sábado, 20 de outubro de 2012

O Choque

Está quase a chegar o momento em que os Portugueses do sector privado se vão revoltar contra os Portugueses do sector público. É só dar mais um tempinho de austeridade aos trabalhadores privados por incapacidade de despedir pessoas no sector público e veremos os primeiros a ficarem realmente aborrecidos com o que se está a passar. E se o fenómeno ainda não emergiu é porque há ainda pouca consciência de que os primeiros pagam parcialmente os ordenados dos segundos, e ainda porque a má imagem que os políticos têm faz acreditar que os seus dislates incompetentes e a corrupção existente são a causa maior da dívida pública acumulada, pelo que resolvida esta questão arruma-se o assunto e fica tudo bem.
 
Aparte da incompetência e dos dislates tontos dos políticos existe um problema absurdamente grande de funcionalismo público na nossa sociedade e de toda uma teia de interesses que gravita à volta do orçamento. É este funcionalismo que é preciso rebentar. É da mais elementar injustiça que metade de uma sociedade viva em socialismo e a outra em capitalismo. Que uns tenham que acelerar para ganhar X e que outros se orgulhem de travar com a garantia de que ganham mais do que X e ainda por cima conscientes de que nada lhes acontece. Isto é absurdo e indigno. E se dúvidas existem sobre a equidade entre uns e outros então questionemo-nos porque não existem funcionários públicos que emigram ou que são despedidos. Ou que saiam do sector público para o sector privado.
 
Um dos motivos porque se emigra tanto tem que ver com esta situação absurda de cultura de “direitos adquiridos” existente na função pública. Os direitos nunca são adquiridos. Os direitos são algo por que se luta para serem alcançados com tanta energia quanto aquela que é preciso despender para os manter. O “adquirido” requer esforço, não desleixo e arrogância resultante da posse. Ora é este hiato em protelar o rebentar do “direito adquirido” que também faz com que o mais afoito e dinâmico se ponha ao fresco para ambientes mais arejados. Que motivação pode sobrar para um recém-licenciado quando o mesmo se consciencializa de que existem uma cambada de incompetentes do sector público que lhes tapam o caminho por não puderem ser despedidos e trocados por si? Que motivação pode haver em saber que os impostos que ele paga são para pagar o ordenado do arrogante que por “direito adquirido” ganha mais do que ele e produz muito menos?
Uma sociedade para progredir tem que dar espaço para os melhores puderem trilhar o seu caminho. Infelizmente os poderes políticos não tratam deste assunto com a importância que o mesmo tem. Por este caminho a coisa pode acabar mal.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Yo Man

As prateleiras das livrarias estão repletas de livros pré-fabricados, bestas céleres (na brilhante expressão de Alexandre O’neill) escritas com o único objectivo de atingir tops de vendas. O resto é literatura, mas essa tem quase sempre pouco espaço, uma vez que, na maioria dos casos, qualidade literária não é sinónimo de sucesso comercial. A propósito disso, Mo Yan, o vencedor do Prémio Nobel da Literatura deste ano, tem apenas um livro publicado em Portugal e este não só não está em nenhuma livraria como ninguém sabe se o livro está guardado em algum armazém ou se foi reduzido a pasta de papel. Mas agora, com a notoriedade do prémio, vão surgir novas edições e a cara nunca antes vista de Mo Yan vai invadir os escaparates e os mostruários das exposições livreiras. Com efeito, os prémios e galardões atribuídos por academias de intelectuais são da maior importância para o leitor-tipo português: crédulo, simplório e incauto.

A ironia disto tudo reside no seguinte: até pode ser que Mo Yan seja um grande escritor, mas distinções destas são o que menos interessa ao leitor de literatura séria (chamemos-lhe assim). E mais: deliberações globais como esta têm sempre um programa político adjacente. Neste caso a lógica dos suecos é estranha, uma vez que Mo Yan é considerado um autor não independente, alinhado com o regime chinês e dissociado das lutas políticas. Como a Europa precisa de exportar para a China, talvez o prémio seja uma espécie de bajulação ao Governo Chinês. Estou a supor, mas o que eu sei de certeza é que o prémio não é um acórdão ou uma jurisprudência de qualidade literária.

O Prémio Nobel, no fundo, é sobretudo um pilar do mercantilismo cultural, apoiado em critérios que nem sempre são literários. Houve sete suecos que ganharam o prémio: Tomas Tranströmmer, Harry Martinson, Eyvind Johnson, Pär Lagerkvist, Erik Axel Karlfeldt, Verner von Heidenstam e Selma Lagerlöf. Sem argumentos para a distinção ficaram James Joyce, Jorge Luis Borges, Franz Kafka, Lev Tolstoi, Vladimir Nabokov, Marcel Proust, Julio Cortazar e muitos mais. Está bem, está. Boa graça.  A realidade é que o Prémio Nobel não passa de uma curiosidade pitoresca no meio literário.

domingo, 14 de outubro de 2012

Definição de objectivos, prescrições e dosagens

Parece que o Governo de Portugal se anda a precipitar na prescrição a aplicar e nas dosagens da medicina. Começa a ser evidente que a austeridade anda a ser um pouco aplicada à toa. Tão evidente quanto a evidência de que precisamos de austeridade. Todos, ou quase todos, sabemos que precisamos de austeridade, mas só alguns parecem entender onde é que a mesma deve ser realmente aplicada. Aos outros, a grande maioria, é-lhes reservado um lugar na bancada onde, por direito, podem escrutinar da competência da medicina a aplicar. E à falta de competência para efetuar o julgamento, o feeling e o benefício da dúvida poderão ser bons substitutos do discernimento sobre a matéria macro económica em causa.
 
