segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Acácio

Por duas vezes num curto espaço de tempo o nosso ilustre Conselheiro Acácio, residente no Primo Basílio de Eça de Queiroz, veio à berlinda em textos lúcidos do Professor César das Neves (DN de 5 de Novembro) e do historiador João Ramos (Expresso 29 de Dezembro). Os Acácios terão vivido algures na viragem para o século XX, mas os seus espíritos transcenderam as suas vidas terrenas e ainda hoje fazem furor em muitos domínios da nossa política, embora sobre um prisma diferente. As gentes de hoje não veneram os políticos, sendo prova disso os mimos com que os mesmos são apupados amiúde. Mas têm ainda uma fé inabalável que o seu futuro depende de algo exterior a si, e, consequentemente, verem nas políticas despesistas a sua tábua de salvação. Um pouco como aquele filho que está naquela fase em que só sabe dizer mal de quem o sustenta mas que é incapaz de se sustentar a si próprio.

Muitos Portugueses, e não só os de esquerda que só sabem andar pendurados nos outros, só vêm a realidade desde que a mesma se lhes apresente expurgada de responsabilidades, ou seja, carregada de direitos e de exigências em total desproporção com os deveres com que se está disposto a contribuir. Não que haja problema em pouco se contribuir em termos de deveres. Somente não se pode exigir mais do que aquilo que se está disposto a dar.
Portugal está como aquele jovem urbano conhecedor dos modos mais sofisticados de como viver cosmopolitismo, com imensas capacidades e discernimento sobre as melhores escolhas da infinita e sugestiva panóplia de bens e serviços existentes, com uma pré-disposição sem freio para exprimir a sua opinião como um verdadeiro connaiseur, e que olha com desdém o passado e todas as dificuldades a ele associadas. Somente lhe falta saber produzir em conformidade de modo a acompanhar toda a sua desenvoltura quando se trata de consumir. E para isto não há Acácios que nos valham, venha o mesmo sob a versão século XIX ou XX (versão século XXI não chegou a haver, coisa que a esquerda ainda não percebeu).
Falta a este Portugal começar a fazer uma coisa que tudo faz mudar: pagar contas. E nada como pagar as próprias contas e responder pelos próprios actos para passar a ver o mundo de outra maneira. Assim vai Portugal.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A queda do tio desmiolado

Poucos olham para o Ministro das Finanças como o melhor ministro das finanças que tivemos nos últimos 28 anos. Acriançados como ainda estamos, é mais do que natural que neste período o melhor ministro das finanças seja odiado e o pior adorado. Na vida civil nunca o austero granjeia muita simpatia. Nunca é o tio forreta racional que cai nas boas graças da criançada, antes é o tio desmiolado que com as suas acções pouco temperadas pelas consequências o que obtém mais sucesso. É sabido que as crianças gostam que os crescidos brinquem de acordo com os seus critérios de diversão, deixando por isso o forreta racional de fora do seu ranking de preferências. Só décadas mais tarde o forreta racional é tido em conta como exemplo, precisamente quando os critérios de condução da vida passaram a ser o da boa governância e da sujeição ao preceito das regras, e já não à sujeição da brincadeira efémera que não olha a consequências. Há como uma passagem de testemunho, não pela mão do desmiolado para o forreta racional, mas pelas mãos da audiência. A norma diz que o desmiolado é de uma natureza tal que não viabiliza qualquer transferência suave de testemunho, pois a sua irracionalidade natural é de difícil compatibilização com quem conduz as coisas com base em argumentos mais sólidos. Assim, por norma, o desmiolado tem poucas décadas para reinar e reserva-se a si mesmo um tombo algures no processo.
 
Portugal está numa fase de passagem de testemunho. A fase é naturalmente dolorosa pois não se imagina que de ânimo leve se troque de forma natural o gozo infantil da pândega irresponsável pelo rigor graúdo da seriedade responsável. O último ano dos últimos 28 anos corresponderam aquela fase da vida em que o tio desmiolado foi desmontado e posto a nu no seu total e absoluto divórcio com a realidade da vida e das suas mais elementares regras de ordenação civil sobre a qual a mesma se edifica. Agora que os sobrinhos cresceram, e com os decorrentes desafios que uma vida adulta impõe, o tio forreta racional tenderá a ser trocado nas preferências relegando assim o tio desmiolado para o cantinho das memórias.

