sábado, 16 de junho de 2012

O que cada um representa

Tem sido engraçada a nova infantilidade política em curso por muito dos corredores de poder desta Europa. O Sr. Hollande, bastião da boa nova do crescimento económico como boia de salvação da Europa e de todos os males que nos desassossegam, parece acreditar que o crescimento económico pode ser tratado como uma opção passível de ser decretada. Esta ingenuidade até será aceitável para alguém que ande a sofrer seriamente com a crise em curso, mas é ridícula em alguém que se encontra num posto de comando.

Crescimento económico não é algo que se decrete. O crescimento económico sustentado e saudável ocorre quando as bases para o seu aparecimento são edificadas e solidificadas. E para quem ainda não se tenha apercebido, o que se está a tentar construir nos países meridionais é precisamente as bases para que mais tarde se possa crescer. O problema na economia é que estas coisas demoram alguns anos. E o problema das pessoas nos dias de hoje é que querem tudo já, à boa maneira do faça já, compre já, ou ainda do emagreça já.

Como a cabeça do vulgo tem sido massajada há décadas na infantilidade, a superficialidade e a ilusão tomaram conta das percepções. Assim, a distância destas para a realidade assumiu dimensões gigantescas. A chegada desta última traduziu-se inicialmente pela negação, e mais recentemente transformou-se em frustração quando a sua inevitabilidade foi finalmente percepcionada. E é neste ponto emocional em que nos encontramos, que mais não é do que um terreno fértil para a astúcia e o ludíbrio.

O Sr. Hollande querer agora capitalizar a posição menor da França face à Alemanha à custa da insatisfação emocional de parte da massa ignara e infantil. Evidentemente que o seu aparente sucesso inicial mais não é que o resultado de um desabafo momentâneo das massas, como um gordo que vai na sua terceira semana de forte dieta e que se deleita à sucapa com dois pastéis de nata: sossega-lhe o corpo e a gula mas perturba-lhe o processo. A vontade e a acção conflituam, e a doçura da última torna-se mais forte que a razão da primeira. E é isto que o Sr. Hollande representa face à Sra. Merkel. Vontade. Uma vontade danada que tudo passe depressa, que a realidade não seja, e que o erro não tivesse acontecido.
Acontece que o Alemão tem provado saber bem do que fala. Para além disso é um povo a quem foi dada a conhecer a amargura quando tomou opções em conformidade com estados de alma. Hoje o meridional está confuso e com pouco discernimento, e a verdade diz que ele precisa de austeridade de modo a eliminar o hiato entre as suas percepções e a realidade. Quando esta aliança for feita, então o crescimento brotará, não por decreto, mas por vias das forças naturais da própria sociedade. Não há nenhuma evidência, tão pouco histórico, de que poderá existir crescimento e desenvolvimento numa sociedade que vive dissociada da realidade, pelo que, lidar de frente com esta é condição necessária para a obtenção daqueles. Enquanto uns dedicam-se na compreensão e relacionamento com a realidade, outros preocupam-se com a existência da mesma. Em posições de comando é isto que distingue o sabedor do ignorante.

domingo, 3 de junho de 2012

Uma dica ao Sporting Clube de Portugal

Curta declaração de interesses. Sou do Benfica, mas preocupa-me a situação actual do Sporting. Simplisticamente olho para o Sporting como clube e vejo a Grécia como país. Poderia regozijar-me do facto enquanto benfiquista, mas não o faço por entender o quão importante é para o desporto nacional, e o football em particular, ter um Sporting forte em termos desportivos e em termos financeiros.

O problema do Sporting consiste na apresentação sistemática de prejuízos e a consequente acumulação de uma dívida gigantesca quando comparada com a receita potencial. Isto é o cenário da Grécia nos dias que correm. No entanto, e ao contrário da Grécia, o Sporting tem uma solução. E é este ponto que me faz escrever estas linhas.

Ao que parece o actual presidente do Sporting fez umas deslocações pela China e Índia com o objectivo de encontrar investidores que queiram investir no Sporting. A esta ideia voluntarista falta aquela dose de realismo que se impõe nesta altura. Haja consciência que a probabilidade de sucesso desta investida pelas bandas asiáticas é nula, senão contraproducente, pois falar em football português por aquelas bandas poderá trazer interessados… mas para o Benfica. Basta para isso olhar para os relatórios da Deloitte de 2011 e 2012 sobre o football. O potencial de aumento de receitas do Benfica no curto prazo é tremendo (renegociação dos contractos televisivos e muito boas perspectivas de participação continuada na liga dos campeões), pelo que se algum milionário quiser brincar ao football em Portugal atirar-se-á muito mais depressa ao Benfica.

