domingo, 20 de março de 2016

Economia - Para onde ir e como ir

É objectivo deste texto fornecer um caminho possível e viável para Portugal dentro da zona Euro e que esse caminho seja percorrido de uma forma responsável e digna.

Este texto divide-se em cinco capítulos:

1.    Em que ponto nos encontramos

2.    Porque nos encontramos neste ponto

3.    Para onde deveremos ir

4.    O que fazer de modo a caminharmos para onde deveremos ir

5.    Seis aspectos a colocar no topo da agenda


1.  Em que ponto nos encontramos

Portugal é em 2016 um país:

i)             Sobre endividado a todos os níveis (empresas, famílias, Estado)
ii)            Dependente da boa vontade de terceiros (credores e parceiros internacionais)
iii)           Mentalmente dependente do Estado
iv)           Que valoriza pouco a iniciativa empresarial
v)            Que acredita pouco no valor do trabalho como modo de melhorar o rendimento económico
vi)           Com uma economia desequilibrada ainda excessivamente voltada para o consumo interno
vii)         Muito desiludido tal a discrepância entre o “El dourado” prometido e a realidade que nos caiu em cima
viii)        Demasiado mal governado até 2011 e neste momento
ix)           Sem estratégia


2.  Porque nos encontramos neste ponto

i)             Porque acreditámos em vendedores de ilusões durante demasiado tempo
ii)            Porque direcionámos a nossa economia para o consumo interno e para actividades com fracos crescimentos de produtividade
iii)           Porque nos endividámos e nos desmiolámos (incontornável a utilização desta expressão tão forte)
iv)           Porque criámos e acreditámos em modelos de sucesso que se revelaram perversos (vide as fraudes bancárias, Portugal Telecom, excesso de PPP, etc)
v)            Porque acreditámos que a simples adesão à CEE e a entrada na zona Euro por si só nos garantiria acesso a um nível de vida nórdico
vi)           Porque exigimos mais direitos face aos deveres que estamos dispostos a praticar
vii)         Porque o interesse das corporações fala mais alto que o interesse nacional
viii)        Porque os partidos falharam na produção de elite política. Neste particular convém referir que os aparelhos ganharam vida própria e impuseram uma dinâmica onde o debate de ideias se encontra subalternizado ao interesse das conveniências dos diversos grupos de interesse


3.  Para onde devemos ir

Portugal deverá lutar por todos os meios para atingir o objectivo de se tornar um país independente e num país de referência na economia do conhecimento.

Para isso Portugal deverá:

i)             Tornar-se num país exportador. As exportações deverão representar um mínimo de 60% do produto
ii)            Tornar-se num país com crónicos excedentes da balança corrente. Não esquecer que para equilibrar o elevado stock de défice externos acumulados há ainda muito excedente pela frente a alcançar.
iii)           Um país que se globalize tanto quanto possível pois a Globalização é um palco onde o Português tem inegáveis vantagens relativamente aos outros.
iv)           Ser um “player” de referência no mundo ao nível da logística, montagem de produto e aplicação de conhecimento

Se progredirmos nestes pontos conseguiremos ajustar as expectativas face ao que a economia produz, indo ao encontro da realidade ao mesmo tempo que abandonamos o mundo da fantasia, mundo esse onde a ilusão, a verdadeira doença que grassa em Portugal, encontra terreno fértil.


4.  O que fazer de modo a podermos caminhar para onde deveremos ir

Três pontos, a saber

1. Libertar Portugal do jugo corporativista e colocá-lo no mundo a jogar no campeonato da Globalização com uma aposta clara e inequívoca nas exportações. Há que dar sinais claros à sociedade de que ir de encontro à Globalização é uma opção ganhadora porque:

·         É aí que estão as oportunidades.
·         É aí que se vence e que se prospera no século XXI.
·         É aí que tomamos o futuro das nossas mãos
·         É aí que nos libertamos dos vendedores de ilusões que invadiram o espaço político
·         É aí que nos libertamos dos grupos de interesse que querem passar por referência
·         É aí que interiorizamos que há outros modelos de sucesso baseados no mérito e na avaliação, estes sim saudáveis e bem mais arejados
·         É aí que nos tornamos mais competitivos, mais fortes, com maior capacidade de realização, e por isso maiores
·         É aí que a mobilidade económica acontece
·         É aí que o mais esforçado e o mais produtivo se libertam dos “pendurados”
·         É aí que se ganha auto estima com vitórias em ambientes mais competitivos, exigentes, e mais transparentes
·         É aí que se ganha a verdadeira humildade ao aprender a crescer com as derrotas
·         É aí que temos vantagens comparativas. A Globalização é o nosso meio natural. Fomos nós que a iniciámos há mais de 500 anos. Não há pois que temer em jogar num terreno que é o nosso.
·         É aí que os excedentes acontecem. Realce-se que só por si, enterrar a palavra défice trará ânimo a Portugal.

