sábado, 28 de abril de 2012


E Agora Vai Começar a Doer a Sério

A culpa é da bruxa, que dá pelo nome de anjo, diz a maioria: Angela Merkel. Por mim, acredito que devemos evitar a todo o transe, quer no exercício da vida privada, quer na da vida nacional, realizar transferências de culpas. Se nas cosmologias orientais se acredita que, na reencarnação das almas, o «karma» nos faz com que a vida mortal   que hoje temos é o resultado da vida que levamos na nossa encarnação anterior – na minha idéia acredito que não precisamos de entrar no plano metafísico para explicar que a vida que hoje temos é o resultado das asneiras que cometemos há uns anos.

A Srª Merkel terá os defeitos e conterá os perigos que o século XX inteiro nos mostrou que podem advir da Alemanha, mas nem ela nem o seu povo têm culpa do desgoverno endémico do povo português. Já ficou escrito noutro «blog» em que colaborei – mas fica a título de exemplo o Euro 2004, lançado no mandato do Engenheiro Guterres: a UEFA falava na necessidade de 8 estádios para realização da prova, mas admitia a possibilidade de fazer a prova somente em 6. O país, que era rico, resolveu construir 10 estádios. Na altura, até a Madeira e a Covilhã (sic) quiseram participar da festa, e edificar o seu estádio de 30.000 lugares. Se tomarmos em conta que esta última não alcança os 35.000 habitantes, já se fica com uma idéia mais precisa da megalomania do assunto!!!

Em Leiria, o suave e discreto Estádio Municipal, com Castelo em fundo, deu lugar a um monstro da autoria de Tomás Taveira. A ausência de escala do «bicho» e o profundo mau-gosto da sua concepção aterrorizam quem passa ao seu lado, em circulação pela Estrada Nacional nº 1. A brincadeira serviu para encenar somente 2 partidas da prova, na Fase de Grupos respectiva: um Croácia-França e um Suiça-Croácia. Creio que, até hoje, ainda não foi acabado na íntegra, achando-se por terminar um topo do Estádio, que leva o nome de Magalhães Pessoa.

8 anos depois, a realidade apresenta-nos com toda a crueza a factura: a Câmara de Leiria quer alienar o Estádio, que está sem uso. Há uns tempos atrás, até houve uma brilhante idéia de usar o recinto para diversos propósitos, entre os quais o aluguer para realização de casamentos! O clube local deixou de usar o Estádio, cujos custos não queria pagar, e passou a disputar os seus jogos no pequeno campo de desporto da Marinha Grande. Culpas têm-nas todos os agentes que montaram o disparate, desde a autarquia leiriense até ao governo da Nação, passando pela Federação Portuguesa de Futebol. Hoje, já são forçados a encarar a realidade de que se tivessem os cuidados da Srª Merkel, tinham previsto a tempo e desistido da asneira: mas são os políticos que temos.

Como o país, e o seu desporto profissional, andaram anos a viver acima das suas possibilidades, já começam a notar-se os contornos da crise que aí está a bater-lhes à porta: antevê-se a demolição do monstro de Taveira e a falência do clube da cidade, que não paga salários há 5 meses. Na mesma semana em que a equipa de Basquetebol CAB Madeira, apurada para a meia-final (sic) do campeonato nacional da modalidade desistiu da prova, porque não tem dinheiro para custear as deslocações ao Continente, dando passagem administrativa ao Futebol Clube do Porto à final respectiva.

Repete-se: estavam as coisas periclitantes ANTES da crise no desporto profissional – mas agora é que vai começar a doer a sério.

A Maldição de Narciso

Esta semana, os portugueses ouviram da boca de dois dos seus cidadãos mais conhecidos duas mentiras. O político Mário Soares, durante a rábula com o 25 de Abril, afirmou que «o protagonismo é coisa que não lhe interessa». Acrescentou (convencido de que todos nós ignoramos que a necessidade de protagonismo é uma doença incurável) que «protagonismo já o havia tido de sobra no passado» - como se esse néctar de que se alimentam os narcisos não fosse um alimento adictivo. Se não, como explicar a sua candidatura a Presidente da República em 2005, aos 80 anos, lançando a confusão no PS e comprometendo a sua amizade longeva com Manuel Alegre?! Foi castigado duramente no seu desejo de protagonismo pelo sufrágio popular, com 14% dos votos.

