domingo, 6 de outubro de 2013

Um Ministro fora de tempo

A nomeação do último ministro dos negócios estrangeiros não terá sido a escolha mais feliz por aquilo que o mesmo representa. Analisando o curriculum do Sr. Rui Machete conclui-se que esta pessoa é um excelente representante de alguém que andou sempre montado em lugares e posições, alguém que preza essencialmente os ambientes palacianos e que vive da arte de bem lidar com a política do croquete se a ocasião determinar que é aconselhável assumir uma pose mais terrena, ou a política do whisky se a ocasião determinar que se está a tratar de caça grossa.
 
Pelo seu curriculum tudo leva a crer que o Sr. Machete considera-se feito para navegar em determinadas águas, mas não em todas. As águas preferidas do Sr. Machete são aquelas que lhe fornecem a doçura da sinecura e o protegem das indisposições da tormenta, coisa que aliás vai bem para quem gosta de pisar bom tapete persa e não tanto a experimentar o chão de uma linha de produção. As ligações ao BPN, SLN, e os gastos sumptuosos na FLAD reflectem o estar do Sr. Machete perante a vida e de como o mesmo entenderá que esta lhe deve prestar serviço, ou seja, um “senhor feito à medida de certas esferas” de uma realidade fechada e que já pouco serve ao Portugal do futuro.
 
Ora acontece que Portugal está numa fase do seu percurso histórico em que é obrigado a abrir-se ao mundo, não tanto na forma do croquete ou do whisky, antes na forma de fazer valer os créditos dos seus produtos e serviços. Não que o mundo tenha abandonado completamente certos modelos mais convencionais (a ingenuidade tem limites), mas é essencialmente através do valor dos seus produtos e serviços que uma sociedade aberta melhor respira.
 
A recente entrevista do Sr. Machete a uma rádio angolana é humilhante naquilo que denuncia sobre um espírito que está disposto a fazer tudo para continuar a navegar junto de portos seguros. Não é este tipo de fibra que Portugal doravante necessita. Um ministro das exportações, coisa em que o anterior servia, deve ser muito mais imune aos enjoos naturais que as águas mais turbulentas implicam (mercados globais e altamente concorrenciais), e deverá ter um nível de independência para com o “sistema”, no pior que o conceito contém, que o não obrigue a tolher-se de uma forma humilhante perante poderes mais ou menos obscuros, e que, ainda por cima, operam em regimes fechados e pouco globalizados.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Liderança

Eis um misterioso conceito que tão mal interpretamos em Portugal, Liderança. Muitos portugueses, com pouca confiança e auto estima por jogarem num tabuleiro muito estreito, e portanto sempre tementes quanto ao seu futuro, preocupam-se com demasia em encontrar o iluminado que lhe indicará o caminho a seguir, ou aquele que tomará conta de si. Esses portugueses estão sempre prontos a endossar o seu destino a um qualquer vendilhão vazio na ideia e rico na prosa desde que isso incendeie as suas pequenas ilusões. A nossa política produziu muito desta variante em democracia. Não espanta, aliás, a factura que temos para pagar…
 
O novo ciclo em que Portugal já se encontra vai exigir um tipo de liderança completamente diferente daquela que julgamos ser a necessária. Por força das circunstâncias, não só as derivadas do pagamento da dívida acumulada, mas acima de tudo pelo facto de forçosamente termos de jogar num tabuleiro muito maior, o do mercado mundial, reserva pouca margem para os vendilhões da ideia fácil, mais familiarizados com contração de dívidas e venda de ilusões. Consequentemente, e em definitivo, Portugal precisa de melhor compreender o que é Liderança, ou seja, precisa de perceber que o seu sucesso não passa por encontrar um líder, antes passa por perceber que é no conjunto, no grupo, na capacidade associativa, na partilha, na produção e comunhão de ideias, projectos e sua execução, que consegue vencer no mundo, e que os melhores resultados não se obtêm com o trabalho de um líder, mas antes na capacidade de diferentes líderes trabalharem em conjunto.
 
Nesse sentido, os partidos políticos estão muito atrasados no processo, senão mesmo em contraciclo com as melhores práticas que já se observam no mundo empresarial português. Os líderes dos partidos políticos, ou por vontade própria, ou pela circunstância de escassez de massa cinzenta que os próprios partidos trataram de expulsar do seu interior, navegam isolados, e, consequentemente, Portugal tem ficado refém dos dislates ou (in)disposições deste ou daquele político. Experimentámos disso recentemente.
Quem liderar um partido no futuro tem necessariamente de perceber que há muito trabalho a levar a cabo na captação de massa cinzenta disposta a pensar Portugal. Isso passa por criar um ambiente que estimule não só a livre expressão, mas também o gosto em lidar com quem pensa a realidade por um outro prisma ou ainda de uma forma diferente. Evita-se assim que um partido não dependa unicamente da capacidade de produção intelectual de um indivíduo ou de uma tendência, ao mesmo tempo que se criam anticorpos ao aparecimento de modelos de seguidismo e de apoio cego ao indivíduo ou à tendência do momento, aspectos fundamentais para trazer competência à vida política de Portugal. Daí a necessidade de pessoas humildes que saibam reconhecer as suas limitações, de carácter que saibam respeitar o outro, educados para que saibam ouvir o que o outro tem para dizer, e estruturados para que saibam incorporar as diferentes parcelas de valor. Numa palavra, Homens fortes com elevado sentido do colectivo e de entendimento mútuo. Assim se protege o interesse comum e se serve a comunidade.
 