Ainda não sabemos bem se este tio forreta racional é o que melhor nos serve. Sabemos somente que se encontra na categoria que doravante melhor nos serve, pois do tio desmiolado só sobram contas a pagar e outros fardos. Neste momento a vox populi dos sobrinhos produz ainda uns clamores vagos pelo tio desmiolado em perfeita sintonia com o natural temor pela maioridade que já chegou. No entanto, as manifestações revelam um saudosismo já muito fugidio e em plena direcção oposta. Nesta época turbulenta de transferência de preferências restam aos sobrinhos três hipóteses. Ou pôr a cabeça na areia numa reacção pura de negação da realidade, prolongar a criancice por mais uns anos dotando o seu discurso de generalidades puramente ditadas pelo sentimento, o que mais não é do que uma bela candidatura a tio desmiolado da próxima geração, ou um pulo imediato para o patamar da razão e tratar os assuntos com a seriedade e maioridade com que eles devem ser tratados. Assim vai Portugal.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Uma faca de dois gumes

Existem dois factores externos que influenciam a evolução económica de Portugal e sobre os quais não temos a mínima capacidade de influência. A cotação do Euro e a evolução da situação na Grécia. Parece evidente que a situação na Grécia caminha para onde todos sabemos, embora não saibamos quando. A situação da Grécia vai ajudando Portugal num sentido pois enfraquece o Euro e torna as nossas exportações mais competitivas para fora da zona euro, precisamente onde é mais aconselhável crescer. Por outro lado prejudica-nos já que uma eminência da saída da Grécia da zona Euro faz subir os custos de financiamento a prazo para Portugal e para as empresas portuguesas.
 
É neste nó que a nossa economia se vai debatendo e parece que só o tempo terá a capacidade de desmontar este desiderato. A importância de nos desmarcarmos da Grécia é real. Não somos Gregos, nem o queremos ser. Por isso há que continuar a fazer o trabalho de casa e dar tempo ao tempo. Com tempo, e por isso com mais histórico, daremos a possibilidade aos outros de perceberem que cada um pode tratar da sua história e com isso colhermos os benefícios de sermos brindados com taxas de financiamento mais baixas, significando com isso que somos viáveis na zona Euro.
O pior mesmo é se a faca arranja mais gumes. Rezemos para que nuestros hermanos mantengan la calma.

sábado, 10 de novembro de 2012

O ruído anda à solta

Há muitos miseráveis nestes dias sem inibição em demonstrar publicamente a vasta ignorância e irresponsabilidade de que também somos feitos. Ex-governantes com responsabilidades vociferando alarvidades a bom som, e ainda por cima sem problemas em colocar mais lenha seca em pinhal que os mesmos nunca trataram de limpar. Sindicalistas com uma visão do mundo limitada pela sua sombra num 21 de Junho pelas 12 horas sem a mínima noção das consequências dos seus actos. Jornalistas sem noção entre veicular uma notícia e moldar a mesma de acordo com o sentimento dominante, ou ainda sem rédeas em botar livre discurso, e com tom de propriedade, em domínio alheio. Alguns empresários a queixarem-se incrédulos de que o mercado definha por causa da crise o que somente revela que grande parte da classe não entende de macro economia. Pessoas em geral a dizerem tudo o que lhes vem à cabeça em perfeita sintonia com a emoção do momento. Cosmopolitas de verniz ténue muito indignados por não puderem celebrar cosmopolitismo à sua maneira, mas sem a mínima vontade em indagar sobre oportunidades noutras bandas e noutros sectores.
 
Há de tudo, não falta nada. Ou melhor, até falta. Falta a toda essa gente, que a névoa da crise trata de nivelar pela mesma bitola, propor seja o que for como alternativa fundamentada. Desde um PS totalmente infantilizado que toma o jogo numa base de mero interesse político, a uma esquerda radical que acha natural que a irresponsabilidade seja um direito constitucional, pouco há a esperar mais no actual quadro político. Assim, o futuro do país passa por descortinar e seguir o discernido e não a massa palradora incontinente que as circunstâncias tratam de amplificar. O discernido espera que Portugal acalme um pouco enquanto Portugal vai desesperando enquanto espera em encontrar o discernido. Só quem não espera é o mundo. Esse vai andando... e rápido.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Banco alimentar

Estalou um novo escândalo no país: Isabel Jonet veio dizer que existem responsabilidades individuais. Os arautos da indignação fácil associaram-se em protesto porque não concordam que estamos a empobrecer por culpa nossa, atribuindo-a, portanto, a outras pessoas ou entidades. Alguns dizem que a culpa é da troika, outros que é do azar, talvez alguém culpe o sistema ou até a própria Isabel Jonet. O que esta gente tem a certeza é que a culpa não é nossa. Nós somos as vítimas. Mais: nós somos os salvadores da nação porque contribuímos para a luta contra a fome com um ou dois pacotes de arroz por ano.

