terça-feira, 23 de outubro de 2012

O Sporting e o modelo de gestão

O Sporting anda há dez anos a fazer o que não sabe: compra e venda de jogadores. O clube contrata quase sempre mal e raramente consegue valorizar os jogadores. Entre contratações falhadas e jogadores desvalorizados, um exemplo sintomático é o de Bojinov: custou 3 milhões, ganhava 1 milhão por ano, fez oito jogos, sete dos quais a suplente, e foi cedido a custo zero para a segunda divisão italiana. O panorama geral é assustador: desde a criação da SAD o Sporting gastou 229 milhões em jogadores e conseguiu encaixar apenas 166, perfazendo um saldo negativo acumulado de 63 milhões. Pelo meio o fracasso desportivo é evidente.

O problema não está tanto na estratégia, mas sim na inadequação dos recursos e capacidades do clube com a estratégia. O FC Porto também tem uma estratégia apoiada em compra e venda de jogadores e é um caso de sucesso. Antero Henriques, dirigente do FC Porto, explicou as razões à revista France Football: um sector de recrutamento mais rápido que o dos adversários, com mercados-alvo definidos, apoiado em 250 olheiros espalhados pelo mundo, com vários níveis de observação. Uma estrutura sólida, métodos de trabalho bem implementados e o resultado está à vista. Exemplo sintomático: Cissokho, contratado por 300 mil euros, vendido por 15 milhões.

No Sporting, no entanto, não existem esses recursos: não há nenhuma estrutura de recrutamento, não há estabilidade para valorização dos jogadores, não há capacidade de negociação, etc. E é por esta falta de recursos para a compra e venda de jogadores que o modelo dos últimos anos tem sido um fracasso em Alvalade. Existe, no entanto, um recurso que distingue o Sporting de todos os outros: a formação. Aí sim há estruturas. Olheiros, métodos de treino, apoios aos jovens, a academia. É preciso mudar de estratégia e capitalizar aquilo que o clube faz melhor que os outros.

Assim, o modelo que eu defendo para o Sporting é um modelo apoiado na formação. Um grande treinador, de créditos firmados, para potencializar os jovens saídos da formação, dois ou três jogadores de nível internacional e sete ou oito jogadores da cantera no onze inicial. E estes não precisam de ter 18 anos, uma vez que o modelo acaba por se tornar sustentável, com os jogadores a ficarem várias épocas no clube. Os mais espetaculares, aqueles que têm mesmo quer ser vendidos, equilibram as finanças do clube e vão brilhar para outros palcos europeus e para a selecção nacional.

Estamos a perder a guerra porque estamos a lutar no campo de batalha errado. É uma evidência: este modelo de compra e venda de jogadores está completamente falido. Chegou a altura de apostar verdadeiramente na formação.

domingo, 21 de outubro de 2012

A miséria dos reality-shows

Todos se divertem muito com os reality-shows da televisão portuguesa. Todos satisfazem as suas necessidades de entretenimento com o dia-a-dia grosseiro de certos representantes da boçalidade extrema. A mediania que assola o país é terrível: todos preferem a casa dos segredos aos segredos da vida. Avaliar se a vida vale a pena ser vivida, se tem um sentido, isso implica uma tomada de consciência demasiado profunda e por isso, porque é mais fácil, todos preferem ocupar o tempo em frente à televisão.

Segundo T.S. Eliot, em Notas Para Uma Definição de Cultura, tudo o que o tempo nos traz é perda; o ganho ou a compensação é quase sempre concebível, mas nunca certo. Ora, uma vez que o tempo gasto com reality-shows não é certamente compensação e muito menos ganho, tudo o que nos resta é perda. Enquanto vemos a casa dos segredos, o tempo vai passando, a morte aproxima-se.

A morte, a nossa, parece sempre um posto distante. Mas a verdade é que a nossa vida é marcada por essa certeza e mesmo a ânsia de entretenimento, no fundo, não passa de uma forma de distrair a mente da perturbação existencial. Em doses pequenas isso é positivo. Em edições consecutivas e com constantes recordes de audiências, no entanto, representa a sujeição de um povo à mediania.

sábado, 20 de outubro de 2012

O Choque

Está quase a chegar o momento em que os Portugueses do sector privado se vão revoltar contra os Portugueses do sector público. É só dar mais um tempinho de austeridade aos trabalhadores privados por incapacidade de despedir pessoas no sector público e veremos os primeiros a ficarem realmente aborrecidos com o que se está a passar. E se o fenómeno ainda não emergiu é porque há ainda pouca consciência de que os primeiros pagam parcialmente os ordenados dos segundos, e ainda porque a má imagem que os políticos têm faz acreditar que os seus dislates incompetentes e a corrupção existente são a causa maior da dívida pública acumulada, pelo que resolvida esta questão arruma-se o assunto e fica tudo bem.
 