O quadro de Rembrandt “Os síndicos da guilda dos fabricantes de tecidos” é especialmente feliz porque transmite precisamente a imagem de Homens fortes que conjuntamente zelam por um interesse comum, um interesse superior e que se encontra ao serviço da comunidade. Curiosamente o quadro transmite ainda a sensação de que o desaparecimento de um elemento em nada abalaria o objectivo a que todos se propõem. Neste aspecto lembra-me Max De Pree no seu livro Leadership is an Art quando diz que um líder trabalha para a sua própria inutilidade.
 
Ainda acerca do quadro, e de acordo com a ENCYCLOPEDIA OF ART EDUCATION “...It is a group portrait of the officials of the Clothmakers Guild - more precisely, they were controllers of cloth-samples. They were appointed by the Mayor of Amsterdam to regulate the quality of cloth sold in the city, and held their meetings, in private...”. “...Rembrandt has created a universal symbol for prudence and rectitude. Their various temperaments are focused on the single purpose of looking after the interests of an important trade, in effect a public service. It is their sense of togetherness, of mutual understanding, that is the emotional heart of the The Syndics of the Clothmakers Guild”
 

domingo, 8 de setembro de 2013

Economia

Saíram recentemente alguns dados económicos positivos sobre a nossa economia. Exportações continuam a subir e a bater records, o desemprego começou a descer, e, imagine-se, começam-se a vender mais automóveis outra vez. Os dados não são de estranhar, o que se estranha é o espanto com que as pessoas encaram a economia, ou melhor, como transportam para a economia toda a sua estreita realidade.
 
A realidade da economia Portuguesa é muito simples. Estamos num período de transformação de uma economia voltada para o consumo interno para uma economia voltada para a exportação por força do poder de fogo dos equilíbrios macroeconómicos mínimos. Quem faz isso não é o ministério da economia, antes são os empresários através das escolhas onde alocam os seus recursos, e, facto muito esquecido, como os próprios empresários ocupam o seu tempo na procura de novas oportunidades.
 
De início varreram-se as empresas excedentárias da economia interna e redimensionaram-se as que ficaram. Em paralelo os empresários começaram a olhar mais lá para fora e o resultado desse facto está-se agora a verificar. Sim, mais trabalho associado às actividades exportadoras depois de se aproveitar a capacidade de produção não utilizada, embora tudo a ganhar entre 300 e 1000 euros no máximo. Trabalhos mais precários? Sim, mas é melhor isso do que nada. A realidade é o que é.
 
Uma mensagem ao novo pessoal que agora caminha no ministério da economia. Não tratem de dar bombadas no consumo interno. A economia tratará desse assunto se tratarem daquilo que vos compete, que é facilitar a vida aos empresários através de remoção dos obstáculos existentes (licenças, burocracias, etc.), ir mais longe em algumas rendas abusivas que ainda existem em Portugal, e reduzir logo que possível impostos relacionados com a produção, não com o consumo. Vão ver que a economia reage bem e no final até se pode dizer que houve um efeito colateral inesperado: o consumo interno até subiu.
 
Que se perceba muito bem uma realidade das últimas décadas. Não são necessários muitos estímulos para se consumir nos dias de hoje. As direcções de marketing das empresas fazem isso competentemente. O complicado é trabalhar tudo o que tem que ver com o aumento das exportações.
 
E porque é enfadonho falar somente de economia, eleve-se a qualidade da mensagem a passar aos Portugueses. Um país afirma-se no mundo pela sua capacidade exportadora. Exportando damo-nos a conhecer através dos produtos e serviços que conseguimos produzir e vender. É isso que traz a verdadeira confiança a um povo. Um povo que exporta é por natureza confiante, e a falta de confiança que ainda hoje reina é por termos maltratado muito mal a nossa capacidade exportadora enquanto nos entretivemos a endividar e a pensar somente no consumo interno, variantes de quem pensa à Guterres, Barroso, e Sócrates.

terça-feira, 30 de julho de 2013

A fuga de cérebros

A fuga de cérebros é excelente para o país. A emigração de jovens qualificados, provocada pelo sufoco da economia portuguesa, onde as oportunidades escasseiam e as condições salariais são magras, é cada vez mais uma realidade. Noutros tempos o perfil era diferente: quem fazia as malas era tipicamente gente com pouca educação, pessoas humildes, fechadas em comunidades pequenas, sem ambição. Os novos emigrantes possuem, no entanto, certas qualidades que os antigos não tinham e é nessas qualidades que reside a base do que vai ser Portugal amanhã. Ter os melhores portugueses a viver e a trabalhar fora de portas é ter melhores embaixadores de Portugal no mundo. É criar uma imagem nova para o país, é atrair turismo e investimento. E mais que isso: ter uma rede de portugueses com valor no mundo é a base para o impulso de um país que precisa inevitavelmente de exportar.

A partir de 1974 criou-se a sensação que a população precisava de carinho e por isso pediram-se sucessivos empréstimos e investiu-se em obras públicas. Construímos auto-estradas para irmos de férias, centros comerciais para os fins-de-semana, pontes e linhas de ferro, rotundas, muitíssimas rotundas, e estádios de futebol. Investimos dinheiro que não tínhamos em projectos sem retorno. Até que em 2008, com a crise internacional, a bolha rebentou. E agora somos governados por políticos verdadeiramente pitorescos que se gastam em esforços quase inócuos para pagar a dívida à custa da população. E assim sendo a solução possível para a nossa economia só pode partir da iniciativa privada.