O problema nesta fase é que as mais recentes medidas não estão em sintonia com nenhuma estratégia que antecipadamente se deveria ter explicitado aos Portugueses. Ou seja, são medidas a martelo. E isso preocupa, com fundamento, as pessoas. Se desde o início houvera o Governo explicitado que haveria que montar uma economia voltada para a exportação por contraponto de uma economia montada para o consumo interno, seria bem mais fácil de implementar todas as medidas em prol desse objectivo. Por exemplo, a população aceitaria muito mais políticas de aumentos de impostos sobre o consumo e alívio de impostos sobre a produção, ainda que isso prejudicasse, pela ordem natural das coisas, alguns segmentos específicos da população.
 
Por o Governo não ter delineado uma missão específica sobre a economia, ficamos agora ao sabor do livre arbítrio de medidas financeiras avulsas e desconexas com uma estratégia. Ora isto perturba a população, tal como um paciente ficaria perturbado por ver que o seu médico não persegue nenhuma estratégia para a cura da sua maleita. Fatalmente o curador começa a errar nas prescrições e nas dosagens, o que deteriora a confiança do doente.
 
Mais uma vez os Governos não compreendem que deverão, à semelhança de qualquer organização, ter missões específicas, objectivos claros, e estratégias calendarizadas que conduzam ao alcance desses objectivos. Este Governo sabe muito bem qual a sua missão: tornar Portugal um país viável dentro da zona euro. Sabe razoavelmente bem que estratégias seguir: é o documento da Troika. Só anda um bocadinho falho nos seus objectivos, que de entre outros, tem como dos mais importantes o construir uma economia voltada para a exportação, construir uma sociedade meritocrática e positivamente discricionária.
 
Uma vez bem definidos, compreendidos, e explicitados estes objectivos, será muito mais fácil a população aceitar as medidas correspondentes para alcançar esses objectivos. E em paralelo será muito mais fácil ao Governo acertar as medidas adequadas e as dosagens correctas.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Português é Civilizado?!

"Civilização" deriva de Civitas. "Urbanidade" (expressão menos usual em português falado) deriva de Urbs. De onde se poderia concluir abusivamente que as pessoas mais "educadas" fossem aquelas que vivem na cidade.

A educação deriva, obviamente, do respeito pelos outros. Da noção de que não merecemos mais do que outra pessoa. Esse grau de respeito pelos outros pode manifestar-se, por exemplo, no modo como um cidadão "urbano" cede a passagem a alguém que caminha ao seu lado, quando a passagem não permite que passem a par - porém, esses códigos de etiqueta não são garantia de verdadeira educação.

Se não, vejamos: Cascais (onde moro) goza da fama de ser um local onde mora gente endinheirada - e no entanto o que vejo, quando guio pela A5, são carros de grande cilindrada que aceleram à velocidade da luz e que vão fazendo sinais com os faróis para qualquer infeliz que não tenha um carro tão caro - ou pelo menos que não o guie à mesma velocidade - e que naquele momento esteja a privá-lo do livre acesso da autoestrada.

Outro tique que felizmente está a sair de moda é o de circular de noite, sobretudo com bastante trânsito, com os faróis de nevoeiro acesos. Presumo que o acto, na ausência de nevoeiro, pretenda assumir uma presença "ameaçadora", de tal modo que as pessoas se lhe esquivem. Nesses tempos, também haviam menos carros com faróis de nevoeiro - de onde se podia extrair a mensagem: «cá vou eu com o meu carro com faróis de nevoeiro». A moda pode ter passado por causa de terem passado a haver mais carros equipados dos ditos - ou, mais provavelmente, porque as pessoas passaram a ser multadas por andarem a guiar com os faróis de nevoeiro ligados, sem haver nevoeiro.

Particularmente penoso é o cenário ao fim da tarde daqueles que saem da CRIL para a A5, "queimando" minutos e carros na fila, ao habilmente intrometer o nariz do automóvel entre dois carros que, se calhar, estão na bicha há uns minutos, aguardando ordeiramente a vez de entrar na auto-estrada. Uma tristeza parecida é ver a mesma calamidade no sentido contrário, de manhã ou em dias de jogo do Benfica, quando os carros saem da CRIL para a 2ª circular (nó da Buraca).

O prémio máximo da má educação é porém a triste figura que alguns fazem na famosa "chicane" da estação de serviço do Estádio Nacional, ainda na A5: uns espertos que passam por dentro da área de serviço, para regressar à autoestrada mais à frente, e ganhar um ou dois minutos de fila com esta linda manobra. Não sei se o «blog» tem muitos leitores - mas se os tiver, de certeza que haverão entre eles algum habilidosos desses.

Os Beatles escreveram: Money Can't Buy Me Love. Claramente, também não compra a educação.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Portugal de rabo na boca



O único consenso que existe entre os portugueses é o seguinte: todos estão contra. A maior parte não tem alternativas sérias e os que as têm conseguem apenas reunir alguns amigos em capelinhas. Com efeito, os portugueses estão todos contra os impostos e até aceitam que se deve cortar na despesa, mas quando essa hora chega todos estão mais uma vez contra, porque não querem ver o fim do estado social, que é um grande amigo e protector, que nos oferece excelentes serviços na saúde, nos transportes públicos, na educação, na cultura, etc. Assim, os manifestantes do contra complicam ainda mais o que já era complicado devido a uma constituição estúpida e a ladroagem no poder põe-se a subir os impostos, simplesmente porque é mais fácil e porque o limite do que os portugueses aguentam pode estar, quem sabe, ligeiramente mais longe.