O que o Sporting deve fazer é tentar arranjar investidores depois de limpar uns 200 milhões de euros no seu passivo. Um investidor meio maluco, e há muitos deles com imenso milhões disponíveis pelas arábias, índias e chinas, talvez arrisque investir no Sporting se entrar com dinheiro para investir, não para limpar passivos. Esses investidores olham para o football como uma criança olha para um brinquedo. A sua relação é maioritariamente ditada pela componente lúdica. Ora neste momento não há nada de lúdico que o Sporting tenha para oferecer, a não ser uma tremenda novela grega que aí vem. Ao invés do Manchester City, que não ganhava um campeonato Inglês desde 1968, mas que sempre tem como atractivo o jogar na liga inglesa, o que não é despiciendo, e ser o clube da “terra” já que possui uma massa de adeptos em Manchester superior à do Manchester United (penso que relação de 60/40).

Assim, a direcção do Sporting se quiser realmente salvar o Sporting tem que dizer aos seus sócios e simpatizantes o seguinte. “Olhem, nenhum dos milionários nos quer como brinquedo para brincar aos campeonatos e taças. Para que isso possa eventualmente vir a acontecer, mas acima de tudo para que sobrevivamos como clube, é preciso que limpemos o nosso passivo nuns 200 milhões de euros. A proposta é a seguinte. Efectuar um aumento de capital nesse montante para amortizar dívida em igual montante. O propósito não é ganharem dinheiro com o investimento. O propósito é não perderem um clube. E, quiçá, um dia, talvez algum árabe meio embriagado venha a gostar de nós e se permita torrar por aqui uns milhões para comprar a sua equipa de football. Ha, esse aumento de capital até poderá ser feito ao longo de 4 anos à razão de 50 milhões de euros por ano, o que para um universo de 100.000 sportinguistas subscritores daria 500 euros por ano. O que é que acham? Vamos a isso?”

Eu sei que pode parecer uma proposta meia tola, mas quando as coisas apertarem à séria (e está quase…) e se colocar em cima da mesa a falência do clube e a sua respectiva liquidação, então todas as soluções, como a que acima indiquei, passarão a ser consideradas muito plausíveis. E esta até pode bem ser das melhores que se arranjam, especialmente se alguém vier com uma alternativa do estilo “Imploda-se o estádio de Alvalade, vendam-se os terrenos, e aluguemos um dos estádios de Lisboa para lá se fazerem os jogos”.

Isto não é do domínio do surreal. Surreal é a situação actual.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dobrar-nos-emos?

Portugal está num processo de mudança muito grande. Poucos andarão a dar conta disso, mas esta crise está a modificar aos poucos os alicerces sobre o qual montámos a nossa vida nos últimos 25 anos. Julgámos ser possível trilhar um caminho para que nos levasse a um nível de vida Nórdico aplicando práticas Meridionais naquilo que as mesmas têm de mais funesto. A falácia alimentou-se pela cegueira voluntária do indígena e pelo desregrado contínuo aumento do endividamento geral.

Em todos estes anos a sociedade pouco se sensibilizou para se questionar sobre os fundamentos que levaram os Nórdicos a gozarem o nível que hoje têm. Como que ocultando um medo de uma qualquer evidência reveladora de que determinado tipo de alicerce tivesse de ser erigido. Impor limites ao endividamento público? Tratar da nossa Justiça? Tratar de ter um mercado de arrendamento imobiliário normal? Tratar de cuidar na construção de uma sociedade mais independente do Estado? Tratar de criarmos mecanismos que premeiem o mais produtivo? Tratar de exigir muito mais de quem não quer fazer nada, ou fazer muito pouco, e de ainda quer viver à conta dos outros? Tratar de ser implacável para com o aldrabão e espertalhão de meia-tigela?