A exportação tem que ser o desígnio nacional, mas ao contrário da tradição portuguesa desta vez não podemos fazer tudo em cima do joelho. É preciso uma estratégia. A agricultura é a minha sugestão. Se pensarmos um bocadinho percebemos que não podemos competir em custos produtivos, mas temos sérias vantagens competitivas na capacidade de diferenciação. Temos um clima invejável, uma exposição solar única, uma zona marítima maior que ninguém, rios limpos, todo o tipo de solos e muitos anos de experiência. E esta é uma estratégia que faz especial sentido agora, num momento em que o consumidor está cada vez mais consciente e por isso disposto a pagar um extra pela qualidade e origem dos produtos.

Chegou o momento de criar marcas fortes e começar a vender pão, vinho, azeite, queijo, fruta, doces, peixe, legumes – toda a nossa gastronomia. Há milhares de restaurantes chineses no mundo, milhares de trattorias, bares de tapas, bistrôs, etc. Agora é a nossa vez. Sempre houve gente com boa capacidade para ficar em casa a produzir os melhores produtos daquém e dalém mar. Agora, com a fuga de cérebros, vamos finalmente ter quem os venda. A crise não vai passar tão cedo, mas vai passar. Acredito nisso.

domingo, 26 de maio de 2013

Que impostos reduzir no futuro?

A encruzilhada em que Portugal se encontra expressa bem a falta de visão, qualidade, e capacidade dos Primeiros-ministros e demais pessoal político que temos tido. Mas não só. As resmas de representantes de interesses instalados emanam uma quantidade de ruído que quase consegue atrapalhar os raciocínios dos mais lúcidos, sem contar que têm um desprezo infinito pelo bem comum e pelo longo prazo. Muito poucos são aqueles que se interrogam sobre questões de fundo, como se invocá-las mais não fosse do que uma manifestação de mero diletantismo. Assim que surge algum arrojo em emanar pensamento mais profundo a sensação imediata é de que o seu autor se “atreveu” a colocar em cima da mesa o que todos já deveriam ter colocado, remetendo toda uma plateia de pseudo defensores pátrios para uma posição defensiva numa clara demonstração de pequenez de espírito e falta de vontade de aceitar o debate numa pura base argumentativa, o que mais não denuncia do que uma mera reacção de defesa do interesse pessoal e de grupo.
 
Vem isto a propósito sobre um dos temas económicos que julgo ser aquele em que o decisor político mais terá que se debruçar quando existir margem de manobra para se baixar impostos de uma forma consistente e duradoura. Que tipo de impostos reduzir? Os respeitantes ao consumo (IVA)? Ou os respeitantes ao rendimento (IRC e IRS)? A vox populi, dominada pela esquerda “esclarecida” em estreita associação com alguma direita que tem receio de ser acusada de coração duro, vai proclamando que os impostos sobre o consumo são aqueles onde se deve dar prioridade pois é onde as pessoas de mais fracos recursos podem obter de imediato o benefício da sua diminuição. Esta linha de pensamento unitário faz-nos sentir bem no salão e dormir em consciência noite dentro. A questão é saber se isso é o correcto nas actuais circunstâncias de Portugal e no tempo em que a acção decorre, que recordo ser a segunda década do século XXI.
 
O meu pensamento diz-me que é precisamente o contrário que beneficiaria Portugal, e nomeadamente as pessoas de menores rendimentos. Os argumentos que a seguir se enumeram, ainda que vistos individualmente, penso que mais do que sobram para nos convencerem que são os impostos sobre o rendimento que devem ser diminuídos.
 
