a confiança é boa para os negócios e para a economia. Ora não é preciso ser-se empresário para entender esta verdade universal. E em tom de puro gozo o Sr. Krugman ainda relembrou que muito escapa ao empresariado em termos de noções de economia, a começar pela “armadilha da liquidez”.

Como todos agora sabemos o problema actual de Portugal reside num profundo desiquilíbrio macroeconómico que se começou a construir em 1985. Sem o saber bem, o elevado sucesso daquele empresário contribui parcelarmente para o problema que nos aflige. Contribuição conjunta com os senhores da banca que alardeavam toda a sua auréola de sucesso à custa de um crédito desenfreado para aquisição de casa e carros. E ao duo não faltava o poder político que seguia todo contente com o movimento em vigor, sabendo de antemão que tudo o que fosse chamar à atenção à barbaridade em curso não dava votos. Assim, o “pensamento dominante” não teve voz contrária que fosse ouvida. Infelizmente.

Agora, felizmente, vamos ouvindo pensamento. A ocasião a isso nos obriga. E felizmente o mesmo não é dominante, pois não existem pessoas de diferentes sectores da sociedade a puxarem para um mesmo lado, ainda que involuntariamente. Ouvem-se agora mais economistas e outros pensadores livres, pessoas que estão, genericamente, em muito melhor posição para emitir opinião sobre a sociedade que muitos dos empresários, políticos, ou sindicalistas.

sábado, 17 de março de 2012

Os pobres do turismo

Ouvia-se bem o movimento cansado dos maxilares com que as crianças moíam as batatas fritas de pacote na boca. As mães, distraídas com as crianças, puxavam-nas pelo braço sem razão aparente e os pais aproveitavam para passar olhares delambidos por algumas capas de revista onde mulheres seminuas e famosas se expunham ao lado de veículos motorizados. De vez em quando, atravessavam-se também homens suados em tronco nu e mulheres gordas em bikini sem que ninguém parecesse sequer incomodado com a situação. Estavam quase quarenta graus de verão e era normal as pessoas passearem-se assim. Sobretudo numa bomba de gasolina como aquela, tão perto da praia, onde cada família aproveitava para fazer as últimas compras para o farnel diário. Com efeito, até os filhos mais velhos contribuíam com algumas moedas para adquirir atum em lata, papos-secos, jornais desportivos, tudo o que fosse essencial para o resto do dia. O arraial, depois, prosseguia em direcção à praia, com toda a família equipada com óculos escuros de imitação, toalha ao ombro e chinelo no pé. Pelo caminho, o cheiro do peixe frito saído das tascas confundia-se com o cheiro das batatas de pacote, demasiado amolecidas já pelo sol para serem comidas e portanto deixadas ali no chão para gáudio dos cães vadios. No areal, por fim, com metro e meio de espaço por pessoa, celebrava-se então o triunfo de mais um dia de férias aproveitado ao máximo de barriga para o ar.

Estava-se no Algarve e as praias dos ricos podiam avistar-se alguns quilómetros ao lado. Mas não havia misturas. Nem sequer problemas. A ausência de estratégia dos planeadores turísticos permitia espaço para todos. Sobretudo para os pobres, uma vez que num prédio construído à beira-mar cabiam muito mais pessoas do que nas casas de luxo dos ricos. E desse modo os pobres iam dando a cada verão o seu inestimável contributo para o sector do turismo. Ninguém parecia lembrar-se que para se exportar nem sempre é preciso sair do mesmo lugar. Ninguém parecia interessado em trazer os ricos dos outros países. E isso era excelente para os pobres da nação, que podiam assim continuar a fazer vida de pobre, protegidos pelo estado e sem que ninguém os chateasse.

segunda-feira, 12 de março de 2012

As boas notícias continuam

Segundo o jornal Público

De acordo com os dados do comércio internacional, hoje divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), as exportações portuguesas cresceram 13,1% no primeiro mês do ano, quando comparado com igual período de 2011.

No final de 2011, as vendas ao exterior tinham desacelerado de forma significativa, sobretudo no último mês, em que cresceram apenas 4,4%, o valor mais baixo em mais de um ano.