Roubam-nos, perdem com isso e roubam-nos novamente, como se esperassem outro resultado. O que os ladrões não percebem é que há um ponto a partir do qual o aumento dos impostos passa a reduzir a receita do covil. É isso que nos diz a Curva de Laffer (se por ladrões entendermos governo e por covil estado) e embora não exista nenhuma forma exacta de calcular o ponto de inflexão, a verdade é que é bastante provável que o tenhamos atingido já. Com um nível insuportável de impostos, consumimos muito menos, as empresas abrem falência, o desemprego aumenta, o consumo volta a cair e assim sucessivamente. A conclusão disto é que o covil arrecada menos dinheiro, o saldo orçamental agrava-se, a economia fica completamente estragada, não se resolve o problema da balança comercial e nós vamos à falência.

Esta pescadinha de rabo na boca vai ter desfechos mirabolantes, uma vez que os melhores e mais jovens vão emigrar, alguns vão ficar sem alternativas e outros vão procurar na fuga ao fisco e na economia paralela um modo de vida. Assim, não quero estar a exagerar, mas julgo que Portugal amanhã vai ser um palco de misérias repleto de jogadores, prostitutas, traficantes, corruptos, malandros, burlões, falsários, gatunos, trafulhas, drogados, alcoólicos, abortistas, loucos, falidos e vadios.

sábado, 6 de outubro de 2012

A crise escondida

Ultimamente temos observado na nossa praça um verdadeiro grito de revolta contra a situação que Portugal vai experimentando. Compreensível para quem somente encontra no sentimento uma relação com os factos. Mas inadmissível a quem se exige, e espera, com responsabilidade possuir fórmulas alternativas viáveis, sejam elas quais forem. Ora o que se vê é que a classe política e pensante é incapaz de propor uma alternativa concreta, quanto mais um plano metódico e calendarizado.
 
O espetáculo a que se assiste por parte da oposição é do mais incómodo que se possa imaginar. Para que a democracia revele todo o seu bom potencial é necessário que as partes apresentem propostas concretas, e sempre que possível calendarizadas, o que na situação atual é imperativo. O povo agradeceria, e o debate sairia naturalmente enriquecido. Ao não fornecer alternativas, a oposição simplesmente funciona como um amplificador do sentimento de rua. Ora isto é pura irresponsabilidade nas atuais circunstâncias. Neste particular realce-se o péssimo comportamento do PS, que para além de ser um dos responsáveis pelas causas que nos levaram a este ponto, assina um acordo internacional com o qual se demarca quando os efeitos do cumprimento do mesmo afectam a população. Ora isto é de uma falta de carácter sem paralelo e um péssimo exemplo para a sociedade.
A crise, para além de financeira, mas essencialmente económica, encontra nos actuais representantes políticos muitas evidências de que a crise se estende à própria democracia e de como os seus intérpretes a vêm. A crise, afinal, também é uma crise de pessoas de bem que não estão dispostas a fazer política. Neste ponto não há Troika que nos valha. Só depende de nós.

domingo, 16 de setembro de 2012

Há que explicar o que se pretende


Os Portugueses andam confusos. E com razão. O Governo não explica o motivo de fundo porque anda a tomar as medidas difíceis e impopulares que vêm sendo anunciadas. Do pouco que transmite parece que o défice é tomado como o único critério pelo qual se mede o sucesso ou insucesso do programa de ajustamento. Como se não existissem outros aspectos da nossa vida económica e financeira que faltam ser ajustados na economia portuguesa. Neste momento o problema maior do Portugueses é menos o coercivo ajustamento macro económico em curso e mais a explicação do que se passou nos últimos 25 anos e da transformação que é imperativa levar a cabo.
Sabemos que ninguém tem de ser especialista em macro economia, termo que só por si tem tanto de atraente como de incompreensível. Tanto mais que o mesmo só aparece quando é necessário proceder a um ajustamento. Mas este facto não justifica a falta da explicação que é devida aos portugueses. Como se quem tivesse um cancro e precisasse de sessões de quimioterapia lhe fosse negada a explicação do tratamento por parte do médico, que aparte de não divulgar a doença em causa, se limita a dizer que o tratamento é necessário porque é o que deve ser feito. Naturalmente o doente ficaria confuso por não conseguir avaliar da bondade da terapia por não conhecer a doença de que padece, revoltado por não saber se de facto a dita terapia leva a algum lado, e extremamente irritado pelo incómodo das sessões. Este é o ponto em que encontra Portugal: voluntariado à força para se submeter a um tratamento do qual desconhece o objectivo do mesmo, embora conheça os seus sintomas funestos, e para cúmulo ainda lhe é vedado a explicação do mal de que padece.

Portugal tem um cancro que se não for devidamente tratado pode levar o país a uma banca rota. Nos últimos 25 anos muitas células desenvolveram-se em Portugal muito para além do número suportável. E em paralelo muitas outras foram mortas e que afinal eram essenciais manter. Criámos muitas empresas de construção civil para produzir muitas coisas para as quais não tínhamos dinheiro e tão pouco a necessidade. Criámos muitas empresas para vender automóveis para servir o país de carros para os quais não tinha dinheiro suficiente para comprar. Criámos muito mais oferta de restauração para servir pessoas que não tinham dinheiro para os frequentar. Matámos demasiadas empresas em sectores que não devíamos, e emitimos sinais para criar demasiadas empresas em sectores onde o tempo provou que não tanta necessidade. Abandonámos os campos, a pesca, e muitas outras actividades que aprendemos a desdenhar, tal como o servir os outros (trabalhos domésticos e de limpeza) e trabalhos relacionados com a construção, preferindo substituirmo-nos por imigrantes importados de países de Leste e outros.

