quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Que taxa de poupança para o futuro?



Um dos temas mais relevantes para a economia portuguesa e um dos menos abordados respeita à taxa de poupança relativamente ao rendimento disponível. Desde o início dos anos 60 que este valor vinha crescendo tendo posteriormente estabilizado em valores próximos de 20%, sendo 1987 o último ano que se verificou um valor desta grandeza. Desde essa altura que a taxa de poupança vem demonstrando uma tendência continuada de diminuição, chegando a atingir 6,8% em 2008. Em 2009 e 2010 o valor subiu de novo, ao que não será alheio a natural reacção à crise financeira internacional. O mesmo aconteceu em 2012 e 2013, o que também será explicado pela reação ao programa da Troika. No entanto em 2014 e 2015 a taxa de poupança retomou a sua anterior tendência descendente.

1960
4,9%
1970
17,9%
1980
18,4%
1990
17,1%
2000
10,5%
2010
9,2%
1961
5,5%
1971
20,8%
1981
19,4%
1991
15,5%
2001
11,1%
2011
7,5%
1962
7,3%
1972
24,3%
1982
21,7%
1992
15,2%
2002
11,0%
2012
7,7%
1963
9,9%
1973
22,1%
1983
20,5%
1993
14,2%
2003
10,0%
2013
8,7%
1964
11,4%
1974
18,1%
1984
18,8%
1994
11,2%
2004
10,1%
2014
6,9%
1965
8,6%
1975
21,4%
1985
20,3%
1995
12,5%
2005
9,2%


1966
13,3%
1976
21,0%
1986
18,8%
1996
11,5%
2006
8,0%


1967
15,1%
1977
16,2%
1987
20,0%
1997
11,0%
2007
7,1%


1968
13,9%
1978
18,6%
1988
14,4%
1998
12,1%
2008
6,8%


1969
17,6%
1979
19,5%
1989
17,0%
1999
11,4%
2009
10,4%


Fonte: Pordata

Nota: a Pordata não possui dados para 2015 pelo que se recomenda:
     1.       A análise do Indicador de Poupança da Universidade Católica em https://www.clsbe.lisboa.ucp.pt/pt-pt/faculty-knowledge/consulting/indicador-de-poupanca-apfippuniversidade-catolica

     2.       A análise do INE em https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=224676904&DESTAQUESmodo=2 onde se diz que a taxa de poupança foi de 5,8% no 1º trimestre de 2015 e 5% no 2º trimestre de 2015

Na zona Euro a taxa de poupança é estável e ronda os 12,5%. Nos EUA é cerca de 5%. Consultar dados do Banco de Portugal em http://www.bportugal.pt/Mobile/BPStat/Serie.aspx?IndID=826846&SerID=2027398&sr=2027407-2027389&View=graph&EndYear=2015&IniYear=1999&SW=1349&Show=1

A questão que se coloca é: qual deverá ser a taxa de poupança de referência? A dos EUA? Ou a dos países da zona Euro? Creio bem que a taxa de 12,5% da zona Euro será bem mais consentânea com as melhores práticas de quem pensa assegurar o seu futuro, nomeadamente em tempos de incerteza que vieram para ficar. Creio também que o desnorte consumista que tomou conta das almas lusitanas desde 1987 levou Portugal por maus caminhos. Parte da nossa independência terá que ser reconquistada através do aumento poupança, pois só com mais poupança poderemos: i) pensar em substituir em maior grau a dívida pública existente nas mãos de estrangeiros, ii) aumentar a capacidade de investimento de cidadãos nacionais, iii) dar mais capacidade ao decisor político de melhor interpretar a mudança que terá de ocorrer no nosso modelo de segurança social, iv) ter mais portugueses a viver em estabilidade.