Os dados hoje divulgados pelo INE mostram que esta tendência de abrandamento atenuou-se, pelo menos no primeiro mês de 2012. O crescimento das vendas foi particularmente forte para os países fora da União Europeia (UE), que compraram mais 37,9% dos bens nacionais do que em igual período do ano passado.

Já as exportações para o espaço comunitário aumentaram 5,9% em termos homólogos, um resultado melhor do que a contracção de 1,1% registada em Outubro, mas, ainda assim, abaixo do crescimento de dois dígitos que as vendas para os países da UE registaram durante praticamente todo o ano passado.

Quanto às importações, cresceram apenas 3,8% em Janeiro, em termos homólogos, em linha com a desaceleração e até com a queda que tinha sido registada durante boa parte de 2011.

Olhando para os dados do último trimestre (Novembro a Janeiro), as exportações aumentaram 10,9% e as importações caíram 7%, o que, segundo o INE, permitiu um desagravamento do défice da balança comercial de 2,07 mil milhões de euros. O saldo é, agora, de -3,08 mil milhões de euros.

Direi que isto são excelentes notícias. A economia caminha no sentido correcto pois o ajustamento está-se a verificar. É extraordinário como o governo não distingue a questão do que se produz em Portugal visto numa óptica exportadora e não faz disso bandeira e tão pouco aproveita para explicar aos Portugueses que exportar muito mais do que importar deve ser o objectivo. Esta é a questão fulcral de todo o nosso problema, o total desiquilíbrio macro-económico em que caímos. Os bons resultados em curso fazem-me acreditar que a nossa economia vai dar a volta por cima.

E mais uma vez realço, sente-se mais a afluência de uma economia que cresce torta por via do consumo interno e endividamento do que uma economia que cresce por via das exportações. O nível de actividade das fábricas e produtores de serviços exportadores é muito menos visível do que uma qualquer proliferação de stands automóveis, construção (seja pública ou privada), shopping centers etc. Quanto mais não seja porque a ideia de consumo leva a uma embriaguez enganadora.

domingo, 11 de março de 2012

Bicicletas

Por um destes dias, e enquanto pedalava por Amsterdão, perguntava-me porque não pôr Portugal também a pedalar. Não no sentido de trabalhar mais horas, essa infelicidade que nos quiseram impor. Trata-se antes do sentido literal do termo: pedalar de bicicleta fazendo uso da mesma como meio natural de transporte.

Os holandeses pedalam com fartura. E têm vastas razões para o fazer. Com um território plano, com uma tara extrema pelo planeamento urbano, com uma atitude muito cool perante a vida, e totalmente despretensiosos perante o próximo, o holandês tem na bicicleta o seu meio natural de transporte. Desde criança até muito tarde, é vê-los em pelotões por aquelas vias próprias disseminadas por tudo quanto é lado.

Estudos recentes vêm, reiteradamente, apontando o holandês como o povo menos stressado da Europa. Tem para mim que essa posição no podium advém bastante do uso da bicicleta, embora o seu gosto pela jardinagem a partir das 16h45m também deva contribuir, já que este povo sai do trabalho às 16h30 em ponto, realidade que vai suportando outros estudos que os apontam como aqueles que menos horas trabalham por semana.