Em todos estes domínios falhámos, e num grau muito superior ao razoável. E é em todos que somos agora obrigados a mexer de modo a encarrilarmos e podermos continuar no mesmo comboio que os tais Nórdicos. Em 1 ano já fizemos o mesmo do que outros fariam em 2 ou mais anos. Mas o caminho é muito longo, e falta ainda muito para modificar em elevado grau o que tem de ser modificado de modo a gozarmos o mesmo nível de vida daqueles com que nos comparamos. Em muitas matérias a política pode fazer muitas coisas. E eu não duvido que irá fazê-lo. Noutras, dependeremos da humildade em nos questionarmos bastante sobre alguns traços da nossa cultura e da predisposição para organizar a nossa sociedade e comunidades locais de outra forma. Não será fácil, mas o prolongar dos tempos difíceis que teremos fatalmente de percorrer ir-nos-á alertar para a necessidade de dobrarmos um pouco a nossa maneira de ser. A ver se a humildade e o querer serão suficientes.

domingo, 27 de maio de 2012

Os melhores de nós

Há pouco tempo atrás, durante a tomada de posse do Conselho para o Empreendedorismo e Inovação, Passos Coelho dizia que o desemprego deve representar uma oportunidade. Uma oportunidade para procurar emprego, calculo eu, porque não quero nem pensar que o primeiro-ministro estava a propor aos desempregados o empreendedorismo como uma espécie de última instância depois de tudo o resto ter falhado. Como quem diz: estão desempregados, mas têm sempre a hipótese de abrir uma empresa e portanto não me chateiem. Muito pelo contrário, montar um negócio de sucesso não é propriamente fácil e este devia ser o desafio número um para os jovens licenciados. A rapaziada da minha idade, no entanto, continua mais interessada em banca de investimento e consultoria; uma pena, a meu ver, porque seria melhor para a sociedade se estes jovens, motivados e inteligentes, estivessem mais focados em descobrir novas formas de criar valor.

Ainda por cima, entre business angels e capitais de risco, «nunca houve tanto dinheiro para apoiar empreendedores». A frase é do presidente da Associação Europeia de Business Angels. O português, claro, é um visionário e Portugal é um dos países com maior taxa de natalidade empresarial. O problema, infelizmente, é que também temos das maiores taxas de mortalidade; apesar de se criar muitas empresas, os projectos são pouco estruturados e ao fim de dois anos apenas metade sobrevive. Ou seja, ideias originais há muitas, o que falta é gente que as implemente efectivamente e com sucesso, que crie novos empregos, mais valor para a sociedade. E para isto é essencial que se mudem mentalidades e que se ponha os jovens de hoje em dia mais interessados no empreendedorismo e menos na banca de investimento e consultoria.

Tem que haver uma aposta séria na coisa. E nós, jovens licenciados, na flor da idade, com bom corpo e força nas pernas, até falamos nisto, imaginamos empresas novas, mil e um projectos possíveis, mas depois acabamos por adormecer, na antemanhã ainda, ou falhamos na execução, exaustos, quase sempre, como se nada pudéssemos contra a carapaça burocrática de uma sociedade com poucas estruturas de apoio e uma educação redutora. Pois sim. Agora a sério: é preciso juntar nisto os melhores de nós e pôr esta porra a andar.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Importam-se de deixar os outros fazer o seu trabalho?

A questão do Euro não é tão complicada quanto isso ao nível da decisão política. Existe um clube, existem regras, existem compromissos, existem programas acordados entre todos, existem deveres e direitos, e já agora existem vontades efectivas (não daquelas para Inglês ver). Está bom de ver que o povo Grego não percebeu bem que está num clube onde não se pode nem se deve brincar. E o que o povo Grego anda a fazer é precisamente brincar com os outros membros do clube. Pessoalmente não me move nada contra o povo Grego, e inclusivamente respeito a sua revolta, não por concordar com a mesma, mas por ela me fornecer indícios claros de que o lugar da Grécia é fora da zona Euro. E isso deve ser respeitado enquanto um possível figurino, o que, em rigor, é a melhor opção para todos.
A distância entre a vontade e a vontade efectiva pode ser enorme. Claro que os Gregos querem estar na zona Euro quando somente os direitos concorrem para a formulação da opinião. Quando atentamos para a vontade efectiva, então os deveres saltam para a balança, e consequentemente a porca começa a torcer o rabo. Nesta fase, e após alguns anos a serrar presunto, chegou o momento de avaliar o assunto pela bitola da vontade efectiva. Chegado a este ponto, ainda podemos esbarrar com o facto de os Gregos inverterem de um momento para o outro essa mesma vontade efectiva. Resta então passar o teste da possibilidade técnica.