De vez em quando, os jornalistas em Portugal arriscam que Mário Soares é um dos poucos personagens consensuais no cenário político português, mas em pontuais inquéritos pessoais, pude verificar que não estou só em discordar deste vaticínio. Nunca consegui simpatizar com o veterano político, do qual miticamente Marcelo Caetano terá dito, enquanto seu professor, que nunca tinha conhecido alguém que falasse tanto e dissesse tão pouco. Acresce que, no que toca à sua vida privada, Soares sempre passou a imagem de um cidadão de hábitos burgueses, e não de um socialista marxista. A título de exemplo, lembremos que conspirou com um grupo de amigos, durante e após um almoço no luxuoso Restaurante Aviz, no Chiado, sem dúvida acompanhado de bons vinhos, melhores cognacs e cubanos charutos (é o que dizem as crónicas dos jornais da época), o princípio do fim dos governos de Cavaco Silva, porque o cenário político estava muito estagnado para os seus interesses, e aqueles dos seus apaniguados. Emprego, com horário das 9 às 5, não consta que tenha tido algum…

O outro famoso é o sadino José Mourinho, que nos procurou convencer que não estava triste por si, mas pelos seus jogadores, quando se viu superado numa eliminatória europeia, por um clubes oriundo do país da Srª Merkel, que fez as coisas do modo que sempre consagrou a Alemanha: com eficácia, energia, coragem e até talento. Mourinho tem uma legião de adeptos, tanto em Portugal como no estrangeiro, que nele admiram essencialmente uma coisa: os resultados. E no mundo pós-moderno em que hoje vivemos, meios e fins confundem-se constantemente, e ética é uma palavra de origem greco-romana que já só faz sentido nos livros da História: ou se apresentam resultados – e nesse caso é-se bom – ou não se apresentam – e é-se mau. Sob esta perspectiva, que não subscrevo, o valor moral de uma pessoa poderia aferir-se a partir do valor do seu salário. E a realidade mostra que, obviamente, a Bondade (no sentido ético-moral) de cada pessoa não se afere de acordo com os seus resultados, caso contrário a Madre Teresa de Calcutá teria morrido com a maior fortuna do Mundo.

Mourinho discordará: de resto, o seu desempenho o demonstra 24 horas por dia. Há quem defenda que o seu comportamento público constitui uma representação, e que ele não é realmente tão mau como parece – mas isso não se me afigura uma desculpa válida, porque um Homem Bom não deve representar aquilo que não é. E já agora, representar por representar, que tente que o mau passe por Bom. Que se considere que o Bom tente passar por pior do que de facto é, e que esta possa ser considerada uma estratégia válida e meritória por muitos, só pode mostrar que vivemos numa sociedade confundida nos seus valores.

A verdade é que para Mourinho, tal como para Soares, o protagonismo é pão-para-a-boca, nem que se obtenha pelos modos menos escrupulosos. Para o treinador, os jogadores são um mero veículo para o alcançar. Soares sempre o fez, e continuará a fazê-lo, nem que isso lhe custe a perda de amigos de juventude – como o já referido Alegre, ou o já falecido Salgado Zenha.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A rir se exportam os produtos

Somos particularmente versados na nobre arte da maledicência. A raiz deste nosso apurado engenho português está nas cantigas de escárnio e maldizer e vive sobretudo da feliz aliança entre o riso e a crítica. O lema é rir muito e sempre e tanto e sobretudo de nós mesmos. A propósito disto, Miguel Esteves Cardoso fala em «Portugalite», uma espécie de inflamação nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. O humor permanece inabalável, mas agora, por influência da crise, começam a aparecer alguns dissidentes que fazem o contrário e exaltam o país por tudo e por nada. Existem dois tipos de correntes de exaltação nacional: ou se incentiva a exportação dos nossos magníficos produtos ou se incentiva o seu consumo em detrimento dos produtos dos outros.

Agora que a malta percebeu que o mercado dos dez milhões não tem mais espaço para crescer, as exportações surgem no vocabulário dos políticos revestidas de uma certa áurea que lhes confere o título de solução mágica para o problema do défice. Eu gosto de lhe chamar o desafio do pastel de nata, mas a coisa não se esgota aí e é preciso exportar tudo, desde a cortiça até à imagem do galo de Barcelos. Depois, no outro polo, está o incentivo ao consumo do que é português, mas só do que é verdadeiramente português porque os que têm praças noutros países são traidores e merecem arder no último e mais impiedoso círculo do inferno.

