segunda-feira, 21 de maio de 2012

Importam-se de deixar os outros fazer o seu trabalho?

A questão do Euro não é tão complicada quanto isso ao nível da decisão política. Existe um clube, existem regras, existem compromissos, existem programas acordados entre todos, existem deveres e direitos, e já agora existem vontades efectivas (não daquelas para Inglês ver). Está bom de ver que o povo Grego não percebeu bem que está num clube onde não se pode nem se deve brincar. E o que o povo Grego anda a fazer é precisamente brincar com os outros membros do clube. Pessoalmente não me move nada contra o povo Grego, e inclusivamente respeito a sua revolta, não por concordar com a mesma, mas por ela me fornecer indícios claros de que o lugar da Grécia é fora da zona Euro. E isso deve ser respeitado enquanto um possível figurino, o que, em rigor, é a melhor opção para todos.
A distância entre a vontade e a vontade efectiva pode ser enorme. Claro que os Gregos querem estar na zona Euro quando somente os direitos concorrem para a formulação da opinião. Quando atentamos para a vontade efectiva, então os deveres saltam para a balança, e consequentemente a porca começa a torcer o rabo. Nesta fase, e após alguns anos a serrar presunto, chegou o momento de avaliar o assunto pela bitola da vontade efectiva. Chegado a este ponto, ainda podemos esbarrar com o facto de os Gregos inverterem de um momento para o outro essa mesma vontade efectiva. Resta então passar o teste da possibilidade técnica.

Considero que no ponto onde nos encontramos os Gregos não têm vontade efectiva, coisa que as eleições de 17 de Junho irão validar devidamente. Daí já nem se colocar a questão da possibilidade técnica. Consequentemente trata-se agora de preparar a saída da Grécia da Zona Euro e ao mesmo tempo acautelar que essa mesma saída não prejudique aqueles países onde as duas vontades invocadas andam de braço dado. E que os distúrbios financeiros esperados não impactem em demasia nas suas possibilidades técnicas.
Por isso sugiro aos Gregos que pensem um bocadinho nos outros, e que por respeito a esses outros membros do clube não prejudiquem os outros trabalhos existentes no clube e que estão em curso. O centro do mundo não é a Grécia, nem nenhum País merece mais do que aquilo a que deixa de estar disposto a fazer. Por isso, e como Português, exijo que o meu país e os responsáveis políticos legitimamente eleitos que assinaram os acordos com a Troika tenham a possibilidade de levar por diante a execução dos seus compromissos cuja prossecução são, obviamente, do interesse de todos os membros do clube.
Por isso direi que num breve prazo há que tomar decisões muito importantes e aclarar com que cenários trabalharemos no futuro. Até para que os azimutes do pessoal internacional consigam estar mais afinados e permitam melhor perceber que nesta Europa há países com ideias muito diferentes sobre como pertencer a clubes.
Tudo o mais respeita a questões técnicas de como executar o change over. Embora do domínio técnico, o facto não é de menor importância. É do senso comum e dos ensinamentos históricos, que o devido controlo dos mecanismos de feedback e precipitação de acontecimentos, cuja velocidade é perniciosamente sempre mais rápida do que os antídotos, deve ser assegurado. E aí os políticos membros do clube têm que estar muitíssimo bem sintonizados e superiormente assessorados tecnicamente. È que, acaso não se saiba, e para os mais distraídos, que já não os há para além da esquerda irresponsável e nos desmiolados que ainda por cá existem, a finança é um brinquedo muito perigoso.

sábado, 19 de maio de 2012

Como fixar e trazer pessoas para Portugal

Como já por diversas vezes comentei, o suicídio demográfico em curso é o maior desafio que Portugal tem pela frente. O enorme aumento da emigração, que os números do 1º trimestre revelaram ser muito superior ao expectável não é um fenómeno que ajude a inverter o suicídio demográfico, pelo contrário. Impedir os Portugueses de emigrar, além de não ser legalmente e politicamente possível, não resolve o problema de fundo. O problema reside na falta de esperança, que mais não é do que o resultado de falta de ofertas de trabalho atractivas quando comparadas com o potencial de produtividade individual.