Considero que no ponto onde nos encontramos os Gregos não têm vontade efectiva, coisa que as eleições de 17 de Junho irão validar devidamente. Daí já nem se colocar a questão da possibilidade técnica. Consequentemente trata-se agora de preparar a saída da Grécia da Zona Euro e ao mesmo tempo acautelar que essa mesma saída não prejudique aqueles países onde as duas vontades invocadas andam de braço dado. E que os distúrbios financeiros esperados não impactem em demasia nas suas possibilidades técnicas.
Por isso sugiro aos Gregos que pensem um bocadinho nos outros, e que por respeito a esses outros membros do clube não prejudiquem os outros trabalhos existentes no clube e que estão em curso. O centro do mundo não é a Grécia, nem nenhum País merece mais do que aquilo a que deixa de estar disposto a fazer. Por isso, e como Português, exijo que o meu país e os responsáveis políticos legitimamente eleitos que assinaram os acordos com a Troika tenham a possibilidade de levar por diante a execução dos seus compromissos cuja prossecução são, obviamente, do interesse de todos os membros do clube.
Por isso direi que num breve prazo há que tomar decisões muito importantes e aclarar com que cenários trabalharemos no futuro. Até para que os azimutes do pessoal internacional consigam estar mais afinados e permitam melhor perceber que nesta Europa há países com ideias muito diferentes sobre como pertencer a clubes.
Tudo o mais respeita a questões técnicas de como executar o change over. Embora do domínio técnico, o facto não é de menor importância. É do senso comum e dos ensinamentos históricos, que o devido controlo dos mecanismos de feedback e precipitação de acontecimentos, cuja velocidade é perniciosamente sempre mais rápida do que os antídotos, deve ser assegurado. E aí os políticos membros do clube têm que estar muitíssimo bem sintonizados e superiormente assessorados tecnicamente. È que, acaso não se saiba, e para os mais distraídos, que já não os há para além da esquerda irresponsável e nos desmiolados que ainda por cá existem, a finança é um brinquedo muito perigoso.

sábado, 19 de maio de 2012

Como fixar e trazer pessoas para Portugal

Como já por diversas vezes comentei, o suicídio demográfico em curso é o maior desafio que Portugal tem pela frente. O enorme aumento da emigração, que os números do 1º trimestre revelaram ser muito superior ao expectável não é um fenómeno que ajude a inverter o suicídio demográfico, pelo contrário. Impedir os Portugueses de emigrar, além de não ser legalmente e politicamente possível, não resolve o problema de fundo. O problema reside na falta de esperança, que mais não é do que o resultado de falta de ofertas de trabalho atractivas quando comparadas com o potencial de produtividade individual.

Não é expectável que a economia nos próximos 15 a 20 anos seja capaz de proporcionar remunerações que desmotivem o fenómeno da emigração. No entanto, a política pode tomar medidas claras para reter as pessoas. Baixando dramaticamente os escalões de IRS para rendimentos até 10.000 euros / mês para qualquer coisa como 10% a 15% de taxa fixa, e eliminando o IRS para rendimentos até 750 euros /mês, Portugal iria potenciar bastante a sua capacidade de atrair investimento estrangeiro e com isso reter parte da população activa. E muito provavelmente ainda iria atrair muito trabalhador do conhecimento a fixar residência em Portugal, desde que, evidentemente, tenha aeroportos por perto.
Mas acima de tudo Portugal passaria um sinal muito importante à sociedade: de que estudar e trabalhar bem é compensador. Este é, porventura, o melhor tónico de que precisamos em Portugal se queremos resolver o nosso drama demográfico.
Claro que isto teria de ser negociado com a Troika, o que talvez nem seja muito difícil, nomeadamente depois de assistirmos à tragédia Grega que segue dentro de pouco tempo. Mas antes da negociação com a Troika há que ter clarividência no pessoal governativo. E nisso o passado não me deixa nada optimista.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O legado da nossa miséria


Não deve haver mais do que trezentas pessoas interessadas na produção de Ricardo Rocha. O fado, inserido no contexto musical, já não está sequer imunizado contra as tentativas de exploração mercantilista. Mas a guitarra portuguesa continua a ser um palco pequeno. Tocar em público é escusado e inútil. As tascas tradicionais são a forma de resistência possível, mas até aí a composição para guitarra portuguesa está condicionada aos seus limites. É um instrumento sem futuro que nunca se vai conseguir libertar do fado. Ricardo Rocha conseguiu, ainda assim, levar a guitarra portuguesa a outro nível e criou um reportório solista para um instrumento que não tinha esse reportório. Antes dele, só o Carlos Paredes e o Pedro Caldeira Cabral. Agora não é possível ir mais longe, já não há nada para compor, a guitarra existe para acompanhar a música tradicional portuguesa, desempenha um papel fundamental nesse sentido, mas não vale a pensa pensar que o instrumento alguma vez vai ser mais do que aquilo que é.