Aparte da incompetência e dos dislates tontos dos políticos existe um problema absurdamente grande de funcionalismo público na nossa sociedade e de toda uma teia de interesses que gravita à volta do orçamento. É este funcionalismo que é preciso rebentar. É da mais elementar injustiça que metade de uma sociedade viva em socialismo e a outra em capitalismo. Que uns tenham que acelerar para ganhar X e que outros se orgulhem de travar com a garantia de que ganham mais do que X e ainda por cima conscientes de que nada lhes acontece. Isto é absurdo e indigno. E se dúvidas existem sobre a equidade entre uns e outros então questionemo-nos porque não existem funcionários públicos que emigram ou que são despedidos. Ou que saiam do sector público para o sector privado.
 
Um dos motivos porque se emigra tanto tem que ver com esta situação absurda de cultura de “direitos adquiridos” existente na função pública. Os direitos nunca são adquiridos. Os direitos são algo por que se luta para serem alcançados com tanta energia quanto aquela que é preciso despender para os manter. O “adquirido” requer esforço, não desleixo e arrogância resultante da posse. Ora é este hiato em protelar o rebentar do “direito adquirido” que também faz com que o mais afoito e dinâmico se ponha ao fresco para ambientes mais arejados. Que motivação pode sobrar para um recém-licenciado quando o mesmo se consciencializa de que existem uma cambada de incompetentes do sector público que lhes tapam o caminho por não puderem ser despedidos e trocados por si? Que motivação pode haver em saber que os impostos que ele paga são para pagar o ordenado do arrogante que por “direito adquirido” ganha mais do que ele e produz muito menos?
Uma sociedade para progredir tem que dar espaço para os melhores puderem trilhar o seu caminho. Infelizmente os poderes políticos não tratam deste assunto com a importância que o mesmo tem. Por este caminho a coisa pode acabar mal.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Yo Man

As prateleiras das livrarias estão repletas de livros pré-fabricados, bestas céleres (na brilhante expressão de Alexandre O’neill) escritas com o único objectivo de atingir tops de vendas. O resto é literatura, mas essa tem quase sempre pouco espaço, uma vez que, na maioria dos casos, qualidade literária não é sinónimo de sucesso comercial. A propósito disso, Mo Yan, o vencedor do Prémio Nobel da Literatura deste ano, tem apenas um livro publicado em Portugal e este não só não está em nenhuma livraria como ninguém sabe se o livro está guardado em algum armazém ou se foi reduzido a pasta de papel. Mas agora, com a notoriedade do prémio, vão surgir novas edições e a cara nunca antes vista de Mo Yan vai invadir os escaparates e os mostruários das exposições livreiras. Com efeito, os prémios e galardões atribuídos por academias de intelectuais são da maior importância para o leitor-tipo português: crédulo, simplório e incauto.

A ironia disto tudo reside no seguinte: até pode ser que Mo Yan seja um grande escritor, mas distinções destas são o que menos interessa ao leitor de literatura séria (chamemos-lhe assim). E mais: deliberações globais como esta têm sempre um programa político adjacente. Neste caso a lógica dos suecos é estranha, uma vez que Mo Yan é considerado um autor não independente, alinhado com o regime chinês e dissociado das lutas políticas. Como a Europa precisa de exportar para a China, talvez o prémio seja uma espécie de bajulação ao Governo Chinês. Estou a supor, mas o que eu sei de certeza é que o prémio não é um acórdão ou uma jurisprudência de qualidade literária.