Não é expectável que a economia nos próximos 15 a 20 anos seja capaz de proporcionar remunerações que desmotivem o fenómeno da emigração. No entanto, a política pode tomar medidas claras para reter as pessoas. Baixando dramaticamente os escalões de IRS para rendimentos até 10.000 euros / mês para qualquer coisa como 10% a 15% de taxa fixa, e eliminando o IRS para rendimentos até 750 euros /mês, Portugal iria potenciar bastante a sua capacidade de atrair investimento estrangeiro e com isso reter parte da população activa. E muito provavelmente ainda iria atrair muito trabalhador do conhecimento a fixar residência em Portugal, desde que, evidentemente, tenha aeroportos por perto.
Mas acima de tudo Portugal passaria um sinal muito importante à sociedade: de que estudar e trabalhar bem é compensador. Este é, porventura, o melhor tónico de que precisamos em Portugal se queremos resolver o nosso drama demográfico.
Claro que isto teria de ser negociado com a Troika, o que talvez nem seja muito difícil, nomeadamente depois de assistirmos à tragédia Grega que segue dentro de pouco tempo. Mas antes da negociação com a Troika há que ter clarividência no pessoal governativo. E nisso o passado não me deixa nada optimista.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O legado da nossa miséria


Não deve haver mais do que trezentas pessoas interessadas na produção de Ricardo Rocha. O fado, inserido no contexto musical, já não está sequer imunizado contra as tentativas de exploração mercantilista. Mas a guitarra portuguesa continua a ser um palco pequeno. Tocar em público é escusado e inútil. As tascas tradicionais são a forma de resistência possível, mas até aí a composição para guitarra portuguesa está condicionada aos seus limites. É um instrumento sem futuro que nunca se vai conseguir libertar do fado. Ricardo Rocha conseguiu, ainda assim, levar a guitarra portuguesa a outro nível e criou um reportório solista para um instrumento que não tinha esse reportório. Antes dele, só o Carlos Paredes e o Pedro Caldeira Cabral. Agora não é possível ir mais longe, já não há nada para compor, a guitarra existe para acompanhar a música tradicional portuguesa, desempenha um papel fundamental nesse sentido, mas não vale a pensa pensar que o instrumento alguma vez vai ser mais do que aquilo que é.

No meio disto tudo, Ricardo Rocha começou a tocar piano aos dezasseis anos e tem algumas peças para piano nos seus cds. É o seu instrumento preferido, pelo som e pelas capacidades quase ilimitadas de composição, mas diz que começou a tocar tarde demais e que não é pianista. Assim, o que me interessa nesta história está na tensão entre estes dois instrumentos: a guitarra portuguesa, que é um instrumento limitadíssimo, fisicamente difícil de tocar, doloroso, agudo, e o piano, que é um prazer com as suas possibilidades quase infinitas de composição. E Ricardo Rocha podia ter sido pianista, mas pegou na guitarra do avô quando ainda mal sabia andar e nasceu assim preso aos limites do seu próprio passado. A condição trágica, afinal, de qualquer português. E tudo isto é triste, tudo isto é fado.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Para quando esta série televisiva

Aqui há uns anos após a leitura da biografia de António Champalimaud, uma autêntica vertigem de acção cheia de condimentos, ocorreu-me se não seria natural um grande realizador pegar na personagem e produzir uma série televisiva. Todos os ingredientes para um sucesso tremendo estão lá. Temos heranças, zangas eternas entre irmãos em tribunal, um capitão de indústrias que começa com uma pequena cimenteira na região de Leiria, uma personalidade completamente fora do baralho no Portugal de Salazar, um casamento com uma mulher também muito rica e irmã dos concorrentes no sector bancário e outros sectores, um exílio no México de onde geria os negócios à distância no início dos anos 70 (ao que parece com uma saída de Portugal num avião particular pilotado pelo próprio), expropriações de tudo o que tinha em Portugal e metrópoles após a revolução de 25 de Abril, reconstrucção da fortuna no Brasil, retorno a Portugal onde compra um banco com 50 milhões de euros, inicia umas operações financeiras que lhe permitem ter o controlo de mais um banco e uma seguradora, tem um filho à frente para proceder à fusão dos bancos mas acaba por fazer uma operação de troca desses mesmos bancos e seguradora por uma participação de cerca de 4,5% de um dos maiores bancos europeus sem o conhecimento do filho. De caminho morrem ainda dois filhos, um de acidente automóvel, e outro assassinado com contornos hediondos.