Um bom indicador sobre padrões de consumo menos adequados é o recente aumento da venda de automóveis. Segundo dados da ACAP temos os seguintes valores para vendas para ligeiros de passageiros e todo-o-terreno desde 2005:

2005
206399
2006
194607
2007
201700
2008
213294
2009
160947
2010
223399
2011
153404
2012
  95309
2013
105921
2014
142826
2015
183674
Fonte: ACAP

Nota: para 2015 só existem dados até Agosto, pelo que o valor que se extrapolou para 2015 considera o crescimento acumulado até esta data relativamente a 2014 (+28,6%).
É sabido que as exportações têm tido um bom comportamento recentemente, mas será avisado seguir de perto a evolução da taxa de poupança e a venda de automóveis. As três intervenções externas que tivemos desde 1974 tiveram na sua base desequilíbrios na balança de pagamentos. A história de Portugal em democracia não pode ser marcada por constantes intervenções externas, pelo que urge monitorizar o início das bolas de neve consumistas que cedo ou tarde nos conduzem a profundos desequilíbrios macroeconómicos.

Como facilmente se compreenderá este é um tipo de matéria demasiado denso para ser levado a debate numas eleições. Mas é impossível não registar a insensatez do PS quando fala em choque de consumo interno dadas as circunstâncias acima descritas. É de quem não percebe nada sobre como governar um país. Quanto à Coligação pede-se que reflicta muito seriamente sobre esta matéria.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Um General ou um Soldado

No próximo dia 4 de Outubro Portugal votará. Duas figuras poderão sair dessa votação como PM: Passos Coelho ou António Costa, que é como quem respectivamente diz, um general ou um soldado. Passos Coelho deu provas inequívocas de ter estado à altura do desafio que se lhe apresentou: cumprir o acordo com a Troika e fazer acreditar aos Portugueses e aos países da zona euro que Portugal é um país viável dentro da mesma. Levou a carta a Garcia. Ao invés, António Costa deu neste período de tempo provas de ser uma personagem titubeante e até com pouca vergonha. Colaborou activamente para o agudizar da doença que afectou Portugal, chamou o médico, aceitou e assinou a prescrição, esperou pelo efeito dos conhecidos e nefastos sintomas da cura, e conta agora colher os benefícios do natural descontentamento e azedume do povo pelo simples facto de listar os incómodos da terapia. Nada que um soldado revoltado não se disponha a fazer. Para além de nada contribuir para o sucesso da companhia ainda se rebela na fase mais adversa da guerra sem perceber ou visionar que o mal que se experimenta faz parte do percurso, limitando-se a apontar as dores da campanha como sendo insuportáveis e desabafando que as mesmas não levam a lado nenhum (como se existissem percursos destes sem pedras…). E por fim ainda com suficiente desplante para desafiar o General a questionar a opinião de quem mais sofre in loco. O que dizer de tamanha desfaçatez?

Churchill disse no início da II Guerra que mais não prometia do que sangue suor e lágrimas. O mesmo Churchill fazia-se aparecer no Blitz comunicando com o povo que certamente ia sofrendo as maiores amarguras. Quem sabe não terá tido um terrível encontro com uma Mãe pouco afortunada velando algum filho no meio dos escombros. Que se esperaria que esse grande comandante retorquisse se questionado pela progenitora se ainda era favorável a sangue suor e lágrimas?

Portugal já teve demasiados PMs sem um mínimo de atributos para serem generais, ou mesmo meros aspirantes a alferes. Mais do que um governo PSD/CDS ou PS, Portugal votará ou num general corajoso, embora discreto, e que conhece bem o terreno em que nos movemos, ou num soldado que se imagina oficial e que, caso vença a eleições, humilhantemente baterá com a cabeça na realidade quando chegar a Paris aquando da exposição do seu primeiro delírio (a Berlim chegará já atordoado…). No entanto, a minha bondade natural impele-me na defesa de António Costa que por agora vai fazendo figuras menos boas, senão mesmo confrangedoras, e por isso dou o benefício da dúvida que o mesmo terá pelo menos o discernimento que o impeça de fazer as figuras tristes que outros já fizeram. Mas pelo simples facto de não apresentar uma estratégia que valha minimamente distinta daquela em vigor, já não lhe perdoo candidatar-se em nome de um grupo que nada mais tem para oferecer senão ilusões, prebendas e outros benefícios, e ainda outros mexericos de ocasião. Portugal merece um pouco de mais respeito.