E embora alguns médicos fossem avisando para o cancro que se estava a desenvolver (sim, a partir de 1995 muitos economistas já avisavam Portugal do que se estava a passar), preferimos o caminho da facilidade em coisas tão básicas como o adquirir formação e em acreditar que tudo ia ser fácil. Negámo-nos à consciência de tudo o que é necessário para um sistema que permita o desenvolvimento de células mais fortes, tais como negligenciarmos o sistema de Justiça e de sermos continuadamente benevolentes para com os aldrabões, coisa que vai do especialista em não pagar rendas de casa àquele que continuadamente pensa que pode viver eternamente à sombra do próximo (incluam-se os aparelhistas que grassam nos partidos políticos).
Negámos a doença e demos-lhe gás para se desenvolver ainda mais. Firmámos contractos para parcerias público/privadas para adquirir bens no futuro cuja necessidade não existe e a um preço absurdo, dando aso a que se especule com muito fundamento sobre um rol enorme de corrupção entre governantes e empresas privadas. Deixámo-nos embebedar no crédito sem tomar em linha de conta de que o mesmo deverá ser canalizado primordialmente para a produção e muito menor grau para o consumo, desvirtuando princípios de equilíbrio básico entre produção e consumo. E do pouco que ia seguindo para dar gás à produção não foi exigido o equilíbrio mínimo entre o dinheiro que se pede emprestado e o dinheiro próprio, habituando-se o empresariado a pensar que o montante a investir tem que vir todo do capital alheio e não numa relação que deve ser entre 30/70 até 60/40 (e neste último limite só para casos muito especiais).

Enchemos a célula do Estado com muito mais organizações e institutos disto e daquilo sem ter em conta a capacidade da Economia privada em suportar esse crescimento. Como se o Estado fosse o motor da economia. Obrigámos a banca a preterir o financiamento à economia privada de modo a canalizar o dinheiro para financiar os défices crescentes das empresas públicas e do défice público.
O que há a fazer é basicamente destruir todas as células a mais que eram perniciosas e produzir células de que necessitamos. É bom que muitas empresas de construção e outras associadas a esta actividade vão à falência. É bom que muitas empresas de vendas de automóveis vão à falência. Seria óptimo que não tivéssemos tantos professores pois não precisamos de tantos. É bom que muitos bancos fechem agências. É bom que muitos restaurantes fechem. Seria óptimo despedir muitos funcionários públicos. A lista poderia continuar. Com a libertação de muitos recursos das células mortas é possível que outras células surjam. Em que actividades? Bom, não sou socialista, por isso debito a resposta que resta. Quem melhor determina as células que devem ser criadas são os empresários. Acredito que quem cria trabalhos reais, e não trabalhos a fingir, é o empresariado. E destes, os verdadeiros, não os a fingir como aqueles que se atiram para a frente com demasiado dinheiro emprestado e pouco do seu bolso. E à desculpa clássica de que há pouco dinheiro próprio que façam como se faz nos países mais desenvolvidos: associem-se.

A velocidade com que isto tem que ser feito é o ponto mais sensível da cura e onde é extremamente difícil dar a resposta certa. O que se sabe é que o Governo tem que emitir todos os sinais e incentivos para a destruição das células perniciosas e outros sinais para a criação das células que importam desenvolver. É do mais elementar bom senso que teremos que nos tornar numa sociedade exportadora para resolver grande parte dos nossos desequilíbrios. Neste ponto o consenso é total. É aqui que o Estado tem um papel enorme a fazer: tomar todas as medidas e mais algumas de modo a que exportemos muito mais. É aqui que se encontra a luz. É aqui que é preciso comunicar aos portugueses de que vale a pena fazer o que está a ser feito. Como garantir que estimulamos de facto as exportações?
Medidas:

1.       A já anunciada descida da TSU por parte da entidade empregadora em desfavor do trabalhador.

2.       Descer substancialmente o IRS por contrapartida do aumento do IVA. Há que penalizar o consumo e estimular a produção. Sem contar que se dá a opção de poupança a quem o pretenda fazer. Por outro lado estimula-se o mais produtivo.

3.       Redução acentuada dos custos de contexto, nomeadamente os respeitantes a licenciamentos e os relacionados com a Justiça e cobranças.

4.       Redução muito acentuada do imposto sobre os produtos petrolíferos e aumento muito acentuado do imposto de circulação. Que um compense o outro.

5.       O Estado pagar a tempo e horas. Não será difícil canalizar o dinheiro que afinal não foi necessário para capitalizar a banca para este fim. Há que definitivamente por um ponto final neste trauma nacional.

6.       Plano de redução do IRC do tipo 1,5 pontos percentuais por ano por um período de 10 anos. Objectivo final será termos uma taxa de IRC à volta de 10%.
Há que veicular explicitamente e à viva voz que Portugal vai ter de ser forçosamente uma sociedade exportadora. Só sociedades exportadoras se tornam sociedades dinâmicas onde o progresso é extensível a uma grande maioria, onde a meritocracia marca o ritmo e os “penduras” têm menos hipóteses. É nas sociedades exportadoras que melhor se desenvolvem as virtudes inatas do ser humano, coisa que não deve fazer temer os portugueses. O mundo é o habitat natural do português. Portugal é somente o seu lugar de partida. Não há que temer jogar no tabuleiro da Globalização. É como jogar em casa um jogo de que fomos pioneiros. O “outro” é coisa para nós muito acessível. Somos campeões no relacionamento com todos os outros, desde o mais parecido connosco ao mais diferente. Atiremo-nos à exportação.