E curioso, após a morte, deixa em testamento algo insólito em Portugal. Uma doacção que penso avaliada em 500 milhões de euros para o lançamento de uma fundação ligada à medicina (seu pai fora médico). E diz que quer uma determinada pessoa à frente dessa fundação, pessoa essa que nunca viu e que segundo a própria só falou com o senhor duas vezes na vida através do telefone. E acaba esta instituição agora como sendo qualificada um dos melhores lugares para trabalhar no mundo a acreditar por notícias recentes.
E se dúvidas ainda há sobre a personagem, e para os mais sensíveis às questões de imagem, vejam lá as suas fotografias no Google e digam se não vestia lindamente de figura central numa série televisiva?

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Ridículo e miséria da servidão voluntária


Não é só o medo. Como La Boétie explica no Discurso da Servidão Voluntária, as populações assumem a coerção e tirania dos mais poderosos também por consentimento próprio. É de forma voluntária que a multidão dirige os seus esforços absurdos à prisão imposta pelo consumismo desenfreado, desfilando desvairadamente pelos corredores de supermercados e atropelando-se em busca do aproveitamento mercantilista de promoções engendradas por departamentos de marketing absolutamente mirabolantes. A malta tem que pôr comida na mesa, percebe-se, mas pelos vistos também precisa de carrinhos cheios de cosméticos, refrigerantes e iogurtes maricas com pedacinhos de fruta cortada. De facto, com o progresso do sistema capitalista, das necessidades primárias passou-se também à produção e ao consumo de um catálogo sem fim de superficialidades. Desse modo, a campanha do Pingo Doce apoia-se no desespero do país para levar a população a consumir a preço de saldo produtos supérfluos que de outro modo não consumiria tão facilmente, tirando ao mesmo tempo partido da situação de forma a criar uma onda de euforia e publicidade à sua volta. E sabe bem pagar tão pouco.

O consumidor não tem dignidade em condições destas e é a própria ânsia pelo consumo que dita a lei. Perante isto, a única postura inteligente é a da contemplação, com humor, do ridículo da ocorrência, reparando na forma gregária como as pessoas se voluntariam para a desordem e para a anarquia como se o mundo fosse acabar. Podia ser o cenário de um livro de Albert Cossery. E assim sendo é absurdo criticar o Pingo Doce, as leis do consumo ou o desvirtuamento do feriado. A violência é inócua, não nos resta outra alternativa senão o escárnio. E por isso temos que rir, sobretudo, mas também perceber que é triste ver esta gente comprar a felicidade num supermercado.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Os sinais continuam

Os juros implícitos no mercado secundário da dívida de Portugal têm baixado desde há duas semanas. Este é o melhor sinal de que no exterior Portugal começa a ser visto como um país que agora tem mais probabilidades de ultrapassar as dificuldades que enfrenta, que são, já agora, assegurar a sua solvabilidade e sobrevivência na zona Euro. Estamos claramente a seguir uma rota a caminho de excedentes ao invés de termos o até agora objectivo patético de défices aceitáveis!!!

Pouco se deu atenção ao facto do decréscimo dos juros, mas daqui a uns tempos este será invocado como o verdadeiro ponto de inflexão ao nível da percepção internacional. Isto porque a realidade já brindara os mais atentos do burgo com aumentos significativos de exportações e decréscimos significativos de importações. Agora falta cumprir com as medidas estruturais (lei das rendas, trabalho, tratar da justiça, etc) e na redução da despesa pública. Estas componentes demoram por natureza mais tempo e os seus resultados demoram a aparecer. Mas quando tudo vai na direcção certa os sinais resultantes do efeito combinado far-se-ão notar com mais intensidade.