Porquê votar na Coligação

A sensatez aconselha o voto na Coligação no próximo dia 4 de Outubro. Não necessariamente porque se é CDS ou PSD, mas porque a exclusão de partes por si só a isso nos obriga. Senão vejamos, na esquerda mais à esquerda não é produzida ideia que nos valha, somente berros emanados por almas rezingonas. No PS houve a infeliz ideia de se buscar o número 2 do anterior governo, ou seja, alguém que colaborou activamente na loucura da dívida, quer através de um modelo económico baseado em não transacionáveis, quer através da alta promiscuidade entre a governação e os interesses instalados (banca e construtoras), quer através do crescimento salarial muito acima do crescimento da produtividade, tudo componentes de um pacote que nos levou a um resgate que só mentes completamente impreparadas consegue produzir.

Aparte do Sr. Costa ter sido o número 2 desta aberração de modelo, a personagem revelou ainda que, ou nunca percebeu a incompetência do anterior PM, o que demonstra não perceber de pessoas e consequentemente não estar à altura de ser PM, ou se percebeu demonstrou ser um seguidista e carreirista, agachando-se a si e à sua necessidade de estar lá (leia-se, no poleiro) aos ditames da lógica política que perniciosamente tem dominado Portugal, o que, convenhamos, não nos deixa muito descansados quanto ao modelo que representa (assalto ao poder por parte do aparelho de um partido pelo simples facto de ser parte de uma seita).

A Coligação tem o mérito de apresentar o Sr. Passos Coelho que demonstrou ser um corredor de fundo e de confiança num ambiente muito adverso, com capacidade de dizer não aos poderes instalados (quantos diriam Não ao Sr. Salgado?), e possuidor de uma grande qualidade que desconfio possuir: saber ouvir. Terá sido isso que por um lado o fez perceber e interiorizar a situação de Portugal, pois nota-se que o que sabe deriva mais do que lhe terá sido dito do que terá discorrido, e por outro lado essa qualidade fê-lo lidar na perfeição com o arrufo de criança mal disposta do Sr. Portas a meio do mandato, dando-lhe tudo o que ele pretendia desde que se dispusesse a dar outro sentido à palavra irrevogável. A Coligação tem ainda o mérito de apresentar o Sr. Portas, profundo conhecedor da realidade empresarial portuguesa, trabalhador de méritos inquestionáveis, um excelente promotor de Portugal no mundo, e o melhor lutador que a direita terá.

Mas ficamos todos aflitos se alguma enxaqueca mal curada ou indisposição mal digerida possa desencadear uma qualquer crise política, um préstimo péssimo que há que não colocar no curriculum do CDS.

A Coligação tem ainda a sensatez de não apresentar promessas e de ter os pés muito mais assentes na terra do que o PS, partido decrépito e com pouco ou nada para oferecer aparte de um conjunto de falhados políticos a que a realidade pregou uma valente partida (caros socialistas, não há mesmo por onde estoirar dinheiro, perceberam bem? E para infelicidade vossa o crescimento não se decreta, mesmo que a vontade venha de mentes que se julgam moralmente acima do comum dos mortais). A coligação tem ainda a vantagem de ter interiorizado muito melhor que o PS que a demografia é o maior sarilho que temos pela frente como povo, muito maior que a questão da dívida. E por fim parece haver mais capacidade estratégica na Coligação do que no PS. O PS “orfanizou-se”, deitou-se com o Syriza e o tiro saiu-lhe pela culatra, não aceitou a mão do Sr. Cavaco há dois anos e perdeu o comboio da retoma (a Coligação possui a retoma a 100%), disse que a  austeridade não servia quando a realidade demonstrou que tinha de existir alguma forma de austeridade, esquerdou-se ao ponto de se parecer em muitos aspectos com o BE, mas pior que tudo, escolheu o número 2 do anterior governo para chefe da banda (aselhice das aselhices!).