1.       A questão do desemprego. A forma mais segura de criar novos empregos reais e não fictícios é através da redução dos impostos sobre o rendimento. Para taxas de desemprego na ordem dos 20% de mãos dadas com uma dívida acumulada absurdamente elevada é perfeitamente estapafúrdio pensar noutro critério pois só o substancial aumento das exportações pode absorver a imensa massa de desempregados. Hoje já poucos colocam em causa o quanto a competitividade fiscal sobre as empresas foi algo completamente descurado nos últimos 25 anos. Temos que pensar em ter taxas de IRC na ordem dos 10%. O mesmo para o IRS, coisa que temo só compreendermos tarde demais. E isto ainda que a expensas de aumentos do IVA do escalão mais alto para 27% ou 30% no curto prazo.
2.       A questão da globalização. A globalização, essa coisa em que fomos pioneiros e que nos devia pensar que representa para o Lusitano muito mais oportunidades do que ameaças, vai sinalizando que o jogo tenderá a correr tanto melhor quanto mais baixas forem as taxas de imposto sobre o rendimento. Não discuto a globalização como fenómeno porque não vale a pena dobrar uma realidade infinitamente poderosa, e porque essa mesma realidade assenta lindamente ao perfil do verdadeiro Português (não o da repartição, como é óbvio). E isto basta.
3.       A questão demográfica. Acaso ainda não tenhamos percebido, este é o maior sarilho que temos pela frente enquanto povo. Necessitamos com máxima urgência de importar pessoas, acima de tudo pessoas altamente qualificadas, devido à diabolicamente baixa taxa de fertilidade (o famigerado número de 1,3). Sabemos que os trabalhos não estão fisicamente em Portugal em número suficiente para importar umas 200.000 pessoas altamente qualificadas. Tão pouco atrairemos essa massa de gente com os rendimentos que se pagam em Portugal aos trabalhadores do conhecimento. Mas existem aviões e aeroportos, pelo que taxas de IRS ao nível de 10% para rendimentos até 150.000 euros seria mais do que suficiente para importar essa massa de gente que cá viveria. Sim, muitos trabalhariam remotamente. E como as pessoas a serem importadas gostam de sol e praia, talvez a coisa se torne muito mais fácil do que possamos pensar. E teríamos um belíssimo efeito colateral, que seriam as visitas da família, amigos, etc, com todas as consequências positivas para as exportações. Não esquecer que o turismo é um bem transacionável, esse conceito que nunca deveria ter saído de moda. Já agora afirmo que tomo como axiomático que se atraiem pessoas e empresas para um país através de reduzidas taxas sobre o rendimento e não através de reduzidas taxas sobre o consumo. Desafio qualquer um a fazer prova contrária.
4.       A questão da meritocracia. Este argumento é mais complexo, mas poderá ser sintetizado da seguinte forma. Até ao terceiro quartel do século XX poder-se-ia pensar, ainda que redutoramente, na sociedade como estando dividida entre quem detinha propriedade e quem não a detinha. E genericamente aqueles que auferiam os melhores rendimentos oriundos do trabalho estavam no grupo dos proprietários. Como a globalização não era tão expressiva, a lógica da progressividade dos impostos tinha todo o sentido. Ora no último quartel do século XX e ainda mais no século XXI o figurino transformou-se. O maior grau da globalização conjuntamente com o advento do conhecimento como factor decisivo na produção de riqueza nas economias mais avançadas atenuam a fronteira entre proprietários e não proprietários, criando uma imensa classe cada vez com mais peso e com acesso a rendimentos médios e altos e que vale essencialmente por aquilo que o seu conhecimento e talento são capazes de produzir. Por não deterem propriedade, esta é uma classe que tem na meritocracia a sua oportunidade de ver melhorado o seu nível de vida, pelo que tratar esta mole cada vez maior, senão mesmo como a mais importante para catalisar as economia do século XXI (lembrar que a escassez está no conhecimento e talento, não no capital), como ricos a quem é preciso taxar à bruta é da mais elementar falta de bom senso. Sem contar que é extraordinariamente injusto penalizar o mais produtivo e/ou aquele que mais quer trabalhar.
5.       A questão da produção versus consumo. É sabido desde há muito (Eça de Queiroz já o dizia…) que temos uma congénita tendência para produzir menos do que consumimos. Aliás, a crise actual é acima de tudo uma crise de balança de pagamentos (querendo evitar entrar pela questão do valores). Pelo que aumentando o IVA do escalão superior e reduzindo brutalmente as taxas de IRC e IRS aceleramos a resolução a prazo deste assunto.
6.       A questão da poupança e liberdade. Por definição alguém que seja menos taxado para um mesmo nível de rendimento fica com mais rendimento disponível, e com isso pode efectuar mais consumo ou poupar. Só o facto de passar a ter esta possibilidade, ou vê-la ampliada, estamos a incrementar substancialmente o sentimento de liberdade das pessoas. Sem contar que permite melhor planeamento financeiro de cada agente, seja o indivíduo ou seja a família. E o facto de a poupança subir, pois nem todo o rendimento adicional será direcionado para consumo, isso reduzirá a nossa dependência como nação e viabiliza a independência no futuro, aumentando assim a liberdade individual e a liberdade de Portugal, o que, e acaso estejamos distraídos, se trata de um exercício simples para readquirir mínimos de soberania e dignidade.
7.       A questão da reforma de fundo do sistema de segurança social. Derivado de dar mais oportunidade à poupança facilitamos politicamente a mudança do sistema de segurança social de um modelo “pay as you go” para um modelo de capitalização, coisa que fatalmente terá de ocorrer. E já nem invoco outros bons argumentos existentes que vão neste sentido. É só olhar para a evolução irreversível da nossa estrutura demográfica para os próximos 100 anos para perceber que a questão é incontornável.
8.       A questão do prazo de validade do conhecimento. Os altos impostos sobre os rendimentos mais altos foram pensados para uma sociedade estável onde a mudança ocorria muito devagar e onde os rendimentos só variavam no sentido ascendente. Noutros tempos a variabilidade nos rendimentos ao longo da vida de trabalho era quase inexistente pois um determinado conhecimento ou talento tinha uma esperança de vida muito mais longa. Como a mudança nos dias de hoje ocorre a uma grande velocidade, isso implica que um determinado saber tem um prazo de validade mais curto, e de ciência certa que os rendimentos ao longo da vida de uma pessoa estarão sujeitos a muito maior variabilidade pelo que não tem muito sentido um modelo de progressividade neste novo cenário. Sem contar que nos períodos intermédios entre saberes é mais do que provável a necessidade de investimentos em novos conhecimentos.
A síntese que acima descrevi nem sempre vem a público com a clareza e profundidade que a nossa infeliz circunstância impõe, pois todo o espaço de debate público é ainda dominado pela demagogia, oportunismo, histerismo e resmunguice, fruto das péssimas elites políticas e dos grupos de interesse que se habituaram a viver pendurados no orçamento do Estado e que demonstram não estarem de todo capacitados para a função nobre de fazer política e tomar decisões para Portugal. Infelizmente a razão ainda vai ter que esperar um pouco mais, embora não muito, espero eu, pois o mundo lá fora não para à nossa espera.
Existem ainda três elementos subjectivos que sustentam o que acima se defende. Primeiro, temos que respeitar o primado de que primeiro trabalha-se e só depois é que se consome, o que trocado em português dá qualquer coisa como não se deve colocar a carroça à frente dos bois. E como o contrário foi feito nos últimos 25 anos há que compensar o erróneo comportamento passado e entrar nos eixos para o futuro. Segundo, é preciso passar a mensagem à sociedade de que o trabalho tem clara prioridade sobre o consumo como princípio genérico de vida. Terceiro é da mais elementar justiça potenciar a mobilidade social através do mérito pessoal. Numa altura em que o conhecimento e o talento são já a principal fonte de riqueza das economias mais avançadas, e sendo que estes atributos não são exclusivos de quem tem mais património, é fundamental não penalizar os rendimentos do trabalho com impostos elevados, dando assim fundadas esperanças para maior mobilidade social através dos méritos e não através de esquemas poucos éticos e demais tropelias manhosas (fenómeno que nos últimos anos também consolidou arraiais nos partidos políticos), e com isso potenciar maiores níveis de confiança na sociedade.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Afinal havia outra