Evidentemente que quanto mais sucesso tivermos neste campeonato global das exportações mais esperança deverão ter os outros portugueses que se movimentam nos mercados do consumo interno. Para pequenas economias como a portuguesa é o sucesso nos mercados externos que pode viabilizar mais sucesso e melhores condições de vida a quem trabalha no mercado interno. O contrário não é validado pela nossa experiência, aliás, como infelizmente andamos a experimentar há muitos anos. Dúvidas hajam que se encontre a devida resposta nos bons exemplos de países como a Irlanda, Holanda ou Bélgica.


2. Porque é importante relegar para um plano secundário a “psicose” do consumo interno.

·         Porque esta psicose é o terreno fértil dos modelos duvidosos que funcionam em circuito fechado e menos transparente, com tendência a premiar quem melhor se move nos intrincados circuitos do poder, de que são exemplo os escândalos bancários, Portugal Telecom, as PPP, e que envolvem ainda uma série de consultoras e escritórios de advogados.

·         Porque contribuiremos para o desmantelamento de um tipo de economia que só trouxe endividamento, questiúnculas judiciais, e outros fardos.

·         Porque ajudamos Portugal a libertar-se um pouco mais de Lisboa.

·         Dar prioridade ao consumo interno em lugar das exportações é colocar a carroça à frente dos bois. Primeiro exporta-se e consolidam-se os mercados externos, depois dedica-mo-nos aos consumos intermédios, e por fim, como brinde, tratamos do consumo interno (1). Esta é a sequência seguida pelos países de sucesso e mais desenvolvidos. O seu contrário é o charco onde se movem os vendedores de ilusões.

·         Percalços como aquele iniciado desde meados de 2014, com a reentrada do “consumo interno” no léxico da agenda política nacional, são um mero sinal onde até na direita este processo não é ainda compreendido na sua plenitude


3. Ajustar os partidos políticos.

·         Portugal foi demasiado mal governado durante demasiado tempo até ao pedido de resgate em 2011.

·         Para nossa infelicidade os partidos políticos criaram desde há muito uma dinâmica que teve como resultado o repúdio de muitos portugueses de valor em entrar na política.

·         O modelo seguido pelo “centrão”, de uma sociedade socialista e maioritariamente subserviente e dependente do Estado, gerou e desenvolveu toda uma sorte de teias de relações promiscuas e de influências perniciosas ao são desenvolvimento de Portugal, ao mesmo tempo que sugava talento e outros recursos às empresas exportadoras mais expostas a mercados de concorrência pura.

·         Uma sociedade mais aberta, onde a livre iniciativa encontre mais espaço para criar riqueza, está em melhores condições de libertar Portugal do jugo da dependência do poder económico do poder político. Não é preciso muito argumento para se perceber que o CDS é o partido em Portugal melhor posicionado para operar a transformação que se impõe nas relações entre o poder político e o poder económico.

·         No entanto, e porque virar à direita não é por si só o garante da eliminação das relações funestas entre o poder económico e o poder político, compete ao CDS a melhor interpretação da relação mais saudável entre estes dois poderes.

·         Uma excelente forma de o fazer passará pela constante e obstinada busca dos melhores quadros, trazendo ainda mais competência, mais ética, e mais espíritos livres para dentro do partido, assegurando ao mesmo tempo a capacidade virtuosa de bem acolher quem pensa diferente do líder ou da tendência do momento.

·         Deixemos o culto da facção para os outros partidos, e que se se dote o CDS de maior capacidade de distinção a este respeito relativamente aos outros partidos de forma a torná-lo o partido mais arejado e o principal partido do futuro em Portugal, e naturalmente aquele onde mais portugueses podem confiar o seu voto.