A tentação do consumo privado

O nosso pessoal político, da esquerda à direita, tem provado ter uma relação difícil com o consumo privado. Manda a “sabedoria” política dominante manter o povo contente, ou pelo menos positivamente expectante quanto às suas expectativas de consumo, pois é tido como verdade insofismável que a imensa plebe votante não vê para além do dia seguinte, tão pouco está interessada em ouvir vozes que pensem a prazos mais compridos, favorecendo a lógica eleitoral de colocar da melhor maneira possível a carroça à frente dos bois, consumindo primeiro de modo a manter a populaça satisfeita, e esperar que a alguma coisa corra o melhor possível de modo a corrigir qualquer consumo mais esticado que tenha ocorrido. Enfim, nada que qualquer mente desmiolada não pratique.

O caso seria mais ou menos gerível se esta psicose ocorresse somente pelas bandas da esquerda. No entanto,  e para surpresa dos politicamente ingénuos como eu, a direita também demonstra cair na tentação, nomeadamente, pasme-se, pela mão do Sr. Pires de Lima. Na sua moção ao congresso que não existiu, no ponto 3 segue esta pérola: Pretender activar uma estratégia de crescimento do Produto sem estabilizar, primeiro, e permitir a recuperação e o crescimento, depois, do Consumo Privado parece‐nos uma ficção. Não é sustentável a ideia, num Pais que exporta 38% e importa 40% do Produto, que o crescimento económico possa ser atingido unicamente pelo desenvolvimento das exportações. Muito menos num período em que os nossos principais mercados‐clientes vivem em estagnação (Alemanha, Reino Unido) ou recessão (Espanha, França) económica. As exportações devem continuar a desempenhar um papel prioritário nas políticas  económicas mas têm de ser acompanhadas por uma preocupação de recuperação do consumo privado, nomeadamente de bens transaccionáveis.

Expurgando o economês escorreito que permite a qualquer leitor concordar com o exposto, o que acima se denuncia é uma fraca percepção de longo prazo quanto à dinâmica de uma economia tomando em linha de conta o incómodo, mas fatal, equilíbrio da balança corrente que se impõe. O exposto não persuade que o consumo privado possa estar de alguma forma relacionado com as exportações como efeito colateral de fim de linha, tão pouco considera que na actual situação de Portugal primeiro tem que se exportar, depois, e por imposição própria da dinãmica exportadora, aumenta-se o consumo de bens intermédios, e por fim como brinde consome-se. Sabemos que desta forma o PIB demora mais tempo a crescer, embora também se saiba que cresça de forma mais sustentável, mas só as  mentes mais infantis acreditam que os PIBs podem crescer na “mecha” na directa proporção da sua vontade política e de acordo com as agendas eleitorais dos  participantes.

Os últimos números estão aí para deixar o Sr. Pires de Lima muito satisfeito. Realmente o PIB cresce mais na versão na “mecha” pela mão dos carros que a população resolveu começar a comprar desde há dois anos. Como a venda de carros conta para o PIB, está tudo bem. E mais bem ainda fica se considerarmos que o aumento da venda de carros deixa os habitantes do ministério das finanças ao rubro pelo efeito da receita fiscal (que maçada as exportações não serem tão cooperantes nesta matéria…). O incómodo é que também contam para o desequilíbrio da balança corrente, efeito pernicioso e pouco perceptível, mas que convém lembrar terem sido esses desequilíbrios a causa comum da três intervenções externas que infelizmente tive oportunidade de vivenciar.

Não, não é ficção como é dito no texto moção. É como deve ser. É também nestas nuances que se detectam as diferenças entre um político que lê e interpreta o futuro (os países supra indicados passaram a ter taxas de crescimento), e tem a correcta percepção do trabalho de casa que há para fazer (fazer de Portugal uma sociedade exportadora *), e aquele que navega ao sabor da corrente sem saber muito bem por que mar é que navega. Mas nada disto nos deve espantar. No final de contas trata-se de alguém que pouco antes de ser empossado dizia não ter pretensões ao ministério da economia e ter lá aterrado nas condições que todos conhecemos.