Segundo notícias vindas a público a animosidade dos Gregos para com os Alemães acentua-se cada vez mais. Espero que os Portugueses não enveredem pelo mesmo caminho. Tratemo-los bem e lembremo-nos de os bem receber por cá. Se o fizermos teremos cedo ou tarde publicidade grátis por terras germânicas e colheremos o benefício da generosidade de quem nos quererá ajudar, por um mecanismo de oposição em relação aos Gregos, brindando-nos com a sua visita. Isto parece um fenómeno menor mas daqui a um ano a coisa será falada internacionalmente aos quatro ventos. E veremos então que o assunto é muito relevante.

sábado, 28 de abril de 2012


E Agora Vai Começar a Doer a Sério

A culpa é da bruxa, que dá pelo nome de anjo, diz a maioria: Angela Merkel. Por mim, acredito que devemos evitar a todo o transe, quer no exercício da vida privada, quer na da vida nacional, realizar transferências de culpas. Se nas cosmologias orientais se acredita que, na reencarnação das almas, o «karma» nos faz com que a vida mortal   que hoje temos é o resultado da vida que levamos na nossa encarnação anterior – na minha idéia acredito que não precisamos de entrar no plano metafísico para explicar que a vida que hoje temos é o resultado das asneiras que cometemos há uns anos.

A Srª Merkel terá os defeitos e conterá os perigos que o século XX inteiro nos mostrou que podem advir da Alemanha, mas nem ela nem o seu povo têm culpa do desgoverno endémico do povo português. Já ficou escrito noutro «blog» em que colaborei – mas fica a título de exemplo o Euro 2004, lançado no mandato do Engenheiro Guterres: a UEFA falava na necessidade de 8 estádios para realização da prova, mas admitia a possibilidade de fazer a prova somente em 6. O país, que era rico, resolveu construir 10 estádios. Na altura, até a Madeira e a Covilhã (sic) quiseram participar da festa, e edificar o seu estádio de 30.000 lugares. Se tomarmos em conta que esta última não alcança os 35.000 habitantes, já se fica com uma idéia mais precisa da megalomania do assunto!!!

Em Leiria, o suave e discreto Estádio Municipal, com Castelo em fundo, deu lugar a um monstro da autoria de Tomás Taveira. A ausência de escala do «bicho» e o profundo mau-gosto da sua concepção aterrorizam quem passa ao seu lado, em circulação pela Estrada Nacional nº 1. A brincadeira serviu para encenar somente 2 partidas da prova, na Fase de Grupos respectiva: um Croácia-França e um Suiça-Croácia. Creio que, até hoje, ainda não foi acabado na íntegra, achando-se por terminar um topo do Estádio, que leva o nome de Magalhães Pessoa.

8 anos depois, a realidade apresenta-nos com toda a crueza a factura: a Câmara de Leiria quer alienar o Estádio, que está sem uso. Há uns tempos atrás, até houve uma brilhante idéia de usar o recinto para diversos propósitos, entre os quais o aluguer para realização de casamentos! O clube local deixou de usar o Estádio, cujos custos não queria pagar, e passou a disputar os seus jogos no pequeno campo de desporto da Marinha Grande. Culpas têm-nas todos os agentes que montaram o disparate, desde a autarquia leiriense até ao governo da Nação, passando pela Federação Portuguesa de Futebol. Hoje, já são forçados a encarar a realidade de que se tivessem os cuidados da Srª Merkel, tinham previsto a tempo e desistido da asneira: mas são os políticos que temos.

Como o país, e o seu desporto profissional, andaram anos a viver acima das suas possibilidades, já começam a notar-se os contornos da crise que aí está a bater-lhes à porta: antevê-se a demolição do monstro de Taveira e a falência do clube da cidade, que não paga salários há 5 meses. Na mesma semana em que a equipa de Basquetebol CAB Madeira, apurada para a meia-final (sic) do campeonato nacional da modalidade desistiu da prova, porque não tem dinheiro para custear as deslocações ao Continente, dando passagem administrativa ao Futebol Clube do Porto à final respectiva.