Não perceber que temos que exportar muito mais do que importamos é renunciarmos à nossa independência. É nunca mais podermos fazer a política que queremos para o nosso amado Portugal.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Quem falta e umas dicas?

A Troika chegou e decretou. Felizmente decretou bem. A coisa não é perfeita, mas o que se podia esperar de um documento redigido em cerca de 1 mês. Vale a pena? Se vale. Muitas mudanças necessárias estão a ser operadas em Portugal. A economia está a ser reorientada para a exportação e a abandonar a orientação para o consumo. Esta a grande mudança. Mas tem outras em curso… que estão a ficar pela metade, infelizmente. Os bancos, os eternos maus da fita, estão a desalavancar rapidamente, muito mais depressa do que seria expectável. Era bom que o ritmo de capitalização das empresas em geral seguisse o mesmo ritmo da capitalização dos bancos. Faltam estes para dar mais solidez ao nosso sistema financeiro.
 
Por outro lado temos os particulares, cujos salários em média subiram muito mais nos últimos anos do que o ritmo de subida da produtividade. Nas empresas privadas o ajustamento em baixa está a ser feito, o que é bem salutar para a nossa competitividade no curto prazo. Pena é que o ajustamento no sector público esteja mais longe de ser alcançado. Mesmo que se corte no 13º e 14ª mês, falta ainda acabar com muito instituto que anda para aí e tratar de pôr os boys and girls dos partidos a enviar os seus currículos para as empresas privadas.
 

Ainda se compreende que a capitalização dos poucos bancos é mais fácil de monitorizar do que nas infinitas empresas privadas. E percebe-se também que desbastar o sector público em número demora tempo. Pois é, mas já lá vai mais de 1 ano de governo. Como tal, e após toda a gente ter ajustado, adivinhem o que falta ajustar? Isso mesmo, a quantidade de funcionários públicos que não são necessários.
De resto é continuar a cumprir o programa, tentar fazer ver ao Sr. Seguro que o dislate político é contra procedente para o país, não deixar o impossível Sr. Relvas cimentar arrais, e preferencialmente atirá-lo borda fora, literalmente, perceber que é perigoso privatizar a RTP e as águas, pensar no nuclear à séria, e acima de tudo começar a debater muito seriamente que impostos deverão ser reduzidos quando existir margem para isso. Aposto que a falta de visão prefere baixar o IVA quando o que precisamos são baixos impostos sobre o trabalho e o capital. Percebem? ou é preciso fazer o boneco?
 
A propósito de boneco, porque raio é que não se pede a meia dúzia de ilustres professores de economia para irem à RTP prestar serviço público e dar-lhes uma dúzia de programas de 30 minutos cada para explicarem com power points e gráficos o que se passou em Portugal nos últimos 25 anos, e porque é que está a acontecer o que está a acontecer. Aposto que o Professor César das Neves diria que sim e que o povo português passaria a pelo menos a perceber o que se passa, concorde ou não com as soluções propostas. Para serviço público isto seria o mínimo que se poderia fazer para quem sustenta a RTP.
 
Ha, e já agora não se esqueçam de procriar bem acima de 1,3. Para bem da minha reforma.

sábado, 16 de junho de 2012

O que cada um representa

Tem sido engraçada a nova infantilidade política em curso por muito dos corredores de poder desta Europa. O Sr. Hollande, bastião da boa nova do crescimento económico como boia de salvação da Europa e de todos os males que nos desassossegam, parece acreditar que o crescimento económico pode ser tratado como uma opção passível de ser decretada. Esta ingenuidade até será aceitável para alguém que ande a sofrer seriamente com a crise em curso, mas é ridícula em alguém que se encontra num posto de comando.

Crescimento económico não é algo que se decrete. O crescimento económico sustentado e saudável ocorre quando as bases para o seu aparecimento são edificadas e solidificadas. E para quem ainda não se tenha apercebido, o que se está a tentar construir nos países meridionais é precisamente as bases para que mais tarde se possa crescer. O problema na economia é que estas coisas demoram alguns anos. E o problema das pessoas nos dias de hoje é que querem tudo já, à boa maneira do faça já, compre já, ou ainda do emagreça já.

Como a cabeça do vulgo tem sido massajada há décadas na infantilidade, a superficialidade e a ilusão tomaram conta das percepções. Assim, a distância destas para a realidade assumiu dimensões gigantescas. A chegada desta última traduziu-se inicialmente pela negação, e mais recentemente transformou-se em frustração quando a sua inevitabilidade foi finalmente percepcionada. E é neste ponto emocional em que nos encontramos, que mais não é do que um terreno fértil para a astúcia e o ludíbrio.