*aspecto que não se confina somente a imperativos macro económicos

Uma confissão: adoraria ter conhecimentos de psiquiatria que me fizessem entender as constantes infantilidades do governo grego desde que tomou posse e o significado da expressão aluada e perdida do Sr. Euclid Tsakalotos durante a cimeira do acordo.

sábado, 13 de junho de 2015

Acham-se

A Portugal foi permitido testemunhar desde Julho do ano passado ao desmoronar do maior castelo de cartas da nossa economia e finanças. Falo do GES/BES e da PT. A derrocada em si é desprezível em termos de impacto para a economia real, que é ínfima se atendermos ao quase pavor que nos quiseram vender por quem de perto convivia com o desmoronar das ilusões. O que não é desprezível é a análise do modelo em que o sistema estava montado no que respeita ao modus operandi e às crenças de quem habitava no círculo e de quem dele beneficiava directa ou indirectamente.
Esse grupo falido continha muito daquilo que marcou Portugal nos últimos 40 anos. O pensar que se é mais do que aquilo que se é, a prostituição intelectual das chefias ao subjugarem a ética aos proveitos financeiros e à carreira, o agachamento da vulgata corte por troca de dividendos e outros pequenos “benefícios”, e a suprema ilusão de todos os participantes e aspirantes a participar de que funcionar em circuito fechado é condição de sucesso desde que para isso se socorra de conhecimentos interesseiros e outras influências.
Como em qualquer sistema dominante que se desenvolve em circuito fechado, as vozes que nele habitam e de que dele beneficiam acham-se a voz, ou seja, acham-se possuidores de autoridade absoluta na emissão de doutrina sobre os credos, trilhos, e ritmos que todos devem seguir. Consequentemente, e com o passar do tempo, os enviesados modelos de sucesso deste circuito fechado passam a ser o modelo único e rígido dos que dele fazem parte, ou anseiam fazer, e dos que dele beneficiam, com todas as nefastas consequências para a ética e sanidade mínima que devem caracterizar as organizações de sucesso. As tristes figuras na comissão parlamentar dos participantes máximos da ilusão mais não fez do que colocar a nu a qualidade do barro sobre o qual todo o sistema estava edificado e a consequente podridão da seita, e que de certa forma modelizava o conceito nacional de sucesso, explicando em boa parte de uma forma fria e literal porque Portugal não se desenvolveu muito nos último 20 anos.
É um facto inequívoco que nos dias de hoje as palavras e os discursos dos executivos de topo em Portugal são muito mais esmiuçados. Por sorte, a rapaziada (a expressão não é gratuita pois a infantilidade é característica nestes sistemas fechados) que funciona em circuito fechado ou já se extinguiu, ou a pouca que ainda sobra perdeu a motivação de expor a sua vacuidade a escrutínios mais severos. Muito proveito Portugal irá beneficiar a prazo, pois quem hoje marca o ritmo funciona tendencialmente em circuito aberto, ambiente que por definição tende a retirar o melhor de cada participante do sistema.
Há no entanto ainda um domínio que funciona basicamente em circuito fechado: os partidos. O que explica porque as maiores alarvidades que ecoam pelo país sejam maioritariamente vociferadas por altos dirigentes partidários, de A a Z. Os mercados, com todas as suas imperfeições, a seu tempo sempre vão derrubando as organizações mais podres por via das regras do próprio mercado. Na política criaram-se outras regras, misteriosas para quem joga o jogo pelo jogo, mas vantajosas para quem delas se utiliza para se movimentar como modo último de sobrevivência, tornando a regeneração partidária um fenómeno mais complexo. Os que “acham-se” na política nos dias de hoje e que blindaram o sistema que lhes serve e que lhes permite proferirem estupidez e ignorância, estão para a política como para a economia e finanças estiveram os que fizeram triste figura na Comissão Parlamentar do caso GES. Esses são aqueles que é preciso extrair da política para que Portugal possa respirar melhor e viver num ambiente mais arejado.