O Prémio Nobel, no fundo, é sobretudo um pilar do mercantilismo cultural, apoiado em critérios que nem sempre são literários. Houve sete suecos que ganharam o prémio: Tomas Tranströmmer, Harry Martinson, Eyvind Johnson, Pär Lagerkvist, Erik Axel Karlfeldt, Verner von Heidenstam e Selma Lagerlöf. Sem argumentos para a distinção ficaram James Joyce, Jorge Luis Borges, Franz Kafka, Lev Tolstoi, Vladimir Nabokov, Marcel Proust, Julio Cortazar e muitos mais. Está bem, está. Boa graça.  A realidade é que o Prémio Nobel não passa de uma curiosidade pitoresca no meio literário.

domingo, 14 de outubro de 2012

Definição de objectivos, prescrições e dosagens

Parece que o Governo de Portugal se anda a precipitar na prescrição a aplicar e nas dosagens da medicina. Começa a ser evidente que a austeridade anda a ser um pouco aplicada à toa. Tão evidente quanto a evidência de que precisamos de austeridade. Todos, ou quase todos, sabemos que precisamos de austeridade, mas só alguns parecem entender onde é que a mesma deve ser realmente aplicada. Aos outros, a grande maioria, é-lhes reservado um lugar na bancada onde, por direito, podem escrutinar da competência da medicina a aplicar. E à falta de competência para efetuar o julgamento, o feeling e o benefício da dúvida poderão ser bons substitutos do discernimento sobre a matéria macro económica em causa.
 
O problema nesta fase é que as mais recentes medidas não estão em sintonia com nenhuma estratégia que antecipadamente se deveria ter explicitado aos Portugueses. Ou seja, são medidas a martelo. E isso preocupa, com fundamento, as pessoas. Se desde o início houvera o Governo explicitado que haveria que montar uma economia voltada para a exportação por contraponto de uma economia montada para o consumo interno, seria bem mais fácil de implementar todas as medidas em prol desse objectivo. Por exemplo, a população aceitaria muito mais políticas de aumentos de impostos sobre o consumo e alívio de impostos sobre a produção, ainda que isso prejudicasse, pela ordem natural das coisas, alguns segmentos específicos da população.
 
Por o Governo não ter delineado uma missão específica sobre a economia, ficamos agora ao sabor do livre arbítrio de medidas financeiras avulsas e desconexas com uma estratégia. Ora isto perturba a população, tal como um paciente ficaria perturbado por ver que o seu médico não persegue nenhuma estratégia para a cura da sua maleita. Fatalmente o curador começa a errar nas prescrições e nas dosagens, o que deteriora a confiança do doente.
 
Mais uma vez os Governos não compreendem que deverão, à semelhança de qualquer organização, ter missões específicas, objectivos claros, e estratégias calendarizadas que conduzam ao alcance desses objectivos. Este Governo sabe muito bem qual a sua missão: tornar Portugal um país viável dentro da zona euro. Sabe razoavelmente bem que estratégias seguir: é o documento da Troika. Só anda um bocadinho falho nos seus objectivos, que de entre outros, tem como dos mais importantes o construir uma economia voltada para a exportação, construir uma sociedade meritocrática e positivamente discricionária.
 
Uma vez bem definidos, compreendidos, e explicitados estes objectivos, será muito mais fácil a população aceitar as medidas correspondentes para alcançar esses objectivos. E em paralelo será muito mais fácil ao Governo acertar as medidas adequadas e as dosagens correctas.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Português é Civilizado?!

"Civilização" deriva de Civitas. "Urbanidade" (expressão menos usual em português falado) deriva de Urbs. De onde se poderia concluir abusivamente que as pessoas mais "educadas" fossem aquelas que vivem na cidade.

A educação deriva, obviamente, do respeito pelos outros. Da noção de que não merecemos mais do que outra pessoa. Esse grau de respeito pelos outros pode manifestar-se, por exemplo, no modo como um cidadão "urbano" cede a passagem a alguém que caminha ao seu lado, quando a passagem não permite que passem a par - porém, esses códigos de etiqueta não são garantia de verdadeira educação.

Se não, vejamos: Cascais (onde moro) goza da fama de ser um local onde mora gente endinheirada - e no entanto o que vejo, quando guio pela A5, são carros de grande cilindrada que aceleram à velocidade da luz e que vão fazendo sinais com os faróis para qualquer infeliz que não tenha um carro tão caro - ou pelo menos que não o guie à mesma velocidade - e que naquele momento esteja a privá-lo do livre acesso da autoestrada.

Outro tique que felizmente está a sair de moda é o de circular de noite, sobretudo com bastante trânsito, com os faróis de nevoeiro acesos. Presumo que o acto, na ausência de nevoeiro, pretenda assumir uma presença "ameaçadora", de tal modo que as pessoas se lhe esquivem. Nesses tempos, também haviam menos carros com faróis de nevoeiro - de onde se podia extrair a mensagem: «cá vou eu com o meu carro com faróis de nevoeiro». A moda pode ter passado por causa de terem passado a haver mais carros equipados dos ditos - ou, mais provavelmente, porque as pessoas passaram a ser multadas por andarem a guiar com os faróis de nevoeiro ligados, sem haver nevoeiro.