O Sr. Hollande querer agora capitalizar a posição menor da França face à Alemanha à custa da insatisfação emocional de parte da massa ignara e infantil. Evidentemente que o seu aparente sucesso inicial mais não é que o resultado de um desabafo momentâneo das massas, como um gordo que vai na sua terceira semana de forte dieta e que se deleita à sucapa com dois pastéis de nata: sossega-lhe o corpo e a gula mas perturba-lhe o processo. A vontade e a acção conflituam, e a doçura da última torna-se mais forte que a razão da primeira. E é isto que o Sr. Hollande representa face à Sra. Merkel. Vontade. Uma vontade danada que tudo passe depressa, que a realidade não seja, e que o erro não tivesse acontecido.
Acontece que o Alemão tem provado saber bem do que fala. Para além disso é um povo a quem foi dada a conhecer a amargura quando tomou opções em conformidade com estados de alma. Hoje o meridional está confuso e com pouco discernimento, e a verdade diz que ele precisa de austeridade de modo a eliminar o hiato entre as suas percepções e a realidade. Quando esta aliança for feita, então o crescimento brotará, não por decreto, mas por vias das forças naturais da própria sociedade. Não há nenhuma evidência, tão pouco histórico, de que poderá existir crescimento e desenvolvimento numa sociedade que vive dissociada da realidade, pelo que, lidar de frente com esta é condição necessária para a obtenção daqueles. Enquanto uns dedicam-se na compreensão e relacionamento com a realidade, outros preocupam-se com a existência da mesma. Em posições de comando é isto que distingue o sabedor do ignorante.

domingo, 3 de junho de 2012

Uma dica ao Sporting Clube de Portugal

Curta declaração de interesses. Sou do Benfica, mas preocupa-me a situação actual do Sporting. Simplisticamente olho para o Sporting como clube e vejo a Grécia como país. Poderia regozijar-me do facto enquanto benfiquista, mas não o faço por entender o quão importante é para o desporto nacional, e o football em particular, ter um Sporting forte em termos desportivos e em termos financeiros.

O problema do Sporting consiste na apresentação sistemática de prejuízos e a consequente acumulação de uma dívida gigantesca quando comparada com a receita potencial. Isto é o cenário da Grécia nos dias que correm. No entanto, e ao contrário da Grécia, o Sporting tem uma solução. E é este ponto que me faz escrever estas linhas.

Ao que parece o actual presidente do Sporting fez umas deslocações pela China e Índia com o objectivo de encontrar investidores que queiram investir no Sporting. A esta ideia voluntarista falta aquela dose de realismo que se impõe nesta altura. Haja consciência que a probabilidade de sucesso desta investida pelas bandas asiáticas é nula, senão contraproducente, pois falar em football português por aquelas bandas poderá trazer interessados… mas para o Benfica. Basta para isso olhar para os relatórios da Deloitte de 2011 e 2012 sobre o football. O potencial de aumento de receitas do Benfica no curto prazo é tremendo (renegociação dos contractos televisivos e muito boas perspectivas de participação continuada na liga dos campeões), pelo que se algum milionário quiser brincar ao football em Portugal atirar-se-á muito mais depressa ao Benfica.

O que o Sporting deve fazer é tentar arranjar investidores depois de limpar uns 200 milhões de euros no seu passivo. Um investidor meio maluco, e há muitos deles com imenso milhões disponíveis pelas arábias, índias e chinas, talvez arrisque investir no Sporting se entrar com dinheiro para investir, não para limpar passivos. Esses investidores olham para o football como uma criança olha para um brinquedo. A sua relação é maioritariamente ditada pela componente lúdica. Ora neste momento não há nada de lúdico que o Sporting tenha para oferecer, a não ser uma tremenda novela grega que aí vem. Ao invés do Manchester City, que não ganhava um campeonato Inglês desde 1968, mas que sempre tem como atractivo o jogar na liga inglesa, o que não é despiciendo, e ser o clube da “terra” já que possui uma massa de adeptos em Manchester superior à do Manchester United (penso que relação de 60/40).

Assim, a direcção do Sporting se quiser realmente salvar o Sporting tem que dizer aos seus sócios e simpatizantes o seguinte. “Olhem, nenhum dos milionários nos quer como brinquedo para brincar aos campeonatos e taças. Para que isso possa eventualmente vir a acontecer, mas acima de tudo para que sobrevivamos como clube, é preciso que limpemos o nosso passivo nuns 200 milhões de euros. A proposta é a seguinte. Efectuar um aumento de capital nesse montante para amortizar dívida em igual montante. O propósito não é ganharem dinheiro com o investimento. O propósito é não perderem um clube. E, quiçá, um dia, talvez algum árabe meio embriagado venha a gostar de nós e se permita torrar por aqui uns milhões para comprar a sua equipa de football. Ha, esse aumento de capital até poderá ser feito ao longo de 4 anos à razão de 50 milhões de euros por ano, o que para um universo de 100.000 sportinguistas subscritores daria 500 euros por ano. O que é que acham? Vamos a isso?”

Eu sei que pode parecer uma proposta meia tola, mas quando as coisas apertarem à séria (e está quase…) e se colocar em cima da mesa a falência do clube e a sua respectiva liquidação, então todas as soluções, como a que acima indiquei, passarão a ser consideradas muito plausíveis. E esta até pode bem ser das melhores que se arranjam, especialmente se alguém vier com uma alternativa do estilo “Imploda-se o estádio de Alvalade, vendam-se os terrenos, e aluguemos um dos estádios de Lisboa para lá se fazerem os jogos”.

Isto não é do domínio do surreal. Surreal é a situação actual.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dobrar-nos-emos?

Portugal está num processo de mudança muito grande. Poucos andarão a dar conta disso, mas esta crise está a modificar aos poucos os alicerces sobre o qual montámos a nossa vida nos últimos 25 anos. Julgámos ser possível trilhar um caminho para que nos levasse a um nível de vida Nórdico aplicando práticas Meridionais naquilo que as mesmas têm de mais funesto. A falácia alimentou-se pela cegueira voluntária do indígena e pelo desregrado contínuo aumento do endividamento geral.