Que se compreenda e que se interiorize bem que a sociedade portuguesa está a esgotar, ou já esgotou, a sua paciência para os grupos de pressão e para a forma como os partidos se apresentam. Partido que melhor perceber este facto e melhor souber fazer o trabalho de casa será o partido que merecerá a maior confiança do eleitorado. A realidade sociológica já mudou, está órfã, e desejosa de brindar quem melhor praticar virtude.



5.  Seis aspectos a colocar no topo da agenda

1.    Pensar no porto de Sines como plataforma de referência na entrada de mercadorias na Europa e como principal porto de transhipment dos novos super barcos.

2.    Decorrente do ponto anterior criar na zona circundante a Sines uma verdadeira plataforma de logística e de montagem de produto com o selo "Fabricado na Europa”. O sucesso de um projecto desta natureza pode projectar Portugal no mundo como um player de referência no transporte e montagem de produto. O impacto na criação de trabalho directo e indirecto pode significar uma transformação de grande magnitude em Portugal.

3.    Criar estímulos fiscais ao nível do IRS para atrair talento estrangeiro com carteira própria de clientes e desde que o mesmo não vá competir directamente com talento português existente (2).

Objectivo deste incentivo passa por:

3.1.        Criar receita fiscal. Decorrente desta criação de receita fiscal "financiar" a redução das taxas de IRS.
3.2.        Criar mais trabalho directo qualificado em Portugal decorrente da importação de actividade económica voltada para a exportação.
3.3.        Promover outro nível de centralidade do talento português na rota do talento mundial.
3.4.        Envolver de uma forma agressiva as universidades neste processo e com isso dar-lhes maior visibilidade a nível internacional.
3.5.        Facilitar a geração de centros de excelência
3.6.        Mitigar o suicídio demográfico em curso


4.    Recapitalização das empresas. Existe uma genérica falta de capital próprio nas empresas portuguesas. Esta é a parcela mais complicada do ajustamento total de Portugal, e estamos ainda muito longe dos mínimos aconselhados. Há ainda muito caminho para diminuir o excesso de alavancagem existente no nosso tecido empresarial.

5.    A taxa de poupança anda a níveis de 3%, um nível muito longe da média europeia - 12,5%. Numa economia excessivamente endividada uma taxa de poupança de 3% coloca-nos numa posição de puder perder a pouca soberania que ainda nos resta. Urge substituir parte do stock de dívida pública nas mãos de estrangeiros, com claros benefícios ao nível das taxas a que podemos rolar o stock de dívida, e com claros benefícios negociais relativamente aos nossos parceiros para cenários de maior stress na zona euro.

6.    Estar integrado na Zona Euro implica deveres e respeito para com os nossos credores. Uma estratégia de pura confrontação com os nossos credores é:

6.1.        Pouco digna para Portugal e de muito desrespeito para com os nossos parceiros e para com os outros povos.
6.2.        Uma opção muito pouco inteligente pois só serve para aumentar a taxa de juro com que teremos de rolar o stock de dívida.
6.3.        Consequentemente é uma opção irresponsável. Querem-nos “vender” muitos direitos, mas seria inédito venderem-nos a ideia de que a irresponsabilidade é um direito. Não o é, e Portugal e o CDS saberão dizer que não.


Notas:
(1)    No caso particular de uma empresa a sequência tende a ser a inversa, embora na economia do conhecimento não seja raro os projectos que se iniciam logo voltados para os mercados externos.
(2)    Muito há a explorar para produzir um pacote atractivo e com benefícios para o talento português:
i)                    Estímulo fiscal a incidir unicamente naquela parcela de matéria colectável decorrente do valor exportado.
ii)                   Limitar o benefício a empresários em nome individual.
iii)                 Poder-se-á pensar também em condições como a obrigatoriedade na subcontratação de pelo menos um parceiro do mesmo ramo de actividade e que se verifique o menor dos seguintes valores para cada parceiro decorrente da relação comercial: rendimento não inferior a 20.000 euros para o sub-contratado ou 25% do rendimento do sub-contratante.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Carta aberta aos deputados socialistas


Ilustres deputados socialistas. Acaso não tenham reparado, encontram-se alguns dos senhores em excelente posição para iniciar a empreitada mais complicada de ser executada em Portugal: fazer chegar o ajustamento aos partidos.