Particularmente penoso é o cenário ao fim da tarde daqueles que saem da CRIL para a A5, "queimando" minutos e carros na fila, ao habilmente intrometer o nariz do automóvel entre dois carros que, se calhar, estão na bicha há uns minutos, aguardando ordeiramente a vez de entrar na auto-estrada. Uma tristeza parecida é ver a mesma calamidade no sentido contrário, de manhã ou em dias de jogo do Benfica, quando os carros saem da CRIL para a 2ª circular (nó da Buraca).

O prémio máximo da má educação é porém a triste figura que alguns fazem na famosa "chicane" da estação de serviço do Estádio Nacional, ainda na A5: uns espertos que passam por dentro da área de serviço, para regressar à autoestrada mais à frente, e ganhar um ou dois minutos de fila com esta linda manobra. Não sei se o «blog» tem muitos leitores - mas se os tiver, de certeza que haverão entre eles algum habilidosos desses.

Os Beatles escreveram: Money Can't Buy Me Love. Claramente, também não compra a educação.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Portugal de rabo na boca



O único consenso que existe entre os portugueses é o seguinte: todos estão contra. A maior parte não tem alternativas sérias e os que as têm conseguem apenas reunir alguns amigos em capelinhas. Com efeito, os portugueses estão todos contra os impostos e até aceitam que se deve cortar na despesa, mas quando essa hora chega todos estão mais uma vez contra, porque não querem ver o fim do estado social, que é um grande amigo e protector, que nos oferece excelentes serviços na saúde, nos transportes públicos, na educação, na cultura, etc. Assim, os manifestantes do contra complicam ainda mais o que já era complicado devido a uma constituição estúpida e a ladroagem no poder põe-se a subir os impostos, simplesmente porque é mais fácil e porque o limite do que os portugueses aguentam pode estar, quem sabe, ligeiramente mais longe.

Roubam-nos, perdem com isso e roubam-nos novamente, como se esperassem outro resultado. O que os ladrões não percebem é que há um ponto a partir do qual o aumento dos impostos passa a reduzir a receita do covil. É isso que nos diz a Curva de Laffer (se por ladrões entendermos governo e por covil estado) e embora não exista nenhuma forma exacta de calcular o ponto de inflexão, a verdade é que é bastante provável que o tenhamos atingido já. Com um nível insuportável de impostos, consumimos muito menos, as empresas abrem falência, o desemprego aumenta, o consumo volta a cair e assim sucessivamente. A conclusão disto é que o covil arrecada menos dinheiro, o saldo orçamental agrava-se, a economia fica completamente estragada, não se resolve o problema da balança comercial e nós vamos à falência.

Esta pescadinha de rabo na boca vai ter desfechos mirabolantes, uma vez que os melhores e mais jovens vão emigrar, alguns vão ficar sem alternativas e outros vão procurar na fuga ao fisco e na economia paralela um modo de vida. Assim, não quero estar a exagerar, mas julgo que Portugal amanhã vai ser um palco de misérias repleto de jogadores, prostitutas, traficantes, corruptos, malandros, burlões, falsários, gatunos, trafulhas, drogados, alcoólicos, abortistas, loucos, falidos e vadios.

sábado, 6 de outubro de 2012

A crise escondida

Ultimamente temos observado na nossa praça um verdadeiro grito de revolta contra a situação que Portugal vai experimentando. Compreensível para quem somente encontra no sentimento uma relação com os factos. Mas inadmissível a quem se exige, e espera, com responsabilidade possuir fórmulas alternativas viáveis, sejam elas quais forem. Ora o que se vê é que a classe política e pensante é incapaz de propor uma alternativa concreta, quanto mais um plano metódico e calendarizado.
 