Há ainda outras virtudes decorrentes do acto de pedalar com assiduidade, como por exemplo o facto de o holandês não ser grande portador de barrigas pronunciadas, apesar de toda a sua sede por Heinekens. Ou ainda a magia feminina na sua elegância própria aquando do exercício da arte da pedalada por alturas da Primavera e Verão, coisa que muito salutarmente vai mantendo o espírito e a motivação geral aos mais altos níveis. Ou perceber que o transporte de bicicleta é, de longe, o mais económico de todos, sem contar com a poupança adicional nas despesas em clubes de fitness. E caso Portugal adopte este espírito, temos ainda uma grande contribuição para a indústria da bicicleta nacional, o que deixará certamente o município de Águeda radiante. E porque me custa não falar de macro economia, realço que assim se vai substituindo muito saudavelmente importações (carros e demais componentes para manutenção) por produção nacional, e que se diminui ainda o endividamento externo, já que uma bicicleta sempre pode ser comprada a pronto.
Como se vê, existem numerosas vantagens no uso da bicicleta. No entanto, transportar o conceito para as nossas cidades e vilas adivinha-se coisa complicada. A geografia do terreno nem sempre é tão amiga quanto a dos Países Baixos, embora isso esteja longe de ser 100% exclusivo deste conceito de transporte. Por outro lado o nosso espírito de aristocrata falido não dá a necessária ajuda ao nível da atitude. Se a estes dois elementos adicionarmos a nossa inenarrável incompetência para o planeamento urbano, temos um desiderato complicado de desmontar. A minha esperança é que a nossa duradoura penúria económica nos dê alguma clarividência e que quem planeia a urbe tire uns dias para ir ver como as coisas se passam pela Holanda. E já agora, de modo a abrirem bem os olhos, que seja por alturas da Primavera ou do Verão.

domingo, 4 de março de 2012

Pernas para andar

Ao contrário do que possa parecer depois de uma comparação de resultados económicos, os alemães e os portugueses não são assim tão diferentes. A fábrica da Volkswagen em Portugal, por exemplo, é tão produtiva como qualquer outra fábrica da empresa na Alemanha. Um operário português é capaz de executar qualquer tarefa tão bem como um alemão. Não há poções mágicas nem superpoderes: a vantagem alemã reside essencialmente na organização e disciplina do trabalho. No rigor com que se produz de olhos postos nos resultados - fruto também da visão estratégica de um povo que fez reformas estruturais na altura certa e soube definir muito bem um caminho para a sua economia.

A Alemanha tem um modelo económico orientado para a exportação de produtos de alto valor acrescentado, com grandes investimentos em tecnologia e inovação. É o meu bitaite, não sou entendido na matéria, mas consigo perceber mais ou menos isto. Já no que se refere a Portugal: não faço a menor ideia. Como é que nos definimos? Pois, não sei, cá estamos, mas olhe que até podia ser pior. Enfim, tenho a sensação que ser português é sobretudo uma constante procura pela definição disso mesmo, de uma certa portugalidade, talvez, que a mal ou a bem nos vai ferindo e nos cicatriza. Quem é que nunca começou uma frase com um «ser português é isto» ou «ser português é aquilo»?

Assim, não percebemos muito bem como é que a crise chegou a esta acidental praia lusitana, nem como é que a vamos mandar embora daqui. Mas ela anda aí e nem lhe estamos a responder mal. É louvável, apesar de tudo, o grande rigor com que se tem atacado o défice. Mas falta-nos uma visão clara de crescimento. Não há uma porra de uma estratégia. Exportar, sem dúvida, mas o quê e para onde? É preciso responder a isto, imaginar um futuro, andar para a frente.

sábado, 3 de março de 2012

O tempo para o queixume está a expirar

As vendas de automóveis durante o mês de Fevereiro de 2012 desceram 52,2% relativamente ao mesmo mês de 2011, passando de 16344 unidades para 7818. Esta é uma excelente notícia para Portugal. Principalmente quando a referência média para o mesmo mês durante a primeira década deste século rondava os 20.000 automóveis.

Este dado significa uma mudança substancial na atitude face ao consumo, que é uma condição fundamental para o nosso ajustamento macro económico. Redução de compra de automóveis significa menos necessidade de financiamento da nossa banca junto do BCE e consequentemente maior disponibilidade de crédito para as empresas, nomeadamente as exportadoras. Significa menos importações, concorrendo para o básico equilíbrio macroeconómico. Significa viver ao nível das possibilidades, com toda a carga virtuosa associada a esse facto. E a prazo significará maior dinamismo a toda a actividade de manutenção automóvel, bastante mais geradora de animar produção interna (muitas peças podem ser cá produzidas) e seguramente manterá um nível apreciável de oficinas de reparação. Sim, cuidar dos carros como os nossos pais o faziam (tinham-nos por períodos largos, onde a manutenção assumia um papel primordial).