sábado, 16 de maio de 2015

O que falta fazer

Se entre 1987 e 1995 faltou visão para Portugal, desde 1995 até 2011 faltou tudo. Durante todo este período Portugal esteve entregue a um mix de perfis de dirigentes políticos ao mais alto nível invulgarmente maus e manietados pelas seitas existentes nos partidos. Mas não foi só a incompetência governativa e os interesses existentes nos partidos que tomaram conta do poder. A corrupção e a captura do poder por parte dos grupos de pressão potenciaram tudo o que a incompetência tem para dar: dívida e cacos derivados de organizações mal orientadas por esse sistema torpe (BPN, BPP, BES, PT, etc).
Se desde 2011 toda a sociedade se tem vindo a ajustar e a criar as bases de um novo modelo económico que urge (exportações terão que representar um mínimo de 60% do PIB), para que uma importante parcela da sociedade se ajuste os partidos políticos terão ainda que cumprir com a sua parte, ou seja, correr com todos aqueles que utilizam os partidos para se alimentarem a si e ao seu grupo de interesse. Se até no sector público os pendurados têm a vida cada vez mais difícil, nos partidos ainda encontram vasto terreno para espalhar a sua vil e pérfida conduta, sendo este um obstáculo tremendo para que melhor luz possa servir Portugal.
Em rigor não sei exactamente o que é necessário fazer para cumprir com este capítulo do nosso ajustamento, mas não resisto em enumerar algumas passagens de Eça de Queiroz em “O Conde D’Abranhos” respeitante ao Desembargador Amado, e que ilustram o meu sentimento de desprezo para com uma parte da nossa política. “Sustentado pela vasta parentela, fora com efeito levado, sem abalos nem choques, numa ascensão gradual e confortável, até à sua poltrona de damasco vermelho da Relação de Lisboa. Aí se deixara cair com o peso da sua obesidade, e cruzando as mãos sobre o estômago, começara a ruminar regaladamente. Que de modo nenhum se creia que eu queira diminuir com azedume os méritos deste varão obeso: quero somente mostrar a natureza, toda de indolência e de egoísmo, do Desembargador Amado, ocupado em se nutrir com abundância, atento exclusivamente ao jogo das suas funções, assustado se a bexiga, ou o baço, ou o fígado denunciavam alterações, sem ter coragem de se mexer do sofá durante noites inteiras, completamente desinteressado dos homens --- e mesmo de Deus”. ”As birras do obeso e obtuso Amado eram realmente singulares. Sem razão, de repente, embirrava. E era então como o obstáculo bruto, inerte, material, de um enorme pedregulho numa estrada. Era uma resistência passiva e espessa: as bochechas tornavam-se-lhe mais balofas, as pálpebras papudas mais pesadas, e sem dar razões, rosnava surdamente: --- Não estou pelos autos… Não vai… Não me calha. E causava indignação e horror, sentir aquela massa bestial e adiposa, atravancando obstinadamente o caminho!”
Grande parte da desconfiança dos Portugueses advém de um profundo desespero em ver estes pedregulhos e massas bestiais que literalmente atravancam obstinadamente o caminho e que pela sua dimensão tornam a sua remoção practicamente impossível, tal a profissionalização das seitas partidárias ocupadas em se nutrir com abundância e atentas exclusivamente ao jogo das suas funções, e tal a falta de tempo e amadorismo de quem não pensa a política como forma de se pendurar nesta vida.
Aceitam-se propostas para a empreitada.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Visão