Neste momento Portugal vai assistir a uma nova vaga de cortes da despesa e, eventualmente, aumento de impostos. O PS bem pode berrar em desacordo, mas se tivesse um líder e dirigentes à altura comportar-se-ia de outra maneira. Só prova que a realidade ainda não chegou totalmente onde ela é mais necessária, à classe política. O mesmo, aliás, parece que se passa no CDS e no PSD.
Ainda há quem não perceba bem que há demasiadas diferenças entre o que levou a esta intervenção externa e as duas anteriores, aquelas duas em que o Sr. Mário Soares esteve tão à altura de resolver tanto quanto não quer perceber ainda o que se passa agora com esta. Impressionante a perversidade da lógica partidária no atropelo à razão desde que isso possa dar ao clube partidário de que se faz parte um livre-trânsito de acesso ao poder, ainda que a prazo.
Por vezes questiono-me se a maior parte do CDS sabia ao que ia quando se colocou em bicos de pés para ir para o poder. No congresso de Viseu ficou bem demonstrado aquilo que o CDS sabe tão bem fazer: dar umas bordoadas no PSD ao mesmo tempo que se põe a jeito para ir para o poder pela mão do mesmo PSD. Discutir nesse congresso sobre a pertinência política de participar num governo de fecho de ciclo político iniciado em 25 de Abril, de entender que o que se está a encerrar é o modelo socialista que dura desde essa altura, de perceber que a governação não seria substancialmente diferente se a equipa fosse PSD/CDS ou PSD/PS, nada disto importava discutir. Somente interessava ir para o poder. Considerandos que colocassem em causa esta (i)lógica partidária deveriam ser considerados como impertinências de quem “não percebe porque é que se frequentam os partidos”.
Parece agora evidente que muitas pessoas no CDS descobriram que o jogo afinal é bem mais duro e prolongado no tempo do que seria desejável. Que o primeiro-ministro não anda a colaborar como deveria, pois como está bem de ver a personagem resolveu não ter uma agenda eleitoralista e por isso vai ignorando a lógica partidária que se convencionou idolatrar, a sagrada gestão do ciclo eleitoral. Que afinal a crise é realmente diferente da crise de 1983/1985, bem mais profunda, pois trata-se de passar de um modelo de economia de consumo e endividamento para um modelo de economia voltada para a exportação e com maior proporção de capitais próprios. E isto demora muito tempo, coisa para uns 20 a 30 anos. Desculpem a inconveniência temporal que tanto deve atormentar o incrédulo, mas jogar no campeonato da globalização é mais puxado do que jogar no campeonato do mercado interno, e durante o tempo (perdido) em que nos entretemos a vender automóveis, a construir casas, a endividarmo-nos a todos os níveis, etc, outros houve que se entreteram a ocupar e consolidar posições no mercado internacional.
Já aqui o disse que o Sr. Paulo Portas é dos raros políticos que possui discernimento sobre Portugal. E que sabia que o jogo ia ser duro. Mas vai dando sinais de talvez não ter percebido bem o grau da austeridade necessária pela nossa triste circunstância. Posso estar enganado, ou talvez não. Veremos quando a batata quente cair no Ministério tutelado pelo Sr. Mota Soares, o que aliás vai seguir dentro de momentos.
É provável que muitos no CDS possam andar a dizer ao espelho “afinal havia outra”, tal o seu desconhecimento sobre a natureza e dimensão do ajustamento que fatalmente há que levar a cabo. Resta saber se o Sr. Paulo Portas e o Sr. Mota Soares dirão o mesmo um ao outro no futuro próximo, e com isso nos conduzam a uma crise política. Da minha parte exijo que não, pois ambos quiseram ir de mão dada com o PSD para o governo. E é bom lembrar que não vale desistir a meio do campeonato e atirar pedras ao primeiro-ministro. E já agora lembro também que o autor deste texto defendeu que o governo deveria ser PSD/PS pois o ciclo que se está a encerrar foi o criado por estes dois partidos e a natureza da austeridade em curso pouco dependeria do partido minoritário da coligação, sem contar que o poder dos credores é imenso. Mas uma vez que se lá está por opção própria, então é para estar de corpo e alma, e se acaso o corpo parece desencontrado da atormentada e fugidia alma, então que se ginastique o que houver para ginasticar de modo a que a alma vá ter de volta com o corpo e não o seu contrário, e com isso se leve a legislatura até ao fim. É a vida.
Nota final: em cenários de emergência, como aquele em que vivemos, o poder fica, por natureza, muito concentrado no primeiro-ministro e no ministro das finanças. Nessa circunstância, e quando em coligação, o partido mais pequeno tende a ter um peso inferior àquele que teria se a proporcionalidade dos votos fosse o único critério na aferição do poder. Que se interiorize bem que o número 2 é mesmo o ministro das finanças.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O pendura

Eis um conceito está prestes a dar o berro: o pendura. A nossa sociedade produziu e consolidou uma enorme quantidade de penduras nos últimos 40 anos. Andamos cheios desta espécie que teve o condão de se espalhar por toda a sociedade, a todos os níveis, e com um grau que jamais se pensou ser possível.