Quanto aos vendedores de carros que se queixam amargamente, aliás, com evidente fundamento, sugere-se que procurem trabalho noutro sítio. Nomeadamente em actividades exportadoras e/ou de substituição de importações. Não há trabalho? Sim, está difícil, mas a constelação do tecido social é uma coisa complexa e o queixume da praxe esconde outra realidade. Ontem soube por um amigo que a sua família precisa de um casal para serem caseiros numa bela localidade do interior e não conseguem encontrar ninguém. Oferecem dois ordenados mínimos. É pouco? É. Mas a esses montantes há que considerar que não terão de pagar pela casa e outras despesas fixas que todas as famílias têm que pagar. Ou seja, é dinheiro limpinho. Nada mau para quem está desempregado.

Falta a boa notícia de que os Portugueses estão dispostos a mudar de atitude e que estão dispostos a aceitar o que há e não aquilo que querem. Regra básica de vida, mas que parece que se tornou numa coisa complicada nos anos que correm. O tempo tratará de colocar tudo no seu devido lugar pois a realidade é de uma natureza tal que traz sempre as pessoas de volta a ela. Sim, ainda vai haver espaço para o queixume, mas ele vai-se esgotando à medida que o tempo passa. E quando desistirmos de sermos teimosos e nos modelarmos à nossa realidade, então seremos mais felizes.

sexta-feira, 2 de março de 2012

MADE IN PRC

Uma percentagem dos portugueses se deve já deparado com a dúvida que assaltou a minha mulher quando, há uns dias, tomando um produto nas mãos, se perguntava o que vinha a ser essa tal PRC onde se escrevia ter sido feito.

People's Republica of China – naturalmente!!!

Há uma década, começámos a ver nos supermercados uma quantidade cada vez maior de artigos «manufactured in the EC» (e mais tarde, EU) - o que significava que podia ter sido feito em qualquer lugar de um domínio geo-político que hoje agrega quinhentos milhões de pessoas. Já se percebia na altura que havia uma certa tentativa em despistar o consumidor, nas entrelinhas dessa difusa realidade que dá pelo nome de União Européia.

Hoje, um artigo «made in the EU» é já motivo para se baterem palmas de contentamento. Dirija-se o leitor ao AKI ou ao Office-Center, e veja quantas coisas não são feitas na China. Tornando a recuar 10 anos no tempo, os artigos que vinham do mais populoso país do Mundo (tem quase três vezes mais habitantes do que a tal EU) chegavam-nos rotulados de «made in China». Agora, vêm camuflados de made in PRC. A coisa fica mais anónima; as siglas deixam no ar uma dúvida que o verdadeiro nome dessa nação clarificavam num ápice.

Claro que «People's Republic of China», por sua vez, daria um ar ainda mais penalizador à coisa, com o seu ar maoísta (talvez o Bloco gostasse mais?!). Portanto, andamos todos a adquirir coisas «made in PRC». Pergunta-se: em que condições se trabalha na PRC?! Está lá alguém da ASAE destacado para ver?! Há por
lá comitês de centrais sindicais européias a apurar os direitos dos trabalhadores?! Quais são as condições de segurança do trabalho?! Quais são os horários laborais?! Os descansos semanais?! Os dias de férias?! A assistência médico-social?! Enquanto tudo isto sucede, assobiam para o lado os donos das grandes corporações ocidentais: dos artigos electrónicos ao vestuários, pasando por mobiliário e ferramentas. A qualidade não é famosa – mas os lucros são chorudos com a deslocalização da indústria para o Extremo Oriente.