Repete-se: estavam as coisas periclitantes ANTES da crise no desporto profissional – mas agora é que vai começar a doer a sério.

A Maldição de Narciso

Esta semana, os portugueses ouviram da boca de dois dos seus cidadãos mais conhecidos duas mentiras. O político Mário Soares, durante a rábula com o 25 de Abril, afirmou que «o protagonismo é coisa que não lhe interessa». Acrescentou (convencido de que todos nós ignoramos que a necessidade de protagonismo é uma doença incurável) que «protagonismo já o havia tido de sobra no passado» - como se esse néctar de que se alimentam os narcisos não fosse um alimento adictivo. Se não, como explicar a sua candidatura a Presidente da República em 2005, aos 80 anos, lançando a confusão no PS e comprometendo a sua amizade longeva com Manuel Alegre?! Foi castigado duramente no seu desejo de protagonismo pelo sufrágio popular, com 14% dos votos.

De vez em quando, os jornalistas em Portugal arriscam que Mário Soares é um dos poucos personagens consensuais no cenário político português, mas em pontuais inquéritos pessoais, pude verificar que não estou só em discordar deste vaticínio. Nunca consegui simpatizar com o veterano político, do qual miticamente Marcelo Caetano terá dito, enquanto seu professor, que nunca tinha conhecido alguém que falasse tanto e dissesse tão pouco. Acresce que, no que toca à sua vida privada, Soares sempre passou a imagem de um cidadão de hábitos burgueses, e não de um socialista marxista. A título de exemplo, lembremos que conspirou com um grupo de amigos, durante e após um almoço no luxuoso Restaurante Aviz, no Chiado, sem dúvida acompanhado de bons vinhos, melhores cognacs e cubanos charutos (é o que dizem as crónicas dos jornais da época), o princípio do fim dos governos de Cavaco Silva, porque o cenário político estava muito estagnado para os seus interesses, e aqueles dos seus apaniguados. Emprego, com horário das 9 às 5, não consta que tenha tido algum…

O outro famoso é o sadino José Mourinho, que nos procurou convencer que não estava triste por si, mas pelos seus jogadores, quando se viu superado numa eliminatória europeia, por um clubes oriundo do país da Srª Merkel, que fez as coisas do modo que sempre consagrou a Alemanha: com eficácia, energia, coragem e até talento. Mourinho tem uma legião de adeptos, tanto em Portugal como no estrangeiro, que nele admiram essencialmente uma coisa: os resultados. E no mundo pós-moderno em que hoje vivemos, meios e fins confundem-se constantemente, e ética é uma palavra de origem greco-romana que já só faz sentido nos livros da História: ou se apresentam resultados – e nesse caso é-se bom – ou não se apresentam – e é-se mau. Sob esta perspectiva, que não subscrevo, o valor moral de uma pessoa poderia aferir-se a partir do valor do seu salário. E a realidade mostra que, obviamente, a Bondade (no sentido ético-moral) de cada pessoa não se afere de acordo com os seus resultados, caso contrário a Madre Teresa de Calcutá teria morrido com a maior fortuna do Mundo.

Mourinho discordará: de resto, o seu desempenho o demonstra 24 horas por dia. Há quem defenda que o seu comportamento público constitui uma representação, e que ele não é realmente tão mau como parece – mas isso não se me afigura uma desculpa válida, porque um Homem Bom não deve representar aquilo que não é. E já agora, representar por representar, que tente que o mau passe por Bom. Que se considere que o Bom tente passar por pior do que de facto é, e que esta possa ser considerada uma estratégia válida e meritória por muitos, só pode mostrar que vivemos numa sociedade confundida nos seus valores.