O espetáculo a que se assiste por parte da oposição é do mais incómodo que se possa imaginar. Para que a democracia revele todo o seu bom potencial é necessário que as partes apresentem propostas concretas, e sempre que possível calendarizadas, o que na situação atual é imperativo. O povo agradeceria, e o debate sairia naturalmente enriquecido. Ao não fornecer alternativas, a oposição simplesmente funciona como um amplificador do sentimento de rua. Ora isto é pura irresponsabilidade nas atuais circunstâncias. Neste particular realce-se o péssimo comportamento do PS, que para além de ser um dos responsáveis pelas causas que nos levaram a este ponto, assina um acordo internacional com o qual se demarca quando os efeitos do cumprimento do mesmo afectam a população. Ora isto é de uma falta de carácter sem paralelo e um péssimo exemplo para a sociedade.
A crise, para além de financeira, mas essencialmente económica, encontra nos actuais representantes políticos muitas evidências de que a crise se estende à própria democracia e de como os seus intérpretes a vêm. A crise, afinal, também é uma crise de pessoas de bem que não estão dispostas a fazer política. Neste ponto não há Troika que nos valha. Só depende de nós.

domingo, 16 de setembro de 2012

Há que explicar o que se pretende


Os Portugueses andam confusos. E com razão. O Governo não explica o motivo de fundo porque anda a tomar as medidas difíceis e impopulares que vêm sendo anunciadas. Do pouco que transmite parece que o défice é tomado como o único critério pelo qual se mede o sucesso ou insucesso do programa de ajustamento. Como se não existissem outros aspectos da nossa vida económica e financeira que faltam ser ajustados na economia portuguesa. Neste momento o problema maior do Portugueses é menos o coercivo ajustamento macro económico em curso e mais a explicação do que se passou nos últimos 25 anos e da transformação que é imperativa levar a cabo.
Sabemos que ninguém tem de ser especialista em macro economia, termo que só por si tem tanto de atraente como de incompreensível. Tanto mais que o mesmo só aparece quando é necessário proceder a um ajustamento. Mas este facto não justifica a falta da explicação que é devida aos portugueses. Como se quem tivesse um cancro e precisasse de sessões de quimioterapia lhe fosse negada a explicação do tratamento por parte do médico, que aparte de não divulgar a doença em causa, se limita a dizer que o tratamento é necessário porque é o que deve ser feito. Naturalmente o doente ficaria confuso por não conseguir avaliar da bondade da terapia por não conhecer a doença de que padece, revoltado por não saber se de facto a dita terapia leva a algum lado, e extremamente irritado pelo incómodo das sessões. Este é o ponto em que encontra Portugal: voluntariado à força para se submeter a um tratamento do qual desconhece o objectivo do mesmo, embora conheça os seus sintomas funestos, e para cúmulo ainda lhe é vedado a explicação do mal de que padece.

Portugal tem um cancro que se não for devidamente tratado pode levar o país a uma banca rota. Nos últimos 25 anos muitas células desenvolveram-se em Portugal muito para além do número suportável. E em paralelo muitas outras foram mortas e que afinal eram essenciais manter. Criámos muitas empresas de construção civil para produzir muitas coisas para as quais não tínhamos dinheiro e tão pouco a necessidade. Criámos muitas empresas para vender automóveis para servir o país de carros para os quais não tinha dinheiro suficiente para comprar. Criámos muito mais oferta de restauração para servir pessoas que não tinham dinheiro para os frequentar. Matámos demasiadas empresas em sectores que não devíamos, e emitimos sinais para criar demasiadas empresas em sectores onde o tempo provou que não tanta necessidade. Abandonámos os campos, a pesca, e muitas outras actividades que aprendemos a desdenhar, tal como o servir os outros (trabalhos domésticos e de limpeza) e trabalhos relacionados com a construção, preferindo substituirmo-nos por imigrantes importados de países de Leste e outros.

E embora alguns médicos fossem avisando para o cancro que se estava a desenvolver (sim, a partir de 1995 muitos economistas já avisavam Portugal do que se estava a passar), preferimos o caminho da facilidade em coisas tão básicas como o adquirir formação e em acreditar que tudo ia ser fácil. Negámo-nos à consciência de tudo o que é necessário para um sistema que permita o desenvolvimento de células mais fortes, tais como negligenciarmos o sistema de Justiça e de sermos continuadamente benevolentes para com os aldrabões, coisa que vai do especialista em não pagar rendas de casa àquele que continuadamente pensa que pode viver eternamente à sombra do próximo (incluam-se os aparelhistas que grassam nos partidos políticos).
Negámos a doença e demos-lhe gás para se desenvolver ainda mais. Firmámos contractos para parcerias público/privadas para adquirir bens no futuro cuja necessidade não existe e a um preço absurdo, dando aso a que se especule com muito fundamento sobre um rol enorme de corrupção entre governantes e empresas privadas. Deixámo-nos embebedar no crédito sem tomar em linha de conta de que o mesmo deverá ser canalizado primordialmente para a produção e muito menor grau para o consumo, desvirtuando princípios de equilíbrio básico entre produção e consumo. E do pouco que ia seguindo para dar gás à produção não foi exigido o equilíbrio mínimo entre o dinheiro que se pede emprestado e o dinheiro próprio, habituando-se o empresariado a pensar que o montante a investir tem que vir todo do capital alheio e não numa relação que deve ser entre 30/70 até 60/40 (e neste último limite só para casos muito especiais).