Há cerca de 6 anos tomei consciência que deveria começar a dar um qualquer contributo político a Portugal. Tornara-se para mim evidente que derivado de muitos portugueses de valor terem-se abstido de participar na política terá conduzido que os partidos fossem tomados de assalto por indivíduos de competências insuficientes e de perfil menos recomendável. Esta situação não é um exclusivo de nenhum partido em particular, implicando-nos portanto a todos na prossecução dos necessários ajustamentos a levar a cabo nos partidos na medida das nossas possibilidades, e sempre que as circunstâncias o permitam.

Permite-me caro deputado socialista que doravante conduza a carta de uma forma frontal e directa e utilize o “tu”. Não em obediência de um qualquer estratagema argumentativo perverso pelo “tu” ser mais frequente na esquerda e com isso ardilosamente te querer conquistar. Simplesmente pretendo numa linguagem simples e despretensiosa confrontar-te com o facto de que o combate em curso é menos o de esquerda versus direita e mais entre os que estão na política com princípios e carácter e aqueles que utilizam a política para se nutrir a si e ao seu séquito.

Sabemos os dois que as consecutivas asneiras que nos levaram ao resgate de 2011 não foram da exclusiva responsabilidade do PS, ainda que tal afirmação vá ao arrepio de muitos responsáveis do PSD e do CDS. É evidente que as asneiras vêm sendo praticadas há muito (pelo menos 25 anos) como resultado de governos sem visão e prisioneiros de toda a sorte de grupos de pressão, desde empresários, grupos profissionais, sindicatos, etc., todos alinhados, ainda que inconscientemente, num despropósito de acção sem rumo e de méritos duvidosos. Podemos discutir o grau de responsabilidade de cada um até à exaustão, mas esse não é o exercício que te proponho. Como também deves saber, e à semelhança das asneiras que com frequência fazemos com a nossa saúde individual, as correções aos desvios pagam-se com ajustamentos, coisa sempre dolorosa, e, obviamente, nunca bem acolhida. Infelizmente em democracia temos vasta experiência disto. Que o diga Mário Soares que galhardamente vestiu a pele de quem teve de se chegar à frente nos dois ajustamentos anteriores.

Acontece porém que este último ajustamento tem uma particularidade diferente dos dois anteriores. Enquanto os primeiros foram ajustamentos meramente financeiros, este último ajustamento é também económico (trazer de volta os tais transacionáveis e com isso equilibrar a balança corrente) e político. Como sabes a questão financeira e económica vai-se resolvendo. Está a sê-lo, e vai continuar a sê-lo (coisa que tu também sabes), embora não na velocidade que desejaríamos. Mas como somos pessoas de juízo, sabemos que embora nos dias de hoje se queira tudo já (compre já, faça já, etc), não existe propriamente um “ajustamento já”. Por isso, somos ambos obrigados a lidar com o factor tempo, o que até não é complicado, pois requer simplesmente uma dose mínima de paciência. Quanto à última parcela do ajustamento, o ajustamento político, acredito não ser fácil convencer-te que nos encontramos precisamente no mesmo barco e que todos nós temos um desafio semelhante a tratar nos nossos partidos. Parece estranho e pode soar a falacioso, mas neste ponto temos muito em comum, pois é incontornável que qualquer análise mais fina aos nossos partidos não resiste à conclusão de que todos necessitamos de fazer ajustamentos.

Assim, para o que te convido caro deputado socialista, é em alinhares comigo na parcela do ajustamento que falta fazer e com isso completarmos em parceria o ajustamento total de Portugal. Está bem de ver que este ajustamento dos partidos políticos será complexo e doloroso, mas terá fatalmente de ocorrer. Não ocorrerá ao mesmo tempo para todos os partidos. Não ocorrerá na circunstância que desejamos. Não ocorrerá no momento mais conveniente. Penalizará no curto prazo quem iniciar a empreitada, mas brindará mais lá para a frente quem der o pontapé de saída. Haja para isso liderança capaz.