A verdade é que para Mourinho, tal como para Soares, o protagonismo é pão-para-a-boca, nem que se obtenha pelos modos menos escrupulosos. Para o treinador, os jogadores são um mero veículo para o alcançar. Soares sempre o fez, e continuará a fazê-lo, nem que isso lhe custe a perda de amigos de juventude – como o já referido Alegre, ou o já falecido Salgado Zenha.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A rir se exportam os produtos

Somos particularmente versados na nobre arte da maledicência. A raiz deste nosso apurado engenho português está nas cantigas de escárnio e maldizer e vive sobretudo da feliz aliança entre o riso e a crítica. O lema é rir muito e sempre e tanto e sobretudo de nós mesmos. A propósito disto, Miguel Esteves Cardoso fala em «Portugalite», uma espécie de inflamação nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. O humor permanece inabalável, mas agora, por influência da crise, começam a aparecer alguns dissidentes que fazem o contrário e exaltam o país por tudo e por nada. Existem dois tipos de correntes de exaltação nacional: ou se incentiva a exportação dos nossos magníficos produtos ou se incentiva o seu consumo em detrimento dos produtos dos outros.

Agora que a malta percebeu que o mercado dos dez milhões não tem mais espaço para crescer, as exportações surgem no vocabulário dos políticos revestidas de uma certa áurea que lhes confere o título de solução mágica para o problema do défice. Eu gosto de lhe chamar o desafio do pastel de nata, mas a coisa não se esgota aí e é preciso exportar tudo, desde a cortiça até à imagem do galo de Barcelos. Depois, no outro polo, está o incentivo ao consumo do que é português, mas só do que é verdadeiramente português porque os que têm praças noutros países são traidores e merecem arder no último e mais impiedoso círculo do inferno.

Num cenário ideal, os dez milhões estariam a produzir para si e para o resto do mundo apenas produtos de origem portuguesa com a percentagem máxima de incorporação do valor nacional. Eu tento ser optimista e acredito que o país tem pernas para andar, mas sou português, gosto de rir e diverte-me a azáfama dos meus compatriotas. É vê-los correr atrás da inovação e do empreendedorismo, doidos com a retórica do pensar fora da caixa, cada um envolvido no seu projecto de exportação e na aposta no produto nacional. É um encanto. Nunca soube tão bem rir dos portugueses. E quem se lixa são os outros: vão ter que importar os nossos produtos quer queiram quer não.

sábado, 14 de abril de 2012

Tanto tempo

Nos confins de Espanha tive a oportunidade de ouvir dois taxistas. Um, da Guiné Conacri, disse-me que dos cerca de 30 compatriotas somente 10 ainda estão em Espanha. Uns foram para a Alemanha porque é onde existe trabalho, outros foram para outras regiões de Espanha mais dinâmicas. Ele, agora taxista, saíra da actividade de construção que praticamente parou.

O outro tem uma mulher que trabalha numa empresa que produzia somente para o mercado de construção de Espanha. Como o mercado de construção parou, começou à procura de novos mercados e agora a empresa produz essencialmente para a Ucrânia e China (não só construção como também para outros sectores). E segundo me disse já tem uma dimensão superior há que tinha quando servia somente o mercado interno.
As pessoas e os empresários apontam baterias para onde pode vir retorno. Claro que é mais fácil trabalhar e vender dentro do burgo. Mas se o sinal recebido é que isso deixou de dar, então é da mais elementar lógica que se procure vender além-fronteiras. E só isso vale mais do que centenas de medidas e esquemas de apoio à exportação. Os mercados para onde os empresários e as pessoas do sector privado despendem o seu tempo e as suas energias é que marcam a direcção de uma economia. Todos agora sabem que é maioritariamente nos mercados externos que se consegue manter ou ampliar os negócios.
Extraordinário como Portugal só entendeu isso após a intervenção da Troika decorrente do evidente suicídio orçamental iniciado em 1986. Caramba, demorou tanto tempo a perceber que se andava mal. Nem a crise financeira internacional de 2007 a 2010 serviu para abrir os nossos olhos.