No meio disto tudo, Ricardo Rocha começou a tocar piano aos dezasseis anos e tem algumas peças para piano nos seus cds. É o seu instrumento preferido, pelo som e pelas capacidades quase ilimitadas de composição, mas diz que começou a tocar tarde demais e que não é pianista. Assim, o que me interessa nesta história está na tensão entre estes dois instrumentos: a guitarra portuguesa, que é um instrumento limitadíssimo, fisicamente difícil de tocar, doloroso, agudo, e o piano, que é um prazer com as suas possibilidades quase infinitas de composição. E Ricardo Rocha podia ter sido pianista, mas pegou na guitarra do avô quando ainda mal sabia andar e nasceu assim preso aos limites do seu próprio passado. A condição trágica, afinal, de qualquer português. E tudo isto é triste, tudo isto é fado.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Para quando esta série televisiva

Aqui há uns anos após a leitura da biografia de António Champalimaud, uma autêntica vertigem de acção cheia de condimentos, ocorreu-me se não seria natural um grande realizador pegar na personagem e produzir uma série televisiva. Todos os ingredientes para um sucesso tremendo estão lá. Temos heranças, zangas eternas entre irmãos em tribunal, um capitão de indústrias que começa com uma pequena cimenteira na região de Leiria, uma personalidade completamente fora do baralho no Portugal de Salazar, um casamento com uma mulher também muito rica e irmã dos concorrentes no sector bancário e outros sectores, um exílio no México de onde geria os negócios à distância no início dos anos 70 (ao que parece com uma saída de Portugal num avião particular pilotado pelo próprio), expropriações de tudo o que tinha em Portugal e metrópoles após a revolução de 25 de Abril, reconstrucção da fortuna no Brasil, retorno a Portugal onde compra um banco com 50 milhões de euros, inicia umas operações financeiras que lhe permitem ter o controlo de mais um banco e uma seguradora, tem um filho à frente para proceder à fusão dos bancos mas acaba por fazer uma operação de troca desses mesmos bancos e seguradora por uma participação de cerca de 4,5% de um dos maiores bancos europeus sem o conhecimento do filho. De caminho morrem ainda dois filhos, um de acidente automóvel, e outro assassinado com contornos hediondos.

E curioso, após a morte, deixa em testamento algo insólito em Portugal. Uma doacção que penso avaliada em 500 milhões de euros para o lançamento de uma fundação ligada à medicina (seu pai fora médico). E diz que quer uma determinada pessoa à frente dessa fundação, pessoa essa que nunca viu e que segundo a própria só falou com o senhor duas vezes na vida através do telefone. E acaba esta instituição agora como sendo qualificada um dos melhores lugares para trabalhar no mundo a acreditar por notícias recentes.
E se dúvidas ainda há sobre a personagem, e para os mais sensíveis às questões de imagem, vejam lá as suas fotografias no Google e digam se não vestia lindamente de figura central numa série televisiva?

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Ridículo e miséria da servidão voluntária


Não é só o medo. Como La Boétie explica no Discurso da Servidão Voluntária, as populações assumem a coerção e tirania dos mais poderosos também por consentimento próprio. É de forma voluntária que a multidão dirige os seus esforços absurdos à prisão imposta pelo consumismo desenfreado, desfilando desvairadamente pelos corredores de supermercados e atropelando-se em busca do aproveitamento mercantilista de promoções engendradas por departamentos de marketing absolutamente mirabolantes. A malta tem que pôr comida na mesa, percebe-se, mas pelos vistos também precisa de carrinhos cheios de cosméticos, refrigerantes e iogurtes maricas com pedacinhos de fruta cortada. De facto, com o progresso do sistema capitalista, das necessidades primárias passou-se também à produção e ao consumo de um catálogo sem fim de superficialidades. Desse modo, a campanha do Pingo Doce apoia-se no desespero do país para levar a população a consumir a preço de saldo produtos supérfluos que de outro modo não consumiria tão facilmente, tirando ao mesmo tempo partido da situação de forma a criar uma onda de euforia e publicidade à sua volta. E sabe bem pagar tão pouco.