O pendura é um cromo muito peculiar. A sua primeira característica é que não tem o mínimo problema em o ser, embora não o queira parecer. Percebe-se o porquê, do ponto de vista do pendura, claro está. Por não saber viver de nada, ou porque aquilo que produz com real valor é inferior ao que quer consumir, o pendura vê no andar pendurado a sua única opção de vida.

A segunda característica do pendura é negar ou esconder que o é por opção. E quando por uma qualquer circunstância fica evidenciado que ele é um pendurado, o pendura não hesita em invocar uma ou mais razões que explicam porque pontualmente (pontualmente… na sua cabeça) pode parecer nesse momento mais vulnerável. Esse é um momento sempre doloroso, pois por definição o pendura quer sempre passar por aquilo que não é.

A terceira característica do pendura é a sua impossibilidade de se reformar com base na razão. De ciência certa o pendura não muda pela voz do argumento pois por natureza o argumento é um instrumento que se utilizado pode facilmente desmascarar o pendura. E por viver num mundo de ilusão o pendura é naturalmente defensivo e avesso a qualquer forma de diálogo que o possa colocar em cheque.

Os penduras encontram-se nos locais mais expectáveis e visíveis, como na função pública. Aí são aos quilos. O exemplo mais gritante serão os professores. É o diabo entenderem que não são necessários tantos devido ao cada vez menor números de alunos. Sem contar que querem progressões automáticas e se recusam a ser avaliados pelos mesmos mecanismos pelos quais as pessoas são geralmente avaliadas. Mas também os há numa versão mais palaciana. O exemplo mais recente da nossa sociedade foi o lobby da construção que literalmente assaltou o orçamento dos anos passados… e futuros (sim, as PPP). Este lobby, de verniz mais cuidado, fez-se acompanhar de um rol de consultores e advogados que solidamente também se penduraram, directa ou indirectamente,  no orçamento.

Mas também há outros penduras, muito menos visíveis, mas também muito activos e corrosivos. Há os aldrabões que se aproveitam da ineficiência da nossa justiça e com isso não honram compromissos, há os profissionais em arrendar casa sem pagar renda, e há ainda os que se penduram na família mesmo já depois de saírem de casa pois as suas desmiolices arranjam sempre forma de se socializarem com os restantes membros.

E depois há aquele pendura que vive nos partidos políticos. Este pendura tem-se desenvolvido com fulgor nos últimos anos e teve como expoente máximo Santana Lopes e José Sócrates. Os estragos são aliás bem visíveis. Esta espécie, muito especial e perigosa dada a legitimidade democrática com que soube vestir, invadiu literalmente o poder político. E instalou-se. Este pendura, possuído de uma leonina capacidade de fazer valer o seu interesse pessoal em detrimento do interesse do país, carrega consigo uma crueldade e capacidade de triturar adversários só possíveis em quem abdica da ética na tomada de decisões. Estes penduras utilizam a fidelidade como moeda de troca dos favores distribuídos, favores esses que mais não são do que a própria razão de existir deste pendura no agrupamento político de que faz parte. Não que o fenómeno seja novo na história do homem, mas o grau com que se manifesta e o alcance pernicioso da sua acção torna o fenómeno demasiado maligno, ou não fosse o sarilho presente o resultado das patetices de tanta inconsciência de quem nunca devia ter pisado os terrenos do poder político.

Em Portugal o pendura anda a começar a viver dias difíceis devido ao rigor que veio para ficar. Com isso foi simplesmente exposto como vítima do seu sucesso, e aos poucos vai sendo acossado e desmontado a muitos níveis. Mas há um local onde o pendura parece ser, ainda, intocável: nos partidos políticos. Compete a quem anda pelos partidos sem espírito de pendura em atirá-los borda fora de modo a viabilizar boas lideranças e bons governos. É uma obrigação.

Acácio

Por duas vezes num curto espaço de tempo o nosso ilustre Conselheiro Acácio, residente no Primo Basílio de Eça de Queiroz, veio à berlinda em textos lúcidos do Professor César das Neves (DN de 5 de Novembro) e do historiador João Ramos (Expresso 29 de Dezembro). Os Acácios terão vivido algures na viragem para o século XX, mas os seus espíritos transcenderam as suas vidas terrenas e ainda hoje fazem furor em muitos domínios da nossa política, embora sobre um prisma diferente. As gentes de hoje não veneram os políticos, sendo prova disso os mimos com que os mesmos são apupados amiúde. Mas têm ainda uma fé inabalável que o seu futuro depende de algo exterior a si, e, consequentemente, verem nas políticas despesistas a sua tábua de salvação. Um pouco como aquele filho que está naquela fase em que só sabe dizer mal de quem o sustenta mas que é incapaz de se sustentar a si próprio.