domingo, 8 de abril de 2012

Não os assustemos

Aqui há umas semanas foi publicada uma notícia de que os Alemães andam a evitar passar férias na Grécia com receio de sofrerem com a animosidade dos Gregos. Como se sabe e se vê os Gregos andam com muito sangue na guelra. Independentemente das suas razões para as revoltas de rua, e olhando objectivamente para o fenómeno e suas consequências, não é bom para quem vive em grande parte do turismo ter comportamentos que assustem os turístas, nomeadamente num cenário de extremo sobre endividamento.
Espero que os Portugueses não sigam o exemplo Grego e que tornem a fatal caminhada de ajustamento o mais suave possível. A prazo isso poderá inclusivamente dar brinde por merecer a simpatia do povo Alemão ao nível da sua atitude. Será expectável que muitos decidam passar férias em Portugal se isso servir para ajudar quem se anda a portar bem no difícil momento do ajustamento. Há simplesmente que não os assustar e ter um sorriso na cara.
E para ajudar que eles cá venham, despachemo-nos com a fórmula do Portela+1 de modo a precipitar o aumento de turístas rapidamente, sejam eles de que nacionalidade forem. Precisamos da Ryanair e outras companhias low cost em Lisboa o quanto antes.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Novos emigrantes


Portugal tem sido assolado nos últimos por uma nova vaga de emigração, tendo o fenómeno acelerado nos últimos dois anos. Muitos deles pertencem ao que se convencionou chamar “cérebros”, pessoas com elevada educação formal e que não encontram na nossa economia saída profissional, seja por inexistência de vagas nas organizações, seja pela miséria de ordenados. Este facto tem assustado diversas sensibilidades da nossa sociedade, como se o país ficasse melhor se todas esses cérebros ficassem cá no burgo. Evidentemente, e nas actuais circunstâncias, a saída de todos esses cérebros é muito positiva para Portugal. O facto resolve imensos problemas. Os deles e os nossos. Os deles porque nada pior que se estar inactivo e sem nenhuma ou reduzida remuneração. E os nossos porque menores serão os encargos de quem os sustenta, sejam os pais ou a sociedade. E se contarmos com o longo prazo, exercício mental de que não gostamos, ainda nos mitiga o problema do suicídio demográfico em curso, pois o pessoal cerebral é muito sensível ao zeros da conta bancária para efeitos de procriação. E sabendo-se que muitos destes emigrantes voltam, é sempre bom saber que trazem com eles mais gente para nos pagar as reformas no futuro.

Mas dedicando-me ao curto prazo de modo a manter-me o mais lusitano possível, estes novos emigrantes têm o condão de enviar remessas para Portugal. Remessas é coisa do passado, muito dos anos 50, 60 e 70 quando isso ajudava ao nosso equilíbrio macroeconómico, e que entretanto caiu fora de moda. Mas agora vai ganhando aos poucos o seu espaço na macroeconomia. E como sabemos, precisamos de muitas pequenas coisinhas a jogarem a favor para retomar equilíbrios macroeconómicos básicos que descurámos.

Dir-se-á “ha, mas que pena essa gente toda não andar a produzir em Portugal”. Não posso estar mais de acordo. Mas só acho pena que não se tenha pensado no assunto quando resolvemos nacionalizar a economia em 1975 e com isso desmontado o esboço do que seriam grandes grupos económicos devidamente capitalizados, condição indispensável para possuir massa crítica na economia que retenha cérebros em número apreciável. Ou ainda que nos tenhamos entretido desde o início dos anos 90 a montar a nossa economia voltada para o consumo interno e importações (ainda por cima à conta do endividamento externo). Como agora descobrimos este tipo de economia não produz tantos trabalhos assim para o pessoal cerebral. Ou se produz, os mesmos esgotam-se rapidamente quando a economia tem que se equilibrar macroeconomicamente.

A emigração é, por norma, um sintoma de disfunções da economia pelo facto de a mesma ter andado por maus caminhos. É totalmente inconsequente revoltarmo-nos contra os sintomas. O mais que temos que fazer é perceber que temos que colocar a economia a andar por bons caminhos e então nessa altura os cérebros não fugirão tanto.

domingo, 1 de abril de 2012

Arnhem 2

Quando vivi na Holanda perto da zona de Nijmegen e Roermond tive a oportunidade de visitar muitas outras cidades circundantes. Mas por uma qualquer razão misteriosa acabei por nunca visitar Arnhem, ainda que vários Holandeses a sugerissem pelo seu significado histórico. E de cada vez que mudava de comboio em Arnhem vindo de Amsterdão comentava sempre que ainda não conhecia esta cidade, tendo então a sensação que a mesma estivesse sempre longe demais quando geograficamente estava a umas escassas dezenas de quilómetros.