Caro socialista, é hoje muito claro não teres o líder de que precisas, por isso evita que as doçuras com que te acenam te impeça de tomares na tua mão as tuas responsabilidades e o futuro do teu partido. Sim, sujeitar-te-ás a algum escárnio de alguns colegas se fores avante com o processo e muitos adversários cantarão de alto vitória. Mas isso é a natureza humana em ação pois que as almas pequenas andam por todo o lado. Mas não te preocupes em demasia, os dividendos brindam amiúde o audaz e quem não deixa escapar a oportunidade, ao que não será alheia a expressão “Ri melhor quem ri por último”. Como português considero pernicioso a defesa obsessiva da dama política que cada um representa, no meu caso o CDS. Da minha parte julgo ser prioritário servir Portugal, a dama de todos nós, e claramente neste momento Portugal ficará melhor servido se mudares não só a tua liderança como também o estilo que recentemente adoptaste. Como deves calcular não me anima a perspectiva da esquerda radical crescer à tua conta. Quero mais é que tu cresças à conta deles, ainda que isso implique que me inflijas derrotas no futuro. Óbvio, não é?

Calculo que como pessoa atenta que és deverás ter tido a oportunidade de ler nos últimos anos alguns portugueses que tiveram a vontade de escrever sobre Portugal. Pensa em Camilo Lourenço, Ferreira do Amaral, Medina Carreira, João César das Neves, João Gomes Ferreira, e Henrique Neto (já agora, um excelente candidato a PR, com sólida noção de Estratégia e que percebe bem o que Sines pode significar; queres debater sobre estas matérias?). Todos eles não foram particularmente meigos e abonatórios com os partidos, o que, aliás, vai de encontro ao sentimento geral dos portugueses de todos os quadrantes. É do senso comum desde há uns anos a esta parte que existe algo de perverso nos partidos políticos que faz com que ocorram situações extremamente bizarras e nada benéficas para a nossa saúde democrática, com reflexos directos no nosso bem-estar material e espiritual. O resgate de 2011 e os casos nas mãos da justiça são disso bom exemplo. Mas não é minha intenção provar-te o que tu já sabes. Antes, é minha intenção neste momento lembrar-te que, embora reconhecendo a delicadeza e singularidade política da tua circunstância, estás em perfeitas condições de executar uma boa parte do ajustamento político no teu partido. A situação que o teu chefe te criou é ímpar e excelente para o propósito. Não sei se do meu lado vou ter tamanha sorte quando chegar a nossa vez.

Caro socialista, eu sei que tu podes desconfiar desta missiva. Mas acontece que querem-nos impingir sermos inimigos quando o que queremos ser é simplesmente adversários dispostos a debater no muito em que concordamos, ainda que possamos discordar no grau e na velocidade. Nesta fase é impossível não te convidar a questionar frontalmente sobre a motivação e o caminho que te quer levar aquele que sem modéstia jocosamente denegriu a vitória que anteriormente tiveste quando comparada com o parco resultado agora obtido, qualquer que seja a medida que utilizes. Não denunciará isto tanto daquilo que ambos temos para ajustar na política? E o que dizer da argumentação? Nem um sofista de segunda se atreveria a tanta desfaçatez argumentativa como aquela utilizada pelo teu chefe. Um virar de página? Que página? A da austeridade? Por favor, poupa-me, ou será que também acreditas em dietas que te põem a comer doces? Maioria de esquerda? O que é isso? Mas achas que as palavras “esquerda” e “direita” servem para arregimentar? Deixas que o significado preconceituoso das palavras condicionem com quem tu deves caminhar? O que seria o CDS ou o PSD invocarem uma hipotética maioria de “direita” se para isso se socorressem de um qualquer partido fascista?! Seria bizarro, não era? E que dizer dos “coitadinhos” eleitores de segunda? Evidentemente não são de segunda. Mas que jamais se subvertam os termos da relação. Cada um faça a sua parte. Eles dão os passos, nós estendemos a mão. Neste ponto alerto-te para o seguinte: os passos quando são de circunstância não são de fiar.

Sim, 1975 foi há muito e temos de compreender que estamos em 2015. Mas o que seria se se tratasse de um partido fascista? Aceitaríamos nós o argumento de que os fascistas de agora já não são como os de antigamente. Humm, meu caro, não caiamos nessa, pois não? Aliás, como reparaste os sinais estão bem à vista, a começar pela atalhada e atabalhoada sugestão de uma indigitação apressada do teu chefe pelo BE e CDU. Este último na busca de todos os possíveis cheques em brancos, e os dois a quererem PASOKar-te assim que o entenderem. Porque conhecem a natureza humana e a infeliz circunstância do teu chefe não hesitam na utilização da cenourinha do poder como engodo para alcançarem os seus objectivos. Claro que tu intuis tudo isto e que no fim julgas que utilizando um qualquer esquemazinho cozinhado na ocasião acabarás por sair por cima. Pois eu aqui permito-me agitar-te a consciência e desde já te digo que é precisamente neste ponto que erras. O que aliás não é de estranhar, pois é sabido que a ideia de poder cega-nos e retira-nos discernimento para a tomada de decisão.