Muitos Portugueses, e não só os de esquerda que só sabem andar pendurados nos outros, só vêm a realidade desde que a mesma se lhes apresente expurgada de responsabilidades, ou seja, carregada de direitos e de exigências em total desproporção com os deveres com que se está disposto a contribuir. Não que haja problema em pouco se contribuir em termos de deveres. Somente não se pode exigir mais do que aquilo que se está disposto a dar.
Portugal está como aquele jovem urbano conhecedor dos modos mais sofisticados de como viver cosmopolitismo, com imensas capacidades e discernimento sobre as melhores escolhas da infinita e sugestiva panóplia de bens e serviços existentes, com uma pré-disposição sem freio para exprimir a sua opinião como um verdadeiro connaiseur, e que olha com desdém o passado e todas as dificuldades a ele associadas. Somente lhe falta saber produzir em conformidade de modo a acompanhar toda a sua desenvoltura quando se trata de consumir. E para isto não há Acácios que nos valham, venha o mesmo sob a versão século XIX ou XX (versão século XXI não chegou a haver, coisa que a esquerda ainda não percebeu).
Falta a este Portugal começar a fazer uma coisa que tudo faz mudar: pagar contas. E nada como pagar as próprias contas e responder pelos próprios actos para passar a ver o mundo de outra maneira. Assim vai Portugal.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A queda do tio desmiolado

Poucos olham para o Ministro das Finanças como o melhor ministro das finanças que tivemos nos últimos 28 anos. Acriançados como ainda estamos, é mais do que natural que neste período o melhor ministro das finanças seja odiado e o pior adorado. Na vida civil nunca o austero granjeia muita simpatia. Nunca é o tio forreta racional que cai nas boas graças da criançada, antes é o tio desmiolado que com as suas acções pouco temperadas pelas consequências o que obtém mais sucesso. É sabido que as crianças gostam que os crescidos brinquem de acordo com os seus critérios de diversão, deixando por isso o forreta racional de fora do seu ranking de preferências. Só décadas mais tarde o forreta racional é tido em conta como exemplo, precisamente quando os critérios de condução da vida passaram a ser o da boa governância e da sujeição ao preceito das regras, e já não à sujeição da brincadeira efémera que não olha a consequências. Há como uma passagem de testemunho, não pela mão do desmiolado para o forreta racional, mas pelas mãos da audiência. A norma diz que o desmiolado é de uma natureza tal que não viabiliza qualquer transferência suave de testemunho, pois a sua irracionalidade natural é de difícil compatibilização com quem conduz as coisas com base em argumentos mais sólidos. Assim, por norma, o desmiolado tem poucas décadas para reinar e reserva-se a si mesmo um tombo algures no processo.
 
Portugal está numa fase de passagem de testemunho. A fase é naturalmente dolorosa pois não se imagina que de ânimo leve se troque de forma natural o gozo infantil da pândega irresponsável pelo rigor graúdo da seriedade responsável. O último ano dos últimos 28 anos corresponderam aquela fase da vida em que o tio desmiolado foi desmontado e posto a nu no seu total e absoluto divórcio com a realidade da vida e das suas mais elementares regras de ordenação civil sobre a qual a mesma se edifica. Agora que os sobrinhos cresceram, e com os decorrentes desafios que uma vida adulta impõe, o tio forreta racional tenderá a ser trocado nas preferências relegando assim o tio desmiolado para o cantinho das memórias.

Ainda não sabemos bem se este tio forreta racional é o que melhor nos serve. Sabemos somente que se encontra na categoria que doravante melhor nos serve, pois do tio desmiolado só sobram contas a pagar e outros fardos. Neste momento a vox populi dos sobrinhos produz ainda uns clamores vagos pelo tio desmiolado em perfeita sintonia com o natural temor pela maioridade que já chegou. No entanto, as manifestações revelam um saudosismo já muito fugidio e em plena direcção oposta. Nesta época turbulenta de transferência de preferências restam aos sobrinhos três hipóteses. Ou pôr a cabeça na areia numa reacção pura de negação da realidade, prolongar a criancice por mais uns anos dotando o seu discurso de generalidades puramente ditadas pelo sentimento, o que mais não é do que uma bela candidatura a tio desmiolado da próxima geração, ou um pulo imediato para o patamar da razão e tratar os assuntos com a seriedade e maioridade com que eles devem ser tratados. Assim vai Portugal.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Uma faca de dois gumes

Existem dois factores externos que influenciam a evolução económica de Portugal e sobre os quais não temos a mínima capacidade de influência. A cotação do Euro e a evolução da situação na Grécia. Parece evidente que a situação na Grécia caminha para onde todos sabemos, embora não saibamos quando. A situação da Grécia vai ajudando Portugal num sentido pois enfraquece o Euro e torna as nossas exportações mais competitivas para fora da zona euro, precisamente onde é mais aconselhável crescer. Por outro lado prejudica-nos já que uma eminência da saída da Grécia da zona Euro faz subir os custos de financiamento a prazo para Portugal e para as empresas portuguesas.
 
É neste nó que a nossa economia se vai debatendo e parece que só o tempo terá a capacidade de desmontar este desiderato. A importância de nos desmarcarmos da Grécia é real. Não somos Gregos, nem o queremos ser. Por isso há que continuar a fazer o trabalho de casa e dar tempo ao tempo. Com tempo, e por isso com mais histórico, daremos a possibilidade aos outros de perceberem que cada um pode tratar da sua história e com isso colhermos os benefícios de sermos brindados com taxas de financiamento mais baixas, significando com isso que somos viáveis na zona Euro.
O pior mesmo é se a faca arranja mais gumes. Rezemos para que nuestros hermanos mantengan la calma.

sábado, 10 de novembro de 2012

O ruído anda à solta

Há muitos miseráveis nestes dias sem inibição em demonstrar publicamente a vasta ignorância e irresponsabilidade de que também somos feitos. Ex-governantes com responsabilidades vociferando alarvidades a bom som, e ainda por cima sem problemas em colocar mais lenha seca em pinhal que os mesmos nunca trataram de limpar. Sindicalistas com uma visão do mundo limitada pela sua sombra num 21 de Junho pelas 12 horas sem a mínima noção das consequências dos seus actos. Jornalistas sem noção entre veicular uma notícia e moldar a mesma de acordo com o sentimento dominante, ou ainda sem rédeas em botar livre discurso, e com tom de propriedade, em domínio alheio. Alguns empresários a queixarem-se incrédulos de que o mercado definha por causa da crise o que somente revela que grande parte da classe não entende de macro economia. Pessoas em geral a dizerem tudo o que lhes vem à cabeça em perfeita sintonia com a emoção do momento. Cosmopolitas de verniz ténue muito indignados por não puderem celebrar cosmopolitismo à sua maneira, mas sem a mínima vontade em indagar sobre oportunidades noutras bandas e noutros sectores.
 