Durante a 2ª Guerra Mundial Arnhem teve um protagonismo muito importante aquando da ofensiva Aliada de 1944. Ditava a estratégia militar da altura que após o desembarque da Normandia a ponte de Arnhem era um objectivo muito importante para o avanço das tropas sobre a Alemanha Nazi. Parte da acção ao assalto a Arnhem passava pelo lançamento de para-quedistas. Infelizmente, a realidade veio provar que o local onde os para-quedistas caíram foi longe demais da ponte, facto imortalizado pelo filme de 1977 com o nome “Uma ponte longe de mais”. Especula-se que este facto poderá ter atrasado o final da guerra por um par de meses.

Talvez por uma coincidência, ou talvez não, Arnhem talvez pareça estar sempre longe de mais, não só fisicamente, mas também na ideia. Passo a explicar. Para meu espanto, e de todo o grupo com que me encontrava, deparámo-nos com um invulgar sinal de trânsito num parqueamento automóvel defronte de um hotel que dizia “Woman only”. De imediato procurávamos conjuntamente explicações que terão conduzido a tão curiosa sinalética. Vozes mais sensíveis avançavam que deveriam ser espaços para grávidas, mas a ausência de uma figura feminina de barriga saliente em nada corroborava a ideia. Outros, mais maliciosos, mediam o espaço reservado às senhoras na secreta esperança que o mesmo fosse mais largo que o reservado a todos os outros automobilistas, mensurações que acabaram por não suportar o pérfido raciocínio. Outros ainda opinavam que a Holanda na sua fúria de estar um passo à frente respeitante aos melhores standards civilizacionais encontrava neste meio uma forma superior de manifestar a sua atitude de alta deferência face ao género.

Por exclusão de partes, e por falta de imaginação que o adiantar da hora explicava, acabou o grupo por se refugiar nesta última possibilidade, havendo também concordância geral que Arnhem fosse longe demais. Tal e qual como em 1944 e quando por lá vivi.

Arnhem 1




Durante a presente semana tive a oportunidade de revisitar a Holanda. Arnhem, que se me apresentou sempre longe de mais quando por lá vivi, surpreendeu-me por ser uma terra algo acidentada para os padrões dos Países Baixos. Automaticamente questionei-me se ainda assim os holandeses teriam a coragem de se fazer à estrada de bicicleta fazendo valer a sua cultura ciclista aos inconvenientes declives da zona. E à vista posso afirmar que a cultura ganhou à geografia. De miúdos a graúdos todos iam dando ao pedal, e embora algo carrancudos na subida, compensavam na descida com belos sorrisos. Arnhem provou-me assim que, ainda que um ou outro monte se atravesse pela frente, é sempre possível dobrar a nossa natural lassidão e indolência às virtudes do transporte de bicicleta.

Mas Arnhem reserva-nos outras surpresas. Para além do exemplo destemido de como se enfrenta um monte com uma vulgar bicicleta, em Arnhem é possível ainda testemunhar que existem camelos e dromedários na Holanda. Confesso que o impacto é forte já que camelos e a cor verde dos prados com o Reno por detrás não é aquela combinação que trazemos gravada na memória. Após uns segundos de incredulidade perante tão improvável cenário restou-me concluir que aquele dia em Arnhem não foi em vão. Provou-se ser possível combinar o uso da bicicleta com terrenos um pouco mais acidentados, e que é ainda possível encontrar camelos na Europa. Arnhem afigura-se assim como um óptimo local de destino para uma comitiva de autarcas para se inspirarem na possíbilidade de repensar a locomoção do ser humano através da bicicleta numa urbe um pouco mais acidentada, e simultaneamente ver o animal que não quereremos ser se não cumprirmos adequadamente a nossa missão.