Num cenário ideal, os dez milhões estariam a produzir para si e para o resto do mundo apenas produtos de origem portuguesa com a percentagem máxima de incorporação do valor nacional. Eu tento ser optimista e acredito que o país tem pernas para andar, mas sou português, gosto de rir e diverte-me a azáfama dos meus compatriotas. É vê-los correr atrás da inovação e do empreendedorismo, doidos com a retórica do pensar fora da caixa, cada um envolvido no seu projecto de exportação e na aposta no produto nacional. É um encanto. Nunca soube tão bem rir dos portugueses. E quem se lixa são os outros: vão ter que importar os nossos produtos quer queiram quer não.

sábado, 14 de abril de 2012

Tanto tempo

Nos confins de Espanha tive a oportunidade de ouvir dois taxistas. Um, da Guiné Conacri, disse-me que dos cerca de 30 compatriotas somente 10 ainda estão em Espanha. Uns foram para a Alemanha porque é onde existe trabalho, outros foram para outras regiões de Espanha mais dinâmicas. Ele, agora taxista, saíra da actividade de construção que praticamente parou.

O outro tem uma mulher que trabalha numa empresa que produzia somente para o mercado de construção de Espanha. Como o mercado de construção parou, começou à procura de novos mercados e agora a empresa produz essencialmente para a Ucrânia e China (não só construção como também para outros sectores). E segundo me disse já tem uma dimensão superior há que tinha quando servia somente o mercado interno.
As pessoas e os empresários apontam baterias para onde pode vir retorno. Claro que é mais fácil trabalhar e vender dentro do burgo. Mas se o sinal recebido é que isso deixou de dar, então é da mais elementar lógica que se procure vender além-fronteiras. E só isso vale mais do que centenas de medidas e esquemas de apoio à exportação. Os mercados para onde os empresários e as pessoas do sector privado despendem o seu tempo e as suas energias é que marcam a direcção de uma economia. Todos agora sabem que é maioritariamente nos mercados externos que se consegue manter ou ampliar os negócios.
Extraordinário como Portugal só entendeu isso após a intervenção da Troika decorrente do evidente suicídio orçamental iniciado em 1986. Caramba, demorou tanto tempo a perceber que se andava mal. Nem a crise financeira internacional de 2007 a 2010 serviu para abrir os nossos olhos.

domingo, 8 de abril de 2012

Não os assustemos

Aqui há umas semanas foi publicada uma notícia de que os Alemães andam a evitar passar férias na Grécia com receio de sofrerem com a animosidade dos Gregos. Como se sabe e se vê os Gregos andam com muito sangue na guelra. Independentemente das suas razões para as revoltas de rua, e olhando objectivamente para o fenómeno e suas consequências, não é bom para quem vive em grande parte do turismo ter comportamentos que assustem os turístas, nomeadamente num cenário de extremo sobre endividamento.
Espero que os Portugueses não sigam o exemplo Grego e que tornem a fatal caminhada de ajustamento o mais suave possível. A prazo isso poderá inclusivamente dar brinde por merecer a simpatia do povo Alemão ao nível da sua atitude. Será expectável que muitos decidam passar férias em Portugal se isso servir para ajudar quem se anda a portar bem no difícil momento do ajustamento. Há simplesmente que não os assustar e ter um sorriso na cara.
E para ajudar que eles cá venham, despachemo-nos com a fórmula do Portela+1 de modo a precipitar o aumento de turístas rapidamente, sejam eles de que nacionalidade forem. Precisamos da Ryanair e outras companhias low cost em Lisboa o quanto antes.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Novos emigrantes


Portugal tem sido assolado nos últimos por uma nova vaga de emigração, tendo o fenómeno acelerado nos últimos dois anos. Muitos deles pertencem ao que se convencionou chamar “cérebros”, pessoas com elevada educação formal e que não encontram na nossa economia saída profissional, seja por inexistência de vagas nas organizações, seja pela miséria de ordenados. Este facto tem assustado diversas sensibilidades da nossa sociedade, como se o país ficasse melhor se todas esses cérebros ficassem cá no burgo. Evidentemente, e nas actuais circunstâncias, a saída de todos esses cérebros é muito positiva para Portugal. O facto resolve imensos problemas. Os deles e os nossos. Os deles porque nada pior que se estar inactivo e sem nenhuma ou reduzida remuneração. E os nossos porque menores serão os encargos de quem os sustenta, sejam os pais ou a sociedade. E se contarmos com o longo prazo, exercício mental de que não gostamos, ainda nos mitiga o problema do suicídio demográfico em curso, pois o pessoal cerebral é muito sensível ao zeros da conta bancária para efeitos de procriação. E sabendo-se que muitos destes emigrantes voltam, é sempre bom saber que trazem com eles mais gente para nos pagar as reformas no futuro.