Assobiam também para o lado os políticos da EU, desde o Dr. Mário Soares, que continua com a cassette da justiça social, mas fazia melhor em pôr a mão na
consciência para perceber que a sua geração foi a primeira a começar a vender a Europa. Vêm depois os François Delord, Suzanne Weil – e já agora, os portuguese Deus Pinheiro, António Vitorino, o «boss» Durão Barroso, ou até o eurodeputado Carlos Pimenta, que foi precursor da consciência ambiental, mas que preferiu, com Barroso, saltar para a plataforma «continental», sem dúvida mais tranquila, mais discreta, menos exposta, trabalhosa – e certamente muito mais bem paga. A reforma deles, e de muitos outros políticos «europeus», com passagem ou não pelo respectivo Parlamento de
Bruxelas (onde o contribuinte continua a perceber mal o que realmente se faz) está garantida. E a reforma do resto dos europeus???!!!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Notícias positivas

As exportações totais de vinho em 2011 cresceram 3,6% em valor. Descontando os vinhos licorosos, que obtiveram um decréscimo de 3,6%, a subida foi de 10,5% em valor, e uns impressionantes 21,2% em quantidade. Saliente-se as excelentes taxas de crescimento em valor de mercados como Angola (30,6%), Brasil (18,7%), e China (91,7%).

É bom que continuemos a exportar mais para compensar os fatais decréscimos de importações. Assim manteremos a economia a funcionar e ao mesmo tempo tornamo-la muito mais robusta e equilibrada.

Embora o total das exportações de vinho somente represente 1,6% das nossas exportações totais, sempre ajudam o barco a remar na direcção certa. E é isso de que a nossa economia necessita: muitos pequenos sinais correctamente direccionados.

Fonte dos dados: Instituto da Vinha e do Vinho

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Sr. Seguro não percebe

O Sr. Seguro tem demonstrado recentemente estar longe de entender o enredo que envolve Portugal e os capítulos que se vão seguir. Faltando-lhe o discernimento para entender o mundo e o momento histórico que vivemos, conveniência básica para um candidato a Primeiro-Ministro, vem demonstrando ainda grande inabilidade política, facto surpreendente se tomarmos em consideração a escola partidária que possui. A escola mediática do PS acredita que é frutuosa a demarcação do partido relativamente ao acordo da troika apostando na exploração da insatisfação popular. Ora nada mais errado. O povo Português de hoje anda muito avisado e sabe perfeitamente que existe um acordo assinado onde também consta a assinatura do PS.

Não é necessário ser-se um génio para saber o quanto os Portugueses adoram ser elogiados por estrangeiros. Ora sabendo-se, ou sentindo-se, que o episódio Grego vai acabar mal, que melhor prato pode ser dado aos portugueses ter todos os holofotes do mundo em cima deles. Sabendo o Português (ou talvez sentido, o que é suficiente) que a sua situação e atitude não é a mesma da Grécia, e sabendo a EU, o BCE, e o FMI que precisam de um caso de sucesso após a tragédia Grega, que melhor casamento poderá haver entre um que deseja ardentemente ser elogiado e outro que está sedento de ter razões fundamentadas para emanar elogios. Para esta celebração ocorrer só falta um elemento: tempo, elemento que como sabemos não pára e anda sempre à mesma velocidade.

Ora o Sr. Seguro não percebe que quando este momento ocorrer, coisa que “caprichosamente” ocorrerá um pouco antes das próximas eleições legislativas, lá por 2015, o PS não estará na fotografia de corpo e alma se entender iniciar agora um processo de desatino político com o acordo Troika. E ainda que apresente o seu corpo para a foto o povo julgá-lo-á por se apresentar sem alma. Tal qual o soldado com evidente défice de esprit de corps mas que quer fazer-se passar por herói na fotografia do pelotão.

Estou certo que Portugal e os Portugueses irão saborear a vitória, embora esta não vá ser representada por um El Dourado à Guterres, idealismos à Barroso, ou loucuras à Sócrates. Vai antes ser uma vitória que, embora se apresente um pouco difusa, terá luz suficiente para vislumbrarmos que Portugal é viável dentro da zona Euro e que iniciou uma nova vida com novas regras com as quais pode perfeitamente ser um vencedor no futuro. E que afinal tudo pode depender de nós, da nossa vontade, do nosso saber, e da nossa capacidade de empreender e enfrentar as mudanças. Em 2015 o Sr. Seguro não representará nada disto.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Da Língua Portuguesa

O colega Frederico Salema enuncia no seu «post» que as razões para se discordar do acordo ortográfico são múltiplas. Eu aproveito o ensejo para tomar o fio de uma só dessas meadas - aquela de que eu gosto mais, que pela sua dimensão literária me diverte mais do que as outras todas: o aspecto da herança cultural.