Há de tudo, não falta nada. Ou melhor, até falta. Falta a toda essa gente, que a névoa da crise trata de nivelar pela mesma bitola, propor seja o que for como alternativa fundamentada. Desde um PS totalmente infantilizado que toma o jogo numa base de mero interesse político, a uma esquerda radical que acha natural que a irresponsabilidade seja um direito constitucional, pouco há a esperar mais no actual quadro político. Assim, o futuro do país passa por descortinar e seguir o discernido e não a massa palradora incontinente que as circunstâncias tratam de amplificar. O discernido espera que Portugal acalme um pouco enquanto Portugal vai desesperando enquanto espera em encontrar o discernido. Só quem não espera é o mundo. Esse vai andando... e rápido.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Banco alimentar

Estalou um novo escândalo no país: Isabel Jonet veio dizer que existem responsabilidades individuais. Os arautos da indignação fácil associaram-se em protesto porque não concordam que estamos a empobrecer por culpa nossa, atribuindo-a, portanto, a outras pessoas ou entidades. Alguns dizem que a culpa é da troika, outros que é do azar, talvez alguém culpe o sistema ou até a própria Isabel Jonet. O que esta gente tem a certeza é que a culpa não é nossa. Nós somos as vítimas. Mais: nós somos os salvadores da nação porque contribuímos para a luta contra a fome com um ou dois pacotes de arroz por ano.

A ironia que pesa sobre a situação reside no carácter abstracto e obviamente ideal que a luta contra a fome tem para os contestatários, uma vez que para Isabel Jonet a causa é concreta há mais de vinte anos. E se o Banco Alimentar funciona graças à boa vontade de pessoas individuais também é verdade que isso só acontece porque existe alguém que faz uso do seu tempo para organizar uma plataforma que permite às pessoas ajudar. Por falar nisso o cerne da questão é mesmo esse: o Banco Alimentar funciona e bem.

De resto, trata-se de um axioma: as pessoas vivem acima das suas possibilidades, compram demais e consomem o que não precisam. É assim e nunca há-de mudar. Felizmente, porém, ainda há quem seja capaz de atenuar as feridas do problema. Obrigado, Isabel Jonet.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O Sporting e o modelo de gestão

O Sporting anda há dez anos a fazer o que não sabe: compra e venda de jogadores. O clube contrata quase sempre mal e raramente consegue valorizar os jogadores. Entre contratações falhadas e jogadores desvalorizados, um exemplo sintomático é o de Bojinov: custou 3 milhões, ganhava 1 milhão por ano, fez oito jogos, sete dos quais a suplente, e foi cedido a custo zero para a segunda divisão italiana. O panorama geral é assustador: desde a criação da SAD o Sporting gastou 229 milhões em jogadores e conseguiu encaixar apenas 166, perfazendo um saldo negativo acumulado de 63 milhões. Pelo meio o fracasso desportivo é evidente.

O problema não está tanto na estratégia, mas sim na inadequação dos recursos e capacidades do clube com a estratégia. O FC Porto também tem uma estratégia apoiada em compra e venda de jogadores e é um caso de sucesso. Antero Henriques, dirigente do FC Porto, explicou as razões à revista France Football: um sector de recrutamento mais rápido que o dos adversários, com mercados-alvo definidos, apoiado em 250 olheiros espalhados pelo mundo, com vários níveis de observação. Uma estrutura sólida, métodos de trabalho bem implementados e o resultado está à vista. Exemplo sintomático: Cissokho, contratado por 300 mil euros, vendido por 15 milhões.

No Sporting, no entanto, não existem esses recursos: não há nenhuma estrutura de recrutamento, não há estabilidade para valorização dos jogadores, não há capacidade de negociação, etc. E é por esta falta de recursos para a compra e venda de jogadores que o modelo dos últimos anos tem sido um fracasso em Alvalade. Existe, no entanto, um recurso que distingue o Sporting de todos os outros: a formação. Aí sim há estruturas. Olheiros, métodos de treino, apoios aos jovens, a academia. É preciso mudar de estratégia e capitalizar aquilo que o clube faz melhor que os outros.

Assim, o modelo que eu defendo para o Sporting é um modelo apoiado na formação. Um grande treinador, de créditos firmados, para potencializar os jovens saídos da formação, dois ou três jogadores de nível internacional e sete ou oito jogadores da cantera no onze inicial. E estes não precisam de ter 18 anos, uma vez que o modelo acaba por se tornar sustentável, com os jogadores a ficarem várias épocas no clube. Os mais espetaculares, aqueles que têm mesmo quer ser vendidos, equilibram as finanças do clube e vão brilhar para outros palcos europeus e para a selecção nacional.

Estamos a perder a guerra porque estamos a lutar no campo de batalha errado. É uma evidência: este modelo de compra e venda de jogadores está completamente falido. Chegou a altura de apostar verdadeiramente na formação.