Mas dedicando-me ao curto prazo de modo a manter-me o mais lusitano possível, estes novos emigrantes têm o condão de enviar remessas para Portugal. Remessas é coisa do passado, muito dos anos 50, 60 e 70 quando isso ajudava ao nosso equilíbrio macroeconómico, e que entretanto caiu fora de moda. Mas agora vai ganhando aos poucos o seu espaço na macroeconomia. E como sabemos, precisamos de muitas pequenas coisinhas a jogarem a favor para retomar equilíbrios macroeconómicos básicos que descurámos.

Dir-se-á “ha, mas que pena essa gente toda não andar a produzir em Portugal”. Não posso estar mais de acordo. Mas só acho pena que não se tenha pensado no assunto quando resolvemos nacionalizar a economia em 1975 e com isso desmontado o esboço do que seriam grandes grupos económicos devidamente capitalizados, condição indispensável para possuir massa crítica na economia que retenha cérebros em número apreciável. Ou ainda que nos tenhamos entretido desde o início dos anos 90 a montar a nossa economia voltada para o consumo interno e importações (ainda por cima à conta do endividamento externo). Como agora descobrimos este tipo de economia não produz tantos trabalhos assim para o pessoal cerebral. Ou se produz, os mesmos esgotam-se rapidamente quando a economia tem que se equilibrar macroeconomicamente.

A emigração é, por norma, um sintoma de disfunções da economia pelo facto de a mesma ter andado por maus caminhos. É totalmente inconsequente revoltarmo-nos contra os sintomas. O mais que temos que fazer é perceber que temos que colocar a economia a andar por bons caminhos e então nessa altura os cérebros não fugirão tanto.

domingo, 1 de abril de 2012

Arnhem 2

Quando vivi na Holanda perto da zona de Nijmegen e Roermond tive a oportunidade de visitar muitas outras cidades circundantes. Mas por uma qualquer razão misteriosa acabei por nunca visitar Arnhem, ainda que vários Holandeses a sugerissem pelo seu significado histórico. E de cada vez que mudava de comboio em Arnhem vindo de Amsterdão comentava sempre que ainda não conhecia esta cidade, tendo então a sensação que a mesma estivesse sempre longe demais quando geograficamente estava a umas escassas dezenas de quilómetros.

Durante a 2ª Guerra Mundial Arnhem teve um protagonismo muito importante aquando da ofensiva Aliada de 1944. Ditava a estratégia militar da altura que após o desembarque da Normandia a ponte de Arnhem era um objectivo muito importante para o avanço das tropas sobre a Alemanha Nazi. Parte da acção ao assalto a Arnhem passava pelo lançamento de para-quedistas. Infelizmente, a realidade veio provar que o local onde os para-quedistas caíram foi longe demais da ponte, facto imortalizado pelo filme de 1977 com o nome “Uma ponte longe de mais”. Especula-se que este facto poderá ter atrasado o final da guerra por um par de meses.

Talvez por uma coincidência, ou talvez não, Arnhem talvez pareça estar sempre longe de mais, não só fisicamente, mas também na ideia. Passo a explicar. Para meu espanto, e de todo o grupo com que me encontrava, deparámo-nos com um invulgar sinal de trânsito num parqueamento automóvel defronte de um hotel que dizia “Woman only”. De imediato procurávamos conjuntamente explicações que terão conduzido a tão curiosa sinalética. Vozes mais sensíveis avançavam que deveriam ser espaços para grávidas, mas a ausência de uma figura feminina de barriga saliente em nada corroborava a ideia. Outros, mais maliciosos, mediam o espaço reservado às senhoras na secreta esperança que o mesmo fosse mais largo que o reservado a todos os outros automobilistas, mensurações que acabaram por não suportar o pérfido raciocínio. Outros ainda opinavam que a Holanda na sua fúria de estar um passo à frente respeitante aos melhores standards civilizacionais encontrava neste meio uma forma superior de manifestar a sua atitude de alta deferência face ao género.