O consumidor não tem dignidade em condições destas e é a própria ânsia pelo consumo que dita a lei. Perante isto, a única postura inteligente é a da contemplação, com humor, do ridículo da ocorrência, reparando na forma gregária como as pessoas se voluntariam para a desordem e para a anarquia como se o mundo fosse acabar. Podia ser o cenário de um livro de Albert Cossery. E assim sendo é absurdo criticar o Pingo Doce, as leis do consumo ou o desvirtuamento do feriado. A violência é inócua, não nos resta outra alternativa senão o escárnio. E por isso temos que rir, sobretudo, mas também perceber que é triste ver esta gente comprar a felicidade num supermercado.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Os sinais continuam

Os juros implícitos no mercado secundário da dívida de Portugal têm baixado desde há duas semanas. Este é o melhor sinal de que no exterior Portugal começa a ser visto como um país que agora tem mais probabilidades de ultrapassar as dificuldades que enfrenta, que são, já agora, assegurar a sua solvabilidade e sobrevivência na zona Euro. Estamos claramente a seguir uma rota a caminho de excedentes ao invés de termos o até agora objectivo patético de défices aceitáveis!!!

Pouco se deu atenção ao facto do decréscimo dos juros, mas daqui a uns tempos este será invocado como o verdadeiro ponto de inflexão ao nível da percepção internacional. Isto porque a realidade já brindara os mais atentos do burgo com aumentos significativos de exportações e decréscimos significativos de importações. Agora falta cumprir com as medidas estruturais (lei das rendas, trabalho, tratar da justiça, etc) e na redução da despesa pública. Estas componentes demoram por natureza mais tempo e os seus resultados demoram a aparecer. Mas quando tudo vai na direcção certa os sinais resultantes do efeito combinado far-se-ão notar com mais intensidade.

Segundo notícias vindas a público a animosidade dos Gregos para com os Alemães acentua-se cada vez mais. Espero que os Portugueses não enveredem pelo mesmo caminho. Tratemo-los bem e lembremo-nos de os bem receber por cá. Se o fizermos teremos cedo ou tarde publicidade grátis por terras germânicas e colheremos o benefício da generosidade de quem nos quererá ajudar, por um mecanismo de oposição em relação aos Gregos, brindando-nos com a sua visita. Isto parece um fenómeno menor mas daqui a um ano a coisa será falada internacionalmente aos quatro ventos. E veremos então que o assunto é muito relevante.

sábado, 28 de abril de 2012


E Agora Vai Começar a Doer a Sério

A culpa é da bruxa, que dá pelo nome de anjo, diz a maioria: Angela Merkel. Por mim, acredito que devemos evitar a todo o transe, quer no exercício da vida privada, quer na da vida nacional, realizar transferências de culpas. Se nas cosmologias orientais se acredita que, na reencarnação das almas, o «karma» nos faz com que a vida mortal   que hoje temos é o resultado da vida que levamos na nossa encarnação anterior – na minha idéia acredito que não precisamos de entrar no plano metafísico para explicar que a vida que hoje temos é o resultado das asneiras que cometemos há uns anos.

A Srª Merkel terá os defeitos e conterá os perigos que o século XX inteiro nos mostrou que podem advir da Alemanha, mas nem ela nem o seu povo têm culpa do desgoverno endémico do povo português. Já ficou escrito noutro «blog» em que colaborei – mas fica a título de exemplo o Euro 2004, lançado no mandato do Engenheiro Guterres: a UEFA falava na necessidade de 8 estádios para realização da prova, mas admitia a possibilidade de fazer a prova somente em 6. O país, que era rico, resolveu construir 10 estádios. Na altura, até a Madeira e a Covilhã (sic) quiseram participar da festa, e edificar o seu estádio de 30.000 lugares. Se tomarmos em conta que esta última não alcança os 35.000 habitantes, já se fica com uma idéia mais precisa da megalomania do assunto!!!

Em Leiria, o suave e discreto Estádio Municipal, com Castelo em fundo, deu lugar a um monstro da autoria de Tomás Taveira. A ausência de escala do «bicho» e o profundo mau-gosto da sua concepção aterrorizam quem passa ao seu lado, em circulação pela Estrada Nacional nº 1. A brincadeira serviu para encenar somente 2 partidas da prova, na Fase de Grupos respectiva: um Croácia-França e um Suiça-Croácia. Creio que, até hoje, ainda não foi acabado na íntegra, achando-se por terminar um topo do Estádio, que leva o nome de Magalhães Pessoa.