Uma língua, como várias vezes afirmou Jorge Luís Borges, é uma comodidade intelectual, e o conceito de «país», uma abstracção em que o escritor argentino acreditava pouco. À maneira do grego Sócrates («Não sou grego nem ateniense, sou cidadão do Mundo»), Borges era ferozmente independente (mas também tímido e de algum modo misantropo). Preferia portanto certamente o indivíduo ao grupo.

Aparentemente, quando a Argentina ganhou à Holanda no Mundial de futebol de 1978, Borges ficou perplexo com os festejos, recusando a noção de que 11 homens vestidos de igual vencendo uma partida desportiva contra outros 11, pudessem significar que um país tivesse vencido outro. Bem vistas as coisas – se um país é uma abstracção, uma «selecção nacional» é uma abstracção sobre uma abstracção. Regressemos, contudo
à «língua»:

Mesmo a língua, para Borges, tinha as suas limitações. Em «Das alegorias aos romances» (Outras Inquirições, 1952), cita com humor:

Chesterton, para reabilitar o género alegórico, começa por negar que a linguagem esgote a expressão da realidade. «O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes, mais inumeráveis e mais anónimos do que as cores de uma selva outonal. No entanto, julga que esses matizes, em todas as suas fusões e transformações, são representáveis com precisão por um mecanismo arbitrário de
grunhidos e de guinchos. Julga que de dentro de uma bolsa saem realmente ruídos
que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo.»

Naturalmente, sendo escritor e, sobretudo, leitor, a língua, sobretudo sob a forma escrita, era algo que ele amava mais que tudo. Erudito que era, conhecia-lhe as raízes históricas e culturais, e saberia, como nós, que a língua não é uma ferramenta utilitária que se troca por uma nova quando avaria. A língua é um artefacto imaterial construído na passagem dos séculos. Assim por exemplo, os ingleses (e os franceses) não abdicaram do «Ph» para pronunciar o fonema «F»: topography,philosophy, pharmacy… Estamos aqui nos domínios greco-romanos, onde a letra F não existia – portanto, a persistência em conservar certos fonemas linguísticos aproximam-nos do nosso passado colectivo. Acresce que a escrita nos aproxima, neste casos, da natureza daquilo que a palavra descreve: Philo (amor) + Sophia (conhecimento), ou Phila (amor) + Delphia (irmandade)= amor fraternal. Do mesmo modo que acção, deriva do latim actionis. Os romanos não usavam do C cedilhado – o T fazia o seu lugar. Ou já agora, o C da palavra «acta», que em latim se escrevia tal-e-qual,mas que agora o acordo converteu em ATA. O mesmo com «fracção», de «fractionis». Se para mais nada servir,o C mudo estavam lá para nos lembrar de mais 2 milénios de história - que, quando retiramos o C mudo estamos de golpe a renegar.

Tudo isto para dizer que além de legado histórico, a língua é também aproximação possível do conhecimento da História. O acordo ortográfico, pelos vistos, não tem qualquer interesse por isso.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A Grécia passada e Portugal futuro



O jogo das diferenças entre Portugal e Grécia continua a ser uma das melhores matérias-primas das gentes que têm a ingrata tarefa de estudar e descrever a economia e a política nacional. O assunto não é novo – é conhecido, por exemplo, o parágrafo em que Eça de Queiroz compara Portugal à Grécia, apontado os mesmos defeitos a ambos os povos, mas lembrando que os portugueses não criaram um religião, não têm uma literatura universal, nem criaram o museu humano da beleza da arte. A tautologia, no entanto, avança nos dias de hoje como se fosse absolutamente necessária para salvaguardar as honras da pátria e garantir a salvação da economia portuguesa. É discutível se existem honras ou economia para salvar, é certo, mas parece haver unanimidade em apontar a instabilidade social como principal diferença entre os dois países.