Sabes, a transparência não é o forte dos totalitaristas. Os passos que dão são sempre subservientes aos seus fins. Sabemos que do lado de lá tudo se permite à táctica desde que isso sirva a estratégia. Recordo-te uma história que ilustra o perfil de com quem vais negociando. Durante a guerra fria os alemães fizeram uma descoberta. Enviaram uma amostra para o Japão, os EUA, e a USSR. Dos primeiros receberam de volta uma amostra melhorada, dos segundos receberam propostas de comercialização, e dos terceiros não obtiveram qualquer resposta. Há coisas que não mudam.

Imagino que neste ponto do discurso te irrites um pouco e digas para me preocupar mais com o meu partido. Compreendo. Sei realmente que os telhados de vidro andam por todo o lado e aqui também há muito para ajustar. Acontece que as possibilidades não têm sido tão boas quanto aquela que tu agora tens, embora nunca nos tivéssemos escusado sempre que a oportunidade surge, como em Julho de 2013 quando o AR se fez ouvir alto e a bom som para quem nos quis ouvir. A cena “irrevogável” e a forma como o anterior ministro da economia e sua equipa foi destituída em Julho de 2013 em nada nos orgulha. Espantado com a confissão e com esta simples ingenuidade política? Não estejas, doravante este estilo de estar na política vai ser premiado. O tempo das ilusões e dos joguinhos políticos acabou. O campeonato da Globalização não é a feijões e isso implica práctica política de outro standard.

Caro socialista, eu sei que não é tanto a voz do CDS que procuras ouvir com esta singela abertura. Acima de tudo tu precisas é de sinais humildes do partido com quem directamente te degladias, o PSD. As pressões intermitentes que te possam chegar para estenderes a passadeira do poder a um partido que coloca Marco António Costa como porta-voz não devem ser de fácil digestão. Acredita, acompanho-te no sentimento. Entre outros atributos, os discursos registados no passado e as palavras e o tom utilizados pela personagem após o discurso do Presidente da República de dia 22 de Outubro ficarão nos anais da nossa política como “como não saber fazer as coisas”. Peço-te desculpa, mas como simples militante do CDS julgo ter pouca margem neste aspecto, embora daqui sugira uma sabática da pessoa à função, um ocaso político que certamente não deixaria de transmitir um sinal positivo. Nesta fase é absolutamente imperdoável ter alguém num lugar de destaque que provavelmente nunca deve ter lido o livrinho de Dale Carnegie “Como fazer amigos e influenciar pessoas”. Insuportável em 2015 validar o que Manuel Laranjeira escreveu em 1907: “Dentre cinco milhões de criaturas, que se sentem esmagadas por um mal-estar insuportável, não existem cinco que se entendam para o remediar”.

Como vês há muito por fazer em todo o lado. Quis a história reservar-te este momento para fazeres a tua parte aquando da votação do governo da Coligação. Peço-te para decidires em consciência e como pessoa livre. Diz a tradição que nesta votação se siga a disciplina interna de voto. Peço-te no entanto que jamais deixes a tradição à mercê de perfis de políticos egoístas possuidores de agendas pessoais, de políticos ardilosos que promovem arranjos menos transparentes, políticos sem escrúpulos que não hesitam em atalhar, e políticos sem um pingo de modéstia quando não assumem as suas responsabilidades quando confrontados com resultados eleitorais que ficaram demasiado aquém dos objectivos a que se propuseram. Uma cumplicidade funesta que te acompanhará para o resto da vida.

Caro deputado socialista. Como político que és lembra-te do que escreveu o teu camarada Francisco Assis. Cito “O pior que pode acontecer a um político é ter receio da solidão”. Assim, com respeito e consideração confronto-te com o que te desafia. Seguir a opção fácil e cómoda e com isso confirmares-te como um vulgaris elemento de uma manada que se limita a seguir a conveniência do momento. Ou seguir o caminho da mudança e com outra liderança dar esperança para o futuro do teu PS como partido charneira. Há momentos que ficam para a história. Este é um desses.

Saudações democráticas