8 anos depois, a realidade apresenta-nos com toda a crueza a factura: a Câmara de Leiria quer alienar o Estádio, que está sem uso. Há uns tempos atrás, até houve uma brilhante idéia de usar o recinto para diversos propósitos, entre os quais o aluguer para realização de casamentos! O clube local deixou de usar o Estádio, cujos custos não queria pagar, e passou a disputar os seus jogos no pequeno campo de desporto da Marinha Grande. Culpas têm-nas todos os agentes que montaram o disparate, desde a autarquia leiriense até ao governo da Nação, passando pela Federação Portuguesa de Futebol. Hoje, já são forçados a encarar a realidade de que se tivessem os cuidados da Srª Merkel, tinham previsto a tempo e desistido da asneira: mas são os políticos que temos.

Como o país, e o seu desporto profissional, andaram anos a viver acima das suas possibilidades, já começam a notar-se os contornos da crise que aí está a bater-lhes à porta: antevê-se a demolição do monstro de Taveira e a falência do clube da cidade, que não paga salários há 5 meses. Na mesma semana em que a equipa de Basquetebol CAB Madeira, apurada para a meia-final (sic) do campeonato nacional da modalidade desistiu da prova, porque não tem dinheiro para custear as deslocações ao Continente, dando passagem administrativa ao Futebol Clube do Porto à final respectiva.

Repete-se: estavam as coisas periclitantes ANTES da crise no desporto profissional – mas agora é que vai começar a doer a sério.

A Maldição de Narciso

Esta semana, os portugueses ouviram da boca de dois dos seus cidadãos mais conhecidos duas mentiras. O político Mário Soares, durante a rábula com o 25 de Abril, afirmou que «o protagonismo é coisa que não lhe interessa». Acrescentou (convencido de que todos nós ignoramos que a necessidade de protagonismo é uma doença incurável) que «protagonismo já o havia tido de sobra no passado» - como se esse néctar de que se alimentam os narcisos não fosse um alimento adictivo. Se não, como explicar a sua candidatura a Presidente da República em 2005, aos 80 anos, lançando a confusão no PS e comprometendo a sua amizade longeva com Manuel Alegre?! Foi castigado duramente no seu desejo de protagonismo pelo sufrágio popular, com 14% dos votos.

De vez em quando, os jornalistas em Portugal arriscam que Mário Soares é um dos poucos personagens consensuais no cenário político português, mas em pontuais inquéritos pessoais, pude verificar que não estou só em discordar deste vaticínio. Nunca consegui simpatizar com o veterano político, do qual miticamente Marcelo Caetano terá dito, enquanto seu professor, que nunca tinha conhecido alguém que falasse tanto e dissesse tão pouco. Acresce que, no que toca à sua vida privada, Soares sempre passou a imagem de um cidadão de hábitos burgueses, e não de um socialista marxista. A título de exemplo, lembremos que conspirou com um grupo de amigos, durante e após um almoço no luxuoso Restaurante Aviz, no Chiado, sem dúvida acompanhado de bons vinhos, melhores cognacs e cubanos charutos (é o que dizem as crónicas dos jornais da época), o princípio do fim dos governos de Cavaco Silva, porque o cenário político estava muito estagnado para os seus interesses, e aqueles dos seus apaniguados. Emprego, com horário das 9 às 5, não consta que tenha tido algum…

O outro famoso é o sadino José Mourinho, que nos procurou convencer que não estava triste por si, mas pelos seus jogadores, quando se viu superado numa eliminatória europeia, por um clubes oriundo do país da Srª Merkel, que fez as coisas do modo que sempre consagrou a Alemanha: com eficácia, energia, coragem e até talento. Mourinho tem uma legião de adeptos, tanto em Portugal como no estrangeiro, que nele admiram essencialmente uma coisa: os resultados. E no mundo pós-moderno em que hoje vivemos, meios e fins confundem-se constantemente, e ética é uma palavra de origem greco-romana que já só faz sentido nos livros da História: ou se apresentam resultados – e nesse caso é-se bom – ou não se apresentam – e é-se mau. Sob esta perspectiva, que não subscrevo, o valor moral de uma pessoa poderia aferir-se a partir do valor do seu salário. E a realidade mostra que, obviamente, a Bondade (no sentido ético-moral) de cada pessoa não se afere de acordo com os seus resultados, caso contrário a Madre Teresa de Calcutá teria morrido com a maior fortuna do Mundo.