Em 1989 ocorreu uma importante reforma fiscal. O IVA, o IRC, e o IRS, substituíram um desagregado de impostos existentes e deram corpo ao sistema fiscal que hoje conhecemos. Essa reforma foi bem-vinda, mas valerá a pena analisar os níveis de taxas então definidos. A taxa máxima do IVA era de 16% e a do IRC de 36,5%. As taxas máximas de IRS andariam por volta dos 35%.
Comparando com as taxas actuais, IRC à volta de 24% (e com promessas do arco da governação para ir até aos 18%), taxa máxima de IVA de 23% (com tendência para subir), e taxas máximas de IRS acima dos 50%, cremos que houve um grande lapso na definição das taxas em 1989. Na altura Portugal ter-se-á esquecido de perguntar se preferiria seguir um modelo de economia baseado nas exportações ou um modelo de economia baseado no consumo, coisa que os ventos eleitoralistas utilizados pelos vendedores de ilusões fizeram descambar para o lado do endividamento e consumo interno e cuja inversão agora perseguimos.
Houvesse na altura visão, teríamos em 1989 definido algo como: taxa de IRC de 12,5% (é sabido no entanto que a competitividade fiscal não se esgota no nível da taxa de IRC), taxa máxima de IVA de 26%, e taxa máxima de IRS de 20%. Com este pacote teríamos tido muito mais investimento estrangeiro em Portugal desde essa altura, o que forneceria uma base muito mais alargada e estável de empresas capitalizadas capazes de absorver na altura aquela massa de pessoas que acabou por engrossar a função pública, e a massa de portugueses de hoje com capacidade de fornecer trabalho qualificado e que tem de emigrar. Notar ainda que mais investimento estrangeiro de longo prazo em grande escala teria difundido em elevado grau melhores práticas de gestão pelo nosso tecido económico, com todo o impacto benéfico daí resultante na qualidade de vida das pessoas. Horários de 12 ou mais horas de trabalho seriam mais a excepção do que a regra, com evidentes benefícios na felicidade da população e na taxa de natalidade.
Por outro lado a probabilidade de ocorrência dos desequilíbrios macroeconómicos que viemos a criar teria sido muito menor, não só porque as importações seriam mais caras, mas também porque a economia teria sempre um contrapeso de produção para fazer face aos naturais ímpetos consumistas. Mas se ainda assim ocorressem desequilíbrios macroeconómicos, estes seguramente nunca atingiriam o grau do desequilíbrio verificado aquando da entrada da Troika em 2011, sendo que a dor do ajustamento necessário seria muito menor pois teríamos mais economia baseada na exportação que mitigaria um qualquer processo de ajustamento. E se dúvidas há a este respeito que se consulte a dor do ajustamento irlandês, uma economia voltada para a exportação, em comparação com a dor do nosso ajustamento.
Por fim teríamos uma economia mais preparada para competir no século XXI no que respeita à retenção e captação de talento. Com taxas de IRS ao nível de 20% num país com as condições que Portugal tem (geografia, costa, temperatura, etc), e com outro histórico de percurso económico, mais voltado para a produção, estaríamos melhor colocados para sermos também uma economia voltada para o conhecimento, e em vez de pequenas bolsas como as que hoje existem, teríamos muitas mais, e em lugar de emigrarmos estaríamos provavelmente a receber imigrantes de talento.
Para que o desenrolar dos acontecimentos fosse outro teríamos de ter dirigentes de visão em 1989, coisa que não tivemos. Em resultado de as coisas terem corrido mal temos hoje em dia um debate político sobre economia desprovido de um mínimo de intelectualidade e muito bem provido de disparates emanados por almas confusas e com profundas insuficiências na compreensão do mundo económico em que vivemos. Resta saber se ainda vamos a tempo de ter dirigentes com visão para perceberem o que falhou desde 1989 e o que significa “economia do conhecimento” ou o que significa “talento” para uma equipa ou empresa vencedora, conceitos necessários para quem quer competir no campeonato mundial da economia nos mais altos graus da cadeia de valor. E por fim perceber ainda que com taxas de IRS como as que temos é muito mais difícil de lá irmos.

sábado, 29 de março de 2014

A geração que falhou

O recente manifesto dos 74, outorgado por muitos que têm mais voz do que visão, constitui o grito de capitulação de uma geração que falhou na influência que teve nos destinos de Portugal. Se nos colocarmos no lugar dessas personagens e na grande maioria dos que apoiam a iniciativa, não será difícil de adivinhar as pequenas parcelas de responsabilidade que a cada uma delas cabe na condução do país até ao pedido de resgate. Tendo em conta a provecta idade de muitos, é natural que individualmente se iniciem os trabalhos de fecho para balanço das suas responsabilidades públicas. Aos outros, embora mais novos, mas já com “currículum” de responsabilidades públicas, o exercício será mais comprido, e por isso mais doloroso, pois terão o tempo suficiente para compreender os erros que cometeram e ainda bastante tempo para cruelmente verificarem que a terapia que vilipendiam vai/está a funcionar.
 