A ironia que pesa sobre a situação reside no carácter abstracto e obviamente ideal que a luta contra a fome tem para os contestatários, uma vez que para Isabel Jonet a causa é concreta há mais de vinte anos. E se o Banco Alimentar funciona graças à boa vontade de pessoas individuais também é verdade que isso só acontece porque existe alguém que faz uso do seu tempo para organizar uma plataforma que permite às pessoas ajudar. Por falar nisso o cerne da questão é mesmo esse: o Banco Alimentar funciona e bem.

De resto, trata-se de um axioma: as pessoas vivem acima das suas possibilidades, compram demais e consomem o que não precisam. É assim e nunca há-de mudar. Felizmente, porém, ainda há quem seja capaz de atenuar as feridas do problema. Obrigado, Isabel Jonet.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O Sporting e o modelo de gestão

O Sporting anda há dez anos a fazer o que não sabe: compra e venda de jogadores. O clube contrata quase sempre mal e raramente consegue valorizar os jogadores. Entre contratações falhadas e jogadores desvalorizados, um exemplo sintomático é o de Bojinov: custou 3 milhões, ganhava 1 milhão por ano, fez oito jogos, sete dos quais a suplente, e foi cedido a custo zero para a segunda divisão italiana. O panorama geral é assustador: desde a criação da SAD o Sporting gastou 229 milhões em jogadores e conseguiu encaixar apenas 166, perfazendo um saldo negativo acumulado de 63 milhões. Pelo meio o fracasso desportivo é evidente.

O problema não está tanto na estratégia, mas sim na inadequação dos recursos e capacidades do clube com a estratégia. O FC Porto também tem uma estratégia apoiada em compra e venda de jogadores e é um caso de sucesso. Antero Henriques, dirigente do FC Porto, explicou as razões à revista France Football: um sector de recrutamento mais rápido que o dos adversários, com mercados-alvo definidos, apoiado em 250 olheiros espalhados pelo mundo, com vários níveis de observação. Uma estrutura sólida, métodos de trabalho bem implementados e o resultado está à vista. Exemplo sintomático: Cissokho, contratado por 300 mil euros, vendido por 15 milhões.

No Sporting, no entanto, não existem esses recursos: não há nenhuma estrutura de recrutamento, não há estabilidade para valorização dos jogadores, não há capacidade de negociação, etc. E é por esta falta de recursos para a compra e venda de jogadores que o modelo dos últimos anos tem sido um fracasso em Alvalade. Existe, no entanto, um recurso que distingue o Sporting de todos os outros: a formação. Aí sim há estruturas. Olheiros, métodos de treino, apoios aos jovens, a academia. É preciso mudar de estratégia e capitalizar aquilo que o clube faz melhor que os outros.

Assim, o modelo que eu defendo para o Sporting é um modelo apoiado na formação. Um grande treinador, de créditos firmados, para potencializar os jovens saídos da formação, dois ou três jogadores de nível internacional e sete ou oito jogadores da cantera no onze inicial. E estes não precisam de ter 18 anos, uma vez que o modelo acaba por se tornar sustentável, com os jogadores a ficarem várias épocas no clube. Os mais espetaculares, aqueles que têm mesmo quer ser vendidos, equilibram as finanças do clube e vão brilhar para outros palcos europeus e para a selecção nacional.

Estamos a perder a guerra porque estamos a lutar no campo de batalha errado. É uma evidência: este modelo de compra e venda de jogadores está completamente falido. Chegou a altura de apostar verdadeiramente na formação.

domingo, 21 de outubro de 2012

A miséria dos reality-shows

Todos se divertem muito com os reality-shows da televisão portuguesa. Todos satisfazem as suas necessidades de entretenimento com o dia-a-dia grosseiro de certos representantes da boçalidade extrema. A mediania que assola o país é terrível: todos preferem a casa dos segredos aos segredos da vida. Avaliar se a vida vale a pena ser vivida, se tem um sentido, isso implica uma tomada de consciência demasiado profunda e por isso, porque é mais fácil, todos preferem ocupar o tempo em frente à televisão.