Mourinho discordará: de resto, o seu desempenho o demonstra 24 horas por dia. Há quem defenda que o seu comportamento público constitui uma representação, e que ele não é realmente tão mau como parece – mas isso não se me afigura uma desculpa válida, porque um Homem Bom não deve representar aquilo que não é. E já agora, representar por representar, que tente que o mau passe por Bom. Que se considere que o Bom tente passar por pior do que de facto é, e que esta possa ser considerada uma estratégia válida e meritória por muitos, só pode mostrar que vivemos numa sociedade confundida nos seus valores.

A verdade é que para Mourinho, tal como para Soares, o protagonismo é pão-para-a-boca, nem que se obtenha pelos modos menos escrupulosos. Para o treinador, os jogadores são um mero veículo para o alcançar. Soares sempre o fez, e continuará a fazê-lo, nem que isso lhe custe a perda de amigos de juventude – como o já referido Alegre, ou o já falecido Salgado Zenha.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A rir se exportam os produtos

Somos particularmente versados na nobre arte da maledicência. A raiz deste nosso apurado engenho português está nas cantigas de escárnio e maldizer e vive sobretudo da feliz aliança entre o riso e a crítica. O lema é rir muito e sempre e tanto e sobretudo de nós mesmos. A propósito disto, Miguel Esteves Cardoso fala em «Portugalite», uma espécie de inflamação nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. O humor permanece inabalável, mas agora, por influência da crise, começam a aparecer alguns dissidentes que fazem o contrário e exaltam o país por tudo e por nada. Existem dois tipos de correntes de exaltação nacional: ou se incentiva a exportação dos nossos magníficos produtos ou se incentiva o seu consumo em detrimento dos produtos dos outros.

Agora que a malta percebeu que o mercado dos dez milhões não tem mais espaço para crescer, as exportações surgem no vocabulário dos políticos revestidas de uma certa áurea que lhes confere o título de solução mágica para o problema do défice. Eu gosto de lhe chamar o desafio do pastel de nata, mas a coisa não se esgota aí e é preciso exportar tudo, desde a cortiça até à imagem do galo de Barcelos. Depois, no outro polo, está o incentivo ao consumo do que é português, mas só do que é verdadeiramente português porque os que têm praças noutros países são traidores e merecem arder no último e mais impiedoso círculo do inferno.

Num cenário ideal, os dez milhões estariam a produzir para si e para o resto do mundo apenas produtos de origem portuguesa com a percentagem máxima de incorporação do valor nacional. Eu tento ser optimista e acredito que o país tem pernas para andar, mas sou português, gosto de rir e diverte-me a azáfama dos meus compatriotas. É vê-los correr atrás da inovação e do empreendedorismo, doidos com a retórica do pensar fora da caixa, cada um envolvido no seu projecto de exportação e na aposta no produto nacional. É um encanto. Nunca soube tão bem rir dos portugueses. E quem se lixa são os outros: vão ter que importar os nossos produtos quer queiram quer não.

sábado, 14 de abril de 2012

Tanto tempo

Nos confins de Espanha tive a oportunidade de ouvir dois taxistas. Um, da Guiné Conacri, disse-me que dos cerca de 30 compatriotas somente 10 ainda estão em Espanha. Uns foram para a Alemanha porque é onde existe trabalho, outros foram para outras regiões de Espanha mais dinâmicas. Ele, agora taxista, saíra da actividade de construção que praticamente parou.

O outro tem uma mulher que trabalha numa empresa que produzia somente para o mercado de construção de Espanha. Como o mercado de construção parou, começou à procura de novos mercados e agora a empresa produz essencialmente para a Ucrânia e China (não só construção como também para outros sectores). E segundo me disse já tem uma dimensão superior há que tinha quando servia somente o mercado interno.
As pessoas e os empresários apontam baterias para onde pode vir retorno. Claro que é mais fácil trabalhar e vender dentro do burgo. Mas se o sinal recebido é que isso deixou de dar, então é da mais elementar lógica que se procure vender além-fronteiras. E só isso vale mais do que centenas de medidas e esquemas de apoio à exportação. Os mercados para onde os empresários e as pessoas do sector privado despendem o seu tempo e as suas energias é que marcam a direcção de uma economia. Todos agora sabem que é maioritariamente nos mercados externos que se consegue manter ou ampliar os negócios.
Extraordinário como Portugal só entendeu isso após a intervenção da Troika decorrente do evidente suicídio orçamental iniciado em 1986. Caramba, demorou tanto tempo a perceber que se andava mal. Nem a crise financeira internacional de 2007 a 2010 serviu para abrir os nossos olhos.