Parece evidente que o assunto não é do domínio económico, tão pouco político. É do domínio da psicologia. E quando a este nível se chega, a racionalidade e a frieza, conceitos que tanto aprecio na assistência à boa governação, provam ser totalmente irrelevantes. De psicologia sei pouco, mas sei o suficiente para saber que a compreensão e o tempo são a melhor terapia para ajudar aqueles que realmente querem fazer balanços justos de fim de vida. Recentemente tivemos em Otelo Saraiva de Carvalho o inesperado exemplo de reconhecimento em como as ocupações de terras nos idos anos de 1975 foi uma má decisão (In DN 26.03.2014 - "Era necessário tomar decisões, mesmo que elas fossem más. Tinham de ser tomadas. Depois logo se via. Foi o que aconteceu inúmeras vezes, uma delas com a reforma agrária, quando mandei ocupar as terras”). Obviamente que seria estéril tentar convencer a personagem do seu contrário durante os anos subsequentes, o que indicia que o encontro dos (ir)responsáveis políticos com a realidade e o reconhecimento público dos seus erros é um acontecimento incerto e, a ter lugar, a ocorrer somente no futuro longínquo.
 
Assim, façamos a nossa parte. Compreendamos agora os nossos concidadãos no seu drama pessoal de introspecção, e não melindremos com análises frias e racionais esses espíritos que somente necessitam de calor e ajuda para carpir a mágoa que sentem mas não entendem. O tempo fará o resto.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Cuidado com as ilusões


Anda neste momento por aí alguma excitação pelo PIB ter crescido um pouco mais no terceiro e quarto trimestre de 2013. Isso deve-se maioritariamente à subida do consumo privado que tem estado a subir para gaudio de quem não deveria vangloriar-se com o facto. Como infelizmente a taxa de poupança tem vindo a descer desde meados de 2013, porque no entender de algumas famílias há muito bem duradouro a ser reposto (automóveis, etc), os nossos políticos não resistem em dar nova vida à visão de curto prazo que vai dominando sempre que encontra uma oportunidade, e ao invés de desincentivarem o consumo de bens duradouros, ainda celebram o facto.

Que se perceba uma coisa de uma vez por todas. A taxa de poupança não deve descer. Inclusivamente deve ainda subir. De entre outras razões destaco as seguintes. Primeiro para se poder diminuir a nossa dependência externa quanto ao financiamento da dívida pública. Se esta a prazo entrar na curva descendente em percentagem do PIB, o que vai ter de acontecer através de excedentes (já agora, só oiço o Sr. Passos Coelho proferir a palavra EXCEDENTE. Pergunta: quando é que no CDS essa palavra entra no léxico?), e se cumulativamente o crescimento da poupança interna substituir parcialmente o financiamento externo, então caminharemos a prazo para um cenário à italiana ou japonesa onde os credores são menos os mercados e mais a própria população, com todo o impacto positivo no nível das taxas de juro com que rolamos o stock de dívida.

Segundo, para dar mais graus de liberdade ao decisor político no que respeita à grande reforma que o nosso sistema de segurança social vai ter de sofrer. Este problema, que de pequena reforma em pequena reforma vai coxeando cada vez mais por imperativos da nossa dinâmica demográfica, necessita de ser repensado de raíz, pois só quem anda muito distraído é que não percebe que o drama de quem hoje se queixa que as pensões são baixas não é mais do que o sonho dos pensionistas de amanhã. E porque a passagem do modelo actual para um modelo futuro irá necessitar de um período de transicção que seguramente será complexo, quanto maior for a taxa de poupança mais hipóteses teremos de proceder a essa transicção.

Só quem anda muito embrenhado em calendários políticos e calculismos partidários não percebe que estes pífios foguetes, que são do interesse partidário, de nada valem quando comparados com os dois pontos acima descritos, que são do interesse de Portugal. Que o PS seja assim ainda é como o outro, agora que o CDS pratique esta modalidade de socratismo é que já custa mais a aceitar. Senhores doutores do CDS, lembrem-se que somos de direita, e que discutir décimas de crescimento com origem no decréscimo da poupança e fazer disso depender uma saída à irlandesa não é mais do que estar à altura daqueles que nos trouxeram até ao programa de resgate. Percebem e concordam? Ou nem sequer percebem?

Que tristeza percepcionar que politicamente Portugal entrou de novo numa fase de curto prazo… ou não estivessem eleições à porta.