Por exclusão de partes, e por falta de imaginação que o adiantar da hora explicava, acabou o grupo por se refugiar nesta última possibilidade, havendo também concordância geral que Arnhem fosse longe demais. Tal e qual como em 1944 e quando por lá vivi.

Arnhem 1




Durante a presente semana tive a oportunidade de revisitar a Holanda. Arnhem, que se me apresentou sempre longe de mais quando por lá vivi, surpreendeu-me por ser uma terra algo acidentada para os padrões dos Países Baixos. Automaticamente questionei-me se ainda assim os holandeses teriam a coragem de se fazer à estrada de bicicleta fazendo valer a sua cultura ciclista aos inconvenientes declives da zona. E à vista posso afirmar que a cultura ganhou à geografia. De miúdos a graúdos todos iam dando ao pedal, e embora algo carrancudos na subida, compensavam na descida com belos sorrisos. Arnhem provou-me assim que, ainda que um ou outro monte se atravesse pela frente, é sempre possível dobrar a nossa natural lassidão e indolência às virtudes do transporte de bicicleta.

Mas Arnhem reserva-nos outras surpresas. Para além do exemplo destemido de como se enfrenta um monte com uma vulgar bicicleta, em Arnhem é possível ainda testemunhar que existem camelos e dromedários na Holanda. Confesso que o impacto é forte já que camelos e a cor verde dos prados com o Reno por detrás não é aquela combinação que trazemos gravada na memória. Após uns segundos de incredulidade perante tão improvável cenário restou-me concluir que aquele dia em Arnhem não foi em vão. Provou-se ser possível combinar o uso da bicicleta com terrenos um pouco mais acidentados, e que é ainda possível encontrar camelos na Europa. Arnhem afigura-se assim como um óptimo local de destino para uma comitiva de autarcas para se inspirarem na possíbilidade de repensar a locomoção do ser humano através da bicicleta numa urbe um pouco mais acidentada, e simultaneamente ver o animal que não quereremos ser se não cumprirmos adequadamente a nossa missão.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Vozes que se ouvem

Durante muito tempo questionei-me sobre o motivo de muitas vozes se ouvirem mais do que outras. Ao nível do empresariado, todos aqueles que representavam consumo, despesa, construção e banca eram muito ouvidos. Os outros, nomeadamente os empresários exportadores, nunca eram chamados aos microfones. Também os académicos e economistas não íam sendo muito consultados, e por isso um determinado tipo de “pensamento dominante” ia comandando o destino de Portugal. Quando lia J.K.Galbraith lembro-me bem de o autor falar com frequência sobre como o “pensamento dominante” se sobrepunha à razão, sugerindo mesmo que esse pensamento afinal não era bem pensamento, sendo mais um movimento de pessoas de diferentes sectores da sociedade que partilhavam interesses comuns e que tinham os seus mecanismos próprios de os fazer valer. Tinha para mim de que isso talvez mais não fosse do que um desabafo de académico incompreendido.

A vivência recente do que se passou em Portugal ofereceu-me uma melhor percepção do provável estado de espírito do Sr. Galbraith. Passei a entender melhor o que era o “pensamento dominante”. De facto mais um movimento que pensamento. Aqui há uns poucos anos (talvez uns 5 ou 6 anos), alguns empresários de sucesso foram entrevistados na televisão com o intuito de falarem sobre Portugal. Um dos eleitos era um grande importador de automóveis. Não tinha memória de ler entrevista sua em jornais ou revistas, pelo que provavelmente o seu vasto e valoroso pensamento teria agora uma extraordinária oportunidade de se revelar, sendo então oferecido aos Portugueses uma extraordinária oportunidade de saborear alguns elementos de como construir fortuna. Paralelamente, o mesmo empresário vinha qualificado de pertencer a uma família com vasta linhagem, dando assim à entrevista aquela sedução mista de descobrir como fazer dinheiro em paralelo com a partilha de saberes de quem experimenta convivências em existências superiores.

Tal não é o meu espanto, e seguramente o da maioria dos Portugueses, que mesmo espremendo ao máximo todas as palavras e ideias da personagem muito pouco se ia aproveitando. E a entrevista seguia morna. Às escassas ideias do entrevistado permitia-se uma reverente deferência pela quantidade aristocrática em exposição e pelos elevados resultados líquidos da conta de exploração dos seus empreendimentos. E a evidente falta de rasgo ia sendo compensada pela sua jovialidade e boa aparência. O mais que se conseguia da entrevista era um “eu acredito em Portugal e na capacidade dos Portugueses”. Nada mais. Não será errado afirmar que se esperava um pouco mais, embora de modo nenhum se viu a personagem reduzida nas suas qualidades empresariais, suportadas, aliás, pela inequívoca objectividade dos seus impressionantes resultados financeiros.