Segundo T.S. Eliot, em Notas Para Uma Definição de Cultura, tudo o que o tempo nos traz é perda; o ganho ou a compensação é quase sempre concebível, mas nunca certo. Ora, uma vez que o tempo gasto com reality-shows não é certamente compensação e muito menos ganho, tudo o que nos resta é perda. Enquanto vemos a casa dos segredos, o tempo vai passando, a morte aproxima-se.

A morte, a nossa, parece sempre um posto distante. Mas a verdade é que a nossa vida é marcada por essa certeza e mesmo a ânsia de entretenimento, no fundo, não passa de uma forma de distrair a mente da perturbação existencial. Em doses pequenas isso é positivo. Em edições consecutivas e com constantes recordes de audiências, no entanto, representa a sujeição de um povo à mediania.

sábado, 20 de outubro de 2012

O Choque

Está quase a chegar o momento em que os Portugueses do sector privado se vão revoltar contra os Portugueses do sector público. É só dar mais um tempinho de austeridade aos trabalhadores privados por incapacidade de despedir pessoas no sector público e veremos os primeiros a ficarem realmente aborrecidos com o que se está a passar. E se o fenómeno ainda não emergiu é porque há ainda pouca consciência de que os primeiros pagam parcialmente os ordenados dos segundos, e ainda porque a má imagem que os políticos têm faz acreditar que os seus dislates incompetentes e a corrupção existente são a causa maior da dívida pública acumulada, pelo que resolvida esta questão arruma-se o assunto e fica tudo bem.
 
Aparte da incompetência e dos dislates tontos dos políticos existe um problema absurdamente grande de funcionalismo público na nossa sociedade e de toda uma teia de interesses que gravita à volta do orçamento. É este funcionalismo que é preciso rebentar. É da mais elementar injustiça que metade de uma sociedade viva em socialismo e a outra em capitalismo. Que uns tenham que acelerar para ganhar X e que outros se orgulhem de travar com a garantia de que ganham mais do que X e ainda por cima conscientes de que nada lhes acontece. Isto é absurdo e indigno. E se dúvidas existem sobre a equidade entre uns e outros então questionemo-nos porque não existem funcionários públicos que emigram ou que são despedidos. Ou que saiam do sector público para o sector privado.
 
Um dos motivos porque se emigra tanto tem que ver com esta situação absurda de cultura de “direitos adquiridos” existente na função pública. Os direitos nunca são adquiridos. Os direitos são algo por que se luta para serem alcançados com tanta energia quanto aquela que é preciso despender para os manter. O “adquirido” requer esforço, não desleixo e arrogância resultante da posse. Ora é este hiato em protelar o rebentar do “direito adquirido” que também faz com que o mais afoito e dinâmico se ponha ao fresco para ambientes mais arejados. Que motivação pode sobrar para um recém-licenciado quando o mesmo se consciencializa de que existem uma cambada de incompetentes do sector público que lhes tapam o caminho por não puderem ser despedidos e trocados por si? Que motivação pode haver em saber que os impostos que ele paga são para pagar o ordenado do arrogante que por “direito adquirido” ganha mais do que ele e produz muito menos?
Uma sociedade para progredir tem que dar espaço para os melhores puderem trilhar o seu caminho. Infelizmente os poderes políticos não tratam deste assunto com a importância que o mesmo tem. Por este caminho a coisa pode acabar mal.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Yo Man

As prateleiras das livrarias estão repletas de livros pré-fabricados, bestas céleres (na brilhante expressão de Alexandre O’neill) escritas com o único objectivo de atingir tops de vendas. O resto é literatura, mas essa tem quase sempre pouco espaço, uma vez que, na maioria dos casos, qualidade literária não é sinónimo de sucesso comercial. A propósito disso, Mo Yan, o vencedor do Prémio Nobel da Literatura deste ano, tem apenas um livro publicado em Portugal e este não só não está em nenhuma livraria como ninguém sabe se o livro está guardado em algum armazém ou se foi reduzido a pasta de papel. Mas agora, com a notoriedade do prémio, vão surgir novas edições e a cara nunca antes vista de Mo Yan vai invadir os escaparates e os mostruários das exposições livreiras. Com efeito, os prémios e galardões atribuídos por academias de intelectuais são da maior importância para o leitor-tipo português: crédulo, simplório e incauto.