Em dia de aprovação de mais um pacote de austeridade, as imediações do parlamento grego voltaram a transformar-se num palco de batalha marcado por gritaria, pedras, fogo e destruição, tudo e mais alguma coisa, enfim, o panorama completo. Isto é dramático porque representa a não existência de condições básicas para o desenvolvimento daquilo em que os gregos são realmente bons. Não há espaço para as artes ou para a filosofia quando é preciso arranjar forma de pôr comida na mesa para sobreviver. E a triste ironia que se abateu sobre os gregos reside nessa impossibilidade de continuar o processo de civilização e refinamento que os próprios gregos iniciaram.

O problema da instabilidade social não é tão grave cá no burgo e a economia parece encaminhada (desde que se consiga resolver o desafio do pastel de nata e se aumente as exportações). O problema, aliás, é o oposto: mesmo que se consiga a difícil tarefa de garantir condições básicas de existência, o país parece ter muito poucas hipóteses de cumprir o sonho de Pessoa e construir uma arte plural e representativa. E é por isso que nos melhores momentos da nossa produção artística actual se exclama: «Portugal está para acabar; é deixar o cabrão morrer». O mais certo, no entanto, pela minha curta experiência de vida portuguesa, é que tudo continue exactamente como está.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Envelhecer no futuro

Está bem de ver que com a dinâmica demográfica em curso em Portugal veremos no futuro novas formas de vida do idoso como poucos terão imaginado. O suicídio demográfico em vigor trará consigo novos fenómenos sociais difíceis de interiorizar nos dias de hoje, tal a diferença do que se experimenta agora e do que experimentaremos no futuro. O cidadão comum, e não só, tem uma dificuldade tremenda em projectar a vida e o mundo para além da realidade actual que o cerca. Principalmente quando do exercício mental resultam cenários menos favoráveis que podem forçar acções no presente um tanto incómodas. Vejamos o fenómeno do aumento da esperança de vida quando associado com uma baixíssima taxa de fecundidade somada a uma emigração crescente.

Como sabemos suicidamo-nos demograficamente por andarmos com taxas de fertilidade na casa dos 1,35 quando se exige cerca de 2,05 para manter o nível populacional. Associando o facto de andarmos a exportar pessoas, os tais emigrantes que aqui não andam satisfeitos, e algum retorno aos seus países de origem da recente vaga de imigração, não é difícil de adivinhar que as perspectivas são de acentuado declínio demográfico. E neste momento não existem sinais sólidos, ou menos sólidos, que a taxa de fecundidade suba muito mais, ou que a emigração pare.

De acordo com o estudo demográfico levado a cabo pelo INE no início deste século, no caso do cenário pessimista se verificar, que é aquele que se vem verificando, a população de Portugal em 2050 será de 7.500.000 de habitantes. O estudo não conta com os movimentos migratórios. Ora, não será difícil de adivinhar que cerca de 500.000 a 1.000.000 de Portugueses poderão emigrar durante os próximos 40 anos, sendo que quem emigra é, por natureza, a camada mais jovem. Ora esta dinâmica demográfica resultará numa população com idade superior a 65 anos que provavelmente não andará longe dos 40% da população total, ou mesmo superior. Em 1991 essa percentagem era de 13,61%, em 2001 de 16,35%, e em 2011 de 19,15% (fonte: Pordata).

Viver sozinho é caro. Com pensões médias ao nível de metade das dos dias de hoje, com rendas de 37,82 Euros por mês inexistentes, com o filho longe, e com a esperança de vida a subir, o modo de viver do idoso do futuro será muito mais partilhado do que hoje imaginamos. Os filhos, ou melhor, o filho, pois isto agora anda à velocidade média de pouco mais de um filho por casal, ou viverá um pouco mais longe do ascendente, ou mesmo viverá no estrangeiro (sim, ele emigrou em 2010, lembram-se?). Por isso o apoio aos ascendentes vai ser uma coisa muito vaga. Não nos espantemos pois que vejamos, lá por 2040 ou 2050, inúmeros centros espalhadas pelo país atulhados de idosos. Ou então apartamentos vocacionados para regime de partilha de espaço, com 3 a 4 idosos por divisão. Ou seja, qualquer figurino que implique partilha de custos.