Em todos estes anos a sociedade pouco se sensibilizou para se questionar sobre os fundamentos que levaram os Nórdicos a gozarem o nível que hoje têm. Como que ocultando um medo de uma qualquer evidência reveladora de que determinado tipo de alicerce tivesse de ser erigido. Impor limites ao endividamento público? Tratar da nossa Justiça? Tratar de ter um mercado de arrendamento imobiliário normal? Tratar de cuidar na construção de uma sociedade mais independente do Estado? Tratar de criarmos mecanismos que premeiem o mais produtivo? Tratar de exigir muito mais de quem não quer fazer nada, ou fazer muito pouco, e de ainda quer viver à conta dos outros? Tratar de ser implacável para com o aldrabão e espertalhão de meia-tigela?

Em todos estes domínios falhámos, e num grau muito superior ao razoável. E é em todos que somos agora obrigados a mexer de modo a encarrilarmos e podermos continuar no mesmo comboio que os tais Nórdicos. Em 1 ano já fizemos o mesmo do que outros fariam em 2 ou mais anos. Mas o caminho é muito longo, e falta ainda muito para modificar em elevado grau o que tem de ser modificado de modo a gozarmos o mesmo nível de vida daqueles com que nos comparamos. Em muitas matérias a política pode fazer muitas coisas. E eu não duvido que irá fazê-lo. Noutras, dependeremos da humildade em nos questionarmos bastante sobre alguns traços da nossa cultura e da predisposição para organizar a nossa sociedade e comunidades locais de outra forma. Não será fácil, mas o prolongar dos tempos difíceis que teremos fatalmente de percorrer ir-nos-á alertar para a necessidade de dobrarmos um pouco a nossa maneira de ser. A ver se a humildade e o querer serão suficientes.

domingo, 27 de maio de 2012

Os melhores de nós

Há pouco tempo atrás, durante a tomada de posse do Conselho para o Empreendedorismo e Inovação, Passos Coelho dizia que o desemprego deve representar uma oportunidade. Uma oportunidade para procurar emprego, calculo eu, porque não quero nem pensar que o primeiro-ministro estava a propor aos desempregados o empreendedorismo como uma espécie de última instância depois de tudo o resto ter falhado. Como quem diz: estão desempregados, mas têm sempre a hipótese de abrir uma empresa e portanto não me chateiem. Muito pelo contrário, montar um negócio de sucesso não é propriamente fácil e este devia ser o desafio número um para os jovens licenciados. A rapaziada da minha idade, no entanto, continua mais interessada em banca de investimento e consultoria; uma pena, a meu ver, porque seria melhor para a sociedade se estes jovens, motivados e inteligentes, estivessem mais focados em descobrir novas formas de criar valor.

Ainda por cima, entre business angels e capitais de risco, «nunca houve tanto dinheiro para apoiar empreendedores». A frase é do presidente da Associação Europeia de Business Angels. O português, claro, é um visionário e Portugal é um dos países com maior taxa de natalidade empresarial. O problema, infelizmente, é que também temos das maiores taxas de mortalidade; apesar de se criar muitas empresas, os projectos são pouco estruturados e ao fim de dois anos apenas metade sobrevive. Ou seja, ideias originais há muitas, o que falta é gente que as implemente efectivamente e com sucesso, que crie novos empregos, mais valor para a sociedade. E para isto é essencial que se mudem mentalidades e que se ponha os jovens de hoje em dia mais interessados no empreendedorismo e menos na banca de investimento e consultoria.

Tem que haver uma aposta séria na coisa. E nós, jovens licenciados, na flor da idade, com bom corpo e força nas pernas, até falamos nisto, imaginamos empresas novas, mil e um projectos possíveis, mas depois acabamos por adormecer, na antemanhã ainda, ou falhamos na execução, exaustos, quase sempre, como se nada pudéssemos contra a carapaça burocrática de uma sociedade com poucas estruturas de apoio e uma educação redutora. Pois sim. Agora a sério: é preciso juntar nisto os melhores de nós e pôr esta porra a andar.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Importam-se de deixar os outros fazer o seu trabalho?

A questão do Euro não é tão complicada quanto isso ao nível da decisão política. Existe um clube, existem regras, existem compromissos, existem programas acordados entre todos, existem deveres e direitos, e já agora existem vontades efectivas (não daquelas para Inglês ver). Está bom de ver que o povo Grego não percebeu bem que está num clube onde não se pode nem se deve brincar. E o que o povo Grego anda a fazer é precisamente brincar com os outros membros do clube. Pessoalmente não me move nada contra o povo Grego, e inclusivamente respeito a sua revolta, não por concordar com a mesma, mas por ela me fornecer indícios claros de que o lugar da Grécia é fora da zona Euro. E isso deve ser respeitado enquanto um possível figurino, o que, em rigor, é a melhor opção para todos.
A distância entre a vontade e a vontade efectiva pode ser enorme. Claro que os Gregos querem estar na zona Euro quando somente os direitos concorrem para a formulação da opinião. Quando atentamos para a vontade efectiva, então os deveres saltam para a balança, e consequentemente a porca começa a torcer o rabo. Nesta fase, e após alguns anos a serrar presunto, chegou o momento de avaliar o assunto pela bitola da vontade efectiva. Chegado a este ponto, ainda podemos esbarrar com o facto de os Gregos inverterem de um momento para o outro essa mesma vontade efectiva. Resta então passar o teste da possibilidade técnica.