A ironia disto tudo reside no seguinte: até pode ser que Mo Yan seja um grande escritor, mas distinções destas são o que menos interessa ao leitor de literatura séria (chamemos-lhe assim). E mais: deliberações globais como esta têm sempre um programa político adjacente. Neste caso a lógica dos suecos é estranha, uma vez que Mo Yan é considerado um autor não independente, alinhado com o regime chinês e dissociado das lutas políticas. Como a Europa precisa de exportar para a China, talvez o prémio seja uma espécie de bajulação ao Governo Chinês. Estou a supor, mas o que eu sei de certeza é que o prémio não é um acórdão ou uma jurisprudência de qualidade literária.

O Prémio Nobel, no fundo, é sobretudo um pilar do mercantilismo cultural, apoiado em critérios que nem sempre são literários. Houve sete suecos que ganharam o prémio: Tomas Tranströmmer, Harry Martinson, Eyvind Johnson, Pär Lagerkvist, Erik Axel Karlfeldt, Verner von Heidenstam e Selma Lagerlöf. Sem argumentos para a distinção ficaram James Joyce, Jorge Luis Borges, Franz Kafka, Lev Tolstoi, Vladimir Nabokov, Marcel Proust, Julio Cortazar e muitos mais. Está bem, está. Boa graça.  A realidade é que o Prémio Nobel não passa de uma curiosidade pitoresca no meio literário.

domingo, 14 de outubro de 2012

Definição de objectivos, prescrições e dosagens

Parece que o Governo de Portugal se anda a precipitar na prescrição a aplicar e nas dosagens da medicina. Começa a ser evidente que a austeridade anda a ser um pouco aplicada à toa. Tão evidente quanto a evidência de que precisamos de austeridade. Todos, ou quase todos, sabemos que precisamos de austeridade, mas só alguns parecem entender onde é que a mesma deve ser realmente aplicada. Aos outros, a grande maioria, é-lhes reservado um lugar na bancada onde, por direito, podem escrutinar da competência da medicina a aplicar. E à falta de competência para efetuar o julgamento, o feeling e o benefício da dúvida poderão ser bons substitutos do discernimento sobre a matéria macro económica em causa.
 
O problema nesta fase é que as mais recentes medidas não estão em sintonia com nenhuma estratégia que antecipadamente se deveria ter explicitado aos Portugueses. Ou seja, são medidas a martelo. E isso preocupa, com fundamento, as pessoas. Se desde o início houvera o Governo explicitado que haveria que montar uma economia voltada para a exportação por contraponto de uma economia montada para o consumo interno, seria bem mais fácil de implementar todas as medidas em prol desse objectivo. Por exemplo, a população aceitaria muito mais políticas de aumentos de impostos sobre o consumo e alívio de impostos sobre a produção, ainda que isso prejudicasse, pela ordem natural das coisas, alguns segmentos específicos da população.
 
Por o Governo não ter delineado uma missão específica sobre a economia, ficamos agora ao sabor do livre arbítrio de medidas financeiras avulsas e desconexas com uma estratégia. Ora isto perturba a população, tal como um paciente ficaria perturbado por ver que o seu médico não persegue nenhuma estratégia para a cura da sua maleita. Fatalmente o curador começa a errar nas prescrições e nas dosagens, o que deteriora a confiança do doente.
 
Mais uma vez os Governos não compreendem que deverão, à semelhança de qualquer organização, ter missões específicas, objectivos claros, e estratégias calendarizadas que conduzam ao alcance desses objectivos. Este Governo sabe muito bem qual a sua missão: tornar Portugal um país viável dentro da zona euro. Sabe razoavelmente bem que estratégias seguir: é o documento da Troika. Só anda um bocadinho falho nos seus objectivos, que de entre outros, tem como dos mais importantes o construir uma economia voltada para a exportação, construir uma sociedade meritocrática e positivamente discricionária.
 
Uma vez bem definidos, compreendidos, e explicitados estes objectivos, será muito mais fácil a população aceitar as medidas correspondentes para alcançar esses objectivos. E em paralelo será muito mais fácil ao Governo acertar as medidas adequadas e as dosagens correctas.