Ainda no que respeita a custos, não será difícil de adivinhar que derivado do facto da população idosa ser em muito maior número relativamente à população activa, existirá uma escassez grande de pessoas para tratar dos idosos, o que poderá inflaccionar um pouco o preço da assistência. Claro que se pode sempre recorrer à imigração, mas a dúvida é se a economia produz para isso. Por isso mecanismos de assistência em cadeia terão que ser implementados, qualquer coisa que potencie a obtenção de economias de escala na assistência ao idoso, qual fábrica de produção em massa. Tudo de modo a reduzir o custo de sobrevivência ao mínimo preço possível.

Este cenário, aos olhos de hoje, é aterrador. De certa forma ele já existe, mas é só uma pequena amostra. No futuro será a regra. Ilustrar hoje como isso configurará a sociedade é difícil, mas todos os elementos que assistem ao raciocínio já existem. Por isso utilizemos a nossa imaginação. Mas cuidado, não nos iludamos, qualquer que seja o devaneio da nossa razão o resultado será sempre pouco risonho.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A nova imposição ortográfica

Frederico Salema escreve de acordo com a antiga ortografia. Esqueci-me de avisar, espero que me perdoem, mas nem sequer tenho um daqueles mecanismos de conversão automática. Se tivesse, no entanto, ordenaria a desinstalação do mesmo após aprovar a decisão por maioria absoluta apenas com o meu voto. A nova imposição ortográfica pretende antepor a fonética à ortografia de forma a simplificar e facilitar a aprendizagem. Ou seja, preocupados com as crianças do futuro, que não serão capazes de aprender a ler e a escrever como foram todas as outras antes delas, os doutorados da imposição ortográfica pretendem que se escreva como se fala – com uma lógica sublime que pretender unir todos os países de língua portuguesa do mundo, com todas as suas pronúncias e dialectos.

A união conseguida até agora pode ser observada nas contradições da imprensa nacional, que se desdobra como pode entre notícias escritas ao abrigo do nova imposição e textos de opinião escritos maioritariamente “de acordo com a antiga ortografia”. Mas o exercício de acompanhar a imprensa nacional é sobretudo hilariante: lemos sobre a queda do número de «espetadores» nas salas de cinema, sobre um país chamado «Egito» habitado por egípcios, sobre coisas «cor-de-rosa» e outras «cor de laranja», etc. E ainda há o caso genial das palavras com grafia múltipla: um hipotético curso de «Electrotecnia e Electrónica», por exemplo, passaria a ter 32 formas correctas de ser expresso.

Mais interessante ainda é comparar a nossa imprensa com a brasileira. Por cá escreve-se agora «aceção» e «abjeção», enquanto no Brasil se escreve «acepção» e «abjecção»: a consoante suprimida é muda em Portugal e pronunciada no Brasil. Ou seja, é a própria fonética que não permite a uniformização que se ambiciona alcançar. Em conformidade com este princípio da transcrição fonética, a imposição até podia ir mais longe e imaginar uma ortografia para Cascais e outra para o Porto. Isso é que era giro. Em Cascais, suponhamos, passar-se-ia a escrever «mas que ideia tão piquena», enquanto no Porto se registaria um «absurdo que debia acabar».

Não pretendo enunciar aqui todos os argumentos contra a imposição ortográfica, claro, sobretudo porque tenho tempo limitado de vida, mas também porque eles já andam por aí, na internet e em vários artigos de opinião. O que pretendo é expor o ridículo a que chegou este grupo de legisladores, supostamente preocupado com a unidade da língua, mas que acabou por tomar uma decisão meramente política e económica. A verdade é que não há unidade possível e vai continuar a ser diferente falar e escrever em cada país e até em cada região. Mais que isso, a unidade não é desejável - porque onde o valor de uma língua reside verdadeiramente é na partilha da sua diversidade. Os espanhóis e os ingleses perceberam isso. Nós não.