Considero que no ponto onde nos encontramos os Gregos não têm vontade efectiva, coisa que as eleições de 17 de Junho irão validar devidamente. Daí já nem se colocar a questão da possibilidade técnica. Consequentemente trata-se agora de preparar a saída da Grécia da Zona Euro e ao mesmo tempo acautelar que essa mesma saída não prejudique aqueles países onde as duas vontades invocadas andam de braço dado. E que os distúrbios financeiros esperados não impactem em demasia nas suas possibilidades técnicas.
Por isso sugiro aos Gregos que pensem um bocadinho nos outros, e que por respeito a esses outros membros do clube não prejudiquem os outros trabalhos existentes no clube e que estão em curso. O centro do mundo não é a Grécia, nem nenhum País merece mais do que aquilo a que deixa de estar disposto a fazer. Por isso, e como Português, exijo que o meu país e os responsáveis políticos legitimamente eleitos que assinaram os acordos com a Troika tenham a possibilidade de levar por diante a execução dos seus compromissos cuja prossecução são, obviamente, do interesse de todos os membros do clube.
Por isso direi que num breve prazo há que tomar decisões muito importantes e aclarar com que cenários trabalharemos no futuro. Até para que os azimutes do pessoal internacional consigam estar mais afinados e permitam melhor perceber que nesta Europa há países com ideias muito diferentes sobre como pertencer a clubes.
Tudo o mais respeita a questões técnicas de como executar o change over. Embora do domínio técnico, o facto não é de menor importância. É do senso comum e dos ensinamentos históricos, que o devido controlo dos mecanismos de feedback e precipitação de acontecimentos, cuja velocidade é perniciosamente sempre mais rápida do que os antídotos, deve ser assegurado. E aí os políticos membros do clube têm que estar muitíssimo bem sintonizados e superiormente assessorados tecnicamente. È que, acaso não se saiba, e para os mais distraídos, que já não os há para além da esquerda irresponsável e nos desmiolados que ainda por cá existem, a finança é um brinquedo muito perigoso.

sábado, 19 de maio de 2012

Como fixar e trazer pessoas para Portugal

Como já por diversas vezes comentei, o suicídio demográfico em curso é o maior desafio que Portugal tem pela frente. O enorme aumento da emigração, que os números do 1º trimestre revelaram ser muito superior ao expectável não é um fenómeno que ajude a inverter o suicídio demográfico, pelo contrário. Impedir os Portugueses de emigrar, além de não ser legalmente e politicamente possível, não resolve o problema de fundo. O problema reside na falta de esperança, que mais não é do que o resultado de falta de ofertas de trabalho atractivas quando comparadas com o potencial de produtividade individual.

Não é expectável que a economia nos próximos 15 a 20 anos seja capaz de proporcionar remunerações que desmotivem o fenómeno da emigração. No entanto, a política pode tomar medidas claras para reter as pessoas. Baixando dramaticamente os escalões de IRS para rendimentos até 10.000 euros / mês para qualquer coisa como 10% a 15% de taxa fixa, e eliminando o IRS para rendimentos até 750 euros /mês, Portugal iria potenciar bastante a sua capacidade de atrair investimento estrangeiro e com isso reter parte da população activa. E muito provavelmente ainda iria atrair muito trabalhador do conhecimento a fixar residência em Portugal, desde que, evidentemente, tenha aeroportos por perto.
Mas acima de tudo Portugal passaria um sinal muito importante à sociedade: de que estudar e trabalhar bem é compensador. Este é, porventura, o melhor tónico de que precisamos em Portugal se queremos resolver o nosso drama demográfico.
Claro que isto teria de ser negociado com a Troika, o que talvez nem seja muito difícil, nomeadamente depois de assistirmos à tragédia Grega que segue dentro de pouco tempo. Mas antes da negociação com a Troika há que ter clarividência no pessoal governativo. E nisso o passado não me deixa nada optimista.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O legado da nossa miséria


Não deve haver mais do que trezentas pessoas interessadas na produção de Ricardo Rocha. O fado, inserido no contexto musical, já não está sequer imunizado contra as tentativas de exploração mercantilista. Mas a guitarra portuguesa continua a ser um palco pequeno. Tocar em público é escusado e inútil. As tascas tradicionais são a forma de resistência possível, mas até aí a composição para guitarra portuguesa está condicionada aos seus limites. É um instrumento sem futuro que nunca se vai conseguir libertar do fado. Ricardo Rocha conseguiu, ainda assim, levar a guitarra portuguesa a outro nível e criou um reportório solista para um instrumento que não tinha esse reportório. Antes dele, só o Carlos Paredes e o Pedro Caldeira Cabral. Agora não é possível ir mais longe, já não há nada para compor, a guitarra existe para acompanhar a música tradicional portuguesa, desempenha um papel fundamental nesse sentido, mas não vale a pensa pensar que o instrumento alguma vez vai ser mais do que aquilo que é.

No meio disto tudo, Ricardo Rocha começou a tocar piano aos dezasseis anos e tem algumas peças para piano nos seus cds. É o seu instrumento preferido, pelo som e pelas capacidades quase ilimitadas de composição, mas diz que começou a tocar tarde demais e que não é pianista. Assim, o que me interessa nesta história está na tensão entre estes dois instrumentos: a guitarra portuguesa, que é um instrumento limitadíssimo, fisicamente difícil de tocar, doloroso, agudo, e o piano, que é um prazer com as suas possibilidades quase infinitas de composição. E Ricardo Rocha podia ter sido pianista, mas pegou na guitarra do avô quando ainda mal sabia andar e nasceu assim preso aos limites do seu próprio passado. A condição trágica, afinal, de qualquer português. E tudo isto é triste, tudo isto é fado.