Contudo, o problema não residia no entrevistado e nas suas capacidades de conceber Portugal. O que seguramente lhe sobrava em capacidade de empreendedorismo e sagacidade ia-lhe faltando excessivamente para os objectivos da entrevista. A questão é que se quis ouvir muito de quem se calhar não tinha tanto para dizer. Aqui há pouco tempo o Sr. Krugman veio relembrar que o empresariado não é lá muito bom conselheiro económico. O mais que conseguem extrapolar da sua actividade para a economia é que a confiança é boa para os negócios e para a economia. Ora não é preciso ser-se empresário para entender esta verdade universal. E em tom de puro gozo o Sr. Krugman ainda relembrou que muito escapa ao empresariado em termos de noções de economia, a começar pela “armadilha da liquidez”.

Como todos agora sabemos o problema actual de Portugal reside num profundo desiquilíbrio macroeconómico que se começou a construir em 1985. Sem o saber bem, o elevado sucesso daquele empresário contribui parcelarmente para o problema que nos aflige. Contribuição conjunta com os senhores da banca que alardeavam toda a sua auréola de sucesso à custa de um crédito desenfreado para aquisição de casa e carros. E ao duo não faltava o poder político que seguia todo contente com o movimento em vigor, sabendo de antemão que tudo o que fosse chamar à atenção à barbaridade em curso não dava votos. Assim, o “pensamento dominante” não teve voz contrária que fosse ouvida. Infelizmente.

Agora, felizmente, vamos ouvindo pensamento. A ocasião a isso nos obriga. E felizmente o mesmo não é dominante, pois não existem pessoas de diferentes sectores da sociedade a puxarem para um mesmo lado, ainda que involuntariamente. Ouvem-se agora mais economistas e outros pensadores livres, pessoas que estão, genericamente, em muito melhor posição para emitir opinião sobre a sociedade que muitos dos empresários, políticos, ou sindicalistas.

sábado, 17 de março de 2012

Os pobres do turismo

Ouvia-se bem o movimento cansado dos maxilares com que as crianças moíam as batatas fritas de pacote na boca. As mães, distraídas com as crianças, puxavam-nas pelo braço sem razão aparente e os pais aproveitavam para passar olhares delambidos por algumas capas de revista onde mulheres seminuas e famosas se expunham ao lado de veículos motorizados. De vez em quando, atravessavam-se também homens suados em tronco nu e mulheres gordas em bikini sem que ninguém parecesse sequer incomodado com a situação. Estavam quase quarenta graus de verão e era normal as pessoas passearem-se assim. Sobretudo numa bomba de gasolina como aquela, tão perto da praia, onde cada família aproveitava para fazer as últimas compras para o farnel diário. Com efeito, até os filhos mais velhos contribuíam com algumas moedas para adquirir atum em lata, papos-secos, jornais desportivos, tudo o que fosse essencial para o resto do dia. O arraial, depois, prosseguia em direcção à praia, com toda a família equipada com óculos escuros de imitação, toalha ao ombro e chinelo no pé. Pelo caminho, o cheiro do peixe frito saído das tascas confundia-se com o cheiro das batatas de pacote, demasiado amolecidas já pelo sol para serem comidas e portanto deixadas ali no chão para gáudio dos cães vadios. No areal, por fim, com metro e meio de espaço por pessoa, celebrava-se então o triunfo de mais um dia de férias aproveitado ao máximo de barriga para o ar.

Estava-se no Algarve e as praias dos ricos podiam avistar-se alguns quilómetros ao lado. Mas não havia misturas. Nem sequer problemas. A ausência de estratégia dos planeadores turísticos permitia espaço para todos. Sobretudo para os pobres, uma vez que num prédio construído à beira-mar cabiam muito mais pessoas do que nas casas de luxo dos ricos. E desse modo os pobres iam dando a cada verão o seu inestimável contributo para o sector do turismo. Ninguém parecia lembrar-se que para se exportar nem sempre é preciso sair do mesmo lugar. Ninguém parecia interessado em trazer os ricos dos outros países. E isso era excelente para os pobres da nação, que podiam assim continuar a fazer vida de pobre, protegidos pelo estado e sem que ninguém os chateasse.