Enchemos a célula do Estado com muito mais organizações e institutos disto e daquilo sem ter em conta a capacidade da Economia privada em suportar esse crescimento. Como se o Estado fosse o motor da economia. Obrigámos a banca a preterir o financiamento à economia privada de modo a canalizar o dinheiro para financiar os défices crescentes das empresas públicas e do défice público.
O que há a fazer é basicamente destruir todas as células a mais que eram perniciosas e produzir células de que necessitamos. É bom que muitas empresas de construção e outras associadas a esta actividade vão à falência. É bom que muitas empresas de vendas de automóveis vão à falência. Seria óptimo que não tivéssemos tantos professores pois não precisamos de tantos. É bom que muitos bancos fechem agências. É bom que muitos restaurantes fechem. Seria óptimo despedir muitos funcionários públicos. A lista poderia continuar. Com a libertação de muitos recursos das células mortas é possível que outras células surjam. Em que actividades? Bom, não sou socialista, por isso debito a resposta que resta. Quem melhor determina as células que devem ser criadas são os empresários. Acredito que quem cria trabalhos reais, e não trabalhos a fingir, é o empresariado. E destes, os verdadeiros, não os a fingir como aqueles que se atiram para a frente com demasiado dinheiro emprestado e pouco do seu bolso. E à desculpa clássica de que há pouco dinheiro próprio que façam como se faz nos países mais desenvolvidos: associem-se.

A velocidade com que isto tem que ser feito é o ponto mais sensível da cura e onde é extremamente difícil dar a resposta certa. O que se sabe é que o Governo tem que emitir todos os sinais e incentivos para a destruição das células perniciosas e outros sinais para a criação das células que importam desenvolver. É do mais elementar bom senso que teremos que nos tornar numa sociedade exportadora para resolver grande parte dos nossos desequilíbrios. Neste ponto o consenso é total. É aqui que o Estado tem um papel enorme a fazer: tomar todas as medidas e mais algumas de modo a que exportemos muito mais. É aqui que se encontra a luz. É aqui que é preciso comunicar aos portugueses de que vale a pena fazer o que está a ser feito. Como garantir que estimulamos de facto as exportações?
Medidas:

1.       A já anunciada descida da TSU por parte da entidade empregadora em desfavor do trabalhador.

2.       Descer substancialmente o IRS por contrapartida do aumento do IVA. Há que penalizar o consumo e estimular a produção. Sem contar que se dá a opção de poupança a quem o pretenda fazer. Por outro lado estimula-se o mais produtivo.

3.       Redução acentuada dos custos de contexto, nomeadamente os respeitantes a licenciamentos e os relacionados com a Justiça e cobranças.

4.       Redução muito acentuada do imposto sobre os produtos petrolíferos e aumento muito acentuado do imposto de circulação. Que um compense o outro.

5.       O Estado pagar a tempo e horas. Não será difícil canalizar o dinheiro que afinal não foi necessário para capitalizar a banca para este fim. Há que definitivamente por um ponto final neste trauma nacional.

6.       Plano de redução do IRC do tipo 1,5 pontos percentuais por ano por um período de 10 anos. Objectivo final será termos uma taxa de IRC à volta de 10%.
Há que veicular explicitamente e à viva voz que Portugal vai ter de ser forçosamente uma sociedade exportadora. Só sociedades exportadoras se tornam sociedades dinâmicas onde o progresso é extensível a uma grande maioria, onde a meritocracia marca o ritmo e os “penduras” têm menos hipóteses. É nas sociedades exportadoras que melhor se desenvolvem as virtudes inatas do ser humano, coisa que não deve fazer temer os portugueses. O mundo é o habitat natural do português. Portugal é somente o seu lugar de partida. Não há que temer jogar no tabuleiro da Globalização. É como jogar em casa um jogo de que fomos pioneiros. O “outro” é coisa para nós muito acessível. Somos campeões no relacionamento com todos os outros, desde o mais parecido connosco ao mais diferente. Atiremo-nos à exportação.

Não perceber que temos que exportar muito mais do que importamos é renunciarmos à nossa independência. É nunca mais podermos fazer a política que queremos para o nosso amado Portugal.